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HISTÓRIA

Guernica, agonia de uma guerra

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Completam-se em 26 de abril setenta anos do massacre de Guernica por tropas da direita espanhola apoiadas por soldados nazistas. Durante quatro décadas, a autoria do crime foi ocultada: só a obra-prima de Picasso serviu como testemunha

Lionel Richard - (29/04/2007)

Uma pergunta permanece: se Pablo Picasso não tivesse pintado uma obra-prima em homenagem às vítimas, a destruição de Guernica teria permanecido na memória da humanidade? Sua lembrança estaria limitada aos livros? Desapareceria?

Mas por que os franquistas quiseram destruir a pequena cidade a 35 quilômetros de Bilbao? A pátria basca estava em questão. Guernica havia conseguido, depois das eleições de fevereiro de 1936, um estatuto de autonomia política. O novo governo regional havia apenas se formado ocorreu, entre 17 e 18 de julho, o golpe militar liderado pelo general Franco. Os bascos optaram pelo respeito à legalidade e como conseqüência não escapariam do fogo do exército franquista, caso esse avançasse contra eles.

Com exceção da Catalunha e uma parte de Aragão, somente o governo basco — no norte da Espanha — manteve fidelidade à república em abril de 1937. Ele administrava uma região rica em minério de ferro, usinas siderúrgicas e indústria naval. Os insurgentes precisavam desses recursos. Um dos chefes da insurreição no comando do exército nacionalista do Norte, o general Emílio Mola informou a Franco que o assunto estaria liquidado em três semanas. Cinqüenta mil soldados e 100 aviões estavam a sua disposição. Contava, ainda, com soldados italianos, enviados por Benito Mussolini, e com os alemães da legião Condor — 6.500 voluntários, divididos em unidades blindadas, esquadrilhas de caças e bombardeiros.

Pátria livre... pátria devastada

Um ultimato é enviado ao governo basco. Mola decidiu “terminar rapidamente a guerra no norte”. Enfatizou: “Se a submissão não for imediata, arrasarei toda Viscaya, começando pela indústria de guerra”. Sem resposta, executou sua ameaça no dia 31 de março. Sob as ordens do tenente-coronel Wolfram von Richthofen, chefe do Estado-maior, os aviões da legião Condor e os bombardeiros pesados Junker e Heinkel foram encarregados de bombardear as cidades em torno de Bilbao. No dia 26 de abril, pela manhã, os pilotos concretizaram a missão de massacrar Guernica e Durango com bombas incendiárias. A estratégia perdurou durante todo o mês de maio. Em 19 de junho de 1937, Bilbao cai. Os bascos insatisfeitos tiveram que partir para o Norte, para os Pirineus ou para o exílio.

No dia 27 de abril, o comando das tropas insurgentes publicou um comunicado em Salamanca, capital provisória dos franquistas. Rapidamente, todos os jornais estrangeiros que sustentam os anti-republicanos o divulgam. Segundo o comunicado, seria uma calúnia responsabilizar os aviões dos nacionalistas. Os autores do massacre, declararam os franquistas, foram os vermelhos. Forçados à submissão, os republicanos teriam incendiado a cidade.

Ao tomar conhecimento dessas alegações, o presidente do governo basco José Antônio Aguirre pronunciou-se. Segundo ele, os bombardeios foram feitos “por aviões alemães a serviço dos rebeldes espanhóis”. Essa afirmação o indispõs com a Radio-Nacional, que o tratou por mentiroso. A culpa dos soldados de Hitler foi descartada pelos locutores. Para esses, os ouvintes tinham o direito de escutar protestos contra o “atentado à honra das tropas insurgentes”, já que “o exército de Franco não incendeia, mas conquista, lealmente, pelas armas. São as hordas vermelhas que destróem, pois sabem que a Espanha não lhes pertencerá nunca.”

Criminosos ocultados durante 40 anos

Na imprensa comunista francesa e, de maneira geral, de esquerda, a responsabilidade dos nacionalistas nesse “bombardeio vergonhoso de populações civis”, efetuado pelos aviões da legião Condor, é incontestável. Nos momentos seguintes, as provas a favor dessa tese se acumulam. Porém, fizeram muito pouco para impedir o discurso dos mistificadores. Típica, foi a obstinação de Charles Maurras, chefe da extrema direita francesa. No dia 11 de maio de 1937, o jornal “L’action française” denunciou a “fábula dos aviões alemães” que “teriam despejado toneladas de bombas” como uma manipulação bolchevique para mascarar os “crimes dos vermelhos”.

Na Espanha, a farsa persistiu até a morte de Franco em 1975. No fim dos anos 1960, os tenentes da história oficial criaram uma nova versão para absolver os nacionalistas e restaurar uma conveniente imagem de seu país na Europa. Atribuíram toda a culpa a Hitler, Göring e aos chefes da legião Condor.

A escapatória era fácil, 20 anos depois do tribunal internacional de Nuremberg. Os bajuladores da direita anti-democrática espanhola não ousaram sequer desaprovar o levante contra a república. Tampouco, a aliança dos Estados fascistas com os franquistas. Ao contrário, eles aderiram a suas fábulas de uma forma diferente, dedicando-se a minimizar o alcance do bombardeio de Guernica. Reduziram o número de vítimas a uma centena.

Segundo eles, o comando franquista não estava a par do ataque previsto pelas esquadrilhas da legião Condor. Além disso, os aviadores alemães não obedeceram a nenhuma ordem de “terror premeditado”. O alvo era, na realidade, uma manufatura de armas em uma aldeia próxima ao rio. Eles teriam apenas errado a mira. Os incêndios e a massa de cadáveres teriam sido conseqüência do “erro de pontaria”. Os comentários sobre a “cidade mártir” eram apenas ornamentos de um “mito”.

Arquivos denunciam acordo Franco-Hitler

E no lado alemão, como teria sido? Somente depois da vitória do general Franco, em abril de 1939, as “proezas” da legião Condor foram relatadas à população. Muitas publicações procuraram exaltar seu desempenho. Werner Beumelburg, que antes havia louvado os soldados de 1914-1918, relatou, em seu livro Combat pour l’Espagne, todas as peripécias da guerra civil espanhola, avaliando com precisão a ajuda hitlerista às forças franquistas.

Mas nenhum desses livros fala sobre a sinistra fama - estabelecida mundialmente - da legião Condor. Mesmo Beumelburg considera a tese popularizada por Völkischer Beobachter, porta-voz oficial da Alemanha nazista. Guernica foi “totalmente destruída pelos vermelhos”, insiste.

Diferente do divulgado, o marechal Hermann Göring, comandante chefe da Luftwaffe, não confessou, no tribunal de Neremberg, a culpa nazista nessa tragédia. Ele apenas reconheceu ter dado sinal verde para que a Espanha fosse campo de teste da aviação alemã. Quanto a Goebbels, foi lacônico. Forçado pelas alegações de inocência dos nacionalistas, o ministro da propaganda acreditou na inocência da legião Condor e atrapalhou-se ao negar, sistematicamente, sua participação.

O papel indispensável de Picasso

Muito depois de 1945, o mistério ainda não tinha sido resolvido. Relatos de antigos combatentes — como o do piloto Wilfred von Oven, refugiado na Argentina — retratam o ato como “o capítulo mais apaixonante da história”. Com a abertura dos arquivos alemães, percebeu-se que a cooperação entre as autoridades nazistas e nacionalistas estava muito bem documentada. A hipótese de que o Estado franquista não tinha conhecimento do plano de ataque da legião Condor é desarrazoada. No dia 20 de junho de 1937 (dia seguinte à queda de Bilbao), o general Franco enviou um telegrama a Hitler. Agradeceu a confiança que ele e "o grande povo alemão” depositaram em sua pessoa.

Muitas vezes o bombardeio de Guernica é condenado sob o pretexto de que nenhum fim militar o legitimava. Mas o argumento é desmascarado pelas intenções do general Mola. O bombardeio revela a natureza bárbara que, na época, ameaçava toda a Europa. Violência extrema: fatos forjados e desejo insano de aniquilar fisicamente o adversário.

Hoje, muitos se mobilizam para evitar o esquecimento em Guernica. Um museu da paz foi aberto em 2003. Mas é preciso, sobretudo, agradecer Picasso. Graças a ele, ficou claro o tom que deve se atribuir à palavra “fascismo”.

Tradução: Leonardo Abreu
leonardoaabreu@yahoo.com.br

Leia mais:

Nesta edição, sobre o mesmo tema:

Num livro, a verdade Foi apenas nos anos 1970, e graças à pesquisa de uma dupla de jornalistas, que se esclareceu a responsabilidade pelo bombardeio em massa de Guernica — e se soube como a cidade viveu suas últimas horas




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