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El Salvador respira dólares

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Cerca de dois milhões de salvadorenhos migraram, especialmente para os EUA. As remessas recebidas de parentes no exterior chegam a representar 30% da renda, em certas regiões. Nelas, faltam braços para a lavoura: os salários não competem com o dinheiro que vem de fora...

Raphaëlle Bail - (21/12/2006)

El Salvador é um caso exemplar, um ponto de observação privilegiado para se ver os efeitos da emigração maciça a partir do país de origem. Não há nada de surpreendente em vista da amplitude do fenômeno. Segundo as estimativas, 25% a 34% dos salvadorenhos vivem no exterior, ou seja, entre 1,7 a 2,5 milhões de pessoas – a grande maioria nos Estados Unidos. A diáspora salvadorenha, muito organizada, beneficia-se do apoio de um “vice-ministério dos salvadorenhos no exterior” dedicado à defesa de seus interesses. Nos jornais diários, seções inteiras lhes são dedicadas, em particular as páginas do “Departamento 15” de La Prensa Gráfica, que se refere aos Estados Unidos como sendo o décimo quinto estado de El Salvador...

A diáspora salvadorenha mostra-se generosa. Segundo o Banco Central, as remessas de dinheiro (remesas) atingiram 2,3 bilhões de dólares em 2003, 2,5 bilhões em 2004 e quase 3,0 bilhões de dólares em 2005. O montante equivale a 15% do PIB, ou seja, muito mais do que o orçamento da educação e da saúde somados... Para as famílias, as remessas são um complemento de renda não desprezível. O Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento (PNUD) calcula que entre 20% e 25% da população se beneficia de uma renda de 400 dólares ao ano por pessoa. Nas regiões onde a emigração é intensa (regiões fronteiriças com Honduras), essas remessas contribuem com 30% da renda.

Um dos reversos desta medalha no país foi o aparecimento e o desenvolvimento de bandos de jovens delinqüentes violentos – as maras.

Marginalidade e gangues: o preço cruel

Nos Estados Unidos, em um contexto social muito difícil, numerosos jovens salvadorenhos uniram-se às gangues que florescem nos guetos. Presos, condenados e encarcerados, eles são em seguida expulsos para seu país de origem onde passam a integrar os bandos locais e trazem consigo sua perícia em matéria de armas e violência. Assim, estabelecem redes, que vão de El Salvador à Honduras e Guatemala, e que terceirizam contratações para as estruturas do crime organizado.

Por outro lado, o peso de 2,5 milhões de compatriotas vivendo nos Estados Unidos, que endurecem sua política migratória, influencia a política exterior de El Salvador. Para preservar a fonte de remessas, pilar da economia nacional, nem se pensa em contrariar o Tio Sam. El Salvador alinha-se com Washington em todas as instâncias internacionais e permanece o único país da América Latina a manter tropas no Iraque.

Por fim e não o menor dos paradoxos... Na província de La Unión, a emigração criou uma verdadeira oportunidade para a mão de obra... estrangeira. Em virtude dos salários nas plantações e na construção civil não competirem com as remesas, os trabalhadores salvadorenhos desprezam estes serviços. Isto faz com que surjam ônibus inteiros vindos das províncias miseráveis dos países vizinhos. Na maioria das vezes sem "carteira assinada”. Carpinteiros, vendedores ambulantes, empregados domésticos e peões (peones), são os trabalhos típicos desses imigrantes hondurenhos e nicaragüenses atraídos também pela dolarização da economia salvadorenha (em 2001). Doravante, El Salvador rivaliza com a Costa Rica ao acolher os migrantes.

Tradução: Patrick Arnault
patrick.arnault@bol.com.br




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