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CIÊNCIA

O papel da arqueologia "que destrói"

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Vistos como obstáculos ao desenvolvimento, incapazes de revelar cenários magníficos, os arqueólogos preventivos avançam. Querem recolher e montar, peça por peça, quebra-cabeças que permitirão compreender o que fomos e para onde (não) devemos caminhar

Nicole Pot - (21/12/2006)

Na sua versão tradicional, a arqueologia é uma disciplina mítica, que se tornou popular graças aos pioneiros do século 19, do início do século 20, e aos personagens aventureiros e glamorosos de Harrison Ford e de Lara Croft… Mas na sua versão moderna, dita "preventiva", ela é dificilmente aceita por tomadores de decisão e pelo mundo econômico, suscitando por vezes propósitos de uma virulência sem equivalente a respeito de uma disciplina científica. É assim que podemos entender, através dos debates no parlamento em 2002 e 2003, alguns culpam o príncipio propriamente dito da arqueologia preventiva e do seu serviço público, estigmatizando o trabalho dos arqueólogos: estes não encontrariam a não ser "restos de vasilhas" e "velhas garrafas de cola-cola", criando uma grande insatisfação entre seus concidadãos [1].

Essa animosidade não é recente: o desenvolvimento da arqueologia preventiva foi escandido, desde a metade dos anos 1970, por uma seqüência de crises. E se a criação do Instituto Nacional de Pesquisas Arqueológicas Preventivas, em 2001, consolidou o êxito do empreendimento militante dos arqueólogos e garantiu a legitimidade de sua ação, seus problemas recorrentes de financiamento desde então, bem atestam sua difícil aceitação.

De fato, estando a maioria dos grandes sítios conhecidos, graças aos textos históricos, escavados ou sendo escavados, a ação dos arqueólogos não mais intervém senão previamente na construção de estradas, de vias férreas, de estacionamentos, de loteamentos... Estes últimos exumam os vestígios enterrados e registram todas as informações que constituem "os arquivos do solo", segundo a expressão usada pelo especialista em pré-história André Leroi-Gourhan, antes que sejam destruídos pelos buldôzers. Para os especialistas em planejamento territorial, essa fase da arqueologia constitui, evidentemente, um freio à eficiência de suas decisões. E muitas das escavações ocorrem em superfícies muito extensas, que podem atingir um milhar de hectares, para a construção de uma auto-estrada ou de uma linha de grande velocidade; elas implicam recorrer a sondagens sistemáticas, a meios técnicos importantes e relativamente custosos, financiados pelos construtores. Isso explica a hostilidade de alguns deles, às vezes substituídos por eleitos de todas as tendências. Entretanto, as intervenções arqueológicas não representam, em definitivo, senão 0,1% do custo total da construção na França, e elas nem abrangem 10% das superfícies remanejadas. Dois euros por francês e por ano, é o preço para que não apagar o passado num piparote.

Desmontar as construções, para revelar sua alma

Mas a arqueologia preventiva é vítima de outra forma de incompreensão, relativa à sua própria natureza. Ela não traz uma carroça de tesouros suscetíveis de enriquecer as coleções dos museus de belas-artes, de propiciar exposições de prestígio, nem de desenvolver a visitação turística pela abertura de sítios excepcionais. Bem diferente da arqueologia clássica, grega, romana, egípcia, maia... ela não freqüenta as agências de viagens vendedoras de míticas escapadas para lugares ricos em vestígios espetaculares.

Ao contrário, ela suprime, fisicamente, o essencial dos vestígios descobertos. Escavar é, quase sempre, destruir. Realmente, além dos objetos extraídos do solo, preciosamente conservados e estudados, a própria técnica de escavação é destrutiva, na medida em que ela procede por um exame dos diferentes estados da ocupação humana; o alcance dos níveis inferiores implica a destruição prévia, ao menos parcial, dos níveis mais recentes.

O objetivo da arqueologia é acumular dados materiais: estes podem ser constituídos de restos microscópicos de vegetais, de pedaços de ferramentas, de cacos, de ossadas, de detritos diversos, de simples vestígios de fogueiras ou, ainda, de buracos de pilares, que são como um negativo evocando a natureza das construções desaparecidas e sua organização espacial.

Esse trabalho minucioso não adquire sentido senão após um longo tempo de pesquisa. A análise desses dados vai permitir a reconstituição dos modos de vida das sociedades passadas, de enriquecer o conhecimento da evolução das técnicas, das paisagens, do meio ambiente... e, com freqüência, de renovar profundamente sua interpretação. Entretanto, esse saber, que pertence ao registro das ciências humanas e não ao das belas-artes, raramente assumirá uma expressão espetacular. Daí a incompreensão...

Pistas para alterar nossa relação com a Natureza

E, no entanto, esse saber exumado diz respeito, em alto grau, aos construtores, já que ele se organiza graças a eles e, sobretudo, porque ele retraça a história de sua atividade, o planejamento do território. Financiando a arqueologia preventiva, eles são os atores de uma forma inédita de desenvolvimento sustentável: a preservação, para as futuras gerações, do conhecimento da história comum, da qual inúmeros aspectos essenciais estariam definitivamente perdidos sem essa ação. Além disso, um número crescente de especialistas em planejamento territorial integra, não sem orgulho, essa preocupação em uma política de comunicação e compreende que, a menos que se deseje mergulhar a coletividade em uma amnésia - no presente caso, irreversível -, ela não é menos importante que a do domínio de nosso meio ambiente.

É porque ao remontarmos aos milênios bem além dos períodos ditos históricos, ao recorrermos às mais modernas técnicas de investigação e de datação, esclarecemos, de maneira poderosa e original, inúmeros dos grandes debates da sociedade, sobre os quais a arqueologia nos oferece análises renovadas [2]. As recentes descobertas trazem, particularmente, informações inéditas sobre nosso ambiente natural, o aquecimento climático, o esgotamento dos recursos, a explosão demográfica, a sobrevivência ou a ruína das antigas sociedades em função da sua relação com o meio ambiente. Assim, as escavações no aeroporto de Vatry, próximo a Reims, mostraram como a região de Champagne, considerada "seca", sofrera inúmeras vezes na época gaulesa, e depois romana, uma super-exploração agrícola, obrigando sempre ao abandono dessas terras. Essas descobertas fornecem-nos pistas para administrarmos o presente e planejarmos nosso futuro.

A renovação do conhecimento das ocupações humanas em um mesmo território, há milênios, constitui um outro exemplo da contribuição da arqueologia às questões atuais. Ela traça a história de migrações sucessivas, trazendo elementos de reflexão capazes de ajudar as populações oriundas de movimentos migratórios recentes ou, ao contrário, antigos e, geralmente esquecidos, a tecer um vínculo social federador.

Arqueologia como construtora de identidades coletivas

A descoberta e a apropriação de uma história muito distante, sem ligação necessária com a atual população – como acontece nas novas cidades, por exemplo – podem suscitar, no seio das comunidades que se freqüentam sem realmente coabitarem e que, geralmente, perderam de vista sua história original, o sentimento de pertencerem a uma coletividade, indispensável a qualquer indivíduo: passado distante, passado comum, identidade restabelecida.

De modo mais geral, o conhecimento trazido pela pesquisa arqueológica pode contribuir para evitar, em todas as comunidades, o sofrimento de não possuir um passado e de possuir um futuro sem memória coletiva. Em um universo em que a ligação com o meio ambiente mais próximo caminha juntamente com uma abertura vertiginosa à globalização do mundo, esse conhecimento participa, assim, do enraizamento de uma identidade, ao mesmo tempo em que a relativiza pela exposição das práticas culturais que ela revela.

Se em 2001, a França inscreveu na lei o papel da arqueologia preventiva, nove anos depois da assinatura da convenção de Malta [3] pela totalidade dos países europeus, ela ainda revela atraso no compartilhamento dos conhecimentos, na divulgação dos resultados das pesquisas e na sua contribuição à reflexão sobre nossa sociedade contemporânea e seus valores. O que explica a permanência da hostilidade de certos tomadores de decisão, que se vai se atenuando rapidamente à medida que cresce de modo evidente o interesse das populações.

E além da França, os poderes públicos poderiam, igualmente, ter um papel ativo a fim de que, sob a égide da Unesco, esse reconhecimento legal fosse também realizado nos outros continentes. Nos países em rápido desenvolvimento econômico (China, Índia...), há urgência devido ao fato de o ritmo do planejamento do território não ter muito respeito com a salvaguarda de um passado que também é o da humanidade.

Tradução: Maria Alice Farah
alicefarah@uol.com.br



[1] Conferir os debates no parlamento no outono de 2002 e o relatório informativo no. 875, maio de 2003, da missão de avaliação e controle da Assembléia Nacional.

[2] Um colóquio sobre este tema "L’avenir du passé. Modernité de l’archéologique", no Centre Georges-Pompidou, em Paris, em 23 e 24 de novembro.

[3] A convenção européia pela proteção do patrimônio arqueológico assinada em Malta, em 16 de janeiro de 1992, por todos os países europeus (e não somente por aqueles da União Européia, define o princípio da arqueologia preventiva, segundo o qual a salvaguarda dos sítios para estudo deve ser bem feita pelos trabalhos de alteração. Ela foi ratificada pela França em 1994.


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