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O novo despertar do Vietnã

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Lutando contra traumas de duas guerras, o país atrai investimentos, cria pólos de alta tecnologia e influi nos rumos Sudeste Asiático. Uma abertura cultural vai deixando para trás o "realismo socialista". O PC procura uma modernização na qual mantenha o controle do poder

Jean-Claude Pomonti - (12/02/2007)

A cidade de Ho Chi Min, a ex-Saigon, coerentemente promovida a motor da economia, está duplicando suas estradas urbanas, cavando um túnel sob seu famoso rio, planejando suas primeiras linhas de metrô e um aeroporto novo em Long Tanh, na estrada que leva ao balneário de Vung Tau, antigo Cap Saint-Jacques. Fervilhando de gente e de cores, Hanói cerca-se também de um cinturão de cidades satélites. Por seu lado, depois da inauguração, em dezembro, de uma ponte sobre o Mekong, na altura de Savannakhet (Laos), o porto de Danang, alojado em uma soberba baía no Vietnã central, prepara-se para efetivar sua vocação natural de prestar serviço ao Baixo-Laos e ao nordeste tailandês, complementando assim as instalações fluviais sobrecarregadas de Bancoc.

Desde a virada do século, a economia vietnamita é a mais vibrante do sudeste asiático, com uma taxa anual de crescimento de 7% até 2004 e de 8% desde então [1]. O Vietnã é o segundo exportador mundial de arroz, atrás da Tailândia, e um produtor importante de palma e café. Em 2006, o fluxo de investimentos estrangeiros aumentou em 50% em relação ao ano anterior e ultrapassou a marca dos sete bilhões de euros. Segundo uma pesquisa realizada em novembro pelo Asia Business Council, o Vietnã ocupa o terceiro lugar (38%) em relação aos projetos de investimento das multinacionais, atrás da China (85%), da Índia (51%) e na frente dos Estados Unidos (36%) [2].

Reservatório de cérebros e de capitais, melhor aceita pelas autoridades, a diáspora vietnamita – os filhos dos boat people dos anos 1970 – reforça o papel de ligação com exterior e alimenta de modo crescente a economia (mais de três bilhões de euros no ano passado). Instituições doadoras ampliam o movimento: 3,42 bilhões de euros prometidos para 2007, isto é, 20% a mais do que no ano anterior. O Banco Asiático de Desenvolvimento vem na frente (perto de 900 milhões de euros), seguido da União Européia (730 milhões de euros), Japão e Banco Mundial (cerca de 700 milhões de euros cada um).

Antes desconfiado, agora o PC encontra-se com Bill Gates

Na virada dos anos 1990, o Vietnã até que foi alvo de uma primeira paixão internacional. Contudo, a abertura do país aos investimentos estrangeiros e aos turistas era bem recente e o aparelho comunista, ainda muito cauteloso. O interesse desapareceu rapidamente. Era cedo demais. Hanói só havia retirado suas tropas do Camboja em 1989. Na fronteira com a China, as trocas de tiros de obus só terminariam no ano seguinte. Os últimos prisioneiros do antigo regime de Saigon, desfeito em 1975, só foram soltos em 1990. Em um país em guerra havia um século, a paz continuava uma quase-desconhecida.

Embora a normalização das relações com a China houvesse se consolidado o suficiente para permitir a assinatura de um acordo de paz com o Camboja, em outubro de 1991 (em Paris), ainda era um esboço. Digerindo mal duas décadas de muxoxos, Pequim achava que devia impor suas condições. Por sua vez, o Partido Comunista Vietnamita (PCV) estava sob o efeito de um golpe triplo: a queda do muro de Berlim e a implosão da União Soviética; a suspensáo do embargo econômico americano, que só aconteceria em 1994; o começo da integração regional do país, que se realizaria no ano seguinte, com sua admissão na Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, inimiga da véspera), e o estabelecimento de relações diplomáticas com Washington.

Mas a falsa arrancada dos anos 1990 agora pertence ao passado. No começo de 2006, o grupo Intel somou-se a um primeiro núcleo de empresas especializadas em tecnologias da informação. com um investimento anunciado de mais de 200 milhões de euros em uma fábrica de micro-condutores. Já em novembro, esse gigante norte-americano da informática aumentou muito seu investimento, elevando-o a quase 800 milhões de euros, agora em um parque tecnológico perto da cidade de Ho Chi Min. Com a criação de quatro mil empregos, esse investidor promete um efeito exponencial: dezenas de terceirizados, de fornecedores, de institutos de pesquisa. Durante uma estada de vinte e quatro horas em Hanói, em abril, Bill Gates foi assediado pelos estudantes. Na ocasião, em pleno 10o. Congresso do PCV, os dirigentes vietnamitas também se empenharam em encontrar-se com o dono da Microsoft o que lhes fez o seguinte discurso: não se contentem em fabricar equipamentos: entrem no software e no fornecimento de serviços.

Salários baixos, burocracia autoritária porém eficiente

Em 2005, esse setor tinha dado um salto de 40% e empregava quinze mil pessoas. Na época, Vincent Kapa, da Synexer, sociedade criada em 2001 e uma das pioneiras em informática no Vietnã, já apostava num "Bangalore" vietnamita. Hoje a realidade ultrapassa o sonho: o Vietnã ameaça suplantar, em alguns anos, as Filipinas, a Tailândia e até a Malásia, cujo Multimedia Super Corridor, inaugurado em 1996, sofre alguns fracassos. Por razões políticas, Taiwan e o Japão não querem concentrar seus interesses na China. Entre outras vantagens, a população vietnamita é muito jovem e se 40% dos formados no curso secundário na Tailândia iniciam estudos universitários – contra apenas 10% no Vietnã – a formação secundária em matemática oferece, no Vietnã, uma base considerada mais sólida.

Mais de quatorze milhões de vietnamitas – 17,5 % de uma população de 84 milhões de habitantes – utilizava regularmente o computador em dezembro de 2006, contra oito milhões em setembro de 2005. Os conectados à Internet são agora quatro milhões [3]. Um projeto-piloto visa ligar o campo à rede por meio de telecentros. Na telefonia, como o país teve seu impulso com muito atraso, o celular supriu a deficiência de aparelhos fixos: o número de linhas dobra a cada dois anos, e em julho de 2006, 18,5% dos vietnamitas utilizavam uma delas.

Outros gigantes – Nike, Canon, Alcatel, Fujitsu, Siemens – instalam-se, ou ampliam substancialmente suas operações. Apesar da corrupção, do atraso das infra-estruturas e das deficiências do sistema bancário, o Vietnã apóia-se em suas "vantagens": baixa remuneração do trabalho, recursos humanos que permitem a formação rápida imediata, uma burocracia autocrática mas capaz de "se mexer" desde que uma política tenha sido claramente definida.

País ingressa na OMC e quer influir em sua região

Um intenso crescimento, todavia, pode perder o fôlego. "quando você recebe um volume fluxo de dinheiro do exterior, tem que pensar bem no tipo de investimento que realmente quer", avalia Kongkiat Opaswongkarn, diretor-presidente da Asia Plus Securities. "Quando um país cresce rapidamente, pode muito bem haver um reverso da medalha" [4], acrescenta, aludindo às dificuldades atuais da Tailândia.

Apesar de uma evidente efervescência há alguns anos, o Vietnã só em novembro tornou-se uma das estrelas entre as economias emergentes. Passo a passo, o país foi admitido na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 7 de novembro; a 17 e 18 de novembro, organizou com sucesso uma cúpula do Pacífico Asiático, na presença de todos os que falam mais alto na região e de centenas de jornalistas que os acompanham. Enfim, o Congresso norte-americano votou, com pequeno atraso, o estatuto que instaura "relações comerciais normais e permanentes". Preparadas há muito tempo, as empresas norte-americanas aproveitaram a passagem do presidente George Bush pelo Vietnã para conseguir mais de 1,5 bilhões de euros de contratos, especialmente na construção das usinas elétricas encarregadas de alimentar a cidade de Ho Chi Min e seus arredores, principal pólo de desenvolvimento do país.

O regime é cada vez menos o dos ex-combatentes que pretendiam obter sua legitimidade das vitórias militares de outrora. O PCV, que conserva o monopólio do poder político, admitiu em suas fileiras, durante seu 10o. Congresso, os capitalistas, ao lado dos operários, dos camponeses e dos intelectuais. Figurando ainda no preâmbulo da Constituição, a ditadura do proletariado incorpora a economia de mercado. Desde as reformas de 2001, o setor privado tornou-se, de longe, o principal criador de empregos.

Em busca de uma segunda legitimidade, o PCV tenta adotar a postura de pai do desenvolvimento. A negociação, ao mesmo tempo firme e hábil, da adesão à OMC foi lançada como crédito seu. Os investidores estrangeiros também levam em conta que para obter uma ligação à rede elétrica são necessários em média 17 dias, contra 23 dias na Tailândia. Ou que a instalação de uma linha telefônica leva 9 dias no Vietnã (15 dias na Tailândia).

Famílias comunistas põem um pé no mundo dos negócios

O fato é que o aparelho comunista adapta-se à mudança, com um certo pragmatismo. Há anos aceitou transformar a ex-Saigon, e as treze províncias que a cercam, no pulmão da economia. Por outro lado, a dinâmica vem muitas vezes da base, de uma população ativa, e a cesura é um problema das gerações. Muitos membros das famílias comunistas têm hoje em dia ao menos um pé, se não os dois, nos negócios, na construção, no planejamento do desenvolvimento. Beirando os cinqüenta anos, a maior parte deles se formou em universidades ocidentais e fazem questão, mais que as gerações anteriores, de não perder o contato com a realidade.

Mas se o estilo de governo se moderniza rapidamente, o PCV tem sérios problemas para resolver, começando pelo aumento da corrupção em suas próprias fileiras. Certos escândalos não podem ser abafados. No início de 2006, desvios de recursos pela PMU 18, unidade do ministério dos Transportes, foram manchete nos meios de comunicação e obrigaram a direção comunista a impor sanções. Envolvendo compra de proteção (inclusive nas altas esferas), luxo e luxúria, o caso fez barulho a ponto de tirar o general Vo Nguyen Giap, ícone vivo, de sua reserva. Em uma carta "aberta" ao partido, o vitorioso de 1954 (na batalha de Dien Bien Phu, que pôs fim à colonização francesa) e de 1975 (queda de Saigon, marco da vitória contra os EUA) avaliou que "o partido tornou-se um escudo de proteção para funcionários corruptos".

Desde a morte de Le Duan, falecido em 1968 depois de trinta anos à frente do PCV, o partido é administrado por tróicas cujos membros passam muito tempo na escola antes de chegar ao poder. O 10o. Congresso produziu uma nova, que reúne Nong Duc Manh (o secretário-geral anterior) e dois novos dirigentes, Trinh Minh Triet (chefe de Estado) e Nguyen Tan Dung (primeiro-ministro). Ainda é muito cedo para avaliar o que constitui uma novidade: a promoção de dois "sulistas", Trie e Dung, depois de um "nortista". Antes, o trio era formado por representantes das três grandes regiões, norte, centro e sul. Em troca, mais discreto, o reforço do exército e dos serviços de segurança dentro do aparelho merece ser notado. Em caso de ventania...

Uma literatura mais intimista e mais cosmopolita

Um bom sinal da mudança é a explosão literária. No fim do século passado, uma nova geração de escritores, muitas vezes ex-combatentes e até membros do PC, deu um golpe sem dúvida definitivo em uma literatura que se nutria de realismo socialista. Nguyên Huy Thiep, Duong Thu Huong, Bao Ninh, Pham Thi Hoai puseram fim a um mito e a uma hipocrisia: o Vietnã sofreu reviravoltas, não uma revolução. Diante de uma onda de escritores que são também investigadores, os literatos oficiais não tiveram outra resposta além de censurar ou reescrever, principalmente nos livros de história. Este combate de retaguarda é empreendido com cada vez menos firmeza.

Alguns anos mais tarde, o Relato do ano 2000 de Nguyen Ngoc Tan foi publicado pela editora Thanh Nhien. O autor relata as duras condições nas quais foi preso, trinta anos antes, durante uma campanha contra os "revisionistas". O livro correu o país antes de ser destruído, por ordem das autoridades, algumas semanas depois de sua publicação. Mas houve uma reviravolta: a censura só é exercida agora a posteriori. Os editores que assumam a responsabilidade antes de pôr um livro à venda, correndo o risco de vê-lo retirado de circulação.

Desde o começo deste século, uma nova geração assume [5]. Estes jovens vêm de toda parte, inclusive de além-mar. Em Saigon, formam grupinhos: os "anti-poetas" fundaram o Mo Miêng ("Abrir a boca"); as poetisas, "Louva-a-Deus", cuja fêmea tem a fama de comer o macho depois do acasalamento. Trata-se de uma literatura mais intimista, ao mesmo tempo cosmopolita e que se alimenta de escritores de antigamente. A polícia cultural vigia seus passos hesitantes, que implicam numa recusa de seguir caminhos já percorridos. "O zen não é um prato de miojo", responde Ly Doi, porta-voz do Mo Miêng. "O vertical contra o horizontal: a verdade não vem mais do alto", explica Nhu Huy, pintor e companheiro de percurso.

O Vietnã colocou-se sob o signo da efervescência há alguns anos. O PCV adapta-se, mantendo severamente as rédeas sobre tudo o que possa se parecer a uma dissidência política. Os gargalos, tanto econômicos quanto políticos, são muitos. O país escapou por um fio: ainda que a renda per capita tenha triplicado desde 1990, em 2006 é de apenas 550 euros por ano, com 850 euros como objetivo para 2010 [6]. É bem verdade que a paz, a verdadeira, ainda não completou vinte anos.

Tradução: Elisabeth Almeida
betty_blues_@hotmail.com



[1] 8,2% em 2006, declarou dia no 13 de dezembro o vice-primeiro ministro Pham Gia Khiem. Haviam sido 8,4%, em 2005. As previsões oficiais para 2007 estão entre 8,2 e 8,5%. Segundo o Banco Mundial, a taxa de expansão econômica foi de 6,8% em 2000, 7,7% em 2004 e 8,4% em 2005.

[2] The New York Times, 1O de dezembro de 2006.

[3] Cf. o diário Thanh Nien ("A Juventude"), Ho Chi Min, 5 de janeiro de 2007.

[4] Citado por The Christian Science Monitor, Boston, 15 de dezembro de 2006.

[5] Ver especialmente a antologia que lhes foi dedicada por Doan Cam Thi, Au rez-de-chaussée du paradis, Philippe Picquier, Paris, 2005.

[6] Segundo o primeiro-ministro Nguyen Tan Dung, em um discurso diante de doadores, no dia 13 de dezembro de 2006, Banco Mundial, comunicado à imprensa N° 2007/185/EAP.


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