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ALTERNATIVAS

A revolução do Outro

Ilustração: Yili Rojas

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Nossa contribuição ao 7º Fórum Social Mundial, que começa em 20 de janeiro, desta vez na África: num ensaio inédito, Gilberto Gil debate o papel da diversidade cultural, no esforço para repensar a emancipação social

Antonio Martins - (19/01/2007)

Um paradoxo notável marca, há muito, o conceito de diversidade. Ele está cada vez mais incorpoado, como valor positivo e desejado, em vastos terrenos da vida social. Nas artes e produtos culturais, a antiga preferência acrítica pelo que era proveniente do Norte do planeta vem sendo substituída pela apreciação internacional, e já não restrita a pequenos círculos, de novas tradições: o cinema iraniano, chinês ou argentino; os músicos de Cuba ou do Mali; o design da África; a culinária da Índia ou do Peru, entre tantas outras. Nos comportamentos, cultivam-se as várias formas de identidade sexual e desejam-se as cidades multiétnicas. Na política, emergem os Fóruns Sociais, que celebram a possibilidade de transformar o mundo articulando distintas ações de múltiplos sujeitos sociais – e estimulando desde as grandes mobilizações globais até as ações quotidianas que vão demonstrando, por meio do exemplo, que é possível organizar a sociedade com base em valores pós-capitalistas.

E no entanto, pouco se reflete sobre os sentidos da diversidade? Até que ponto estamos dispostos a defendê-la, quando ela entra em conflito com outros valores e interesses? As práticas concretas fornecem as respostas de cada um. Durante décadas, os governos dos Estados Unidos procuraram se apresentar como grandes defensores da “liberdade de escolha” – porque ela podia servir de contraponto à homogenidade e ao dirigismo que prevaleciam no bloco soviético. Em 2005, porém, Washington guerrou até o último momento para tentar impedir que fosse aprovada, na Unesco, a Convenção Mundial para Promoção e Defesa da Diversidade Cultural [1]. Temia que as sociedades e governos se apoiassem neste princípio para estimular seus próprios criadores, ao invés de consumir eternamente produtos como o cinema de Hollywood, a Coca-Cola ou o McDonalds. O pragmatismo freqüenta outros territórios. No próprio Fórum Social Mundial, não é raro surgirem propostas que sugerem “organizar” a imensa diversidade do encontro, escolhendo, em nome da eficácia, um pequeno conjunto de campanhas “centrais” – ao invés de cultivar as milhares que surgem a cada ano.

É por isso que tem enorme importância o ensaio "Hegemonia e Diversidade Cultural", apresentado por Gilberto Gil durante o II Fórum Cultural Mundial [2] e publicado em primeira mão por Le Monde Diplomatique-Brasil. Embora proponha-se, a princípio, a debater especificamente a diversidade cultural, o texto revela, desde o início, um alcance muito maior. Gil anuncia: “a incorporação da diversidade em nossos corações – e em nossas instituições – é o reconhecimento de que diferenças culturais são positivas, mas desigualdades sociais não são e nem serão jamais”. E anuncia: “é desse binômio entre diversidade e desigualdade que pretendo partir, para uma discussão com vocês”.

Em pauta, a crise do projeto emancipatório moderno

A seguir, ele inicia uma linha de raciocínio original, que dialoga, em última instância, com a crise da modernidade e dos projetos emancipatórios que a marcaram – mas destaca, ao mesmo tempo, a possibilidade de encontrar, no terreno dos símbolos, pistas para a reinvenção destes projetos. O ponto de partida é o esgotamento de duas “visões de tempo lineares” que predominaram tanto na Idade Média quanto naquilo que herdamos do Renascimento. A primeira, chamada por Gil de “cristã arcaica”, voltava-se, segundo ele, para o passado: o mundo, “incapaz de honrar sua origem celestial (...), perdia sentido, como uma ampulheta: o homem sonhava com a origem, e sofria ao dela distanciar-se”. A segunda “projetou adiante uma nova visão, acelerando o curso do tempo e apontando para o progresso, para o futuro”.

Aparentemente opostas, ambas tinham muito em comum, além da linearidade: “o egoísmo do homem situado no universo”, algo tipico do eurocentrismo. O ensaio provoca: “A velha idéia de civilização buscava a harmonia universal pela busca da hegemonia: suas aspirações milenaristas podiam, ao fim, impor sua lógica de cima para baixo e encontrar a dominação, a supressão, os saques e os corpos feridos pelas batalhas de colonização. A velha frase de Benjamim, de que um documento de civilização é também um documento de barbárie, sintetiza bem o saldo negativo da colonização”.

Para Gil, esta visão de tempo e mundo é desafiada, ao mesmo tempo, por dois grandes fatos: os estudos da antropologia e as “lutas coloniais e pós-coloniais das multidões”. Estas “forças intelectuais e sociais (...) fraturaram o centro geopolítico do mundo, revelaram um planeta multicêntrico, com múltiplas imagens de si mesmo”. A tal ponto que “estamos hoje desalojados destes sentidos lineares de tempo. Vivemos a dissolução “de uma velha ordem de trabalho, de cultura e de tecnologia”, e “isso se reflete em vidas concretas, na falta de planejamento narrativo das vidas dos trabalhadores e em nossas instituições, que não mais oferecem o modelo de estabilidade do começo do século 20”.

Uma visão particular da Cultura e seu papel

Aqui jogará papel a diversidade cultural. Gil acredita que ela se tornou “motor de nossas melhores expectativas, elemento capaz “de reorganizar uma agenda de emancipação e realização humanas”. Tal afirmação sustenta-se em dois pontos de vista. Primeiro, a própria abrangência do conceito de Cultura. Ao contrário de uma certa visão materialista, o texto não a enxerga como algo subordinado (e, portanto, separado) das condições materiais em que os seres humanos constróem sua vida, e das relações que estabelecem entre si ao fazê-lo. Também não a vê como sinônimo de produtos culturais ou artísticos.

Na concepção de Gil, cultura é todo “o labor humano sobre a natureza, a realização da mão do homem sobre a fartura limitada do planeta”. Este conceito implica uma nova relação com o ambiente: cultura “pressupõe o trabalho constante de volver a terra, de reverenciar a matriz natural do que fazemos”. Mas os desdobramentos éticos, filosóficos e políticos deste ponto de vista vão além. Se cultura é toda nossa ação sobre o planeta, e se diversidade cultural é um valor central, então torna-se clara a associação que Gil faz entre ela e a igualdade social.

Porque, se as formas que o ser humano desenvolveu para interagir com o mundo são todas legítimas, complementam-se e se enriquecem umas às outras, como aceitar que poucas, dentre elas, sobreponham-se às demais, em relações de hierarquia e dominação? Como permitir que certas “culturas” apropriem-se dos recursos do planeta, numa relação predatória e destrutiva que terminará por ameaçar a própria vida? Como não reagir quando outras “culturas” são obrigadas, pela lógica social na qual estamos imersos, a condições de vida dramaticamente precárias, que ameaçam sua própria existência?

De que modo combater esta assimetria, uma ameaça permanente tanto à diversidade quanto à igualdade? Gil oferece algumas pistas. “Entre as lutas pós-coloniais estão as lutas nacionais e globais de acesso e afirmação tardia dos direitos – direitos à cidadania, ao prazer, ao lazer e ao tempo livre”. Ele se refere, inclusive, a um fator que multiplica a potência e o alcance destas reivindicações: a “redefinição radical da forma de produção e geração de valor”: o surgimento da Economia Criativa, que desloca, para o plano dos símbolos e da subjetividade – o conhecimento, a informação, os múltiplos saberes – a própria criação de riquezas.

Em Nairóbi, dois mundos e um sussurro

O ensaio articula crítica e sonho, análise e poesia. Em certo trecho, apropria-se de formulações típicas dos Fóruns Sociais: “a força emergente da diversidade, sujeita e ciente de si própria, qualifica a globalização e impede que seja reduzida à circulação de mercadorias – uma forma de organizar o mundo que, ao excluir outras dimensões, acentua assimetrias”.

Logo a seguir, em tom onírico, refere-se a alteridade, a valorização e o desejo do Outro: “em nossos sonhos modernos e pós-modernos e em nossas vigílias em cavernas escuras, sonhamos com o Velho Mundo. E o Velho Mundo sonha com a modernidade americana, com as paisagens de larga escala e as posturas de corpo, de afeto e de informalidade destes tristes trópicos (...) E se esta imaginação de diversidade é comum a todos os povos, é porque ela, esta predisposição de afeto, esta reserva de conhecimento superior, é o que nos repõe uma perspectiva de humano – sem que esta perspectiva universal tenha qualquer conteúdo regressivo, qualquer perspectiva de uniformidade”.

Em Nairóbi, onde se termina de redigir estas linhas, dois mundos se confrontam. Num canto, ruge a desigualdade: as multidões que perambulam incansáveis pela metrópole empoeirada, sem ocupação nem lazer; os 800 mil seres humanos que se comprimem em Kabila, a favela onde não há água, nem esgoto, nem casas, nem pão, nem paz; a expectativa de vida que caiu a 43,5 anos [3], porque as corporações farmacêuticas não querem abrir mão do “direito” de patente sobre os remédios contra AIDS; o “turismo exótico”, que oferece hotéis de 500 dólares por noite, algo que a maioria dos habitantes não receberá em três anos.

Na mesma cidade, imagens da alteridade sonhada por Gil: dois dias antes do início de mais um Fórum Social Mundial, o carnaval de etnias, idiomas, sujeitos, saberes, lutas e sonhos que nele se encontram; a solidariedade com os dramas do Quênia e da África; os choques culturais que produzem reflexão, auto-questionamento e mudança; os abraços e sorrisos cúmplices que parecem sussurrar: “um outro mundo é possível”.

O último parágrafo do ensaio de Gil poderia ser tomado como uma homenagem a esta babel utópica. Diz ele: “a noção de diversidade pode se contrapor à realidade das hegemonias produzidas por assimetrias, mas gostaria de frisar a vocês que não podemos descartar a validade do que chamamos de humano, mesmo que isso esteja infinitamente em aberto, esvaziado do velho conteúdo civilizador. Que a humanidade signifique entre nós esse desejo de completar-se no outro. Seja no vizinho, ou no desconhecido. Que possamos nos completar uns aos outros para além da tolerância e para além do multiculturalismo”.

Nosso dossiê:

No Le Monde Diplomatique-Brasil:

> "Hegemonia e Diversidade Cultural", o ensaio apresentado por Gilberto Gil no Fórum Cultural Mundial.

> "Quem tem medo da diversidade cultural", uma análise de Armand Mattelart sobre o alcance da Convenção Mundial pela Promoção e Defesa da Diversidade Cultural.

> "Não há fronteira que não se ultrapasse", uma reflexão de Edouard Glissant sobre identidades e alteridades.

> "Gastronomia, direito humano", onde se propõe ver a alimentação como algo mais que o sustento do corpo.

> "Pasolini, iconoclasta e indispensável", sobre um cineasta que iniciou, precocemente, a busca de novas formas de arte e ação transformadora.

Em outras fontes:

> Ciranda Internacional de Informação Independente: Direto de Nairóbi, o Fórum Social Mundial coberto por uma rede de jornalistas indepentes ou ligados a publicações alternativas.



[1] Ler mais, a este respeito, em “Quem tem medo da diversidade cultural”, de Armand Mattelart, em Le Monde Diplomatique-Brasil, outubro de 2005

[2] O II Fórum Cultural Mundial desenvolveu-se entre 24/11 e 3/12, e teve como sedes Rio de Janeiro e Salvador. A exposição de Gil comentada aqui foi feita no Rio, em 28/11, na conferência “Hegemonia e Diversidade”. Maiores informações sobre o evento, em www.forumculturalmundial.org.

[3] Em 1990, esperava-se que um queniano vivesse até os 55,6 anos. O índice atual é semelhante ao de 1960

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