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A aliança das civilizações

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Em Istambul, numa de suas últimas ações como secretário-geral da ONU, Kofi Annan condena os que apostam no choque entre culturas, e destaca: as diferenças — de opinião, cultura, crença e modo de vida — foram sempre o motor que levou a humanidade adiante

Kofi Annan - (12/02/2007)

As correntes do Bósforo são conhecidas por sua força e por terem o sentido inverso na superfície e na profundidade. No entanto, há séculos o povo turco aprendeu a negociar entre estas correntes, na fronteira entre a Europa e a Ásia e entre o mundo islâmico e o Ocidente, o que contribuiu para a sua prosperidade [1]. O relatório "A Aliança das Civilizações" ressalta justamente que a fusão das diferenças, sejam de opinião, de cultura, de credo ou de modo de vida, foi desde sempre o motor do progresso humano. Na época em que a Europa atravessava a idade das trevas, a Península Ibérica construiu seu progresso sobre a interação entre as tradições muçulmanas, cristãs e judaicas. Mais tarde o Império Otomano prosperaria graças, sem dúvida, ao seu exército, mas também porque, neste império de idéias, a arte e as técnicas muçulmanas foram enriquecidas pelas contribuições judaicas e cristãs.

Infelizmente, muitos séculos mais tarde, é o crescimento da intolerância, do extremismo e da violência que marca nossa era de mundialização. Longe de semear a compreensão e a amizade mútuas, o estreitamento das distâncias e a melhora nas comunicações têm freqüentemente engendrado tensão e desconfiança. Muitos são os que chegam a temer, especialmente nos países em via de desenvolvimento, a existência da comunidade planetária — sinônimo, a seus olhos, de agressão cultural e de sangria econômica. A globalização ameaça tanto seus valores quanto seu bolso.

Os ataques terroristas do 11 de setembro, a guerra e os conflitos no Oriente Médio, as propostas e os projetos mal-inspirados, só servem para reforçar este sentimento e provocar tensão entre os povos e as culturas. As relações entre os fiéis das três grandes religiões monoteístas foram fortemente postas a prova.

Rumo a uma guerra planetária de religiões?

No momento em que as migrações internacionais levam um número sem precedentes de pessoas das mais diversas religiões e culturas a viver lado a lado, os radicalismos e estereótipos que sustentam a idéia de "choque das civilizações" são cada vez mais propagados. Alguns grupos parecem impacientes para fomentar uma nova guerra de religiões, desta vez em escala mundial. E indiferença ou até mesmo desprezo que os outros manifestam em relação a suas crenças ou símbolos apenas lhes facilita a tarefa.

Em suma, a idéia de uma aliança das civilizações não poderia chegar em melhor hora, visto que não vivemos em mundos diferentes, como acontecia com nossos ancestrais. As migrações, a integração e a técnica têm aproximado as diferentes comunidades, culturas e etnias, fazendo cair velhas barreiras e desvendando novas realidades. Nós vivemos como jamais seria possível antigamente, lado a lado, submetidos a várias influências e idéias diferentes.

A demonização do "outro" revelou-se o caminho mais fácil. Neste século 21, continuamos reféns de nossa própria percepção da injustiça e de nossos direitos. Nosso discurso tornou-se a nossa prisão. Para muitas pessoas ao redor do mundo, em particular os muçulmanos, o Ocidente é uma ameaça a suas crenças e valores, interesses econômicos e aspirações políticas. Qualquer prova em contrário está condenada ao desdém e ao descrédito. Do mesmo modo, muitos ocidentais consideram o Islã como uma religião de extremismo e violência, mesmo sabendo que os dois mundos mantêm há muito tempo relações nas quais o comércio, a cooperação e as trocas culturais têm ocupado um lugar no mínimo tão importante quanto o dos conflitos.

A necessária valorização dos imigrantes

É imperativo que vençamos estes ressentimentos. Para começar, deveríamos reafirmar e provar que o problema não é o Corão, a Torá ou a Bíblia; que o problema não é a fé, mas os crentes e a maneira como ele se comportam com relação ao outro. Deveríamos dar prioridade aos valores de base comuns a todas as religiões, ou seja: a compaixão, a solidariedade, o respeito ao ser humano, a regra de ouro "não faça ao próximo o que não gostaria que fizessem com você". Ao mesmo tempo, deveríamos nos recusar a formar a imagem de um povo, de toda uma região ou de toda uma religião tendo como base apenas os crimes cometidos por indivíduos ou pequenos grupos.

Nós conhecemos todas as vantagens que os imigrantes podem trazer à sua nova pátria, não somente enquanto trabalhadores, mas também enquanto consumidores, empreendedores e produtores de uma cultura mais rica e diversa. Mas estas vantagens não são repartidas de maneira justa e nem sempre são avaliadas pelo seu justo valor pela população local, onde grande parte tende a considerar os imigrantes como uma ameaça a seus interesses materiais, à sua segurança e a seu modo de vida ancestral.

Particularmente na Europa, os governos têm demorado a compreender que é necessário elaborar estratégias para integrar os recém chegados e seus filhos dentro da sociedade local. Esses governos esperam que os novos consumidores se conformem a uma visão estática da identidade nacional do país. em vez de aceitar repensar em que medida os valores e a cultura devem ser compartilhados pelas diferentes comunidades que vivem juntas num Estado democrático. Deste modo, a Turquia encontrou muitos obstáculos no caminho da adesão à União Européia, por trás dos quais é possível com freqüência perceber um senso de identidade européia que exclui os muçulmanos implícita ou explicitamente.

Exercer os direitos sem perder a sensibilidade

Muitos imigrantes de segunda ou terceira geração cresceram em guetos, deparando-se com índices de desemprego elevados, pobreza relativa e criminalidade. São tratados por seus vizinhos, que se dizem "de boa família", com uma mistura de medo e desprezo. Desaprender a intolerância é, em parte, uma questão de proteção jurídica. Faz muito tempo que o direito à liberdade de religião e o direito de não ser objeto de discriminação por motivo de religião é consagrado pelo direito internacional e têm sido incorporados no direito interno. Qualquer estratégia que vise estabelecer pontes deve depender fortemente da educação – não somente sobre o Islã e o cristianismo, mas sobre todas as religiões, tradições e culturas, de maneira que os mitos e distorções possam ser percebidos como tais.

Devemos ainda criar possibilidades para os jovens. Oferecer-lhes uma solução confiável, em substituição ao canto da sereia que apela ao ódio e ao extremismo. Devemos dar-lhes a possibilidade real de contribuir para a melhora da ordem mundial, de modo que não tenham mais vontade de boicotá-la. Devemos preservar a liberdade de expressão trabalhando para que ela não sirva para propagar o ódio ou inflingir a humilhação. Devemos convencê-los de que os direitos vêm acompanhados por responsabilidades e que o exercício dos direitos deve ser feito com tato, particularmente em relação aos símbolos e tradições que são sagrados para outras pessoas.

As autoridades públicas deveriam desempenhar um papel de liderança para condenar a intolerância e o extremismo. É papel delas fazê-lo, de modo que os acordos de não-discriminação sejam consagrados na legislação e que a lei seja aplicada. Mas sua responsabilidade não nos isenta da nossa. Cada um de nós, individualmente, contribui para criar o clima político e cultural na sociedade. Devemos sempre estar prontos a corrigir os estereótipos e as imagens deformadas e a tomar a palavra para defender as vítimas da discriminação.

Ocupação da Palestina, drama que afeta o mundo inteiro

Tudo isso não terá efeito se o clima atual de medo e suspeita continuar a ser alimentado pelos eventos políticos, em particular aqueles nos quais os povos muçulmanos — iraquianos, afegãos, tchetchenos e sobretudo palestinos – são percebidos como vítimas de ações militares conduzidas por potências não-muçulmanas. Nenhum outro conflito está tão carregado, simbólica e emocionalmente, por pessoas distantes do campo de batalha quanto este entre israelenses e palestinos. Enquanto os palestinos viverem sob a ocupação, expostos a frustrações e humilhações cotidianas; enquanto os israelenses forem vítimas de explosões nos ônibus ou discotecas, os ânimos estarão exaltados em todo o mundo.

Pode parecer injusto que os progressos registrados na melhora das relações entre os cidadãos de um mesmo país, na Europa, dependam da resolução de um dos problemas políticos mais difíceis. No entanto, esta ligação existe e é indispensável trabalhar em duas frentes ao mesmo tempo: esforçar-se tanto para melhorar a compreensão social e cultural entre os povos quanto para resolver os conflitos políticos no Oriente Médio e outros lugares críticos.

Inspiremo-nos por uma inscrição que pode ser vista no museu de Arqueologia de Istambul. Ela contém o tratado de paz firmado entre os impérios hitita e egípcio, depois da sangrenta batalha de Kadesh, em 1279 a.C. Tendo colocado um ponto final em décadas de desconfiança e guerra, este acordo marcou uma etapa histórica: os dois campos comprometeram-se a trocar assistência mútua e a cooperar. Esta é, de fato, a representação literal de uma aliança entre duas grandes civilizações.

Tradução: Patrícia Andrade
pat.patricia@voila.fr



[1] Este texto é a adaptação de uma fala de Kofi Annan em Istambul, durante a apresentação do relatório "A Aliança das Civilizações", disponível em inglês


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