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O Iêmen dividido pela "guerra ao terror"

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O governo procura conciliar aliança com os EUA e compromiossos com a forte oposição islâmica. Mas Washington pressiona, e as novas restrições à liberdade podem desencadear revolta popular

Laurent Bonnefoy - (19/10/2006)

Em uma aldeia distante do sul de Iêmem, um carro ostenta, orgulhosamente, sobre seu pára-brisa, o retrato do presidente Ali Abdallah Saleh – engajado com os ideais dos EUA de "guerra ao terror" – e outro, de Osama Bin Laden. Nessa dupla inscrição, não é necessário somente ver uma marca de duplicidade, que muitos analistas estrangeiros relevam com irritação [1] mas, igualmente, a capacidade do governo de não romper com uma oposição islâmica tida como legítima para a sociedade e manter, assim, uma certa estabilidade. Com um sucesso evidente: o país não sofreu atentados de grande amplitude desde 2001 [2].

Além da violência terrorista, os iemenitas são expostos a questões econômicas e sociais, o esgotamento progressivo dos reduzidos recursos do petróleo, o desgaste de poder e os efeitos perversos das pressões geradas pela obsessão por segurança da agenda internacional.

Preocupado em não repetir os erros que, durante a Guerra do Golfo (1990-1991), o afastou das nações ocidentais e de uma parte dos Estados árabes, o governo, após o 11 de setembro, aderiu à "luta contra o terrorismo". Em outubro de 2000, o atentado contra o navio de guerra norte-americano USS Cole, em Aden, e os entraves postos à investigação dirigida pelo FBI puseram o governo de Sanaa em uma situação delicada. Portanto, será preciso "fazer malabarismos": de um lado, com as expectativas de uma população e de uma elite política que não são insensíveis à retórica anti-imperialista da Al Qaeda; e de outro, com as exigências de Washington e de seus aliados (criminalizam toda a oposição de referências religiosas, mesmo que essa rejeite a violência).

O governo resolve, então, assegurar um serviço mínimo: um escritório da FBI é aberto em Sanaa, soldados norte-americanos formam os militares iemenitas. E, depois do assassinato extrajudicial de um suposto líder da Al Qaeda pela US Army, em novembro de 2002, os protestos oficiais são diminutos e tímidos. Resultado: da posição de alvo potencial dos bombardeios norte-americanos, o Iêmem torna-se um aliado que os EUA precisarão poupar. Esse novo status se materializou, notadamente, por meio do aumento de ajuda dada pelos países ocidentais e pelo Banco Mundial; pelo lançamento, feito pela agência americana USAID, de diferentes projetos de desenvolvimento em certas regiões, tais como Jawf, Marib ou Shabwa - protegendo-as, assim, de grupos terroristas. E, depois, por meio do convite feito por George W. Bush ao presidente Saleh, para nova visita aos EUA.

Uma intrincada série de compromissos...

Apesar de tudo, o governo tenta preservar o equilíbrio de sua fórmula política embasada na integração entre as estruturas estatais e executivas, os diferentes componentes da sociedade, tribos, atores religiosos e partidos de oposição. Assim, recusa-se a ordenar o fechamento da universidade privada al-Imân, acusada de formar combatentes para a djihad, negando-se a satisfazer aos requerimentos das autoridades norte-americanas que visam congelar os feitos do fundador da universidade Abd al-Majid al Zindani, personagem histórico do partido de oposição islâmica Al-Islah. Decerto, o governo admite a necessidade de exercer um estrito controle dos estudantes estrangeiros que freqüentam os institutos islâmicos (no fim de 2001, mais de 600 foram expulsos).

Os diferentes partidos de oposição e a imprensa, ainda que muitas vezes assediados e perseguidos, gozam de uma liberdade de expressão desconhecida nos países da região. Por meio de um discurso nacionalista e anti-sionista, o presidente procura manter uma ilusão de supremacia. A guerra do Iraque, em 2003, deu a ele a oportunidade de criticar violentamente a política norte-americana para o Oriente Médio, e de se fazer o proclamador da luta contra as reformas impostas pela política externa. Em 2002, o Parlamento, controlado pelo Congresso Popular Geral (CPG), partido no poder, vota uma resolução convocando os países árabes a cessar toda cooperação com os EUA (enquanto estes mantiverem sua política favorável a Israel).

Paralelamente, o governo elabora uma estratégia de comunicação, permitindo a conciliação de certas reivindicações antagônicas. Ele mediatizou com sucesso o trabalho de diálogo dirigido pelo juiz Hamud al-Hitar com os grupos violentos que, graças a ele, seriam persuadidos de características contrárias ao islã da luta armada, e renunciariam ao terrorismo. Segundo o discurso oficial, é por meio dessa comissão de diálogo, não de repressão, que a sociedade conseguiria fazer algo para escapar dos atentados. É também graças a certos acordos ou compromissos, às vezes elaborados no alto do Estado (como aquele produzido durante o retorno dos combatentes do Afeganistão no início dos anos 90), que os djihadistas são reintegrados nas estruturas econômicas ou mesmo militares, e abandonam a violência contra o Estado e ocidentais.

... que Washington não está disposta a aceitar

Essa estratégia de compromisso, todavia, não satisfaz os EUA. Rapidamente as tensões aparecem e o poder iemenita se vê acusado de traição. No início de 2004, a Arábia Saudita ameaça construir uma barreira ao longo de sua fronteira com o Iêmen, a fim de impedir infiltrações. As revelações sobre as implicações, mais que prováveis, de altos responsáveis do aparelho de segurança nos atentados contra a USS Cole, a presença de numerosos iemenitas nas filas de resistência do Iraque, depois dos rumores que cercam a evasão rocambolesca, em fevereiro de 2006, de 23 indivíduos acusados de terrorismo, colocaram o país em uma difícil situação. O presidente Bush envia ao seu correspondente iemenita, uma carta na qual coloca em dúvida a sinceridade da implicação iemenita no combate ao terror.

Esses acontecimentos revelam, sobretudo, a fragilidade de um Estado que se vê forçado a compor e harmonizar grupos sociais extremamente diferentes. O emprego fictício de funcionários, em particular, no exército, é utilizado desde o advento da República, em 1962, como modo privilegiado de redistribuição de riquezas, notadamente, nas zonas tribais do norte e do centro do país, onde a infraestrutura e os serviços públicos são ausentes. Em todos os níveis do processo de decisão, os indivíduos ou grupos são capazes de alterar o resultado esperado e diminuir a eficácia das políticas públicas.

Nessa conjuntura, a tutela estatal sobre as instituições religiosas privadas, anunciada em 2002, depois em 2005, obteve efeitos reduzidos (do mesmo modo que o projeto de lei que visava melhorar o controle sobre a circulação de armas no país) [3]. A complexidade do Estado, a multiplicidade de seus interesses e a integração de diferentes componentes na configuração política permitiram à sociedade reduzir a violência política, e constituem o trunfo de um certo pluralismo.

A violência reforçada pela luta antiterrorista

A bela mecânica do compromisso tem, às vezes, a tendência de emperrar. Em 1990, a unificação dos dois Iêmens – o norte, fundado na ideologia nacionalista, e o sul, no "socialismo científico" – abriu espaço para uma difícil partilha do poder e culminou, na primavera de 1994, em uma breve guerra opondo os aparelhos militares dos dois antigos Estados.

No contexto pós-11 de setembro, em face às exigências sempre muito urgentes vindas de Washington, o governo procura oferecer aos seus "aliados", provas de seu investimento na guerra antiterrorista. De fato, a foco sobre as questões de segurança favorece um endurecimento do regime, que se personifica nos entraves à liberdade da imprensa, nos aprisionamentos arbitrários, nos processos "espetáculo". E se materializa de maneira caricatural, a partir de junho de 2004, na guerra dirigida, no norte do país, contra a "Juventude Crente" (shabab al-mu’min) de Hussein Badr Eddine Al-Houthi, antigo deputado.

A fim de preservar ao máximo o equilíbrio republicano estabelecido desde a revolução de 1962 e a deposição do emir Mohammed Al-Badr, é contra os "perdedores da história" (minoria zaydita) [4]; desenvolvida com o partido Zaydiyya), e não contra os islâmicos procedentes da tendência dos Irmãos Muçulmanos, que o governo dirige a repressão. Como em 1994, contra as antigas elites socialistas do ex-Iêmem do sul, o governo se opôs, desde 2004, a um grupo pouco legítimo na medida em que se assemelha ao "antigo regime" do imanato zaidita.

Aliás, graças a uma propaganda eficaz que fez da Juventude Crente um grupo terrorista xiita próximo ao Hezbollah libanês e financiado pelo Irã, o governo chegou a legitimar, no plano internacional, sua intervenção militar contra os "partidários d’al-Huthi", se inscrevendo, assim, no quadro de luta contra o terror. Contudo, a Juventude Crente não partilha grandes coisas com a Al-Qaeda; se não tem uma retórica anti-sionista e anti-norte-americana, não representa uma ameaça para o governo do presidente Saleh, nem para os EUA.

Tomando como pretexto um choque entre membros da Juventude Crente e militares, o governo lança, em 18 de junho de 2004, uma grande ofensiva na região de Saada (próxima à fronteira saudita) contra um grupo que ele próprio já havia sustentado, a fim de se contrapor aos salafistas instalados nessa zona. O exército subestima a resistência à qual é confrontado nessa região (afastada por muito tempo das políticas de desenvolvimento impulsionada pelo Estado). Após o fracasso de diferentes tentativas de conciliação tribal-religiosa, a violência se intensifica e as aldeias são bombardeadas.

País dividido por uma disputa externa

A extrema dureza dos combates (interrompidos em setembro de 2004, com a morte de Al-Huthi, e retomados em março de 2005) ceifou a vida de milhares de pessoas – civis, militares e rebeldes [5]. Paralelamente aos enfrentamentos armados, o governo dirigiu uma campanha de repressão contra e intelectuais zaiditas, proibiu numerosas obras e ordenou o fechamento temporário de jornais.

Essa guerra não é, certamente, estranha às rivalidades e lutas no tabuleiro político iemenita. Mas essa violência é, antes de tudo, o resultado de uma focalização excessiva sobre as questões de segurança encorajadas pela luta antiterrorismo, impostas pela agenda internacional. As pressões exercidas pelos ocidentais levaram Sanaa a reagir contra toda ameaça aos interesses ocidentais (ações que, em sua grande maioria, não estão ligadas a reivindicações políticas, atentados, discursos antiimperialistas etc). Essa escolha desencadeia uma espiral de repressão, que afeta a segurança dos iemenitas, coloca em perigo a estabilidade do sistema político e acentua sua característica autoritária.

O caso Al-Huthi, expressa igualmente o desgaste do poder do presidente Saleh. Todavia, a censura da imprensa, o culto da personalidade e da legitimação progressiva do poder hereditário, no qual Ahmad Ali Saleh, militar das forças especiais, sucedeu seu pai, vêm acompanhadas da falta de credibilidade da oposição. O sucesso das tentativas de reunião de seus diferentes partidos, dos Irmãos Muçulmanos aos Socialistas, permanece largamente dependente da boa vontade do governo. De fato, por meio dessa estratégia de integração e de compromisso, ele conseguiu neutralizar grande parte da oposição, que pena para representar completamente seu papel.

O CPG, partido governista, pôde tecer, com o passar dos anos, sobre uma base não tanto ideológica, e sim clientelista, uma importante rede de apoio. A declaração do presidente Saleh, confirmada em julho de 2005, de que ele não seria candidato a sua própria sucessão, e o suspense prolongado em torno de sua decisão final, não permitiram o surgimento de alguma alternativa séria. Assim, a oposição, mesmo reunida, não apresentou nenhum candidato legítimo e crível (face a Saleh que, provavelmente, será eleito em 2013).

Oposição neutralizada e risco de motins

Confrontados às dificuldades econômicas, sociais e sanitárias, aos desempregos, à inflação e a uma política externa que não dominam mais, os iemenitas estão resignados e conformados com a impotência de seu governo. Como ilustram os motins (julho de 2005) consecutivos à elevação brutal dos preços de produtos petrolíferos, que fizeram cerca de 50 mortos, a saturação poderia dar espaço à revolta. As potências ocidentais, inclusive as européias, conscientes da ausência de alternativa crível e do fato de que seus apelos arriscam favorecer a oposição islâmica de Al-Islah, próxima dos Irmãos Muçulmanos, desenvolvem uma atitude ambígua. Favorecendo um endurecimento do regime, elas o criticam e financiam programas que visam permitir a alternância democrática [6]. A preocupação de lutar contra a grande corrupção, largamente ligada ao aumento da ajuda pós-11 de setembro e aos contratos de armamentos, levou o Banco Mundial, no fim de 2005, a reduzir um terço de sua ajuda.

Apesar da descoberta de jazidas de gás natural no leste do país, o esgotamento progressivo dos recursos petrolíferos levou o Estado a uma situação de dependência. Diferentes projetos de arrendatários do fundo internacional visam favorecer a emergência de uma "sociedade civil" liberal, permitir a organização de eleições democráticas ou lançar candidatos locais no quadro da ambiciosa política descentralizadora, constituída em 2000. Às vezes, essas iniciativas eficazes em nível local não afetam a visão de segurança da política ocidental com respeito ao Iêmem.

Ao contrário das análises que prometem conflitos incessantes nesse país, pode-se constatar que a sociedade e o governo buscam manter um certo equilíbrio. A obsessão pela segurança, imposta pela agenda internacional, constitui a principal fonte de instabilidade. A prioridade dada à segurança ocidental, em relação à do próprio Iêmen, vai se revelar, a longo prazo, um cálculo errado. Resta saber se o governo iemenita e as potências ocidentais compreendem esse paradoxo...

Tradução: Carolina Gutierrez
cgciutat@yahoo.com.br



[1] Ver o artigo de Jane Novak, "Al-Qaeda Escape in Yémen: Facts, Rumors and Theories", 16 de fevereiro 2006.

[2] Em novembro de 2002, um atentado contra o petroleiro francês Limburg deixou uma pessoa morta no porto de Mukalla; um mês depois, três missionários batistas americanos foram assassinados na aldeia de Jibla. O governo iemenita declarou que iria impedir os projetos que fossem contra os interesses ocidentais. Em outro lugar processos são organizados a fim de julgar os indivíduos acusados de pertencer à Al Qaeda. A Anistia Internacional afirma que, no fim de 2005, mais de 200 pessoas são mantidas em detenção esperando julgamento (diante desse quadro de guerra ao terror).

[3] Dizer que 60 milhões de armas circulavam pelo país, é certamente exagero. Um estudo dirigido pela ONG suíça Small Arms Survey, em 2002, estima entre 6 e 9 milhões as armas circulantes; o que é extremamente considerável para uma população de, aproximadamente, 22 milhões de habitantes.

[4] O zaydisme é uma vertente do xiismo nascido em 740 ao redor de Zayd bin ‘Alî al-Husayn. Essa vertente é majoritária em algumas regiões altas e é embasada na doutrina de imamat, que reina sobre todo, ou grande parte do território de Iêmem.

[5] Em 14 de agosto de 2005, em um programa de televisão, o primeiro ministro Abu Bakr Ba Jammâl reconheceu que os enfrentamentos resultaram na morte de 525 membros das forças armadas, mas se recusou a fornecer os números de mortos de rebeldes e civis. Para analisar os efeitos dessa guerra: François Burgat "Le Yémen après le 11 septembre: entre le meilleur de la construction de l’Etat et le pire du rétrécissement du champ politique", Critique internationale, agosto de 2006.

[6] Ver o relatório de 2006 do departamento do Estado norte-americano sobre os direitos do homem em Iêmem.


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