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Golpe de Estado e queda de Thaksin Shinawastra, o primeiro-ministro bilionário revelam um país ainda controlado pelo rei e pelos militares

André Boucaud, Louis Boucaud - (10/11/2006)

Tendo se tornado bilionário e construído um império das telecomunicações, Thaksin Shinawatra sonhava com poder político. De família sino-tailandesa, começou sua carreira como oficial de polícia antes de se lançar nos negócios. Graças a uma rede de amigos influentes e a subsídios governamentais, criou sua própria empresa, a Shin Corp, em 1983, com 20 milhões de bath (800 mil dólares). Colocou sua sociedade na bolsa no começo dos anos 1990. Vendeu as cotas da família em 2006, por 1,9 bilhões de dólares, com lucro colossal de 350 milhões de dólares, sobre o qual ele não pagou nenhum imposto.

Depois de ter ocupado alguns cargos ministeriais, dentre os quais o de ministro das telecomunicações – graças ao qual conseguiu monopolizar o mercado da telefonia móvel em favor de sua empresa, lança seu próprio partido, o Thai Rak Thai – "Os tailandeses amam os tailandeses" (TRT) – e ganha as eleições de 2001 com grande vantagem. Sua vitória foi objeto de controvérsias. Pertencendo principalmente aos meios intelectuais e às classes médias de Bangkok, os opositores de Thaksin desaprovam seu clientelismo em relação às províncias do Norte e do Noroeste, sem falar nos esquemas de compra de votos.

Nessa época, a situação entre a Tailândia e a Birmânia estava tensa por conta do tráfico de anfetaminas vindas da Birmânia, que inundava o reino e atingia todas as classes sociais. Sob o governo do democrata Chuan Leekpai, o exército tailandês estava engajado nesse combate desde 1998 e os generais não hesitavam em questionar o papel de seus homólogos birmaneses no tráfico. Haviam acontecido vários incidentes de fronteira, aos quais o exército tailandês respondeu com firmeza.

Tensão com militares, o primeiro desgaste

A partir de dezembro de 2000, antes das eleições, a junta militar da Birmânia torna pública a sua preferência por Thaksin. Depois de ter se tornado primeiro-ministro, apesar da oposição de seus generais, ele muda de política. Afasta do cargo o general Wattanachai Chaimuanwong, comandante do 3º exército e encarregado da fronteira Norte, particularmente fiel a uma postura firme em relação aos traficantes Was da United Wa State Army (UWSA), que agiam com o aval do exército birmanês. No ano seguinte, o general Surayuth Chulanont, que ocupava o cargo de Comandante Supremo, teve a mesma sorte. Thaksin nomeou em seus lugares generais de seu clã, portanto membros de sua família.

Todo o período compreendido entre 2001 e 2002 foi marcado por uma série de confrontos entre Thaksin e a alta hierarquia militar, que tem uma relação mais ou menos direta com a família real. A rainha Sirikit apóia discretamente o general Wattanachai, enquanto o general Prem Tinsulanonda, presidente do conselho privado do rei Bhumibol, usa sua influência para aplacar as mudanças telecomandadas por Thaksin – sendo essas prerrogativas reservadas exclusivamente à alta hierarquia militar e ao ministro da Defesa. Este acontecimentos marcaram profundamente a elite militar: os generais substituídos são considerados íntegros, profissionais e competentes.

As ordens de moderação para o exército tailandês dadas por Thaksin para fazer frente à agressividade do exército birmanês são consideradas por muitos oficiais como "um mascaramento frente ao exército e um atentado à sua dignidade." Uma empresa de construção pertencente ao general Baharn Silpa-Arpa (ex-primeiro ministro ligado a Thaksin) ganhou permissão para fazer a extensão do aeroporto de Mandalay. Em 2003, uma filial do conglomerado Shin Corp, controlada por Thaksin, obteve uma concessão de telefonia móvel e alugou um satélite da junta da Birmânia — tudo financiado por um empréstimo de quatro bilhões de baths feito junto ao EximBank, a pedido urgente de Thaksin.

Crescimento econômico, programas sociais e denúncias

Apesar das críticas que se acumulam, a gestão do primeiro ministro traz um crescimento real da economia, à qual soma-se sua política de programas sociais, em particular para aos camponeses pobres do Norte e do Nordeste. Cria-se de um sistema médico para todos os tailandeses sem cobertura social, por uma taxa única equivalente a R$ 2 por consulta. Liberam-se fundos de desenvolvimento para as comunidades rurais. Em 2005, seu partido tem um retorno triunfante (em parte graças à compra de votos nas zonas rurais). A oposição preocupa-se com a concentração de poderes nas mãos de um só homem, enquanto novas leis tentam limitar a liberdade de imprensa.

As denúncias de atentado aos direitos humanos durante a campanha contra as drogas conduzida em 2003 (ao longo da qual aconteceram 1200 execuções extra-judiciais) recebem apoio oficial do conselho privado do rei. A violência com a qual Thaksin combate a rebelião muçulmana no sul, multiplicando erros – como a declaração de estado de urgência nas três províncias da região – provoca cada vez mais a desconfiança da população. Em janeiro de 2006 os acontecimentos aceleram-se. Torna-se pública a venda de todas as ações da holding Shin Corp, pertencentes à sua família, para uma sociedade majoritariamente controlada pelo Estado singapuriano, violando a legislação que limita a participação de investidores estrangeiros em setores estratégicos. A mídia e a oposição aproveitam-se, denunciando também o fato de que Thaksin vai beneficiar-se de isenção fiscal sobre o enorme lucro da venda, graças a hábeis transferências off shore, via Ilhas Virgens.

O primeiro-ministro tenta então sair da crise decretando novas eleições em 2 de abril, que foram boicotadas pela oposição. O rei julga que uma eleição na qual participa apenas um partido não é democrática. Em 8 de maio, a Corte Constitucional invalida a votação. Garantindo para si funções de primeiro-ministro interino, Thaksin promete novas eleições para outubro. Mas as manifestações se multiplicam em Bangkok. As críticas vêm de todo lado. O antigo general Wattanachai acusa-o de ter-se rendido principalmente à Birmânia, na busca de contratos de negócios ligados à transferência da capital, enquanto os dirigentes da oposição contestam seu direito de representar a Tailândia enquanto primeiro-ministro interino. Personalidades importantes afastam-se do TRT e um grupo de 80 senadores pede para que ele deixe a política.

No final, todos contra o primeiro-ministro

A imprensa denuncia a crescente corrupção no clã Thaksin, assim como o contrato de fornecimento de material para os bombeiros de Bancoc, cujo montante, 167 milhões de dólares, é visto como superfaturado [1]. Em 18 de agosto, num artigo publicado pelo jornal de língua inglesa The Nation, um senador declara: "Há cinco anos a popularidade de Thaksin era tão grande quanto uma auto-estrada de oito pistas, mas agora ela se restringiu tanto que se tornou uma rua sem saída." As críticas mais duras vêm do antigo primeiro-ministro, o general Prem Tinsulanonda, que é também o presidente do conselho privado da casa real. Testemunhando frente à Real Academia Militar de Chulachomklao, depois diante dos membros da marinha e da aeronáutica, em 1º de setembro, ele denuncia "os maus indivíduos [que tentam] tomar o controle da nação, com a finalidade de roubar as riquezas para si mesmos e seus comparsas." E ainda: "Os soldados devem seguir apenas os conselhos do Rei. O Rei sugere que as boas pessoas impeçam os maus elementos de tomar o poder para criar problemas."

O rei Bhumibol continua sendo indiscutivelmente o pilar do país, e o fervor do povo com relação a ele até agora é inabalável. Dois milhões de pessoas que vieram saudá-lo na grande praça do Palácio Real, no dia do aniversário de sessenta anos de sua ascensão ao trono. Em 19 de setembro, o general Sonthi Boonyaratglin, chefe-comandante do exército, foi recebido em audiência pelo Casal Real, na presença do general Prem. Algumas horas mais tarde, os pontos estratégicos da capital eram controlados pelo exército e pela polícia. Nenhum tiro foi dado durante o putsch. O general Sonthi anunciou a dissolução do governo e proclamou a lei marcial em todo o país, antes de avisar a mídia.

Em 1º de outubro, o general aposentado Surayud Chulanont foi nomeado primeiro-ministro. Enquanto comandante-chefe do exército, ele havia preconizado uma redução do papel deste nos assuntos políticos! Deverá dirigir um governo interino e supervisar um processo de reformas previsto para terminar logo após o retorno da democracia, depois das eleições... talvez, no final de 2007.

Tradução: Patrícia Andrade
pat.patricia@voila.fr



[1] Isso se explica, aliás, por uma derrota humilhante do partido de Thaksin nas eleições locais de Bancoc: o TRT obteve apenas 18 cadeiras, contra as 35 do Partido Democrata.


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