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REPORTAGEM

A anexação de Jerusalém Oriental

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Como o governo de Israel impõe medidas de segregação contra muçulmanos e cristãos, para impedir a construção de um Estado palestino e frustrar as negociações que poderiam abrir um processo de paz no Oriente Médio

Dominique Vidal, Philippe Rekacewicz - (12/02/2007)

Saindo de Tel-Aviv, a estrada principal corre em linha mais ou menos reta e então, logo depois de passar pelo aeroporto Ben Gourion, começa a ondular e a subir rumo a Jerusalém, entre colinas cuja conquista pelas forças judaicas, em 1948, derramou tanto sangue. A 700 metros de altitude, ela penetra na cidade santa pelo lado oeste. Na verdade, os israelenses assim como os estrangeiros podem escolher entre inúmeras opções: é possível alcançar o centro da cidade por muitas outras estradas, tanto ao norte como ao sul.

Já para os palestinos da Cisjordânia, ir para a cidade três vezes santa é uma história bem diferente. Supondo-se que consigam transpor os postos de controle internos, irão esbarrar no mais brutal dos obstáculos já inventados para controlar e limitar os deslocamentos nos territórios ocupados: um muro, de dez metros de altura, que em breve isolará por inteiro a parte oriental da cidade, apagando a paisagem e fechando os acessos tradicionais. Ele corta em cheio até mesmo os dois grandes eixos históricos – Jerusalém-Amã (estrada 417) e Jenin-Hebron (estrada 60). A monstruosa serpente não pára de crescer e só é interrompida – para os cisjordanianos – em quatro pontos: Qalandiya ao norte, Shuafat ao nordeste, Ras Abu Sbeitan a oeste e Gilo ao sul. Ainda assim, se quiserem alcançá-los, eles deverão passar por inúmeros desvios, deixar o seu carro e entrar na cidade a pé, uma vez que os veículos palestinos (cujas placas são verdes) são terminantemente proibidos em Jerusalém…

Por muito tempo encarregado, pelo ministério israelense da Defesa, de conceber, traçar e construir a “barreira de segurança” (segundo a terminologia oficial), o coronel Danny Tirza é apelidado de “segunda Nakba” [1] pelos palestinos. Dentre os objetivos do seu grandioso projeto, ele promete a Jerusalém onze postos de controle parecidos com “terminais de aeroporto”. Mas esta não é a impressão que deixa uma passagem, mesmo curta, como a de Gilo. Por todo lugar, placas praguejam: “Entrem um por um”, “Esperem pacientemente sua vez”, “Deixem este lugar limpo”, “Retirem o seu casaco”, “Obedeçam às instruções”. Os corredores, gradeados tanto por cima quanto nos lados, parecem com os túneis que conduzem as feras até a pista de um circo.

A maior investida israelense, desde 1967

Só que aqui não há nenhum mestre de picadeiro: após ter passado pela portinhola, acima da qual uma luzinha indica se está ou não aberta, uma voz metálica exige que o visitante submeta suas bagagens ao detector. Por trás dos vidros blindados e escuros, dá para adivinhar que alguém está observando. Finalmente uma presença: um soldado desalinhado, com os pés sobre a mesa e a metralhadora Uzi a tiracolo, controla os documentos, sussurrando ou ladrando – dependendo do semblante do seu interlocutor. Na saída, outros cartazes desejam aos “usuários”, em três línguas, “bem-vindo a Jerusalém” (que, contudo, fica a 4 quilômetros dali). “E que a paz esteja com você”…

O plano de partilha definido pela ONU em 1947 havia dotado a cidade de um “regime internacional particular”, que permanece, em 2007, o seu único status mundialmente reconhecido. Mas a guerra de 1948 resultou na sua divisão entre Jordânia e Israel — que instalou sua capital na parte ocidental, antes de se apoderar, em 1967, da parte oriental e anexá-la. Em 1980, uma lei fundamental proclama Jerusalém “inteira e reunificada, capital eterna de Israel”. Na falta de eternidade, a política de todos os governos israelenses, desde então, tem sido preservar a hegemonia judaica sobre a cidade e impedir a sua divisão. O que impede o nascimento de um Estado palestino que tenha Jerusalém Leste como capital.

“A chave é a demografia”, explica Khalil Toufakji, o diretor do departamento de cartografia da Sociedade dos Estudos Árabes, conselheiro da delegação palestina até as negociações de Camp David. “Impor uma ampla maioria judaica sempre foi a prioridade absoluta dos israelenses. Mas os palestinos passaram de 20% da população, em 1967, para 35% — e poderiam ser majoritários em 2030” [2]. Este aumento resulta da diferença entre as taxas de natalidade, assim como da saída dos judeus da cidade, expulsos pelo desemprego, a crise da habitação e… o clima de intolerância criado pelos religiosos ultra-ortodoxos.

A tal ponto que um tabu de sessenta anos acaba de ruir: por mais que o esquema-diretor para 2020 reafirme a proporção política de 70%-30%, ela também “considera” uma outra, pragmática, de 60%-40% [3]. “Como se existisse uma porcentagem certa”, exclama Meron Benvenisti, sem dúvida o melhor especialista em Jerusalém, para quem isso não passa de “racismo puro e simples. Nós vivemos na única cidade no mundo onde uma porcentagem étnica faz as vezes de filosofia”. Menos explosivo, Menahem Klein – ele também um ex-conselheiro em Camp David, só que do lado israelense – acrescenta: “Os pragmáticos constatam, os políticos lutam: nós estamos assistindo ao maior esforço dos israelenses desde 1967 para anexar Jerusalém”.

Para destruir território e identidade árabes

Historicamente, o primeiro instrumento desse esforço foi a extensão ilegal das fronteiras municipais. O fato é resumido por Amos Gil, o diretor da associação Ir Amim (A Cidade dos Povos): “A cidade antiga só tem um quilômetro quadrado; com os bairros árabes que a cercam, ela alcançava, no tempo da Jordânia, 6 km2. Israel anexou, em 1967, 64 km2 de terras cisjordanianas – no meio das quais, 28 aldeias – para alcançar 70 km2. Quando o muro for concluído, ele cercará a leste uma área de cerca de 164 km2”.

“Há uma cor que só existe por aqui: o verde político”. Meir Margalit, o coordenador do Comitê Israelense contra as Destruições de Casas (ICAHD), lembra que, quando o chefe do partido de esquerda Meretz, Ornan Yekutieli, manifestou a sua indignação com a construção da colônia de Har Homa no lugar de uma magnífica floresta palestina, o então prefeito Teddy Kollek, que morreu recentemente, retorquiu: “Este local só é verde para os árabes”. É um caso de apartheid ecológico: nessas áreas “antes amarelo-poeira e repletas de lixo” – zomba o arquiteto Ayala Ronel –, os árabes são proibidos de construir, mas os judeus estão autorizados a colonizar…

A colonização constitui o segundo instrumento da estratégia israelense. Shmuel Groag, arquiteto e dirigente da associação Bimkom, que luta pelo direito de todos a planejar a cidade, recapitula: “O primeiro anel era composto por sete grandes colônias: Gilo, Armon Hanaziv-Talpiot Est, French Hill Ramat Eshkol, Ramot, Ramot Shlomo, Neve Yaacov e Har Homa. O segundo incluía duas, Pisgat Zeev e Maale Adoumim. O terceiro acrescentou outras nove: Givon, Adam, Kochav Yaacov, Kfar Adoumim, Keidar, Efrat, Betar Illit e as colônias do Gouch [bloco] Etzion. No total, elas são os lares da metade dos 500 mil colonos que moram na Cisjordânia”.

Michel Warschawski, fundador do Centro de Informação Alternativo e também uma figura destacada do movimento pacifista, não se furta a organizar “turnês” de militância, com o objetivo de mostrar concretamente “o princípio que guia a colonização: criar uma continuidade territorial judaica que destrua a continuidade territorial árabe”. Ele apresenta uma folha já esfarrapada, de tanto ter sido manipulada. É uma citação de um discurso do antigo prefeito da colônia de Karrnei Shomron, na qual este se diz decidido a “garantir que a população judaica de Yesha [4] não viva atrás de cercas de arame-farpado, e sim no quadro de uma continuidade da presença judaica. Se tomarmos, por exemplo, a região situada entre Jerusalém e Ofra, e se a ela acrescentarmos uma zona industrial na entrada da colônia de Adam, além de um posto de gasolina na entrada de Psagot, então nós temos um eixo de continuidade israelense”.

Apartheid social, cultural, geográfico e... viário!

O terceiro instrumento é o domínio total das vias de comunicação, que permite deslocar o espaço palestino, reduzir a mobilidade da sua população e cortar suas chances de desenvolvimento. Além de se apoderar dos grandes eixos existentes, para em seguida renová-los e ampliá-los, Israel construiu outros novos, de modo que os colonos possam alcançar Jerusalém o mais rápido possível. Este é igualmente um dos objetivos do futuro tramway.

Tudo isso forma uma impressionante rede de estradas de quatro pistas, iluminadas à noite, ao longo das quais árvores foram cortadas, casas consideradas como “perigosas” destruídas e muros de proteção erguidos – tudo em nome da “segurança”, é claro. Nessas “estradas de contorno”, que ligam as colônias, está proibida a circulação de veículos palestinos, os quais devem se contentar com uma rede secundária de má qualidade, com pouca ou sem nenhuma manutenção, e cortada por numerosos postos de controle, fixos ou móveis.

Por exemplo, chegamos agora à barragem rodoviária que leva o nome de Container, ao sul de Abu Dis. Este posto comanda – e não raro bloqueia – o último eixo palestino importante que conecta o norte com o sul da Cisjordânia. O seu nome de Wadi Nar vem a calhar, já que ele significa “Vale do Fogo” e, por extensão, “do inferno”: em certos lugares, a passagem é tão estreita que dois caminhões dificilmente conseguem cruzar-se – isso supondo que sejam capazes de subir e descer os declives vertiginosos. Em contrapartida, não longe dali, a ampla via rápida que foi oferecida por Itzhak Rabin aos colonos lhes permite correr em linha reta para se deslocar entre as colônias do bloco de Goush Etzion e de Hebron, sem encontrar um árabe sequer.

Este “apartheid que não diz o seu nome” – segundo a frase cunhada pelo chefe negociador palestino Saeb Erekat [5] – torna-se explícito com o projeto de “circulação fluida” defendido pelo coronel Tirza; onde judeus e árabes devem necessariamente se cruzar, eles não se verão, por causa das pontes e dos túneis… “Para tirar do isolamento as aldeias palestinas de Bir Nabala e Al Jib”, explica, por exemplo, no local, o arquiteto Alon Cohen-Lifschitz, de Bimkom, “os israelenses estão construindo, numa extensão de dois quilômetros, a quinze metros abaixo do nível do solo, uma estrada profunda e gradeada, dois túneis e uma ponte!” Em matéria de segregação, vale mencionar algo mais infame ainda: a partir de 19 de janeiro de 2007, uma lei proíbe que todo israelense ou palestino “residente” transporte no seu carro um habitante não-judeu da Cisjordânia …

Uma verdadeira diagonal de "limpeza" étnica

O quarto instrumento consiste na infiltração da cidade antiga e da “bacia sagrada”. “Para os colonos, Jerusalém é igual a uma cebola: o melhor é o coração”, brinca Meir Margalit. A recuperação de antigos bens judeus, os confiscos em virtude da lei dos ausentes e as compras por intermédio de colaboradores vêm se multiplicando num ritmo tão frenético que isso motivou o jornalista Meron Rappoport a falar numa “República de Elad” [6] – o nome da organização de colonos para a qual as autoridades delegaram, de modo bastante incomum, a gestão da “Cidade de Davi” [7].

A partir desta implantação de caráter histórico, é possível dimensionar – em função do número de casas árabes nas quais bandeiras israelenses aparecem destacadas, e de brutamontes armados que circulam pelas ruas – o quanto a colonização mais trivial toma conta de Silwan, desce até Boustan (onde 88 edifícios estão ameaçados de destruição), e segue até alcançar Ras al-Amoud (Maale Zeitim) e Jabal Mukaber (Nof Zion). Enquanto isso, as duas primeiras casas a serem construídas em Kidmat Zion já desafiam, por cima do muro, o Parlamento palestino, concluído, porém vazio, de Abu Dis. O mapa confirma que todas essas metástases desenham uma verdadeira diagonal de limpeza étnica…

“Você não deve se ater aos números”, insiste Fouad Hallak, um conselheiro da equipe de negociação da Organização de Libertação da Palestina (OLP). “Os 17 pontos de colonização da cidade antiga e dos seus arredores mais próximos contam de fato apenas 2.600 habitantes de um total de 24 mil, mas eles se inscrevem numa estratégia tenaz de ‘despalestinização’”.

Esta “judaização”, que vem a ser o quinto instrumento da estratégia israelense, começa com símbolos. Um amigo palestino aponta para esses sinais que aplicam sobre a Jerusalém árabe o cenário da cidade judaica. “Do mais espetacular – tal como esses memoriais dedicados aos heróis das guerras de Israel e aqueles edifícios públicos instalados a leste – até o mais discreto: paralelepípedos, luminárias, lixeiras. Sem esquecer de mencionar os nomes de ruas”: Praça de Tsahal (nome dado ao exército israelense), Rua dos Pára-quedistas, Encruzilhada do Quartel-General. “Esses nomes foram atribuídos depois da anexação de Jerusalém Leste, em 1967” – observa o jornalista Danny Rubinstein [8] – “aparentemente para que os árabes não se esqueçam de quem venceu a guerra”.

Árabes e cristãos sem acesso a seus lugares santos

Em Paris, havíamos sido avisados por amigos: “A cidade antiga está se esvaziando”. Nunca, infelizmente, em trinta anos ela nos pareceu tão triste. “Os israelenses gostariam de colonizar a sua maior parte e reduzir o restante a algumas ruas folclóricas, tal como em Jaffa”, lamenta o novo embaixador palestino na Unesco, Elias Sanbar. Ele acaba de frustrar uma manobra cuja própria ocorrência é difícil de acreditar: uma tramóia que os israelenses armaram em 2000, visando obter a inscrição da Cidade Antiga árabe na lista do patrimônio… do Estado judeu!

A “judaização” passa também pelo questionamento do livre acesso aos locais santos, o qual, contudo, é um princípio comum a todos os textos internacionais desde o Tratado de Berlim (1885). “Já faz anos que os muçulmanos e os cristãos da Cisjordânia não têm mais acesso a Al-Aqsa ou ao Santo Sepulcro”, protesta o diretor do Waqf [9], Adnan Al-Husseini. “Quanto aos ‘residentes’ de Jerusalém, eles devem ter 45 anos para poder rezar nesses locais. Sem esquecer de mencionar as humilhações praticadas pelos cerca de 4 mil soldados que costumam ser mobilizados por ocasião das grandes festas”. E as escavações efetuadas sob a Esplanada? “Não me atrevo sequer a imaginar o que aconteceria caso os loucos que sonham ‘reconstruir o Templo’ danificassem as nossas mesquitas”.

Não menos preocupados, os patriarcas e chefes das igrejas cristãs em Jerusalém publicaram, em 29 de setembro de 2006, uma declaração na qual reafirmam a exigência de um “estatuto especial” que garanta, entre outros, “o direito humano de liberdade de culto para todos, indivíduos e comunidades religiosas; a igualdade perante as leis de todos os habitantes, em conformidade com as resoluções internacionais; o livre acesso a Jerusalém para todos — cidadãos, residentes ou peregrinos”. Os autores da declaração insistem sobre o fato de que “os direitos de propriedade, de guarda e de culto que as diferentes igrejas adquiriram no decorrer da história continuem a ser detidos pelas mesmas comunidades”. E eles também fazem um apelo à comunidade internacional para que esta faça respeitar a “permanência deste estatuto dos locais santos” [10]…

Por mais que se saiba da violência inacreditável da qual todo ocupante – judeu, cristão ou muçulmano – é capaz, a destruição por meio de escavadeiras de uma casa, diante dos seus moradores, é um espetáculo insuportável [11]. Uma cena que, desde o ano de 2000, a prefeitura e o ministério do interior repetiram 529 vezes – sem esquecer as multas aplicadas aos proprietários, de 22,5 milhões de euros (R$ 62,14 milhões) [12]. Esta repressão, aliás, é exercida de maneira muito desigual: segundo Betselem, em 2005, as 5.653 infrações que foram constatadas do lado oeste resultaram em 26 demolições parciais ou totais, enquanto as 1.529 registradas do lado leste provocaram 76 demolições [13]!

Um documento cujo papel é discriminar

Para Meir Margalit, o município “vive assombrado pela idéia de que a soberania israelense sobre Jerusalém está ameaçada. Para esta mentalidade paranóica, cada casa, cada árvore e até mesmo cada planta no seu vaso tornam-se parte integrante de uma conspiração política mundial”. Mas esses argumentos não são sequer mencionados por Yigal Amedi. Para este prefeito-adjunto, as demolições, “excepcionais”, são justificadas porque elas dizem respeito a “edifícios que foram construídos ilegalmente”. Curiosamente, apesar de pertencer ao Comitê para o Planejamento e a Construção, ele garante ignorar que, em muitos casos, os inspetores do seu município procedem às destruições em violação de uma decisão de justiça. “O município”, argumenta Amedi, “está empenhado em pôr um pouco de ordem neste caos”.

Eis uma idéia astuta! Isso porque a “ilegalidade” de 40% das casas de Jerusalém Leste – caso de 15 mil de um total de 40,6 mil – deve-se ao fato de a prefeitura conceder apenas a conta-gotas as autorizações aos palestinos: de 2000 a 2004, este foi o caso de 481 dos 5,3 mil prédios construídos. Além disso, custa caro apresentar um pedido: mais de 20 mil euros (R$ 55.237) e meses de trâmites para uma construção de cerca de 200 m2… Mas, acima de tudo, a superfície edificável foi reduzida a dimensões irrisórias. Depois de 1967, Jerusalém Oeste totalizava 54 km2 e Jerusalém Leste 70 km2, dos quais 24 km2 foram expropriados em proveito das colônias. Dos 46 km2 restantes, 21 km2 não foram objeto de um plano de urbanização. Dentre os 25 km2 que foram planejados, 16 km2 são reservados aos espaços verdes, aos edifícios públicos, às estradas, etc. Os 9 km2 edificáveis para os palestinos representam, portanto… 7,25% da superfície total da cidade!

Um arquiteto e militante do Bimkom, Efrat Cohen-Bar mostra o enorme volume do novo Master plan. “Apesar de alguns progressos, a desigualdade no tratamento continua a mesma. Daqui até 2020, os nossos planejadores irão conceder 3 novos quilômetros quadrados construíveis para os 158 mil palestinos suplementares e 9,5 km2 para os 110 mil judeus suplementares”. Além disso, a especialista em geografia Irene Salenson faz referência a uma “limitação horizontal e vertical do desenvolvimento urbano palestino”: o lado leste poderá construir edifícios de até quatro andares em média (em vez de dois atualmente), mas o lado oeste terá direito a prédios de seis a oito andares [14]!

Essa desigualdade é apenas uma das facetas de uma política global de discriminação. Ela constitui o sexto e último instrumento da hegemonia de Israel. Só os judeus são cidadãos. Titulares de uma carteira de identidade verde, os palestinos da Cisjordânia não têm direito algum, nem mesmo o de vir para a cidade, exceto com uma autorização que é concedida cada vez mais raramente. Por sua vez, os “residentes permanentes”, com a sua carteira de identidade azul, beneficiam-se de ajudas financeiras sociais e do direito de votar nas eleições locais. Essas vantagens não se transmitem automaticamente — nem para o cônjuge, nem para os filhos.

O famoso relatório europeu, cuja censura pelo Conselho dos Ministros dos 25 (países-membros da UE) causou um escândalo no final de 2005, revela uma outra iniqüidade: “Entre 1996 e 1999, Israel implantou uma regra intitulada ’centro de vida’, em virtude da qual os detentores de uma carteira de identidade azul, cujo domicílio ou local de trabalho estiver localizado fora de Jerusalém Leste (em Ramalá, por exemplo) perdem esta carteira de identidade. Foi por esta razão que um grande número de detentores dessas carteiras se apressou a mudar para Jerusalém Leste” [15].

Ao invés da segurança, o controle social

O orçamento da cidade, por sua vez, revela-se não menos discriminatório: Jerusalém Leste, com 33 % da população, recebe apenas 8,48% do total: cada judeu recebe em média 1190 euros; cada árabe, 260. Portanto, não é de espantar, explica Betselem, o fato de 67% das famílias palestinas viverem abaixo do limite de pobreza, contra 29% das famílias israelenses [16]. Ele mesmo oriundo de um bairro pobre, Amedi não nega os “atrasos dos quais padecem, em matéria de infra-estruturas e de serviços, os bairros árabes e ultra-ortodoxos”. Contudo ele assegura que a cidade, quando o seu prefeito se chamava Ehoud Olmert, “investiu mais do que nunca para reduzir essas discrepâncias”, e enumera os projetos em fase de execução. “São gotas de água no oceano”, reconhece. “Mas, pelo menos, é preciso começar com alguma coisa”.

É inevitável constatar que, por enquanto, tudo começa e termina com a construção do muro, a qual vem mobilizando recursos consideráveis: 800 mil euros (cerca de R$ 2,21 milhões) por quilômetro – para um total previsto de 180 km, dos quais 5 apenas com a Linha Verde. Isso significa que o argumento da segurança tem pouca sustentação. Os atentados kamikazes – 171 vítimas em seis anos – traumatizaram a cidade. Contudo, aqui, o muro, na maior parte do seu traçado, não separa israelenses dos palestinos: ele corta os palestinos das suas escolas, das suas plantações, das suas oliveiras, dos seus hospitais e dos seus cemitérios…

“O muro é uma ferramenta que o governo utiliza para controlar Jerusalém e não para garantir a segurança dos israelenses”, conclui Menahem Klein, num tom categórico. De fato, ele representa a quintessência de todas as ferramentas de dominação mencionadas até aqui. Ele multiplica a superfície de Jerusalém Leste por 2,3, desenhando uma espécie de trevo que inclui as novas colônias com as suas áreas de desenvolvimento: ao norte, Beit Horon, Givat Zeev, Givon Hadasha e o futuro “parque metropolitano” de Nabi Samuel; ao sul, Har Gilo e Betar Ilit, além do conjunto do Gouch Etzion; a leste, por fim, Maale Adoumim.

Ao contemplar a paisagem a partir do mirante do hospital Augusta Victoria, é possível entender melhor a ameaça mortal que a obra que vem sendo construída a leste representa para o futuro Estado palestino. A colônia em si ocupa 7 km2. Mas o plano municipal do “bloco de Maale Adoumim” abrange uma superfície total, ainda amplamente deserta, de 55 km2 (maior do que Tel-Aviv, que tem 51 km2). O bolsão estende-se quase até o Mar Morto e corta a Cisjordânia em duas. Ao norte, a famosa zona E1 representa, com seus 12 km2 (doze vezes o tamanho da cidade antiga!) o derradeiro espaço de crescimento possível para Jerusalém Leste. Ora, nem mesmo a oposição – formal – de Washington impediu a construção no local do novo Quartel-general da polícia para a Cisjordânia, ao qual irão se agregar habitações, centros comerciais, hotéis, etc. Quanto aos beduínos Jahalin, lá estão os seus barracões, no morro para onde eles foram “transferidos”, que paira acima… do lixão da cidade.

Inviabilizar Jurusalém Oriental, esquecer os acordos de paz

A maior quantidade possível de terras palestinas com a menor quantidade possível de palestinos: este antigo princípio norteou o traçado do muro que, ao incluir colônias judaicas, exclui também bairros árabes. É assim que ele rejeita para o lado da Cisjordânia, do norte ao sul, a localidade de Qafr Aqab, ao lado do campo de refugiados de Qalandiya, a metade de Beit Hanina, a maior parte de A-Ram, Dahiyat al-Bared, Hizma, o campo de Shuafat, Dahiyat Al-Salam, Anata, Ram Khamzi e, no extremo sul, Walaja. É um acontecimento inédito: 60 mil dos 240 mil palestinos de Jerusalém foram expulsos desta cidade… sem precisarem se mexer! E amargando uma avalanche de perdas.

O tempo que se perde: “Antes, eu ia para a faculdade a pé, em dez minutos", testemunha Mohammad, um estudante de Ramalá inscrito em medicina na Universidade Al-Qods. "Agora, demoro 90 minutos de carro”. O dinheiro que se perde: enquanto os comerciantes situados do lado “errado” de A-Ram deploram uma redução de 30% a 50% do seu faturamento, um dentista foi obrigado a fechar simplesmente o seu consultório, enquanto o proprietário de um prédio com vista excepcional para o muro não tem mais inquilino nenhum. A força de trabalho que se perde: entre um terço e a metade dos médicos e das enfermeiras, assim como dos docentes, não podem mais ir trabalhar em Jerusalém. A perda anunciada da “residência”: toda e qualquer pessoa que não mais puder comprovar que possui um domicílio e um trabalho em Jerusalém, por ocasião da renovação da sua carteira de identidade azul, terá este documento retirado. E por fim, acima de tudo, é a perda para Jerusalém Leste do seu papel de metrópole palestina.

“Todos sabem que as próximas negociações terão como ponto de partida os ‘parâmetros de Clinton’, e principalmente a partição da cidade de modo a dar lugar a duas capitais”, resume Menahem Klein. “É exatamente isso que o muro tenta evitar, destruindo Al-Qods como centro metropolitano, desconectando esta área de seus arredores econômicos, sociais e culturais palestinos. Mas, se os nossos dirigentes esperam tirar proveito da fraqueza dos palestinos, eles fazem um cálculo baseado numa visão limitada: a jovem geração levantará a cabeça. O que restará então da ambição de Sharon e de Olmert de ‘liberar novamente Jerusalém’?”

Outros interlocutores apontam correlações entre a escalada israelense e a situação em que se encontra o processo de paz. Um deles é o embaixador Sanbar, para quem as coisas se aceleraram “a partir do momento em que Jerusalém foi oficialmente inscrita na ordem do dia da negociação. De modo que, diante de tantos fatos consumados, não sobre mais nada para ser negociado”. Para Wassim H. Khazmo, um conselheiro da equipe de negociação palestina, “Sharon aproveitou-se da fraqueza da comunidade internacional para se apoderar daquilo que George W. Bush lhe havia prometido em sua carta de 14 de abril de 2004: os blocos de colônias”.

O mesmo destino do muro de Berlim?

Com isso, tanto maior foi a nossa surpresa quando ouvimos o conselheiro palestino Khalil Toufakji renunciar a reivindicar esses “blocos”, em nome do realismo. “Até mesmo Maale Adoumim?” “Sim”. “Até mesmo a zona E1?” “Sim”. Como se fosse para responder a esta desistência, Hasib Nashashibi, da Coalizão para Jerusalém, evocará a “crise de liderança” na OLP: “Os israelenses exploram evidentemente as nossas divisões e nossos erros”. Então, Amos Gil, o diretor da associação “Cidade dos Povos”, aponta: “Este foi o principal argumento que os atentados kamikazes forneceram para justificar o muro”.

Ao descobri-los, o primeiro pensamento vai para Kafka ou Ubu rei: trata-se dos palestinos dos enclaves de Biddu (35,5 mil pessoas), Bir Nabala (20 mil) e Walaja (2 mil), presos na armadilha do muro ou da barreira que os cerca por todos os lados. E, dentre eles, a família Gharib é seguramente a vítima expiatória. Um por um, os colonos de Givon Hadasha construíram, em terras privadas palestinas, casas em volta da dela, transformando a sua casa num mini-enclave, conectado por um caminho à sua aldeia original, o conjunto sendo cercado por uma grade que em breve será eletrificada, e vigiado por meio de uma câmera… Simpáticos vizinhos: ao perceber a nossa presença, um deles urrou da sua janela: “Eu tenho uma arma, vou apagar vocês!” Palavras para assustar ou para valer? Eles já mataram um dos seus filhos. Perseguidos, os Gharib resistem contra tudo e contra todos já faz mais de vinte anos…

Como não pensar no arrebatamento dramático, na véspera, de Meron Benvenisti: “O muro? Nada mais é que o monumento ao desespero total! Vejam Belém: de um lado, a Igreja da Natividade, do outro, o bunker construído em volta do túmulo de Rachel. É a arrogância do ocupante que acha que pode definir e redefinir as comunidades como bem entende: como se a “barreira” fizesse a distinção entre os “bons” árabes, que são aceitos em Jerusalém, e os “maus”, que dela são excluídos. Os inventores deste horror raciocinam com a mesma lógica colonial do século 19 que vocês, franceses, seguiam quando se agarravam às suas posses na Indochina e na África do Norte. Mas isso tampouco funcionará! O muro de Jerusalém acabará da mesma forma que aquele de Berlim”.

Tradução: Jean-Yves de Neufville
jeanyves@uol.com.br



[1] A Nakba designa o desaparecimento da Palestina e o êxodo forçado de 800 mil dos seus habitantes em 1948. O coronel Tirza foi demitido das suas funções por ter mentido para a Corte Suprema, com o intuito de justificar o traçado do muro.

[2] No final de 2006, o número de habitantes de Jerusalém era estimado em cerca de 700 mil: 470 mil judeus e 230 mil palestinos.

[3] In Bulletin du Centre de recherche français de Jérusalem, n° 16, pp. 212-213, 2005.

[4] Haaretz, Tel-Aviv, 17 de julho de 1996. “Yesha” é a contração de Yehuda ve Shomron (Judéia e Samaria), nome dado pelos colonos à Cisjordânia.

[5] No excelente livro intituladoUn mur en Palestine, de René Backmann, editora Fayard, Paris, 2006.

[6] Haaretz, 26 de abril de 2006.

[7] O rei Davi nela teria fundado a sua capital, por volta do ano de 1000 A.C.

[8] Haaretz, Tel-Aviv, 26 de novembro de 2006.

[9] Encarregado da gestão dos bens religiosos muçulmanos.

[10] Ler http://paxchristi.cef.fr/docs/jerus....

[11] Ver.

[12] Discriminations in the Heart of the Holy City, IPCC, Jerusalém, 2006. Os números que se seguem, exceto indicação em contrário, provêm desta fonte.

[13] A Wall in Jerusalem, Betselem, Jerusalém, 2006.

[14] Bulletin…, op. cit., p. 216.

[15] Ver. De um lado, a Seguridade Social atua no sentido de retirar as carteiras de identidade dos residentes de Jerusalém que se encontram no exterior da cidade por razões, acima de tudo, financeiras. De outro, o ministério do Interior e, sobretudo, a prefeitura, preocupados em reduzir o número de palestinos que vivem efetivamente em Jerusalém, preferem que eles conservem a sua carteira de identidade fora dos limites do município.

[16] A Wal in Jesuralem, op. cit.


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