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Pinochet sem pena nem glória

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"De suas vítimas, de todos os que o resistiram, do presidente Allende, fica o exemplo moral. Dele, nada resta digno de ser lembrado — somente o odor fétido que os bons ventos do Pacífico logo se encarregarão de levar". Um texto do escritor chileno Luis Sepúlveda

Luis Sepúlveda - (16/01/2007)

Augusto José Ramón Pinochet Ugarte, que pode chamar-se também “Ramón Ugarte”, ou “Mister Escudero”, ou ainda "J. A. Ugarte", para citar alguns dos diversos nomes utilizados para abrir contas secretas e depositar milhões de dólares em bancos dos Estados Unidos, Ilha de Jersey, Cayman, Suíça e Hong Kong, morreu no dia 10 de dezembro de 2006 sem pena ou glória, de forma tão lastimável quanto havia vivido seus 92 anos de indivíduo miserável e imundo, que tinha como únicos talentos a traição, a mentira e o roubo.

Não surpreende que a seu pomposo funeral militar tenham comparecido cúmplices diversos e variados, todos aqueles que, de uma ou outra maneira, tiraram proveito da espoliação das vítimas e do saque ao erário público. Por outro lado, foi notória a ausência de seus principais padrinhos. Não se percebeu qualquer presença de representantes da embaixada norte-americana; nenhum delegado de organizações neofascistas da Espanha ou Itália. Também não houve sombra de "intelectuais" do regime, esses pseudo-pensadores que, com sua voluntária participação, permitiram camuflar os centros de tortura dirigidos por Manuel Contreras e o agente da CIA Michael Tonwley, e disfarçá-los de "ateliers literários" onde, enquanto discorriam sobre as obras e o estilo do ditador – Política, "Politicagem" e demagogia, Memórias de um soldado, entre outras pérolas retóricas – torturava-se e assassinava-se, entre outros, o diplomata espanhol Carmelo Soria.

Sua mui cara admiradora Margareth Thatcher desculpou-se com o pretexto de que é acometida dos males da idade avançada. Outra de suas partidárias, Jeane Kirkpatrick, decidiu esquivar-se do comprometedor encontro, partindo para o além ela mesma já no dia 8 de dezembro de 2006; e seu gênio econômico, Milton Friedman, tomou a precaução de desaparecer também no dia 16 de novembro de 2006. Paz a essas almas condenadas.

No mundo dos vivos, nenhuma notícia de Henry Kissinger, cuja ausência foi universalmente ressaltada, bem como a do escritor peruano conhecido por seus elogios incessantes ao modelo econômico de Pinochet, que no entanto mergulhou milhões de chilenos na ruína econômica, moral e cultural.

Kissinger escolhe a marionete mais controlável

Quando ele estava no apogeu de sua glória efêmera e sonhava construir a base de um nacional-catolicismo à chilena. Como não poderia se proclamar "caudilho" a exemplo de seu paradigma, o general Franco, pequeno ditador nascido em El Ferrol (no funeral de quem ele foi o único chefe de Estado estrangeiro a comparecer), Augusto José Ramón Pinochet Ugarte decidiu auto-proclamar-se “Capitão Geral da Pátria”. Pediu então a um alfaiate militar que confeccionasse um quepe especial, cinco centímetros mais alto que o de qualquer outro general, e acrescentou a seu uniforme uma sinistra capa inspirada em Drácula. Para completar seu arsenal de perfeito ditador usava também um cetro de marechal de campo nazista.

Mas, como nesse ínterim havia mandado assassinar vários padres – Antônio Llido, André Jarlan e Joan Alcina – seu projeto de fazer do Chile um país de colaboradores de bata fracassou. A igreja católica escolheu majoritariamente o lado dos perseguidos, dos torturados e dos parentes que buscavam, e ainda buscam, mais de 3 mil homens e mulheres que um certo dia saíram de casa e jamais retornaram.

No dia 11 de setembro de 1973, Augusto Pinochet traiu seu sermão de fidelidade à constituição chilena e, no último momento (pois os covardes estão sempre indecisos), aliou-se ao golpe de Estado planejado, financiado e dirigido por Henry Kissinger (Prêmio Nobel da Paz), Secretário de Estado na época do presidente norte-americano Richard Nixon [1]. Outras traições à constituição encarregaram-se de abrir caminho para o golpe de Estado, todas movidas pelo sonho de assumir o papel de ditador. Elas se chamavam: Gustavo Leigh, capo, no sentido mafioso, da Força Aérea e Toribio Merino, capo da Marinha. Completava esse sinistro trio um certo César Mendonza, indivíduo intelectualmente diminuído, chefe da polícia. Mas o senhor Kissinger decidiu que a ditadura deveria ser dirigida por Pinochet, a marionete mais controlável, o mais manipulável e o mais fiel aos interesses dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Pinochet torna-se assim o arquétipo da marionete a serviço do imperialismo norte-americano.

As bestas do horrer e o ofício da pilhagem

Mais que rápido, após a deaparição de Salvador Allende, morto na defesa da constituição e da legalidade democrática, Pinochet, obedecendo a ordem do Pentágono de combater o “inimigo interno”, abriu as cancelas e soltou no país as bestas do horror. Os delatores que denunciavam a atividade de resistência tinham direito, como recompensa, a uma parte dos bens tomados dos “subversivos”. Os soldados também tinham uma espécie de direito de saque que os autorizava a solapar de simples colheres a móveis e frangos. Os oficiais administravam a pilhagem apropriando-se dos bens mais valiosos: as casas, os veículos, as cadernetas de poupança, enfim, o patrimônio de dezenas de milhares de pessoas, que estão ainda com o inventário a ser feito e calculado.

Mais que rápido, após a morte de Salvador Allende, morto na defesa da constituição e da legalidade democrática, Pinochet, obedecendo a ordem do Pentágono de combater o “inimigo interno”, abriu as cancelas e soltou no país as bestas do horror. Os delatores que denunciavam a atividade de resistência tinham direito, como recompensa, a uma parte dos bens tomados dos “subversivos”. Os soldados também tinham uma espécie de direito de saque que os autorizava a solapar de simples colheres a móveis e frangos. Quanto aos oficiais, eles administravam a pilhagem apropriando-se dos bens mais valiosos, as casas, os veículos, as cadernetas de poupança, enfim, o patrimônio de dezenas de milhares de pessoas, que estão ainda com o inventário a ser feito e calculado.

Cada soldado, cada policial, cada oficial fez fortuna na ditadura traficando o pavor: uma mãe que queria saber se o filho desaparecido ainda estava vivo, via-se na exigência de ceder seu título de propriedade em troca de uma informação. Em seguida, ouvia mentiras cruéis: localizado em algum lugar na Europa, seu filho iria logo contatá-la... Não há um só militar golpista que não tenha participado da espoliação das vítimas. Nenhum que não tenha as mãos sujas.

Pode-se dizer a mesma coisas dos juizes que se entregaram à prevaricação durante os dezesseis anos do regime; eles legitimaram a pilhagem e garantiram a impunidade dos assassinos. A direita chilena não fica isenta: em troca de participação no saque das riquezas naturais – florestas, pesca, minas – ela aceitou que o Chile, país exportador de diversos produtos industrializados de alta demanda no mercado global, como os têxteis por exemplo, se transformasse em um país que não fabrica mais nada. Hoje o Chile não fabrica uma agulha. Todos os produtos manufaturados, absolutamente todos, são importados.

O laboratório de horrores de Milton Friedman

Mais que a vitória de Pinochet, o que o Chile conheceu em 11 de setembro de 1973 foi o triunfo das teorias ultra-liberais de Milton Friedman. Ele pôde experimentar, como num laboratório, pela primeira vez no mundo, sua teoria monetarista imposta a uma sociedade sem defesa. Arruinou o país e transformou-o num Estado tipicamente subdesenvolvido, exportador somente de produtos primários (frutas, vinhos) e de matérias-primas (cobre). Uma grande parte do mundo deve a eletrificação aos fios de cobre, metal essencialmente produzido no Chile. Mas, além disso, hoje, o Chile exporta principalmente alimentos à base de organismos geneticamente modificados e salmão autófago de piscicultura pois, para produzir um quilo de salmão (cuja venda beneficia somente os proprietários dos criadouros) é necessário sacrificar 8 quilos de peixes vindo do mar, riqueza que é propriedade de todos os chilenos. Se o país já não exporta mais madeira como fazia nos anos 1980, é porque já não há mais; todas as florestas primárias foram derrubadas sem misericórdia.

Enquanto as bases da economia, da cultura e da história social eram desmanteladas pela privatização sistemática dos serviços públicos, incluindo a saúde e a educação, toda tentativa de oposição foi reprimida pela tortura, pelos “desaparecimentos”, os assassinatos e o exílio.

O legado de Pinochet foi um país destruído e sem futuro, um país onde os direitos mais fundamentais, como o contrato de trabalho, a informação plural, a saúde pública e a educação universal são quimeras cada vez mais intangíveis.

Graças ao colossal cinismo de que sempre fez uso, Pinochet conseguiu manter-se impune até o fim. Houve, no entanto duas ocasiões, de puni-lo por sua crueldade: na emboscada de 1986, os heróicos combatentes da Frente Patriótica Manuel Rodríguez estiveram a um passo de mandá-lo ao inferno — mas o atentado fracassou, apesar da coragem dos jovens entre 16 e 27 anos que compunham o comando. Mais tarde, em 1998, houve outra oportunidade de julgá-lo por seus crimes: a pedido do juiz espanhol Baltazar Garzón, ele foi detido em Londres. Mas recebeu a ajuda ainda pouco compreensível dos governos de José Maria Aznar na Espanha, Anthony Blair no Reino Unido e Eduardo Frei no Chile, que tudo fizeram para evitar sua extradição para Madrid e o processo.

O traidor morreu, portanto, sem pena nem glória, renegado mesmo pelos setores curiosamente tornados democráticos na direita chilena, que somente se afastaram dele quando souberam da existência de inúmeras contas secretas gerenciadas pelo banco americano Riggs [2] em diferentes paraísos fiscais. Sua morte só foi realmente lamentada por aqueles que receberam as migalhas da grande espoliação: os militares e suas famílias, esse reprovável Estado dentro do Estado, proprietários por decisão constitucional do ditador, de 10% de todas as exportações de cobre.

De suas vítimas, de todos os que o resistiram, do presidente Salvador Allende, fica o exemplo moral que cresce a cada dia. Dele, nada resta digno de ser lembrado, somente o odor fétido que os bons ventos do Pacífico logo se encarregarão de levar.

Tradução: Leonardo Abreu
leonardoaabreu@yahoo.com.br



[1] Sobre a participação de Henry Kissinger no golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 contra o governo democrático de Salvador Allende, ler Christopher Hitchens, Les crimes de Monsieur Kissinger, Saint-Simon, Paris 2001.

[2] Em fevereiro de 2005, os dirigentes do banco Riggs decidiram depositar mais de seis milhões de euros para indenizar as vítimas da ditadura do general Pinochet. Ler Alain Astaud "Riggs bank, blanchisseuse de dictateurs’ (Banco Riggs, a lavanderia dos ditadores), Le Monde Diplomatique, agosto de 2005.


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