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As somas recebidas pelo Marrocos para bloquear uma das portas de entrada da Europa são irrisórias. Mas as remessas de dinheiro dos marroquinos que vivem no exterior a seu país equivalem a 10% do PIB

Sophie Boukhari - (21/06/2007)

“No Marrocos, a política das migrações está entregue a pessoas cujo interesse se volta para a segurança pública. Para elas, o essencial é fazer número, a fim de provar sua eficácia na Europa”, desabafa o universitário Mehdi Lahlou. Há uma tentativa de receber recompensas da União Européia (UE) pela contenção dos migrantes. Mas, no plano financeiro, o país só obteve, até agora, uma ajuda específica de 67 milhões de euros, por seu trabalho de “sentinela”. Como frisa o jurista Mohamed Kachani, trata-se de apenas uma “gorjeta”, já que Rabat enfrenta despesas muito maiores, particularmente ligadas às deportações por avião de mais de sete mil africanos, desde 2004.

Por outro lado, o país negocia um aumento de cotas para trabalhadores temporários marroquinos admitidos na França e Espanha. Pede igualmente, mais vistos para seus cidadãos interessados em viajar à Europa. A aposta é grande: as transferências de dinheiro dos marroquinos residentes no estrangeiro atingiram 4,3 bilhões de euros em 2006 — cerca de 10% do PIB. Além disso, segundo o último estudo do Comissariado do Plano, mais de um jovem entre três sonha em emigrar.

Tanto de um lado como do outro do Mediterrâneo, a gestão securitária da questão de migração produz terríveis dramas humanos, mas poucos resultados duráveis. Os africanos retidos em Marrocos, sob condições desumanas, são vítimas de uma política européia tão absurda quanto ineficaz. Pois quanto mais a Europa constrói barricadas ao seu redor, mais os migrantes afluem. Em 2006, 31 mil subsaarianos atingiram as Ilhas Canárias, a partir das costas do Oeste africano — ou seja, seis vezes o número do ano precedente.

Depois de ter instalado um dispositivo quase militar, estimado em 260 milhões de euros, para bloquear mil quilômetros de costas andaluzes, a União Européia teria a intenção de cercar todo continente africano com uma barreira de proteção? Um projeto assim, totalmente irrealista, seria ainda mais absurdo, já que menos de 5% dos “clandestinos” residentes na Europa chegaram nesse continente pela rota africana. Os outros entram pelos portos e pelos aeroportos, munidos de um visto obtido segundo as exigências legais, vindos tanto de países africanos como de outros, como lembra Mehdi Lahlou.

Tradução: Leonardo Teixeira da Rocha
leorocha2003@yahoo.com.br

Para saber mais

Nesta edição, sobre o mesmo tema:

Viagem ao "muro" europeu
Reportagem no Marrocos: assim vivem (e morrem) milhares de migrantes que o mundo rico quer ver longe de suas fronteiras. E mais: como a União Européia transfere para alguns países africanos o trabalho sujo de reprimir quem busca uma vida melhor




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