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VIOLÊNCIA

O Bem, o Mal e o Terrorismo

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Quatro livros recém-lançados examinam o recurso à violência pessoal, a pretexto de obter reivindicações políticas. Entre os debates necessários, uma pergunta incômoda: que distingue o terror dos "inimigos" do que é praticado pelos "aliados"?

Eric Rouleau - (20/05/2007)

O terrorismo permanece como uma abstração conceitual. A comunidade internacional não conseguiu, até agora, atribuir-lhe uma definição. Desde 1937, a Liga das Nações tenta adotar uma convenção para previni-lo e reprimi-lo, por falta de um acordo entre os Estados-membros, Pelo mesmo motivo, a ONU, apesar dos diversos debates, ao longo de 60 anos de existência, não pôde determinar sua natureza. Recentemente, durante sua criação, em 1998, o Tribunal Penal Internacional teve que excluir o terrorismo internacional de suas competências, ainda que seja encarregado de sancionar um largo elenco de crimes, que inclui até o genocídio.

Não é por menos que o tema pautou a imprensa. Sistemas repressivos foram instaurados num grande número de Estados, com o pretexto de resistir a uma ameaça julgada existente. Raramente na história da edição, tal quantidade de livros, eruditos ou não, foram consagrados a um fenômeno que conduziu à "guerra" proclamada pelo presidente George W. Bush no dia seguinte aos atentados do 11 de setembro de 2001.

Washington tem motivo para se regozijar: inúmeros Estados concluíram convenções de "cooperação" com os Estados Unidos — o que nem mesmo a resistência ao "comunismo internacional" foi capaz de fazer, na época. Melhor: os EUA dos neoconservadores pôde reunir a União Européia e a Rússia à sua causa, e fechou uma aliança antiterrorista com elas, no início de abril de 2007. Mas se trata de uma convergência repleta de pensadores contrários, e não de um consenso, como pode ser tentador acreditar.

E se os "civilizados" matam cem vezes mais que os "terroristas"?

Há pouco tempo, nos EUA, um conferencista evitaria analisar as causas políticas e sociais da violência, por temer ser suspeito de justificar o terrorismo. A ordem oficial exigia que considerássemos o planeta ameaçado pela raiva irracional contra a democracia. Politólogos e jornalistas evitavam, prudentemente, alinhar-se na contracorrente. No entanto, a onda de contestação que eclode, em seqüência aos escândalos explosivos que atingem o governo Bush, varre progressivamente os tabus e as idéias prontas, como atestam diversas obras publicadas recentemente. Elas não justificam o terrorismo, mas analisam suas causas e sugerem o remédio.

Autor de diversos livros dedicados aos conflitos mundiais, Matthew Carr faz, com seu livro Unknow soldiers [Soldados desconhecidos] [1], o contraponto aos neoconservadores, demonstrando que o terrorismo não é mais do que uma política servida (ou desservida), exclusivamente ou não, pela violência. Ele banaliza o fenômeno, ao apontar os atentados e assassinatos cometidos na Rússia, no século 19, pelas organizações que reclamavam da Revolução Francesa de 1789, assim como pelos anarquistas dos dois lados do Atlântico (na França notadamente, depois do massacre dos integrantes da Comuna de Paris em 1870). No século passado, uma loucura morticida tomou conta dos Bálcãs (1900-1913), da Irlanda do Norte a partir de 1919. Eram países colonizados que se levantaram contra as potências ocupantes.

Estas últimas justificam o desencadeamento das sangrentas repressões demonizando os combatentes pela liberdade. Matthew Carr disse que esses “terroristas” foram qualificados por seus opressores como bandidos, criminosos de direito comum, seres malfeitores, monstros, serpentes e parasitas. Os Mau Mau do Quênia, por exemplo, foram apresentados, nos anos 1950, como membros de uma “seita demoníaca” pelo governo e colonos britânicos. E o respeitável New York Times explicava, doutoralmente, a sublevação queniana como “frustrações de um povo de selvagens incapaz de se adaptar aos progressos da civilização”. Os números oficiais indicariam, mais tarde, que aqueles que foram acusados de ser “sedentos de sangue”, na realidade, mataram, durante os sete anos de sublevação, 32 colonos e 167 membros das forças de ordem — dentre os quais, 101 africanos. Em contrapartida, mais de 20 mil integrantes do movimento foram massacrados pelas forças de segurança e milhares de quenianos foram feridos, mutilados e retirados de suas casas. Carr, que evoca, entre outros, o caso argelino, conta que todos os conflitos coloniais encontraram seu epílogo com a ascensão ao poder de líderes “terroristas”: Jomo Kenyatta no Quênia, Nelson Mandela na África do Sul, Ahmed Ben Bella na Algéria, Menahem Begin em Israel, Anouar El-Sadat no Egito, para não citar outros.

Para os poderes estabelecidos, os terroristas jamais têm motivações legítimas; suas frustrações tanto quanto suas reivindicações políticas ou sociais, não são dignas de ser levadas em consideração (salvo sob pressão). E o uso da violência não é mais do que a expressão de seu “fanatismo” ou de sua “loucura”. Matthew Carr contou que, nos anos 1970, as autoridades da Alemanha Oriental retiraram os cérebros dos cadáveres dos membros da Baader-Meinhof para determinar as origens genéticas de sua mentalidade criminal. Um psiquiatra alemão foi capaz de “descobrir” uma disfunção patológica em um dos órgãos que examinou.

Chomsky considera "espantosa" a investigação de Phil Rees

Outras teorias foram espalhadas por intelectuais americanos de grande prestígio. Samuel Huntington, professor de ciências políticas na Universidade de Harvard, previu, desde 1993, um “conflito de civilizações” entre o Ocidente e o Islã, enquanto o historiador Bernard Lewis explicou que, desde 1964, a confrontação árabe-israelense se explica pela incapacidade do Islã em se adaptar à modernidade. Nada admirável, já que Lewis se tornou um dos gurus mais apreciados pelos neoconservadores e dos ultra-sionistas americanos. Uma obra singular desse gênero contribuiu fortemente na desmistificação dos fantasmas guardados sobre as motivações dos terroristas. Dining with terrorists [Jantando com terroristas] [2] foi escrito por Phil Rees, célebre jornalista investigativo laureado com diversos prêmios internacionais com seus livros, documentários e artigos na imprensa. Durante anos, ele percorreu o planeta para “jantar” com os responsáveis pelas organizações praticantes da violência. A proeza consistia em se introduzir e se infiltrar no coração de movimentos clandestinos em países tão diferentes como Colômbia, Argélia, País Basco, Indonésia, Camboja, Sri Lanka, Afeganistão, Líbano, Irã, Egito, Irlanda, Iugoslávia, Caxemira, Paquistão e Palestina. A coleta dessas investigações, complementada por fotografias, é julgada com toda razão como “espantosa” por Noam Chomsky. A face humana que emerge dos combatentes, e a força de suas convicções, encorajam a imaginar outros meios que não a força para chegar ao fim de sua violência, ainda que ela possa parecer atroz.

Contador de histórias sem igual, Phil Rees nos entrega narrativas de suas aventuras e desventuras, perfis surpreendentes de seus interlocutores. Nenhum deles se considera um terrorista, todos sustentam que se opõem à violência — à violência de seus opressores. São raros aqueles que esperam uma vitória militar. Alguns desejam obrigar o inimigo a negociar um compromisso e outros se contentam em difundir uma “mensagem política”. Assim, Matthew Carr classifica certas atividades dos palestinos nos anos 1970 (notadamente o desvio de aviões) na categoria de propaganda.

Para Rees, os palestinos são resistentes do mesmo naipe que os sionistas durante o mandato britânico (1922-1948) e os franceses sob a ocupação nazista. Em 1997, ele conheceu um dos fundadores do Hamas, um intelectual diplomado em universidades norte-americanas, professor de engenharia na Universidade Islâmica de Gaza e autor de diversos livros de tecnologia e política. Ismail Abou Shanab contou que reuniria voluntários aos acordos de Oslo, se pensasse que Israel aceitaria a criação de um Estado palestino digno desse nome. “Face aos tanques, com os bombardeios dos aviões F-16, com mísseis de helicópteros Apache do exército de ocupação, o que nós poderíamos fazer a não ser enviar nossos filhos para se matar em Israel?”, disse tristemente a Rees. É, também, para ele um modo de lançar um apelo angustiado à opinião pública mundial.

O essencial: como resolver as questões que dão pretexto ao terror

Abou Shanab, com 47 anos de idade, permaneceu como militante apesar dos oito anos de confinamento que acabava de cumprir nas prisões israelenses, dos quais ele passou dois anos numa minúscula cela subterrânea. Seis anos mais tarde, em 2003, enquanto dirigia seu carro, o foguete de um helicóptero israelense o decapitou e estraçalhou seu corpo, um espetáculo ao qual Phil Rees assistiu, aterrado, enquanto via, por acaso, a reportagem difundida por um canal de televisão via satélite.

Abou Shanab não é, hoje, como notou o repórter, mais do que a 138ª vítima da política israelense dita de "assassinatos pontuais" em dois anos. Ele poderia ter acrescentado que as execuções extrajudiciais são crimes de guerra aos olhos das leis internacionais. O Hamas – que é também, e sobretudo, um partido político majoritário em um parlamento democraticamente eleito – é severamente sancionado como uma “organização terrorista” tanto pelos Estados Unidos quanto pela União Européia, os quais cortaram a ajuda ao governo palestino após sua vitória em eleições democráticas.

Phil Rees não teme atravessar a Colômbia de uma ponta à outra, adentrando sucessivamente as zonas controladas pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e as bases das milícias contra-revolucionárias (onde, freqüentemente, uns e outros praticam seqüestros e assassinatos não apenas de concidadãos suspeitos de simpatia por um ou outro campo, mas também estrangeiros de passagem). Phil transtorna-se, mas estima que é contraprodutivo trajá-los com a qualificação infame de “terroristas". Para promover a paz, sustenta que deveríamos excluir a injúria e levar em conta os interesses e o que está em jogo em ambas as partes em conflito. Aliás, ele complementa, citando antigos embaixadores americanos na América Latina: a política de Washington seria menos “terrorista” [3]?

No país basco, Rees não esconde os crimes cometidos pelo movimento independentista ETA, mesmo que censure o governo de Madri (e incidentalmente aos Estados Unidos e União Européia) por denunciar esse “terrorismo” abstendo-se de se engajar num diálogo sério com aquilo que reclama como sendo a história, a cultura, a identidade basca. Ele lembra que na Irlanda do Norte, um conflito antigo de diversas décadas — que é apresentado obrigatoriamente como de essência religiosa, e por isso irredutível —, pôde ser controlado graças às longas e cansativas negociações com o Exército Republicano Irlândes (IRA).

Wright ouve 483 agentes ou testemunhas dos atentados da Al-Qaeda

A situação é bastante diferente para a Al-Qaeda que, em perfeita harmonia com o presidente Bush, julga que a confrontação entre o Ocidente “cristão-judaico” e o Islã é de ordem existencial. Nenhuma negociação, compromisso e coexistência pacífica — que poderiam ser estabelecidas, por exemplo, com “O Império do Mal” soviético —, é viável nesse caso. A guerra santa, o “jihad” de Osama Bin Laden é tão intransigente quanto a “cruzada” levada adiante pelo presidente Bush depois dos atentados do 11 de setembro. Como, aliás, compor com uma nebulosa entranhada nas montanhas do Afeganistão e do Paquistão, sem estruturas globais, sem raízes internacionais, que se contenta em incitar seus partidários à violência contra o império norte-americano e seus partidários locais? Como lidar com células de militantes disseminadas pelo mundo, que funcionam de maneira autônoma como elétrons livres, com motivações diferentes de um país para outro?

As respostas a essas questões, bem como outras, são fornecidas por uma obra consagrada à Al-Qaeda, sem dúvida uma das melhores publicadas recentemente, The looming tower [4], de Lawrence Wright, que acaba de ganhar o Prêmio Pulitzer. Wright, universitário, cronista na revista New Yorker, cujo trabalho foi premiado várias vezes, baseia-se em informações de primeira mão: documentos inéditos redigidos por dirigentes da Al-Qaeda, entrevistas que feitas com 483 agentes ou testemunhas (das quais ele fornece a lista), incluindo os próximos de Bin Laden, terroristas arrependidos, especialistas em Islã, antigos membros da CIA e do FBI. Sua pesquisa o levou, em cinco anos, à Arábia Saudita, Egito, Afeganistão, Paquistão, Sudão, Iêmen e também vários países ocidentais. Ele descreve em detalhes as origens da organização transnacional, sua ideologia, suas lutas internas, suas ilusões e desilusões.

Os retratos que ele nos deixa dos dirigentes e seus ambientes sociais e familiares, revelam os motivos de seus comportamentos. A personalidade de Bin Laden, descrita por aqueles que o conhecem bem, é dissonante: marginal no seio de uma família de milionários, de uma extrema modéstia, ele leva uma vida monástica no fundo de cavernas; atencioso com respeito às suas quatro esposas, das quais duas concluíram doutorado — uma em psicologia infantil, outra em lingüística. Pai irrepreensível de uma quinzena de crianças; nacionalista saudita antes de se tornar globalmente anti-norte-americano, passa por ter capacidade intelectual limitada, daí a influência que exerce, sobre ele, o egípcio Ayman al-Zawahiri — seu adjunto e cabeça pensante da Al-Qaeda — sobre ele. Seu credo comum é aquele de seu mestre pensador, o ideólogo egípcio Sayed Qutb, enforcado sob o regime de Nasser, segundo o qual “o homem branco dos Estados Unidos e da Europa esmaga o povo colonizado”. O mundo para Sayed Qutb se divide em dois campos antagonistas, o Islã e a jahiliyyah (período pré-islâmico pagão e decadente), referente aos regimes “desertores” sujeitos ao imperialismo.

O Islã condena os atentados de 11/9. A mídia silencia sobre isso

Sem dúvida, não é fato do acaso se a organização transnacional iniciou suas atividades por volta dos anos 1990, enquanto a maior parte dos movimentos islâmicos (nacionais) renunciavam à violência (da qual eles sofriam conseqüências negativas), para se integrar à vida política de seus respectivos países. O abismo entre as duas correntes se manifesta durante o atentado contra as torres gêmeas e o Pentágono. A quase totalidade dos movimentos islâmicos, legais ou clandestinos, e todas as autoridades religiosas muçulmanas, condenaram os crimes cegos dos jihadistas, assim como sua ideologia, denunciada como contrária aos preceitos do Alcorão. O cisma foi largamente ocultado pela mídia, mas o acontecimento não impede a islamofobia de se espalhar pela opinião pública ocidental. Esta tende a se confundir com auxílio do vocabulário da mídia e dos antigos preconceitos – Islã, islamismo, fundamentalismo, jihadismo e terrorismo.

A caricatura do profeta Maomé coberto por uma bomba, publicada em um jornal dinamarquês, não é nada mais do que a expressão eloqüente desse amálgama. Os debates legítimos que se seguiram sobre o “direito de criticar o islã” [5], ocultaram uma outra discussão necessária, sobre as múltiplas causas do terrorismo, as frustrações e as cóleras sucessivas suscitadas pela hegemonia norte-americana, pelos regimes ditatoriais que proíbem toda liberdade de expressão, pela corrupção e as injustiças sociais, pela crise de identidade dos imigrantes. As elites “judaico-cristãs” bem sabem que o Islã, como todas as outras religiões, comporta ingredientes que podem ser explorados politicamente para justificar tanto o bem quanto o mal.

Estrategistas norte-americanos previram que, na era pós-soviética, o Islã tomaria o lugar do comunismo como ameaça existencial. A dimensão geopolítica do acontecimento é medida por Adrian Guelke, professor no Centro para Estudos de Conflitos Étnicos, em Belfast, em seu livro Terrorism and Global Disorder [O Terrorismo e a Desordem Global] [6]. Ele sustenta que o governo norte-americano, seguida por vários politólogos, não tem razão em considerar os atentados contra as torres de Nova Iorque e contra o Pentágono como uma guinada na história contemporânea.

Para Guelke, foi a queda da União Soviética que abriu caminho a uma nova forma de resistência à hegemonia todo-poderosa dos Estados Unidos — a saber, o terrorismo internacional. A importância política dos acontecimentos do 11 de setembro foi aumentada para justificar as “guerras” do presidente Bush? Esse acusa a Al-Qaeda de tentar “estabelecer um império islâmico da Espanha à Indonésia”.

Os atentados do 11 de setembro constituiriam uma “divina surpresa” para os neoconservadores. Permitem-lhes a retomada de seu programa imperial: ocupação do Afeganistão e do Iraque, que irá preceder a do Irã; reforço da presença militar na Ásia Central e no Golfo Pérsico; colocar sob tutela as fontes petrolíferas; “democratização” ou relocação dos regimes recalcitrantes à “nova ordem internacional”. Tudo em nome da “guerra contra o terrorismo”, planetária, total e de duração ilimitada.

Tolerância frente a "nossa" violência favorece o terror

Tendo, enfim, consciência das implicações negativas dessa apelação, o Foreign Office tem, em uma circular difundida em abril, recomendado aos diplomatas britânicos não utilizá-la. Sem dúvida, a extraordinária audácia dos seqüestradores dos aviões, a amplitude pavorosa do número de suas vítimas, a emoção suscitada pelo mundo, contribuíram para empurrar – ao menos inicialmente – a “comunidade internacional” para a tábua escorregadia sobre a qual se encontram pendurados os Estados Unidos. As conseqüências, sabemos, foram catastróficas.

A implosão do Estado iraquiano, a anarquia em paralelo aos sucessos militares dos talibãs no Afeganistão, a colocada em xeque dos exércitos norte-americanos em ambos os países não são mais que os resultados espetaculares do aventureirismo neoconservador. O balanço real é muito mais pesado. O governo Bush lucra com a conjuntura multiplicando as leis repressivas, lembrando o clima da época macartista. Ainda aprova o comportamento dos Estados policiais quando esses reprimem a oposição ou minorias oprimidas. Aos olhos de Washington, são terroristas os movimentos que resistem à hegemonia norte-americana; já os que aceitam essa hegemonia, não.

O terrorismo de Estado é tolerado e encorajado, se exercido segundo o interesse norte-americano. São fatores que favorecem os partidários da violência. Os seguidores da Al-Qaeda (que contava com menos de cem membros ativos, há dez anos) implantam-se no Iraque, e multiplicam-se em diversos países, notadamente na África do Norte e na Europa.

Podemos concluirk com a leitura das obras citadas, que, em um mundo unipolar, o terrorismo permanece como a única arma de que os fracos dispõem para assediar os poderosos em conflitos assimétricos. Somente um tratamento político do fenômeno é capaz de atenuar sua sorte.

Tradução: Elisa Andrade Buzzo
elisabuzzo@gmail.com

Leia mais:

Nesta edição, sobre o mesmo tema:

Como os EUA cultivam a impunidade
No trecho abaixo, extraído de Dining with Terrorists, Phil Rees destaca a ação da Casa Branca para livrar os soldados norte-americanos do Tribunal Penal Internacional, que julga crimes de guerra

Quem são os recutas da Al-Qaeda
Entre sua origem, nos anos 1990, e hoje, a rede terrorista mudou o perfil de seus adeptos, revela Laurence Wright neste trecho de O vulto das Torres

As novas obras sobre o terrorismo



[1] Matthew Carr, Unknown Soldiers. How Terrorism Transformed the Modern World, Profile Books, Londres, 2006

[2] Phil Rees, Dining with Terrorists. Meetings with the World’s most wanted militants, Macmillan, Londres, 2005

[3] Exemplo mais atualizado: a liberação sob fiança, em 11 de abril, nos Estados Unidos, de Luis Posada Carriles. Cubano anticastrista que participou da tentativa de invasão da baía dos Porcos (15 de abril de 1961), por muitos anos agente da CIA, ele é, entre outros crimes, autor intelectual do atentado a bomba que em 1976 destruiu em vôo um avião da Cubana de Aviación, causando a morte de 73 passageiros. Retornando ilegalmente aos Estados Unidos em 2005, foi acusado apenas de ter violado as leis de imigração, o que o colocou em segurança em relação às demandas de extradição enviadas por Cuba e pela Venezuela (de onde decolou o vôo em questão).

[4] Laurence Wright, O vulto das torres, Companhia das Letras, 2007.

[5] Ler Agnès Callamard, "Temos o direito de dizer tudo?”, Le Monde Diplomatique - Brasil, abril de 2007.

[6] Adrian Guelke, Terrrorism and Global Disorder. Political Violence in the Contemporary World, I.B. Tauris, Londres, 2006


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