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PODERES IMAGINÁRIOS

A "conspiração" das Torres Gêmeas

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Há um contrabando ideológico notável nas teorias que responsabilizam a CIA pelos atentados de 11 de Setembro. Aceitá-las seria atribuir aos EUA poder e capacidade de articulação muito superiores às demonstradas por eles na vida real

Alexander Cockburn - (21/12/2006)

Onde se encontrava a esquerda americana durante a campanha que, em 7 de novembro, acabou com a vitória dos democratas nas duas câmaras do Congresso? Estava na rua para mobilizar contra a guerra do Iraque? Não, o movimento anti-guerra é inerte há meses. Numa das raras manifestações pacifistas organizadas na minha cidade – Eureka, na Califórnia – três dos cinco oradores não evocaram o conflito em curso. Preferiram chatear o público – e reduzir consideravelmente seu tamanho – com argumentações intermináveis sobre os atentados de 11 de setembro de 2001. Seu objetivo? Provar que se tratava de uma conspiração interna fomentada por George W. Bush e Richard Cheney ou (variação do mesmo tema) por poderosos obscuros, cujos inquilinos da Casa Branca eram apenas meninos de recados.

Cinco anos após os atentados, a teoria de conspiração sobre o 11 de setembro penetrou na esquerda americana. Atinge também a direita "populista" ou "liberal", o que não tem nada de surpreendente dado que essas duas correntes de pensamento desconfiam instintivamente do Estado; procurando freqüentemente desalojar o conspirador melhor ajustado à sua animosidade do momento, seja o fisco, a Agência Federal de Gestão de Emergências (Federal Emergency Management Agency, FEMA), as Nações Unidas [1] ou os judeus.

Nesses dias, raros são os militantes de esquerda que aprendem economia política lendo Karl Marx. Tal vazio teórico e estratégico beneficiou as "teorias da conspiração" que vêem nos prejuízos da classe dirigente não a crise de acumulação do capital, a busca de uma taxa de lucro mais elevada ou disputas interimperialistas, mas operações secretas tramadas em lugares como Bohemian Grove [2], Bilderberg, Davos etc. Sem esquecer as instituições e agências do mal, encabeçadas pela CIA. A "conspiração" do 11 de setembro empurrou todos essas bobagens ao seu limite.

Tropeça-se sobre o absurdo central dessa tese já no primeiro parágrafo do livro de um dos seus grandes pais, David Ray Griffin. No Novo Pearl Harbour [3] ele escreve: "O melhor desmentido da versão oficial está no desenrolar dos acontecimentos do 11 de setembro (...) Considerando os procedimentos habituais no caso do desvio do avião (...) nenhum dos aparelhos poderia atingir o seu alvo, menos ainda os três ao mesmo tempo".

Fé absoluta na eficácia norte-americana

A palavra-chave é "dever". Um dos traços que caracterizam os adeptos da conspiração é que têm uma fé absoluta na eficácia americana. Vários deles partem mesmo de um postulado racista, encontrado em alguns dos seus escritos, considerando que os árabes nunca poderiam levar a cabo esse tipo de atentado. Em contrapartida, crêem que os dispositivos militares americanos operam como prometem os assessores de imprensa do Pentágono e os representantes de comércio das indústrias de armamento. Não duvidam, por conseguinte, que quando o vôo 11 de American Airlines parou de transmitir às 8h14, o controlador aéreo da Federal Aviation Administration (FAA) "devia" imediatamente recorrer ao centro de comando militar nacional e ao comando de defesa do espaço norte-americano (Norad). E eles estão certos, dado que leram no site da US Air Force que um F-15 deveria ter interceptado o vôo "por volta de 8h24 e não atrasado, às 8h30".

Essas pessoas nunca leram um livro de história militar? Se lessem aprenderiam que as operações planificadas com mais cuidado – sobretudo quando se trata de uma antecipação de resposta a um perigo sem precedentes – falham normalmente por razões ligadas à estupidez, à covardia, à corrupção ou a outro defeito da natureza humana. Sem falar dos imponderáveis climáticos. De acordo com planos detalhados do Strategic Air Command (SAC), um ataque lançado pela antiga União Soviética deveria provocar a abertura dos silos de mísseis da Dakota do Norte, a qual liberaria projéteis intercontinentais ICBM sobre Moscou e outros alvos escolhidos. No entanto, cada um dos quatro testes desse tipo falharam a ponto de o SAC desistir. Foi devido a um equipamento defeituoso, incompetência humana, fraude do responsável pelos equipamentos militares. Ou de uma conspiração?

A tentativa do presidente democrata James Carter de libertar os reféns da embaixada dos Estados Unidos em Teerã, em 24 de abril de 1980, terminou num fiasco porque uma tempestade de areia incapacitou três dos oito helicópteros. Isso ocorreu por que esses engenhos eram mal construídos ou por que agentes de Ronald Reagan e do comitê nacional republicano (a eleição presidencial americana atrasou sete meses) teriam colocado açúcar nos tanques? Quando Cohen aumenta os preços do seu pequeno comércio é porque quer ganhar um dólar além disso ou porque o seu aluguel aumentou ou porque os judeus querem dominar o mundo?

Algumas fotografias do impacto do "objeto" – ou seja, do Boeing 757, vôo 77 – assemelham-se ao buraco que provocaria um míssil. Veja, dizem os advogados da tese de um golpe de estado interno, não é um Boeing 757, mas um míssil que atingiu o Pentágono. A idéia de que a fumaça mostrada em algumas fotos poderia ocultar a dimensão da perfuração é rejeitada imediatamente. Pouco importa que Charles Spinney, que deixou o Pentágono após durante anos ter compactuado com as extravagâncias orçamentárias do ministério da defesa, tenha dito: "As fotografias do avião que golpearam o Pentágono existem. Foram feitas pelas câmaras de vigilância do heliporto situado exatamente ao lado do ponto de impacto. Eu as vi. Paradas e em movimento. Não assisti a batida do avião, mas o motorista do veículo que estou usando atualmente a viu com tanta precisão que distinguiu até os rostos aterrorizados dos passageiros nas janelas. E conheço duas pessoas que se encontravam no aparelho. Uma delas foi identificada graças aos seus dentes encontrados no Pentágono".

Os adeptos da conspiração vão contrapor que Spinney já serviu o Estado, que as identificações dos dentes foram falsificadas, que o Boeing 757 foi desviado para o Nebraska para um encontro com o presidente Bush, o qual em seguida matou os passageiros, queimado os corpos no pátio do aeroporto e ofereceu os dentes do amigo de Spinney a Dick Cheney, para que ele deixasse cair de sua calça furada quando houvesse uma inspeção dos escombros do Pentágono...

Os fatos que a teoria conspiratória não explica

Ironia à parte, centenas de pessoas que viram o avião sabem diferenciar uma aeronave comercial de um míssil. Além disso, por que os que foram feridos naquele dia, os que perderam amigos ou colegas participariam hoje de tal encenação? Aliás, por que usar um míssil quando se dispõe de um avião – seguindo a tese dos adeptos da conspiração –, sabendo-se que já se teve êxito em espatifar (graças a um comando à distância...) dois aparelhos contra alvos muito mais difíceis de atingir: as duas torres de Nova Iorque?

Osama Bin Laden reivindicou os atentados? É que, nos foi dito, ele seria pago pela CIA. E assim em conseqüência... Basicamente, qual é o objetivo de tudo isso? Provar que Bush e Cheney são capazes de qualquer coisa? Considerando que eles nunca provaram competência necessária para ter êxito em uma operação tão sofisticada. No dia seguinte da vitória das tropas americanas no Iraque, não tiveram êxito sequer em mostrar algumas caixas escritas "ADM" para "armas de destruição em massa". Para eles, bastaria apresentar isso à uma imprensa encantada que as fotos correriam o mundo como "prova" definitiva da justiça da guerra.

A vitória eleitoral dos democratas logo nos lembrará que Bush e Cheney não são tão diferentes dos responsáveis pela política estrangeira americana que os precederam, ou dos que os seguirão. Um consenso bipartidário existe nas questões sobre Israel, Iraque etc. Procurando nos convencer da periculosidade inédita da administração no poder, os adeptos da "conspiração" contribuem para alimentar o fantasma de que uma nova administração – Clinton, Gore ou outra – se empenharia em prosseguir políticas muito mais humanas do que a atual.

Eles nos dizem ainda que as torres não desabaram à uma velocidade inesperada porque foram mal construídas (por razões às vezes ligadas à corrupção, à incompetência das empresas de obras públicas, ao laxismo regulamentar das autoridades) e porque foram golpeadas por gordos aviões cheios de combustível. Teriam caído porque agentes de Cheney – e foram necessários muitos! – encheram os andares de cargas explosivas no dia que precedeu o 11 de setembro. Foi uma conspiração que implica milhares de pessoas, todos cúmplices de um assassinato em massa e muito silenciosas a partir desse momento...

Maquiavel, no entanto, instruiu-nos que uma maquinação aumenta o risco de ser revelada sempre que se recorre a um novo cúmplice. No caso dos terroristas do 11 de setembro, vários deles tinham evocado seu projeto. É verossímel a idéia de que árabes armados de estiletes não realizariam nunca tal atentado, o que explica que ninguém os tenha levado a sério, protegendo o segredo.

Um lógico britânico e um frei franciscano do século 14 nos ensina que quando um fato pode ser explicado de várias maneiras, a explicação mais provável é a que pede o número menor de hipóteses sucessivas (princípio da Navalha de Ockham). No caso do 11 de setembro, a hipótese das cargas explosivas não é absolutamente necessária para explicar a queda acelerada das torres, incluindo a torre sete, não atingida por um avião. Um engenheiro dissecou as razões práticas que tornam a teoria dos explosivos, até este ponto improvável, em absurda [4].

Por que inventar maldades, se há tantas reais?

Há nos Estados Unidos numerosas conspirações reais. Por que fabricar falsas? Cada ano, os grandes proprietários e as autoridades de Nova Iorque "conspiram" para reduzir o número de quartéis de bombeiros, de modo que bairros queimem mais facilmente e que os pobres que lá residem, saiam, para que promotores possam construir mais facilmente residências. Observa-se tal fenômeno no Brooklyn, mas também em São Francisco, onde a população negra habita um bairro que comporta 900 hectares de terreno com uma vista irresistível sobre a baía. Por que não se interessar antes por esse tipo de "conspiração"?

Os russos, dizia-se, nunca teriam construído uma bomba atômica sem os traidores comunistas a seu serviço. Hitler já tinha sido vítima de uma traição da mesma ordem, erro sem o qual suas tropas jamais teriam sido vencidas pelo Exército Vermelho. John Kennedy não podia ser morto por Lee Harvey Oswald: lá era um golpe da CIA. E existem mais explicações desse tipo que "provam" que nem russos, árabes, vietnamitas ou japoneses poderiam realizar com êxito nada além das intrigas de conspiradores cristãos brancos. Esse tipo de análise economiza muitas leituras e alivia a carga da reflexão. Nos anos 1950, o medo de uma guerra atômica não tinha gerado alucinações de discos voadores?

Certos militantes da esquerda americana imaginam que qualquer chuva é o prelúdio de um arco-íris. Um deles, embora ridicularize da tese de uma "conspiração interna" do 11 de setembro, afirma: "O que me interessa nesse negócio é descobrir o número considerável de pessoas dispostas a crer que Bush fomentou os atentados, sabia deles e o teria deixado acontecer. Isso sugere que uma massa de americanos não atribui mais nenhuma confiança nos seus eleitos. E é isso que conta". "Não estou certo da vantagem desse cinismo", respondi a ele, "ele desmobiliza e afasta a população de batalhas políticas que poderiam ser produtivas." A "teoria da conspiração" nasce do desespero e do infantilismo político. Custa a acreditar que ela possa desembocar em uma energia progressista.

Em seu livro sobre os serviços secretos britânicos, Richard Aldrich descreve a forma como um relatório do Pentágono recomendou que documentos relativos ao assassinato de Kennedy, justamente os desclassificados, fossem postos na Internet. O objetivo disso? "Aliviar o desejo incessante do público de conhecer ’segredos’, procurando diversão". Aldrich acrescenta: "Se os jornalistas investigativos e os historiadores do contemporâneo consagram todo seu tempo às questões ao mesmo tempo inexplicáveis e usadas até o extremo, saberão menos sobre os terrenos onde não são bem-vindos" [5]. Da mesma maneira não se pode imaginar que a Casa Branca se divirta atrás das obsessões relativas à "conspiração" do 11 de setembro, as quais desviam a atenção das mil e uma intrigas do sistema de dominação atual. Mais fundamentalmente, Theodor Adorno considerou em Minima Moralia [6] que a inclinação para o ocultismo é um sintoma de regressão da consciência".

Tradução: Marcelo De Valécio
marlivre@gmail.com



[1] Em 1987, uma série de ficção da televisão anunciou que em menos de dez anos os russos, disfarçados de "capacetes azuis" das Nações Unidas, ocupariam o território americano, propagando um fantasma, ao mesmo tempo em que este foi alimentado. Leia Serge Halimi, "Effrayantes invasion", Le Monde diplomatique, outubro de 1995.

[2] Clube seleto situado perto de São Francisco, cujas reuniões participaram os antigos presidentes Richard Nixon, Ronald Reagan, George H. W. Bush, William Clinton, bem como o primeiro ministro britânico Anthony Blair.

[3] David Ray Griffin, Le Nouveau Pearl Harbor, 11 septembre: questions gênantes à l’administration Bush, Demi-Lune, coll. "Résistances", Paris, 2006.

[4] Para a refutação "técnica" dos principais elementos da teoria do complô, conferir a página na Internet.

[5] Richard J. Aldrich, The Hidden Hand, Overlook Press, Nova Iorque, 2002.

[6] Theodor Wiesengrund Adorno, Minima Moralia. Réflexions sur la vie mutilée, Payot, coll. "Petite bibliothèque", Paris, 2003.


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