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COLÔMBIA

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Isolados, os paramilitares criam falsas ONGs, simulam relações internacionais solenes, fingem ter no exterior o apoio que já lhes falta em seu país

Laurence Mazure - (20/05/2007)

O escândalo da para-política levanta questões sobre apoios internacionais dos quais os paramilitares têm se beneficiado, inclusive na França. Muitas personalidades colombianas, entre elas o senador Miguel de la Espriella e Carlos Ordosgoitia, alto funcionário e diretor do Instituto Nacional das Concessões (Inco) do governo, ressaltaram a presença de “dois universitários da Sorbonne”, de origem argentina, que agem como conselheiros políticos dos chefes das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC). Os estudantes Carlos Castaño e Salvatore Mancuso participaram de uma reunião ilegal e clandestina em Ralito, em julho de 2001.

Segundo Espriella, os “universitários propuseram a criação de um movimento comunitário e político que, de certa forma, defenderia as idéias das Autodefesas e levaria a um processo de paz”. O diretor do Inco declarou dois dias depois: “Dois professores da Universidade de Sorbonne, de cujos nomes eu não me lembro, mas que certos deputados certamente já viram na Universidade Militar, tomaram a palavra. Desde o início, deram sua visão do que é o conflito colombiano e explicaram como o resto do mundo via a Colômbia. Além disso, expuseram uma estratégia cujo objetivo era converter as Autodefesas em um ‘ator político reconhecido pelo conflito interno, para retomar as discussões’”.

No dia anterior, numa entrevista à Radio Caracol, o mesmo alto funcionário lembrou-se muito bem do nome de um dos dois interventores: Mario Sandoval. Esse teve ligações com o Instituto dos Altos Estudos da América Latina (Iheal, Paris), com a Sorbonne Nouvelle e a Universidade de Marne-la-Vallée. Suas atividades mais recentes tiveram lugar nos meios ditos de “inteligência econômica”. No fim de novembro de 2006, o site da embaixada da França no Chile indicava que Sandoval, “universitário encarregado de uma missão na direção de Inteligência Econômica da Assembléia das Câmaras Francesas de Comércio e Indústria (ACFCI)”, fazia parte de uma “importante delegação” com Alain Juillet, sobrinho de Pierre Juillet, o ex-conselheiro de Jacques Chirac; grande empresário, próximo da defesa, diretor da Direção Geral da Segurança Exterior (DGSE) em 2002 e, mais recentemente, indicado por Nicolas Sarkozy ao posto de diretor de inteligência econômica subordinado ao primeiro-ministro.

Em nome de ONGs que jamais existiram

O Museu Militar de Santiago sediou um colóquio intitulado “Inteligência Econômica, Defesa e Segurança”, organizado pela Universidade Bernardo O’Higgins e Sandoval. A sociedade civil colombiana estava “representada” por uma suposta “organização não-governamental” (ONG), denominada Verdad Colombia. Mais precisamente, trata-se de uma para-ONG, cujo site anuncia claramente seus objetivos: “Apoiar as instituições e setores democráticos que lutam contra grupos armados de ideologia marxista, tanto dentro do país quanto no exterior”. Os membros da Verdad Colombia retomam o discurso de propaganda do líder paramilitar Carlos Castaño em 1999 e 2000 e lidam com organizações de defesa dos direitos humanos como a Human Rights Watch, Anistia Internacional e o Washington Office for Latin America.

Depois de muitos contatos infrutíferos, o Iheal confirmou que Sandoval tinha sido “um encarregado, entre muitos outros, e não professor, até 2004”. No entanto, em 21 de junho de 2006, ao fim do encontro “França-América Latina: Concorrência e Cooperação”, sediado na Maison de l’Amérique Latine, com a presença de Alain Juillet, Stéphane Witkowski, presidente do Conselho de Gestão do Iheal e diretor de Relações Comerciais Européias da ACFCI, que também tem Philippe Clerc entre os membros da inteligência econômica, elogiou Sandoval: “Ao traçar um panorama do estado das relações em matéria de inteligência econômica na América Latina, Mario Sandoval, acadêmico de várias universidades e que orquestrou esse colóquio ao lado de Philippe Clerc, demonstrou semelhanças desse com outros sistemas existentes”.

O segundo “professor” se identificou em uma entrevista concedida, em 24 de fevereiro, ao semanal El Espectador e não tem qualquer ligação com a Sorbonne ou o Iheal, mesmo que tenha acompanhado Sandoval à reunião de Ralito. Juan Antonio Rubbini Melato, um argentino de 57 anos, conselheiro político dos chefes paramilitares Castaño e Mancuso desde 1999, é também conhecido pelos pseudônimos “El Profesor” e, principalmente, “Rubbiño”. Os textos de seu blog, “La Paz en Colombia”, exprimem um desprezo total pelas instituições democráticas e a classe política colombiana, em contraste com a exaltação fascinante de um projeto em que “a visão de um [presidente] Uribe ligado à intuição política das AUC estão a ponto de lograr um milagre”.

Tradução: Silas Martí
silas.marti@revistaflan.com

Leia mais:

Nesta edição, sobre o mesmo tema:

A Colômbia encara a violência
A revelação, há meses, das relações entre paramilitares e política, mergulhou o país numa crise duradoura. Pergunta: a sociedade será capaz de vencer o círculo infernal de brutalidade, no qual se juntam as milícias de direita e a guerrilha de "esquerda"?




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