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CULTURA

Elogio da pequena edição

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Movidas pelo amor à literatura e empenhadas em oferecer diversidade, as editoras não-comerciais têm prosperado. Mas não dever haver ilusões: para que esta aventura prossiga, é preciso salvá-las do mundo das selvas e dos predadores

Pierre Jourde - (16/01/2007)

A França é, sem dúvida, o país do mundo onde o sistema de apoio à criação literária é o mais poderoso e o mais completo: inúmeros prêmios, feiras de livro distribuídas durante todo ano e em todos os setores, numerosos periódicos especializados, bolsas destinadas à criação e à residência de escritores. Deve-se acrescentar ainda uma densa rede de livrarias. Muitos de seus proprietários organizam encontros com autores e sacrificam seu tempo e seu dinheiro para defender a literatura. Tal sistema permite que numerosos escritores sobrevivam e sejam reconhecidos.

A diversidade das editoras, tanto pelo tamanho como pela especialidade, é um elemento determinante. Sem os pequenos editores de literatura, muitos escritores não chegariam a obter seu espaço. Isso não significa que, em pequenas estruturas, se publiquem obras mais interessantes do que em grandes editoras como a Gallimard e a Seuil. A alternativa não é, proporcionalmente, nem pior, nem melhor. Mas as pequenas editoras exercem, ao menos, quatro funções essenciais: permitir que jovens autores consigam a publicação de suas obras; garantir a sobrevivência de gêneros pouco comerciais; proporcionar a passagem pela França uma parte importante da literatura estrangeira; e reeditar certos escritores esquecidos [1].

É preciso entender o que se chama “pequena edição” em literatura. Em muitos casos, um pequeno editor dissimula um maior, do qual ele apenas constitui uma pequena coleção. O verdadeiro pequeno editor é independente. Em geral, é difundido por um distribuidor especializado, em estabelecimentos de pequeno porte, ou até mesmo pratica a autodifusão. Funcionando com uma ou duas pessoas, sempre sem a preocupação com fins lucrativos. Para alguns, a edição literária é uma atividade artística praticada fora de uma profissão e que demanda muitos custos e tempo. Quanto a viver dessa atividade, nunca se encontra facilidade [2].

Um terreno para os desbravadores e românticos

Os editores ricos sempre dizem que publicar escritores medíocres, mas “vendáveis”, lhes permite publicar autores mais “difíceis”. Quanto a isso, não há dúvida. Mas, na maioria dos casos, estes só encontram abrigo – paradoxalmente – nas editoras modestas. Quando um iniciante é recusado por todas as grandes editoras, ele se volta para uma pequena. Se alcança sucesso, é muito freqüente que ele a abandone e que seja recuperado por uma grande estrutura provida dos meios de fazê-lo ascender mais rápido à notoriedade e aos prêmios.

As edições Parc – que publicam belos livrinhos originais, numa quase completa indiferença – arriscaram-se a lançar os primeiros textos de Gilles Sebhan e de Pierre Mérot. Mas, exceto por alguns descobridores, como Dominique Noguez, os jornalistas só começaram a considerá-los interessantes, no momento em que entraram nas editoras mais conhecidas. Outros tiveram menos sorte. Uma pequena obra-prima como Carnaccia, de Olivier Gambier, está destinada a permanecer quase ignorada. Daqui a um século, talvez esse autor seja classificado dentre os grandes esquecidos. Um dia se reconhecerá em John Gelder, que fundou a Parc, uma dessas figuras desconhecidas da edição, comparável a um Poulet-Malassis, o editor das Flores do Mal de Baudelaire; a um Léon Genonceaux, o de Lautréamont; ou a um Delangle, que se arruinou publicando A história do rei da Boêmia de Charles Nodier.

Os exemplos se multiplicam. Olivier Bessard-Banquy resume perfeitamente o caso edificante de Michel Houellebecq, que lançou seu primeiro romance pela editora de Maurice Nadeau: "publicado de início por um editor corajoso, mas que dispunha de poucos recursos, Houellebecq beneficiou-se da extraordinária riqueza da pequena edição que, sozinha, foi capaz de sustentá-lo e conduzi-lo ao público, enquanto que todas as grandes editoras lhe tinham fechado as portas ” [3]. Da mesma forma, Philippe Claudel publicou livros na Phileas Fogg ou na La Dragonne, antes de conhecer o sucesso na Stock com As almas cinzentas (Les âmes grises). Hédi Kaddour, autor de Waltenberg (ed. Gallimard), publicava antigamente na editora Le Temps qu’il fait. A Tristram abriu espaço para Mehdi Belhaj Kacem. A José Corti publica quase toda a obra de Claude Louis-Combet. A POL, na época em que era independente, arriscou-se a sustentar a obra “difícil”, mas essencial, de Valère Novarina, sem falar de Jean Daive, Christian Prigent, Eric Meunié. Nela, Richard Millet lançou inúmeros livros, antes de passar para a Gallimard.

Abrigo para os gêneros, tons, experimentos

Sem a pequena edição, a poesia na França não teria sobrevivido. Nem a Grasset nem a Fayard perderiam um centavo publicando jovens poetas. Essas editoras têm por vocação as cifras de negócios. Não se pertence impunemente ao império Lagardère. Numa existência, às vezes, tão efêmera como a das revistas, as editoras de poesia – inúmeras e dedicadas – têm, por exemplo, os seguintes nomes: l’Escampette, le Dé bleu, Créaphis, Lettres vives, Farrago, Akenaton, Comp’act, Al Dante, Tarabuste, Fata Morgana, Cadex, Deleatur, Le Temps qu’il fait, Rougerie, Encres vives, Obsidiane, Cheyne, Aencrages, etc. Elas publicam, constantemente, também belos livros, nos quais um escritor associa-se a um artista, como a Voix d’encre, em Montélimar. Sem eles, poderíamos ler Alain Borne, Valérie Rouzeau, James Sacré, Christophe Tarkos, e quase todos os que animam a vida poética, talvez hoje mais intensa do que nunca?

Esse fenômeno não é novo, mas tende a se acentuar. Há cinqüenta anos, os grandes editores faziam mais investimentos a longo prazo e menos em grandes lotes e em vendas rápidas. Editava-se, por exemplo, mais facilmente a poesia. Robert Vigneau, que publicou em 1979 o magnífico Elégiaque, na coleção "Blanche", da Gallimard, encontra apenas os micro-editores. Além disso, nos anos 1960 e 1970, momento do boom econômico e cultural, os editores importantes arriscavam-se mais facilmente a publicar textos complexos e de autores pouco conhecidos, com medo de perderem o trem da modernidade.

Não são somente os autores marginais ou os futuros grandes escritores que encontram abrigo nas pequenas editoras, mas também os gêneros e os tons menores, negligenciados ou provisoriamente desprezados, como foi antigamente o romance: erotismo, sátira, zombaria, insólito, falsos dicionários, catálogos de exposições, bizarrices, histórias incongruentes e universos imaginários encontram-se em editoras como a Parc, a Le Daily Bul, a La Musardine, a Desmaret, a Berg ou a Joca Seria. Nem tudo obteve êxito, mas os pequenos editores continuam como o principal lugar de experimentação e de invenção, sem as quais uma literatura não vive.

Muitos autores estrangeiros vivos têm que passar pelas pequenas editoras para serem conhecidos. A Fosse aux ours efetua um trabalho essencial para a divulgação da literatura italiana. A L’Esprit des péninsules publica escritores mongóis, croatas, búlgaros e turcos. Anne-Marie Métailié oferece para a leitura textos, entre outros, brasileiros e portugueses; e Liana Levi traduz do hebreu ou do iídiche.

Quando a edição é outra forma de arte

Enfim, na maior parte dos casos, é na pequena edição que o amante da leitura encontrará reedições cuidadosas de autores esquecidos, de textos raros de grandes autores, de obras que tiveram sua importância na história da literatura ou do pensamento. A Interférences publica uma bela edição ilustrada das Diabruras moscovitas (Diableries moscovites) de Tchaianov; a Sillage, o Tannhaüser crucificado (Tannhaüser crucifié) de Hanns Heinz Ewers; e Editions du Sandre trazem à luz As noites de São Petersburgo (Les Soirées de Saint Petersbourg) de Joseph de Maistre, essencial para a história do pensamento no século 19.

Graças à editora La Chasse au Snark e Editions du Fourneau, podem ser reencontrados diversos textos do fim do século 19. Por meio de Max Milo redescobriu-se o primeiríssimo vencedor do prêmio Goncourt, John-Antoine Nau, ou – sob uma forma infelizmente muito incompleta – o Entartung de Max Nordau, uma das referências do discurso fascista sobre a criação [4]. Fornax desenterra o saboroso Meus Estados de alma ou As sete crisálidas do êxtase (Mes Etats d’âmes ou les sept chrysalides de l’extase), do "Visconde Phoebus (Retoqué de Saint-Réac)"; enquanto a Castor Astral traz textos desconhecidos de Emmanuel Bove, Erik Satie e Alfred Jarry. Durante muito tempo, só era possível achar certos romances de Joris-Karl Huysmans ou antologias de novelas de Jean Lorrain, nas edições A rebours, Christian Pirot, Maren Sell. E quem mais além de Jérôme Millon publicaria as raridades da mística cristã?

Apesar de seus poucos recursos, esses editores também são freqüentemente artistas, realizando belos livros: seja na tradição — bela tipografia, belos papéis de impressão, belos projetos gráficos; seja na invenção, chegando a fazer de um livro um verdadeiro objeto de arte moderna. Por quantias bem modestas, é possível obter obras da Archange Minotaure, da Eolienne, da l’Epi de seigle ou da Sétérée.

Uma espécie ameaçada de extinção?

As pequenas edições têm, simultaneamente, um problema de visibilidade e um financeiro. Os comerciantes de livros vêem-se esmagados sob a pilha de romances. Como encontrar espaço para uma antologia poética mal distribuída, de trezentos exemplares de tiragem, dos quais só se vende um ou dois, em seis meses? Não só os jornalistas concedem quase todo o espaço destinado aos lançamentos literários, a dois ou três livros publicados pela Flammarion, Grasset ou Albin Michel. Os prêmios mais conhecidos também são sistematicamente atribuídos a livros de grandes editoras.

Enfim, como se fosse necessário definitivamente acabar com a pluralidade e com a edição independente, as grandes estruturas editoriais invadem as prateleiras com tiragens maciças e lotam os corredores nas lojas Fnac. Setecentos romances franceses foram publicados em setembro. Essa abundância não significa que o leitor pode, verdadeiramente, optar ao comprar. As memórias de um cantor ou o romance de um apresentador de televisão, pela OX ou pela Jean-Claude Lattès, não são necessariamente mais legíveis e mais tocantes do que uma narrativa de Oliver Rohe ou uma reedição de Pierre Louis, pela Allia. Mas, na ausência da verdadeira informação, o leitor comum não escolhe: ele pega o que vê e sobre o que todo mundo fala. Alguns editores têm até os meios de fazê-lo crer que está realmente escolhendo.

Espantamos-nos com as ofensivas correntes das grandes editoras (sendo uma das mais recentes a de Laure Adler, da Seuil) que atacam as pequenas, para lhes reprovar por terem apenas um sucesso de esnobismo ou por atravancarem as prateleiras das livrarias. Os grandes editores não se satisfazem com o fato de serem ricos: é preciso também que os outros não tenham o direito de existir.
Um pequeno editor, a menos que desfrute de uma fortuna pessoal ou encontre um mecenas, acaba sendo devorado por um maior. Se quiser sobreviver e continuar independente, deve sempre obter recursos de incentivo à publicação oferecidos pelo Centro Nacional do Livro (CNL). Mas este não pode sustentar todo mundo.

Somente uma minoria, entre os pequenos editores, está instalada em Paris. O estabelecimento na província permite solicitar ajuda aos centros regionais do livro. Mas o apoio das coletividades locais pode acarretar uma nova espécie de dependência e obrigar o editor a entrar num sistema de medidas políticas quase feudais. Algumas regiões concederão seu apoio de preferência a livros que ilustrem o patrimônio regional: por isso toda uma tendência voltada à literatura provinciana. A descentralização desdobra-se em localismo cultural.

Em favor da diversidade, uma decisão política

A edição tende a se concentrar em vastos conglomerados, que agrupam casas editoriais e jornais. Esses mesmos conglomerados tornam-se propriedade de grupos industriais que não têm nada a ver com a literatura. Disso decorre uma produção orientada para uma rentabilidade rápida, um poder esmagador da distribuição e de publicidade e permanentes conflitos de interesse: os jornalistas encarregados de orientar as escolhas literárias dos leitores são remunerados pelos próprios produtores de livros.

A indispensável sobrevivência das pequenas editoras independentes apenas será possível se os poderes públicos considerarem seriamente a cultura como uma exceção às regras do liberalismo. Não somente se opondo a certos agrupamentos, mas garantindo a verdadeira autonomia política, econômica e cultural de centros regionais e nacionais do livro.
Isso dependerá também da responsabilidade de todos os que intervêm na difusão do livro, para que o público das pequenas editoras não se limite apenas a curiosos e esclarecidos amantes da leitura. As próprias livrarias que tentam sustentar essas editoras precisam de apoio.

Um jornalista deveria estabelecer como lema inviolável nunca se prestar a auxiliar operações publicitárias, nem, sob pretexto de um "evento", atirar-se na defesa de vencedores. Os membros dos júris de prêmios literários, ao invés de destinar os mais valiosos aos mais ricos (que têm, de fato, certos meios de manipular esses júris), deveriam se sensibilizar em coroar obras publicadas por pequenas editoras. Quando se verá a editora Exils receber um prêmio Goncourt? E Sabine Wespieser uma premiação do Femina?

Tradução: Leonardo Rocha
leorocha2003@yahoo.com.br



[1] Algumas editoras aqui mencionadas publicaram textos do autor deste artigo. Que não ocorra mal-entendido: não há nenhum interesse econômico ou estratégico, ao evocar editores desprovidos de poder e de condições financeiras...

[2] Uma boa maneira de descobrir essas editoras é passear no Mercado da Poesia (Marché de la Poésie), que ocorre no mês de junho, em Paris, ou no Salão da Pequena Edição, em Crest, em Drôme.

[3] Olivier Bessard-Banquy (com a direção de), L’Edition littéraire aujourd’hui, Les Cahiers du livre - Presses universitaires de Bordeaux, 2006, p. 18.

[4] Paradoxalmente, Nordau era judeu.


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