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Cinco obras recentes reabrem o debate sobre os sentidos da guerra, numa época de choque de fundamentalismos, dúvidas sobre o poderio norte-americano e emergência da China

Maurice Lemoine - (21/06/2007)

Tumultos, clarões, explosões no campo de batalha. Aprisionado dentro de seu uniforme à prova de balas de última geração, o combatente é norte-americano. Um capacete assegura sua proteção e lhe permite, também, usar o equipamento eletrônico que transporta. O computador, cujo comando leva na mão, dispõe de um banco de dados e responde a comandos de voz. Na tela, acoplada ao capacete, o soldado pode visualizar mapas, sua posição calculada por GPS [1], orientações escritas sobre as ordens de sua missão, dados técnicos necessários à identificação de um projétil e até imagens de vídeo. A câmera, integrada ao módulo, permite ver à noite, através da fumaça. Distribuídas ao lado do capacete, “orelhas eletrônicas” localizam a origem de sons. Para maior segurança, o sistema informático é ligado a um detector de minas composto de sensores térmicos e de um micro-radar [2].

Ele porta uma arma: nesse caso o fuzil de assalto M14. Munido de uma câmera térmica capaz de detectar presenças camufladas, também permite a transmissão de imagens em rede. Observador de tiros, laser de telemetria e de designação. Dessa forma, qualquer soldado de infantaria se torna um elemento da cadeia de informação e de referências.

Ficção científica? Já em 1994, alguns desses aparatos estavam a ponto de entrar em serviço no exército norte-americano, como parte do projeto “21st Century Land Warrior Project” (21CLW). Concebido na ocasião da primeira Guerra do Golfo (1991), a "revolução dos assuntos militares" (Revolution in Military Affairs, RMA) impulsiona a excelência tecnológica ao extremo. Durante a operação “Tempestade do Deserto”, as armas vitoriosas do Iraque não foram os aviões "invisíveis", os mísseis de alta velocidade e as bombas de precisão? A coordenação em tempo real de múltiplas armas que cobrem uma grande área garantiu uma capacidade de combate sem precedentes. Um fenômeno inimaginável antes do advento da informática.

Desde aquele momento, as técnicas de comunicação mais modernas passaram a apoiar, em todos os níveis, as divisões militares do século 21 - que se tornaram mais potentes, mais móveis e se reorganizaram. “Se nosso oponente no campo de batalha mover o dedinho, todas as nossas bases serão informadas e poderão colocá-lo imediatamente em xeque-mate”, profetizou o General Dennis Reimer, chefe do Estado Maior do Exército dos Estados Unidos [3].

Estranha ética: "Não sou um atirador, sou um engenheiro

“Tática de internet”, munições de precisão que multiplicam a potência de fogo dos caças de bombardeio, uma infinidade de aviões sem pilotos (Unmanned Aerial Vehicle - UAV), primeiro destinados ao reconhecimento e cada vez mais usados em combate: nunca a história testemunhou tamanho abismo entre o exército mais poderoso do mundo e seus rivais ou aliados. Fundador, em 1945, da polemologia [4], Gaston Bouthoul foi um autêntico visionário quando previu, em 1962: “O combatente tende a se tornar um engenheiro que prepara a destruição de uma geração com máquinas de cálculo, planilhas e botões. Isso lhe permitirá, terrivelmente, não ter peso na consciência ou mesmo ser inconsciente e ele poderá responder àqueles que lhe fizerem críticas: ’Não sou um atirador, sou um engenheiro’.”

A revolução dos assuntos militares, como qualquer outra, não cria unanimidade. Mesmo nos Estados Unidos, certos oficiais questionam o fato de que o equipamento “high-tech” do soldado é muito pesado e desajeitado. Outros inquietam-se: “A dependência exagerada de redes de computadores cria o risco de enfraquecimento do exército, ao invés de reforçá-lo, reprimindo seu espírito combativo (os soldados passam a ter que ser, antes de mais nada, gestores de redes) [5].” Na China, em 1998, dois coronéis da força aérea, Qiao Liang e Wang Xiangsui (autores da obra La guerre hors limites — A guerra sem limites, balançam a cabeça: “As pesquisas conduzidas pelos norte-americanos têm, certamente, pontos teóricos equivocados e erros de raciocínio”.

Conseqüência dos golpes à distância, que permitem evitar perdas (em seu próprio campo), o sentimento de superioridade tecnológica dá origem a um novo conceito, o de “zero mortos”. Numa recusa a reviver as hecatombes do passado, o envelhecimento da população, o predomínio do individualismo, o peso das forças culturais e sociais e a forte tendência de fortalecimento dos direitos do homem, tal evolução corre na direção desejada pelas democracias ocidentais. O que não exclui a primeira tese: governos e estados-maiores tentam reorganizar seus exércitos profissionais, formados com altas cifras e em cuja lógica a qualidade deve predominar fortemente sobre a quantidade.

A guerra torna-se “humanitária”, e volta-se à idéia de intervenções militares destinadas a fazer cessar situações intoleráveis (fome, genocídios, limpezas étnicas, guerras civis intermináveis) [6]. Uma história em que reencontramos a moral dos bons e velhos tempos, nos quais bondosos colocavam fim a situações-limite. Para o prazer dos estrategistas de salão, que vêem com excitação os “ataques cirúrgicos”, a “guerra fresca e feliz” volta à ordem do dia.

Nos anos 1990, o poder dos EUA ressuscita a idéia de "guera justa"

Esse aparente progresso traz novamente à tona a reflexão à qual (depois de Platão) Santo Agostinho dedicou-se no século 5. Ela diz respeito à distinção entre “guerra justa” — portanto lícita, por ser defensiva — e "guerra injusta” — ilícita, porque visa a agressão [7]. Oferecendo um quadro para análise de conflitos em termos morais, essa doutrina acompanhou, ao longo dos séculos, os esforços realizados para emoldurar o uso da força nas relações entre Estados. Um repertório de regras divididas em dois grupos: jus ad bellum (regras para uma entrada na guerra considerada moralmente legítima), e jus in bello (critérios de uma conduta de guerra moralmente aceitável).

Integrada ao direito internacional positivo, graças às convenções de Haia e de Genebra, a noção de “guerra justa” reconhece aos Estados o direito de se defender com armas. Estabelece que eles, assim como os indivíduos, têm “direitos fundamentais”: “integridade territorial” e “autodeterminação”. “Isto faz com que a doutrina seja, à primeira vista, superior a seus dois adversários teóricos mais ferozes: o pacifismo absoluto e o realismo amoral”, comentou o filósofo Nicolas Tavaglione (autor da obra Le Dilemme du soldat – O dilema do soldado).

Gerida sob os auspícios da ONU, a operação “Tempestade do Deserto” foi acompanhada da esperança de que se estabelecesse uma “nova ordem mundial”. Na verdade, a renúncia inscrita na carta das Nações Unidas ao uso não-defensivo da força não cria entraves aos Estados, constatam Gilles Andréani e Pierre Hassner (autores do livro Justifier la guerre? – Justificar a guerra?). Durante dez anos, as intervenções “humanitárias” aparentemente espalham-se – é o que se pode constatar ao observar os exemplos da Somália, do Haiti, da Bósnia, Ruanda, Serra Leoa, Kosovo, Timor Leste e República Democrática do Congo. Mas “suas sortes vão seguir por curvas tortuosas”. Pois quem decide se opor à violência pela violência? Quando, como, em nome do quê?

À medida que sua influência cresceu, depois do fim da Guerra Fria, os Estados Unidos colocaram-se como os salvadores do planeta, os guardiões do mundo, os emissários da paz e da democracia. Em última análise, são bastante imitados, inclusive, pelos estados europeus. De uma distinção bem demarcada entre humanitário e securitário, passa-se, em Kosovo, a um recurso à força aberta.

Em nome do "humanitarismo", população civil é feita refém

Em seguida aos massacres perpetrados pelas forças de Belgrado, que teriam causado a morte de quase 10 mil civis, as forças da OTAN iniciam uma guerra aérea relâmpago de 79 dias (1999), sem apoio da ONU [8]. Ilegal – se bem que o Conselho de Segurança tenha se recusado a condená-la – a intervenção faz emergir novas questões. Por exemplo: “Saber se a força deve servir prioritariamente à proteção das vítimas ou à coerção do agressor” (Andréani, Hassner). Justa causa? “A OTAN invoca objetivos humanitários: conter as forças sérvias que se dedicam a operações de limpeza étnica contra as populações albanesas de Kosovo. O teatro das operações ficava situado em Kosovo, mas os bombardeios atingiram, antes de mais nada, a Sérvia. Conduzidos longe do campo de batalha, tais bombardeios visavam “punir a sociedade”, minando sua moral, na esperança de que ela leve seu governo a cessar o combate”, observou Tavaglione. Em outras palavras, fez-se de refém a população civil não-combatente, o que seria formalmente proibido pelo jus in bello.

Ao fim do conflito, outra questão passou despercebida: se os estrategistas norte-americanos tiram dessa vitória o sentimento de que a superioridade aérea lhes permite, somente a eles, vencer um exército adversário, eles não abordaram o problema da ocupação terrestre face a uma população hostil. A derrota na Somália deveria ter-lhes chamado atenção. De um ponto de vista estritamente militar, o ataque aéreo que os norte-americanos conduziram em Mogadiscio, em 3 de outubro de 1993, foi um sucesso. Mas o preço a ser pago – 19 rapazes yankees mortos ou desaparecidos e 84 feridos – foi alto demais para a opinião pública de um país que tinha se tornado adepto da filosofia do “zero mortos”. A situação impôs uma retirada antecipada, como já havia acontecido em 1982, em Beirute.

Primeira conclusão: jamais haverá, numa missão de manutenção da paz com caráter estrito de cooperação multinacional, a mesma disposição para aceitar o risco da morte que se tem numa situação de resposta a uma agressão em solo próprio [9]. Em Pequim, Qiao Liang e Wang Xiangsui tiram do episódio uma outra lição: “A julgar pela performance do exército norte-americano na Somália, onde esse ficou desamparado diante das tropas do General Aïdid, pode-se concluir que a força militar mais moderna não tem a capacidade de controlar o clamor público, nem de enfrentar um oponente que opera de maneira não convencional”.

Após o 11 de Setembro, volta ao conceito hobbesiano de guerra

Não-convencional é, por definição, o ataque de 11 de setembro de 2001, em território norte-americano – confirmando a premonição dos dois chineses (eles escreveram sua obra em 1998). “Quanto países pobres, de pouco poder militar, assim como grupos guerrilheiros não-oficiais, resistem a potências superiores, como a Tchetchnia à Rússia, a Somália aos Estados Unidos, a Irlanda do Norte à Grã-Bretanha e os partidários do Jihad islâmico a todo o ocidente. A sabedoria os leva a recusar sistematicamente o brutal combate face-a-face com os exércitos das grandes potências e a usar, em lugar disso, formas de combate como a guerrilha (principalmente urbana), a guerra terrorista, a guerra santa, a guerra prolongada e a guerra de rede”.

A resposta ao 11 de setembro marca o fim do “zero mortos”. Desta vez trata-se, para Washington, de defender seus próprios cidadãos. Oficialmente, ao menos... Aproveitando-se do estado emocional da população, a Casa Branca mobilizou o exército mais poderoso do mundo para conduzir uma ação que deveria ter ficado sob responsabilidade da polícia e dos serviços de investigação. Não vamos nos estender aqui sobre as razões, já conhecidas, da “guerra mundial contra o terrorismo”, desencadeada pela Casa Branca: destruir as capacidades militares do mundo árabe, controlando os recursos petrolíferos do Golfo Pérsico. Atacando o Afeganistão (“Enduring Freedom”) para cassar os talibãs, os experts do Pentágono estimaram que o conflito terminaria na primavera de 2002. Já sabemos bem o que ele se tornou.

Em 18 de março de 2003, sob o pretexto de buscar armas de destruição em massa inexistentes, os Estados Unidos lançam sua ofensiva contra o Iraque de Saddam Hussein, sem a autorização da ONU e contra a vontade de vários aliados. “O abandono do multilateralismo intra-ocidental é particularmente revelador do retorno dos Estados Unidos a valores hobbesianos”, escreveu Dario Batistella (autor de Retour à l’état de guerre – Retorno ao estado de guerra).

A concepção hobbesiana (de Thomas Hobbes, 1588-1679, filósofo inglês) da guerra caracterizou as relações entre unidades políticas ao longo de toda Antiguidade e da Idade Média, antes de ser reapropriada pela França napoleônica e, mais tarde, pela Alemanha hitlerista, lembra Batistella. Ela se baseia em dois postulados essenciais: “De um lado, a aceitação da guerra ilimitada, do exercício máximo da força e da exclusão de qualquer compromisso com o inimigo durante o combate, ficando entendido que o objetivo da guerra é a destruição do exército. De outro lado, a crença em guerra preventiva, sinônimo de ausência de regras sobre o desencadeamento de uma guerra. Todos os golpes são permitidos, sem consideração pela lei e pela moral”.

Em que a cruzada "anti-terror" de Bush é semelhante à jihad

Pode-se legitimamente discutir sobre a necessidade de desencadear uma guerra preventiva. “A idéia de recorrer à força deve ser rejeitada até que o fracasso de todas as tentativas de resolução pacíficas provoque, em caso de genocídio anunciado ou previsível, conseqüências desastrosas”, estimam Andréani e Hassner. O exemplo de Ruanda assombra as memórias. Ou ainda: “Que decisão tomar quando torna-se evidente, para os especialistas militares, que uma ação militar em determinado momento teria grandes chances de ser breve e coroada de sucesso, sendo que seis meses mais tarde, num cenário alterado, o enfrentamento seria mais mortal e mais incerto [10]?”

Nesse caso, a escolha feita por Washington do termo “preventivo” não deve nada ao acaso. Uma guerra preventiva se faz como resposta a um perigo potencial — não um perigo iminente. Assim, a National Security Strategy (Segurança Estratégica Nacional) norte-americana justifica a legítima defesa vários anos antes de a ameaça poder se realizar. Para Battistella, “atacando suspeitas vagas e incertas, os Estados Unidos tornam-se um agressor injusto”. Ainda mais inquietante, a “Nuclear Posture Review”, publicada pela Casa Branca, em 9 de janeiro de 2002, marca uma virada na abordagem da questão nuclear.

Quem pode duvidar que a guerra norte-americana no Iraque mais agravou que reduziu as ameaças de terrorismo e de proliferação, questionou Pierre Conesa, num artigo (Les mécaniques du chãos) que tenta demonstrar que o unilateralismo, o terrorismo e a proliferação dele estão dialeticamente ligados para criar uma mecânica de insegurança internacional. A queda da União Soviética, em 1991, “inflou um sentimento de embriaguês triunfalista tanto nos teóricos do islamismo violento — convencidos de ter vencido sozinhos a URSS no Afeganistão — quanto nos pensadores neoconservadores norte-americanos, que viam derreter a “potência do mal”, disse o autor. Para Conesa, o choque dos extremistas religiosos é incontestavelmente uma característica dominante da instabilidade internacional. Tentando traçar um paralelo entre o fundamentalismo “sulista” e o fundamentalismo “sunita”, ele vê, na equipe de Bush, o unilateralismo de uma potência que justifica sua identidade como uma espécie de “particularismo sagrado”, “um messianismo democrata radical”, ao qual os neoevangelistas dão um caráter religioso para gerar um “patriotismo bíblico” da mesma natureza daquele que inspira os jihadistas quando esses fazem do Islã o princípio absoluto e definitivo. “Sendo o triunfo da “verdadeira” religião o objetivo do conflito , o resultado só pode ser a vitória final, já que nenhuma negociação é possível com a outra parte, apresentada como o ’mal absoluto’”, completou o autor.

Em uma região onde o sentimento de ser o brinquedo de grandes potências faz exacerbar, há décadas, o nacionalismo e a rejeição ao Ocidente, cada ator vê a agressividade do inimigo e justifica sua própria violência pelo fato de ter sido precedida pela violência do outro. Isso é verdade tanto para o nebuloso Al-Qaeda, que não respeita nenhuma regra e tem como objetivo a destruição da ordem existente, como para os Estados submetidos à perseguição de Washington. “A única resposta possível está nos futuros ’igualizadores de potências’, que são a proliferação de armas de destruição em massa, a guerra irregular ou o terrorismo, que por seus custos reduzidos, apagam o desequilíbrio militar.” A luta incessante entre o escudo e a espada – a mesma luta conduzida há séculos por estrategistas de todos os países...

Os estrategistas chineses concebem a guerra múltipla

Famoso general da época das Primaveras e dos Outonos (722-481 a.C.), o chinês Sun Tzu desenvolveu suas concepções sobre a estratégia e a tática em uma pequena obra intitulada A Arte da Guerra. Sem negar o interesse do combate direto, preconiza o uso de todos os efeitos indiretos capazes de contribuir para a vitória. Dois mil e quinhentos anos mais tarde, em uma China considerada pelos Estados Unidos como uma potência rival crescente, os coronéis e Qiao Liang e Wang Xiangsui não negaram seu pensamento em nenhum instante. Publicado em Pequim, em fevereiro de 1999, sua obra La Guerre hors limites — A guerra sem limites, oferece uma possibilidade de comparação entre duas culturas estratégicas, a norte-americana e a chinesa — opostas em tudo. Para os dois militares, a “guerra assimétrica” é uma nova denominação para algo antigo. “Na verdade, a resposta do fraco ao forte trata-se de uma realidade há muito tempo”.

Pequim preocupa-se com um cerco à China, provocado pela presença militar dos Estados Unidos na região ou com um possível reforço do sistema de alianças do gigante norte-americano. Para evitar uma corrida armamentista exaustiva e sem esperanças, La Guerre hors limites abrange, como ações belicosas, todas aquelas realizadas em terrenos diferentes do domínio militar, em todos os meios diferentes da guerra. “A ajuda econômica, as sanções comerciais, a mediação diplomática, a aculturação, a propaganda, o estabelecimento de uso de regulamentos internacionais, o fato de se recorrer à resoluções da ONU constituem domínios anexos — são, cada vez mais, meios paramilitares a serviço dos políticos.” Em resumo, tendo em conta a co-relação entre as forças, Pequim continuará a favorecer a diplomacia, e mais ainda o que se chama de “soft-power”, para tentar modificar a situação em seu favor.

Em caso de conflito aberto: “Os modelos da guerra tradicional, assim como as teorias e métodos ligados a eles vão se encontrar diante de um desafio.” Para os autores, todos os domínios se tornarão campos de batalha do futuro. “Uma baixa na bolsa de valores provocada deliberadamente, uma invasão de um vírus informático, um simples rumor ou um simples escândalo que provoque a flutuação da taxa de câmbio do país inimigo ou exponha seus dirigentes na internet, todas essas ações podem entrar, dentro da nova concepção, na categoria de armamentos”.

Liang e Xiangsui observam que uma grande potência em vias de mundialização, como a China, já tem a capacidade de abalar a economia planetária simplesmente modificando sua política econômica. “Nessa hipótese, o impacto seria certamente maior do que o de um ataque militar”. Logo, a distinção entre campo de batalha e território neutro não existe mais. A utilização de um meio único será cada vez menos eficaz, enquanto a utilização conjugada de diversos métodos apresentará vantagens evidentes.

Os dois estrategistas concluem: “Os Estados Unidos estão concentrando o essencial de suas energias para fazer uma ‘nova Guerra Fria’, como não deve mais existir. E muito provavelmente, estão gastando energia para ir na direção errada.”

As cinco novas obras:

Pierre Conesa
Les Mécaniques du chaos: Bushisme, prolifération et terrorisme
Editions de L’Aube, La Tour-d’Aigues, 2007
172 páginas, 16,90 euros
Compra possível por internet

Dario Battistella
Retour de l’état de guerre
Armand Colin, Paris, 2006
292 páginas, 24,50 euros
Compra possível por internet

Qiao Ling e Wang Xiangsui
La Guerre hors limites
Rivages poche, "Petite bibliothèque", Paris, 2005
306 páginas, 9 euros
Compra (da versão em inglês) possível por internet

Gilles Andréani e Pierre Hassner
Justifier la guerre?
Presses de la Fondation national des sciences politiques, Paris, 2005
364 páginas, 20 euros
Compra possível por internet

Nicolas Tavaglione
Le Dilemme du soldat
Labor et Fides, Paris, 2005
165 páginas, 20 euros
Compra possível por internet

Tradução: Silvia Pedrosa
silvia@zeapinc.com



[1] Global Positioning System.

[2] Jon Gawne, "Le combattant américain du XXIe siècle", Raids, Paris, dezembro de 1994.

[3] Jean Laffay, "L’US Army du XXIe siècle", Raids, Paris, março de 1999.

[4] Estudo científico das guerras ou, de modo mais abrangente, dos fenômenos de agressividade coletiva. Sua obra Le phénomène guerre (Payot, 1962) acaba de ser reeditada ("Petite bibliothèque Payot", Payot, Paris, 2006).

[5] Jean Laffay, "L’US Army du XXIe siècle", op. cit.

[6] Olivier Hubac (dir.), Mercenaires et polices privées, Universalis, Paris, 2005.

[7] Sobre tal tema, ler, de Christian Delanghe e Henri Paris, Les nouveaux visages de la guerre [Os novos rostos da guerra], Pharos-Jacques-Marie Laffont, Paris, 2006.

[8] China e Rússia se opõem a uma intervenção que pode conduzir à separação de um país considerado soberano. Pequim pensa na Tailândia e Moscou, na Tchetchnia.

[9] Olivier Hubac, op. cit.

[10] Justice et paix-France, "Dossier de réflexion sur les interventions militaires extérieures" ["Relatório de reflexão sobre as intervenções militares externas"], Documents-Episcopat, Paris, 8 de maio, 2000.


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