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Copenhague, contracultura e repressão

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A desocupação violenta da Casa da Juventude Ungdomshuset, em março, foi marcada por uma articulação incomum das polícias européias. Terá sido um ensaio sobre como conter os movimentos sociais e o altermundialismo no continente?

René Vásquez Díaz - (29/04/2007)

De manhã bem cedo, no dia 1º de março, com uma imponente precisão militar, uma grande demonstração de forças da lei bloqueia o setor da Casa da Juventude (a Ungdomshuset) num bairro popular de Copenhague. O alvo é um prédio de quatro andares – lugar da contracultura européia cedido pela cidade em 1982, mas revendido pela nova prefeitura a uma seita cristã, sem o consentimento de seus ocupantes. Em algumas horas, o local foi ocupado como se um grupo de terroristas estivesse lá — e não 40 jovens sem armas, cuja faixa etária média não passava dos vinte anos.

A evacuação começa. A polícia utiliza novos equipamentos. Possantes canhões aspergem nas portas e janelas uma estranha goma, que endurece instantaneamente e impede os ocupantes de abri-las. Simultaneamente, os membros de elite da brigada anti-terrorrista, armados até os dentes, chegam pelo teto, em um helicóptero. Ao que tudo indica — as autoridades confirmarão depois — a operação foi minuciosamente preparada por longo tempo.

Após o assalto e a evacuação de Ungdomshuset, passeatas de protesto, num primeiro momento pacíficas, tomaram as ruas. A polícia cerca os manifestantes, perde o sangue-frio, e rapidamente deflagra a violência. Prisões em massa, às cegas, traumatizantes, se sucedem. Por todos os lados, vemos jovens, para não dizer crianças, algemados nas calçadas: cenas que lembravam situações de guerra, com helicópteros sobrevoando sem parar a zona de operações.

Ao som de Manu Chao, a resistência dribla a repressão

Logo, os contestadores começam a contra-atacar. Ao grito de “a rua é nossa!”, automóveis são virados e incendiados. Com a ajuda de contêineres, latas de lixo e bicicletas, os jovens formam barricadas. Lançam, de início, pedras do calçamento e garrafas. Depois, com a gasolina dos veículos revirados, fazem coquetéis Molotov, que atiram contra as filas compactas das forças da "lei". A cena, com os berros, as chamas, os choques, a fumaça, fazia alusão à guerrilha urbana vista no Oriente Médio.

Cada vez que as investidas brutais da polícia chegavam a dispersar grande parte dos manifestantes, pequenos grupos se juntavam em ruas adjacentes, colocando fogo em latas de lixo e incendiando carros. As ações espontâneas e descentralizadas, que surpreenderam continuamente os policiais, foram coordenadas por mensagens enviadas via telefones celulares. Em matéria de ação psicológica, os jovens deram, igualmente, provas de imaginação. Fizeram-se ouvir, com muito sucesso, no meio da violência do conflito: usaram um caminhão equipado com enormes auto-falantes, canções de Manu Chao e outros artistas altermundialistas.

Enquanto isso, oito fileiras de policiais e veículos anti-motins vão bloquear o acesso à Ungdomshuset. Sem motivos legais precisos, a polícia procura os estrangeiros implicados na desordem. A batida policial dura seis dias e seis noites, todo o tempo das hostilidades. Elas acontecem, por exemplo, na Casa da Solidariedade (Solidaritetshuset) e em numerosas residências particulares em diversos bairros de Copenhague. É assim que mais de 140 estrangeiros são presos, não acusados de um delito ou de um crime qualquer, mas com base em uma “presunção de periculosidade” e a fim de evitar que participem de ações futuras [1].

Brutalidade policial e clara presença de reforços estrangeiros

Ao lado do uso excessivo da força, os estratagemas da polícia surpreenderam pela sua ilegalidade: uma multidão de menores, daqui em diante fichados, foram interrogados, mas seu número exato não foi divulgado. Controle das fronteiras. Grande número de corpos policiais e veículos anti-motim mobilizados. Gás lacrimogêneo, Brutalidade dos ataques contra os manifestantes, com equipamento especial, Prisões maciças e arbitrárias. Tudo isso fez uma imagem da polícia militarizada que -– como na Itália, em julho de 2001, contra o Fórum Social de Gênova -– mostrou uma tendência preocupante de agir fora do âmbito democrático.

Para esta batalha de Copenhagem, foram chamados reforços de outros países. Por exemplo, cerca de 20 veículos policiais suecos, chegaram de Malmö, do outro lado de Oresund. Cinco altos responsáveis das forças de ordem suecas foram deslocados para observar os métodos repressivos de seus colegas dinamarqueses. Testemunhas revelam que agentes civis, equipados com fones de ouvido característicos, iam e vinham no meio do conflito, comunicando-se em outras línguas (alemão, francês e inglês).

Em resposta à pergunta de um jornal, o porta-voz da polícia de Copenhague negou categoricamente a presença de unidades ativas vindas de outros países. Entretanto, reconheceu que “se houve”, eram “na qualidade de observadores”. Outros analistas puderam constatar que as forças de lei dinamarquesas utilizaram uma tática policial francesa colocada em prática em 2006, nas grandes manifestações parisienses contra o projeto de Lei do Primeiro Emprego [2].

Os jovens militantes coordenaram suas ações por meio de uma rede sofisticada de sites da Internet, por meio dos quais pode-se acompanhar a evolução dos confrontos hora após hora, com informações detalhadas dos movimentos da polícia. Uma das novas prioridades das forças de lei será piratear essas comunicações.

Metonímia: destruir o lugar para enterrar a luta

Em 5 de março, no meio de um bloco policial de ferro, a Casa da Juventude foi finalmente demolida por operários munidos de máscaras e que utilizavam buldôzeres e escavadoras. O nome da companhia proprietária foi dissimulado. Com a destruição da Ungdomshuset, uma parte essencial da história do movimento operário dinamarquês desaparece. A mídia não explicou suficientemente as razões do ódio que esse lugar inspirou em certos círculos. A vontade de colocar fim a um conflito que opôs jovens às instituições durante de 24 anos não constitui o único motivo da intervenção.

Desde sua construção, em 1897, este edifício foi a sede da Casa do Povo (Folket Hus), importante local de agitação política do mundo operário pobre de Norrebro. Personalidades como Lenin e Rosa Luxemburgo passaram por lá. Em 26 de agosto de 1910, uma conferência internacional de mulheres socialistas tilintou no local, na ocasião em que Clara Zetkin lançou a idéia de criar um Dia Internacional da Mulher. A partir desta perspectiva histórica, compreende-se a pressa quase desesperada das autoridades dinamarquesas em destruir o imóvel.

Em 1982, após quase dois anos de conflito, a prefeitura de Copenhague terminou por autorizar os jovens a utilizar a casa. No entanto, em 1999, novos governantes decidiram seu fechamento. A classe política estimava que as atividades não “eram satisfatórias” e que o imóvel estava em mau estado por causa de um incêndio em 1996. Por seu lado, os jovens “anti-sistema”, defendiam seu direito de expressão, com sua tradição de luta, e porque dispunham de quatro andares e um subsolo alojando uma livraria, sala de concertos, salas de ensaio, estúdio de gravação, imprensa, numerosas salas de reunião e cozinha coletiva.

Com mais de quinhentos visitantes por semana, a Ungdomshuset constituía uma forma radical de pensamento alternativo. Esse centro de atividades culturais, sociais e políticas, repousado na tolerância, responsabilidade e solidariedade, sem discriminação racial nem sexual, ostentava um desprezo total pela sociedade de consumo. Os jovens, independentes, não esperavam particularmente mudar a sociedade. Portanto, não representavam um perigo para o Estado. Apenas exigiam que os deixassem desenvolver sua cultura à sua maneira.

Em vez da comunidade tolerante e responsável, os fundamentalistas

Em 2000, o governo municipal de tendência social-democrata vendeu o imóvel à seita Faderhuset (Casa do Pai). Esse grupo religioso fundamentalista, cujo dirigente (Knut Evensen) escuta somente as indicações que chegam a ele “diretamente de Deus”, sustenta a cruzada contra os muçulmanos da Dinamarca. A venda constituiu um ato de guerra simbólico, tornando o conflito insolúvel. Os jovens rejeitaram todas as propostas de mudança, recusando a intervenção de educadores e assistentes que enquadrariam seu tempo livre, assim como seu modo de pensar. O conflito foi então deslocado para o terreno do direto à propriedade privada e a evacuação requerida pela seita obteve cobertura legal.

Aos violentos protestos seguiram-se repetidas manifestações pacíficas. Em 8 de março, uma marcha de mulheres juntou mais de três mil pessoas. A polícia efetuou controles de identidade generalizados. A Dinamarca jamais havia conhecido esse tipo de estado de sítio policial. Mais de 750 pessoas foram detidas — dentre elas, aproximadamente 140 estrangeiros.

A zona metropolitana de Copenhague reúne pouco mais de um milhão de habitantes. A polícia não tem meios de abrigar, nem de interrogar tal quantidade de detidos. Muitos dentre eles foram transportados para a ilha de Fyn e Jylland. Um estabelecimento penitenciário de Copenhague teve que ser parcialmente esvaziado para poder alojar os jovens detidos. De 10 a 19 de março, Norrebro e Christianshavn foram decretadas zonas nas quais todos cidadãos estavam expostos a ser revistados e fichados, mesmo na ausência de qualquer suspeita. A medida, única em tempos de paz, seria suficiente para testemunhar a incapacidade das autoridades de controlar a situação. No entanto, segundo a polícia, a operação “foi um sucesso”, pois graças ao grande número de detenções, e apesar da violência dos conflitos, contaram-se poucos feridos.

Que dose de violência pode suportar uma democracia?

Como se explica essa repressão desmesurada? Para o professor Lars Dencik, da Universidade de Roskilde, a Dinamarca preparava-se para enfrentar terroristas perigosos em seu território. Como nada do tipo acontece, viu-se na evacuação da Casa da Juventude uma ocasião de ouro para testar suas forças de elite. Mikael Rothstein, da Universidade de Copenhague, estima que alguma coisa grave aconteceu. Conhecida como um dos países mais tolerantes e livres da Europa, a Dinamarca tornou-se “retrógrada”, “de espírito limitado”.

O atual governo, uma coalizão liberal-conservadora (dirigida pelo primeiro-ministro Anders Fogh Rasmussen desde 2001 e sustentada pela extrema direita xenófoba e ultranacionalista) entregou a essa ocasião uma batalha política e sobretudo cultural contra todo tipo de oposição.

Pouco a pouco impõe-se um nivelamento das escolhas ideológicas. Mesmo em matéria de literatura, as autoridades tendem a impor uma regra dogmática. Hoje na Dinamarca, muito mais do que no resto da Europa, a rejeição a tudo que pode ser diferente ou que pode sair de uma certa docilidade social se transplanta sob a afirmação de um discurso “étnico dinamarquês” que se opõe aos imigrantes. Em um clima de intolerância que se adensa, o Estado considerou que era possível combater os valores da contracultura solidária e anti-consumista da Ungdomshuset pela repressão.

A evacuação e a demolição rápida da Casa da Juventude pode ser entendida como um acerto de contas com um grupo difícil de dominar. Mas a atitude das autoridades dinamarquesas pode ser recebida como uma “experiência de laboratório” em termos de repressão policial, própria de um sistema que pressente que precisará cada vez mais da violência. Em Copenhague, técnicas de tipo semi-militar foram colocadas em prática. As forças da lei de outros países europeus dispõem agora de um precedente estudo in situ, que poderá responder-lhes a essa questão: que dose de repressão pode suportar uma democracia?

Tradução: Elisa Andrade Buzzo
elisabuzzo@gmail.com



[1] A Associação de Pais contra a Brutalidade Policial, que exerce um papel importante como testemunha, denunciou esses atentados aos direitos civis.

[2] Os agentes das unidades especiais estavam vestidos como os ativistas. Misturaram-se a eles, lançando-se subitamente sobre aqueles que pareciam ser os mentores, para imobilizá-los e detê-los a força.


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