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TENSÕES CULTURAIS

O mal-estar dos muçulmanos britânicos

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Seis meses após os atentados de Londres, as autoridades continuam em busca de políticas que evitem a segregação da comunidade árabe. Mas a política externa de Tony Blair e a discriminação social de fundo podem anular esta tentativa

Wendy Kristianasen - (16/01/2007)

"É hora de entrar num novo e franco debate sobre a integração e a coesão na Grã-Bretanha", declarou Ruth Kelly, a nova ministra para as comunidades e assuntos locais, em 24 de agosto de 2006 [1]. "Se nós quisermos uma solução eficaz para esses problemas, deveremos ser claros sobre os desafios que enfrentamos". O discurso foi pronunciado duas semanas depois de o ministro do Interior, John Reid, anunciar a descoberta de um complô para "promover um massacre de dimensões jamais vistas na Grã-Bretanha" — por meio de seqüestros de aviões de passageiros em rotas transatlânticas — o que ocupou as capas dos principais jornais e revistas. Em 9 de novembro, Eliza Manningham-Buller, diretora-geral do MI-5 [2], órgão do serviço secreto britânico, em rara declaração pública, falou sobre o perigo terrorista que ameaçava o país: duzentos grupos e redes, mais de 1.600 indivíduos e trinta complôs descobertos [3].

A política externa do primeiro-ministro Tony Blair já havia dificultado as tentativas do governo para redefinir suas relações com as comunidades muçulmanas britânicas. Mesmo que muito divididas, elas poderiam se abrir a novas idéias para reformar o modelo multicultural. E toda a confiança se evaporou em outubro, quando Jack Straw, o ex-ministro das Relações Exteriores, deputado de Blackburn (que tem 20% de muçulmanos na população), levantou a controvérsia sobre o véu islâmico, declarando a um jornal: "Eu me sinto mal ao falar cara a cara com alguém que eu não consigo enxergar". Isso representa "uma declaração pública de separação e de diferença" [4].

Um debate público sobre o niqab [5] é legítimo. Mas ele tem sido usado com fins policiais por dirigentes do Partido Trabalhista, que se preparam para a era pós-Blair de olho nos votos da classe operária branca. A crise aumentou com a suspensão de uma assistente educativa de 23 anos, que se recusou a levantar o véu que cobria seu rosto enquanto trabalhava. Entretanto, mesmo que a imprensa tenha ignorado o fato, a maioria dos muçulmanos apoiou a decisão tomada pela escola.

Os atentados terroristas de 7 de julho de 2005 em Londres, que provocaram a morte de 52 pessoas, trouxeram à tona o medo da radicalização de uma comunidade de 2,5 milhões de muçulmanos. O homem tido como chefe do grupo, Mohammed Sidique Khan, cresceu em Yorkshire e era conhecido pelo diminutivo Sid entre seus amigos ingleses.

"Raiva, sentimento de injustiça, risco de alienação"

Comissário da polícia metropolitana, o muçulmano de origem indiana, Tariq Ghaffur preocupa-se com todos esses "jovens britânicos e paquistaneses que viajam sozinhos, sem o acompanhamento de mais velhos. São cerca de meio milhão de viagens entre a Grã-Bretanha e o Paquistão a cada ano. Eu me preocupo principalmente pelos paquistaneses e os convertidos. Entre os jovens muçulmanos, percebemos a raiva, o sentimento de injustiça, um risco de alienação. Eles têm seus próprios mitos e, graças à Internet, há uma extraordinária indústria de teorias da conspiração".

À sua maneira, Ali Khaled, um convertido de origem sul-americana e escocesa, confirma seus propósitos ao contar porque se tornou um extremista. "Eu queria usar minha energia e nunca conseguia. Estava isolado. Se você está perdido, o discurso salafita (para definição dos diferentes grupos, ler "A nebulosa muçulmana", nesta edição) é muito atraente, muito claro. Eu teria continuado nesse caminho não-militante se não tivesse me mudado para Londres, onde encontrei um grupo do Muhajirun. Você acaba passando para o lado deles assim que os encontra. Eles se organizam, brigam, tentam mudar as coisas. Acabam obtendo muitos sucessos. Isso me pareceu parte do Islã. Eu tinha apenas 17 anos. À medida em que eu me tornava um radical, sentia-me mais seguro de mim mesmo. Eu me tornei arrogante e queria vencer a apatia dos outros, das massas alienadas".

Depois do 7 de julho, o governo britânico implementou uma série de medidas ditas anti-terroristas, que foram muito criticadas [6]. Consultando os muçulmanos quando já era tarde demais, criou grupos de trabalho como o Preventing Extremism Together, PET (Prevenindo o Extremismo Juntos). Após três pesquisas intensas, chegou-se a 60 recomendações para ações comuns entre o governo e comunidades muçulmanas. Algumas foram postas em prática, como uma caravana de pensadores encarregados de falar aos jovens em passeios pelo país.

Na origem das tensões, a política externa de Blair

O governo também criou a Comissão pela Igualdade e os Direitos Humanos, que entrará em funcionamento este ano, preenchendo um vazio: a incorporação da religião na definição de grupos étnicos [7]. Essa nova comissão terá um orçamento anual de 100 milhões de euros, passando a ser, portanto, a organização mais importante do tipo na Europa.

Por outro lado, o governo rejeitou a proposta formulada pelo PET de uma comissão de investigação independente sobre os atentados de 7 de julho. A recusa reflete em parte o medo das autoridades de que sejam trazidas à tona evidências do impacto da política externa britânica no decorrer dos atentados. Nazir Ahmed, um trabalhista que se tornou, em 1998, o primeiro muçulmano a ingressar na Câmara dos Lordes, afirma: "As relações dos muçulmanos com o governo nunca estiveram mal: de 90% a 95% deles votam tradicionalmente no Partido Trabalhista. O problema fundamental está na política externa".

Após o alerta do mês de agosto, 38 associações muçulmanas, três dos quatro deputados e os três lordes muçulmanos enviaram uma carta aberta sem precedentes ao primeiro-ministro: "O fracasso no Iraque e a incapacidade de evitar ataques contra os civis no Oriente Médio [crítica dirigida à recusa de Blair ao pedir um cessar-fogo no Líbano], não apenas agravam a situação de pessoas comuns na região, mas dá armas aos extremistas que ameaçam a todos nós" [8].

O Conselho de Muçulmanos da Grã-Bretanha (MCB), a mais representativa das federações muçulmanas, que abriga 400 organizações, assinou a carta. Seu secretário adjunto resume as reivindicações: "Começamos pela política exterior. E em seguida, no lugar de uma investigação sobre o 7 de julho, tivemos uma postura ligada à segurança. Recomendamos pôr em prática um diálogo político, mas o governo já havia decidido que os problemas vinham das mesquitas e preparou uma lei para fechar aquelas que pregassem a violência. Nós respondemos que é necessário atacar indivíduos e não instituições".

Crises entre o governo e o Conselho de Muçulmanos

Um acordo foi alcançado com a criação de um órgão encarregado de avaliar questões ligadas a mesquitas e aos líderes religiosos, o Mosques and Imam’s National Advisory Board (Minab). O Conselho de Muçulmanos da Grã-Bretanha (MCB) é apenas uma das quatro organizações neste órgão, sendo as outras o Fórum dos Muçulmanos Britânicos, a Associação dos Muçulmanos Britânicos (MAB) e a Fundação Al-Khoei (xiita). Cada uma representa uma tendência diferente. Os muçulmanos não constituem uma única comunidade, mas várias. Mesmo assim, um grande número de muçulmanos não se sente representado por essas organizações.

Desde então, as relações com o MCB pioraram ainda mais: o governo considera que a instituição não combateu de modo suficiente o extremismo. Também não a perdoa por não ter comemorado, em 2005, a jornada de lembrança do 60o. aniversário do Holocausto — o MCB pediu um dia em homenagem todas as comunidades perseguidas. Essa posição lamentável levou a ministra Ruth Kelly a declarar, em 11 de outubro de 2006, que os financiamentos passariam a ser destinados a partir de então às organizações "que combatem o extremismo". Ela fazia referência direta ao novo parceiro do governo, o Conselho Muçulmano Sufista — uma organização pouco influente no Reino Unido, dirigida por Hisham Kabbani, ligado ao movimento sufista internacional Naqshabandi, com amplo apoio nos Estados Unidos, inclusive por parte dos neoconservadores e do governo Bush.

A "questão muçulmana" explodiu em 1989 com a publicação de Os Versos Satânicos de Salman Rushdie e sua condenação à morte pelo aiatolá iraniano Ruhollah Khomeini. O romance chegou a ser queimado em Bradford, cidade do norte da Inglaterra onde milhares de manifestantes saíram às ruas. O governo conservador fez bem ao não proibir as vendas do livro, mas pediu a criação de uma representação muçulmana, o que levou à formação do MCB.

Apesar de conquistas importantes, discriminação persiste

Com a vitória, no mesmo ano, do Partido Trabalhista, os muçulmanos entraram para a Câmara dos Comuns e a Câmara dos Lordes. Conseguiram o financiamento público de escolas muçulmanas (algo que existe também para outras religiões) e a introdução e menção da religião no censo de 2001. Essas mudanças foram acompanhadas do surgimento de jornais, uma rede de televisão, escolas, grupos profissionais e lobistas. Londres se tornou o maior centro financeiro islâmico, concentrando 370 bilhões de euros.

Todavia, o censo de 2001 mostrou a outra face da moeda: o desemprego é três vezes maior entre muçulmanos em relação à média nacional; 33% deles vive nas regiões mais pobres; 41% vive em moradias precárias; 31% não tem instrução; eles são 11% da população carcerária (o número de presos aumentou em 161% entre 1994 e 2004).

O presidente do Fórum dos Muçulmanos Britânicos, Kurshid Ahmad, assumiu o papel de porta-voz dos pobres, principalmente os sunitas. "Eles praticamente não são representados pelas organizações muçulmanas, mesmo sendo quase todos os bengaleses e a grande maioria dos paquistaneses, sendo que quase a metade dos britânicos muçulmanos têm origem paquistanesa". Nascido na Caxemira paquistanesa, Ahmad garante que o Fórum atinge 180 mesquitas das 1.100 no país. Ele explica: "80% dos paquistaneses vêm de zonas rurais, a maioria é analfabeta, mesmo na língua natal, o urdu. Eles trabalham em fábricas há décadas e nem sempre aprendem a falar inglês. Podemos dizer o mesmo dos bengaleses e dos iemenitas. Os imãs vêm de vilas, eles são competentes, mas não podem se comunicar com os jovens porque não falam inglês. Esses imãs são contratados porque vêm da mesma região que os seguidores de sua religião e porque também ganham pouco, entre 75 e 120 euros por uma longa semana de trabalho".

Em Leicester, um caso exemplar de integração

Leicester é vista como modelo da diversidade britânica. Um terço de seus 300 mil habitantes (e quase a metade dos alunos nas escolas) não são brancos (muçulmanos, hindus, sikhs, caribenhos, etc.). As relações entre as comunidades são excelentes. Segundo "as vozes dos 50 mil muçulmanos da cidade", a Federação das Organizações Muçulmanas (FMO) é ativa na educação, na área social, na segurança pública e no diálogo entre religiões. Suleman Nagdi, um dos membros mais influentes da FMO, explica: "Nós nos integramos e tivemos muito sucesso. Leicester é um caso à parte porque muitos de nós pertencemos a minorias na África. Viemos para cá para encontrar a segurança, como os que vieram do subcontinente indiano e tiveram de se adaptar ao status de minoria".

Em reuniões entre as religiões, muçulmanos e cristãos entraram num acordo, mas não sem dificuldades. Em torno de xícaras de café e doces indianos, discutem a natureza catastrófica da política exterior britânica e os excessos dos perfis raciais. Em memória do 11 de Setembro, um jogo de cricket foi disputado entre clérigos e imãs, tendo hindus e judeus ortodoxos como árbitros. Mas a mesquita central de Leicester, uma das maiores do país, é marcada por uma imagem menos serena. Enquanto fiéis se reuniam aos milhares, para comemorar a chegada do Ramadã, o xeque Shahid Raza denunciou a manobra de um grupo Deobandi (escola sunita do Islã) para expulsar adeptos Barelwis (escola sunita que se opõe à Deobandi) da FMO.

Sejam quais forem, muitos muçulmanos de Leicester não conhecem ou discordam das iniciativas do programa Preventing Extremism Together (PET). Assim, Ismail Patel, um óptico do Maláui, membro do grupo internacional islâmico Tabligh, denunciou a caravana do PET: "É uma iniciativa para a colonização. Trazem estrangeiros para dizerem às pessoas daqui o que elas devem fazer". É verdade que, fora de Londres, poucos já ouviram falar de Hamza Yusuf Hanson, um muçulmano que vive nos Estados Unidos, ou de Tariq Ramadan, filósofo suíço de origem egípcia. Em sinal de protesto, Patel organizou uma "contra-caravana" de 30 religiosos britânicos de seis cidades, entre elas Leicester.

Para Salma Al-Gaziari, uma estudante de 16 anos residente em Leicester, que já toma a palavra em reuniões públicas, "é preciso ensinar a cidadania nas madrassas, quando as crianças são ainda pequenas. E é preciso também abordar problemas políticos. As crianças têm dúvidas verdadeiras e nós podemos ajudá-las ensinando. Existe um vazio". Esse vazio aumenta com a idade. "Mas tudo começa em casa. Os jovens se sentem incompreendidos pelos mais velhos, pelos homens de suas famílias. Eles começam então a provocar para serem ouvidos. Eles pensam que todo o mundo os odeia".

O papel decisivo das madrassas

Outros também se mobilizam nas bases. Muhammad Kirk Master, de 32 anos, é meio africano e meio irlandês. Assistente social em Leicester, ele fala da alienação que leva os jovens muçulmanos às drogas. "Em um dos bairros de Leicester, três em cada quatro traficantes são muçulmanos". Como Salma, ele considera que as madrassas estão no cerne do problema: "Ou as crianças se moldam à mentalidade das madrassas, ou eles acabam se enveredando por caminhos ruins, principalmente políticos". Alguns partiram em busca de respostas. Em 2002, Master criou o Build, um projeto ambicioso dedicado a 15 mil alunos das madrassas. "Nós nos demos conta de que há muito trabalho a ser feito aqui: clubes, esportes, assistência no combate às drogas e à bebida, serviços de saúde sexual, etc. Agora oferecemos tudo isso dentro da madrassa, como um complemento ao ensino tradicional. Os pais e as escolas têm medido o quanto tudo isso é importante. Já são 12 madrassas de Leicester que adotaram o programa e isso é só o começo".

Dewsbury, uma cidade de 50 mil habitantes de West Yorkshire, tem um terço de muçulmanos na população. Vivem isolados em suas casas, principalmente no bairro de Savile Town, zona ocupada por asiáticos na cidade onde se concentram os Barelwis e os Deobandi. As ruas são estreitas, tranqüilas, com lojas de roupas muçulmanas. A cidade tem dez mesquitas, entre elas a imensa Markazi, construída em 1980, sede central européia do movimento Tabligh. Um grande supermercado Asda foi construído num antigo terreno de uma fábrica têxtil.

Dewsbury vive em estado de sítio. A cidade se recusa a falar com jornalistas desde as prisões efetuadas no verão britânico (após as revelações de um ambicioso plano de atentados contra aviões de passageiros), que provocaram uma tempestade midiática ligando o movimento Tabligh à Al-Qaeda. O líder dos ataques de 7 de julho, Mohammed Sadique Khan, vivia em Dewsbury e era casado com uma mulher da organização. Aisha Azmi, a assistente educativa que se recusou a tirar o véu dentro da escola também trabalhava na cidade.

Um dos fundadores da mequista de Merkez, o xeque Yakub, um estudioso respeitado, nos recebeu gentilmente enquanto sua família assistia ao jogo de cricket pela televisão. Estava acompanhado pelo pequeno Ismail, de 7 anos, e torcedor – "é claro" – da Inglaterra. A família ficou chocada com a prisão do filho de 16 anos do xeque, em 16 de junho, sob acusação de práticas terroristas. "A polícia invadiu duas casas e nos tratou brutalmente. Nós não sabemos o que aconteceu: não tínhamos contato com nosso filho a não ser pelo celular. Nos sentíamos como vítimas e, de certa forma, somos mesmo". O jovem foi libertado mais tarde, após o pagamento de fiança.

Até a idade de 13 ou 15 anos, as crianças muçulmanas têm duas horas de educação religiosa complementar depois das aulas do colégio e nos finais de semana, nas madrassas administradas pela mesquita local. A maior parte dos textos são em urdu, língua que a maioria das crianças não entende, enquanto os professores mal falam inglês. Mas, para Abdel Hai, o problema está "nos que não freqüentaram a madrassa e depois foram rejeitados pela universidade". Ele não vê problemas com as madrassas: "Nós devemos manter nossa cultura étnica, nós precisamos continuar fazendo com que nossos filhos aprendam o urdu, que continua sendo nossa língua de referência".

Acordo nos objetivos, divergências sobre como alcançá-los

Em outro bairro de Dewsbury, Abdul Aslam, que veio do Paquistão e dirige o centro comunitário de Ravensthorpe, olha desejoso para Savile Town. Seu bairro, um dos mais pobres, é composto por uma metade de muçulmanos e outra metade de europeus do Leste, bósnios, ucranianos, iraquianos, curdos e indianos não muçulmanos. "Aqui, são os problemas locais que interessam, não a questão do Islã. Quando você vive num bairro dividido, você se preocupa com o estado das ruas e das relações com seus vizinhos. Não queremos que nossos filhos aprendam o urdu, mas sim o inglês. Já estamos muito atrasados" explicou Aslam. Ele se orgulha do trabalho realizado por seu centro comunitário: o bairro tem claridade, é limpo e ordenado, enquanto o bairro vizinho de Dewsbury Moor, com a mesma composição étnica, sofre com a proliferação de crimes e o tráfico de drogas.

Os moradores de Dewsbury tentam entender o que acontece com eles. Resistem a ser vistos como muçulmanos – alguns até evitam usar o mesmo transporte público. Mas também falam de suas dificuldades. O presidente da renomada Indian Muslim Welfare Association, Bashir Karolia admite: "É mesmo nossa culpa. Estamos fechados em nós mesmos. Deveríamos ter falado mais com a população sobre o Islã antes do 11 de Setembro".

Nas comunidades muçulmanas, que vivem em universos separados, as referências dos mais velhos são majoritariamente culturais. Para as novas gerações, que já perderam o contato com o país de origem, essa herança desapareceu, criando um vácuo em relação aos pais. Alguns estão completamente integrados, mas ao mesmo tempo perigosamente "separados". No complexo mosaico britânico, todo mundo concorda que é necessário fortalecer o sentimento de cidadania e pertencimento, mas todos discordam sobre os meios para atingir estas metas no futuro.

Tradução: Silas Martí
silas.marti@revistaflan.com



[1] Este ministério foi criado em 2006. Antes disso, as comunidades de imigrantes dependiam do ministério do Interior.

[2] Serviço secreto fundado para proteger a segurança nacional de ameças internas.

[3] Times Online, 10 de novembro de 2006.

[4] Lancashire Telegraph, Blackburn, 5 de outubro de 2006.

[5] O véu é composto por dois pedaços de tecido, um para cobrir a cabeça e outro para cobrir os olhos.

[6] Leia Philip Golub, "Eclipse da democracia", Le Monde Diplomatique-Brasil, setembro de 2006.

[7] No Reino Unido, as pessoas são definidas segundo sua origem racial: brancos, negros, negros britânicos, asiáticos, asiáticos britânicos, chineses, etc.; os formulários para os serviços públicos contêm a definição étnica. Cada um é livre para definir ou não sua etnia; um "branco" pode se definir "negro" ou "asiático", já que se trata de uma auto-definição. A maioria das pessoas de origem asiática tem a nacionalidade britânica.

[8] The Guardian, Londres, 12 de agosto de 2006.


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