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HISTÓRIA

Sob o signo da frustração

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A derrota no conflito de 1967 transtornou o mundo árabe. É a partir dos traumas associados a ela que crescem a influência da religião, a tentação da violência, o conservadorismo moral como forma de “purificação” e os governos cada vez mais afastados de seus povos

Bassma Kodmani - (21/06/2007)

A Guerra de 1967 fez relativamente poucas vítimas. O Egito pagou o preço mais elevado, perdendo 10 mil cidadãos. Já o número de soldados sírios e jordanianos mortos não passou de 5 mil. No entanto, os árabes teriam preferido perder mais homens a perder seu território e dignidade. A naksa, literalmente “a queda”, refere-se à derrota face a Israel e, principalmente, à interrupção do grande desejo de um Estado árabe nacionalista e modernista encarnado pelo nasserismo e pelo baasismo [1] e que culminou na criação da República Árabe Unida entre o Egito e a Síria (1958 – 1961). Durante quase duas decadas, entre 1950 e 1967, os árabes alimentaram a esperança de uma segunda chance para reparar a catástrofe (nakba) original que foi a perda da Palestina, em 1948-1949. Com os eventos de 1967, a irreversibilidade do Estado hebreu tornava-se uma realidade, enquanto Israel empreendia um discurso de não-retorno das conquistas territoriais e o jogo político se redefinia [2].

O fato marcou profundamente o comportamento e até o sistema de valores das sociedades árabes. A vida humana teve seu valor reduzido. Uma família não fica menos desesperada com a perda de seus filhos, mas a sociedade se vê em estado de guerra — guerra legítima de que faz parte a dor. É dessa época que data a glorificação da morte. Foi feita primeiro pelo movimento dos fedayins palestinos, que se sacrificaram pela terra e pela salvaguarda da identidade nacional. Em seguida, vieram os movimentos islâmicos, que aderiram à proposta e a sacralizaram.

A Guerra de 1967 representa, primeiramente, uma virada política na região. De um lado, houve a palestinização do conflito árabe-israelense; de outro, a afirmaçãoo do fator religioso. Pela primeira vez desde 1948, a reivindicação palestina tomava um rumo próprio: a Organização para a Libertação da Palestina, a OLP. Nascida em 1964, logo foi reconhecida pela Liga Árabe como única representante do povo palestino.

A OLP engajou-se na resistência armada no final da década de 1960, mas, à medida em que os países de onde ela podia agir se fechavam, passou a recorrer a modos alternativos de resistência. Depois de sua expulsão da Jordânia, em 1970-1971, lançou-se ao terrorismo internacional — instrumento chave de sua estrategia de sobrevivência, que só seria completamente abandonado na década de 1980. Passaram a emergiu grupos armados não-estatais, que fazem ataques além da fronteira. Tais grupos conflitam tanto com Israel quanto com o poder do país a partir de onde operam.

A complexa articulação entre poder político e islamismo

Em segundo lugar, assistimos a uma mudança na relação entre política e religião e à cooptação, por parte de grandes sheikhs muçulmanos, de largas parcelas da opinião pública. Desde o dia seguinte a sua derrota, e à retomada do poder como conseqüência das grandes manifestações após sua demissão, Gamel Abdel Nasser buscou, com sucesso, o apoio do establishment religioso. Em uma oração pública, no dia seguinte à derrota, o sheikh Mohammed Mitwalli Shaarawi, o mais popular líder religioso do país, agradeceu a Deus por uma "derrota traumatizante, que serviu para despertar a nação e lhe dar consciência de que ela se perde ao excluir a religião dos assuntos publicos”. O poder vê na instrumentalização da religião um meio de reconstruir sua legitimidade perdida, convencido de que depois conseguirá controlar os religiosos. Nasser nomeou o sheikh Shaarawi responsável pelo partido único. No entanto, rapidamente avaliou os riscos e procurou controlar sua influência.

Quando Anwar Al-Sadat o sucedeu, em 1970, foi retomada a estratégia de cooptação. A conivência entre os dois poderes instalou-se e se aprofundou, com o fim de anestesiar a população e impedi-la de desafiar a ordem existente. Mas as autoridades religiosas começaram a se tornar autônomas, confiantes em seu império sobre os corações e mentes. Elas investem na cena pública, na cultura, nos assuntos sociais, na mídia, nas relações vicinais — sejam com o vizinho cristão, sejam com o mais afastado, porém perigoso, ocidental. Sua escalada ao poder (Al Azhar no Egito, e os wahhabitas na Arábia Saudita) o transforma em um pólo alternativo capaz de estruturar a vida social e de dar sentido à existência coletiva. Seus recursos financeiros lhes permitem, ainda, dar assistência social a uma população carente.

Além disso, a instituição religiosa, antes mesmo da proliferação dos movimentos radicais islâmicos, já colocava a questão palestina no centro da problemática de identidade, sacralizando-a. Ela reelabora o confronto nacional e territorial, transformando-o em um antogonismo entre judeus e muçulmanos. Dizer que o islamismo é uma resposta de âmbito religioso à criação do Estado hebreu é uma leitura retrospectiva inexata. Israel foi visto, entre 1948 e 1967, como a realização de um projeto nacionalista conflitante com o nacionalismo árabe e palestino. Mas a derrota do poder de Nasser e do poder baasista, em 1967, privou-os da capacidade de formular um método de interpretação do conflito. Sob a influência da instituição religiosa, a história foi reescrita: as gerações que cresceram depois de 1967 representam, hoje, a esmagadora maioria da população, que emergiu sob a influência de um discurso impregnado de religião. Isso suscita um sentimento de culpa em todos, já que se desviam da piedade e do reto caminho.

Diante da profanação, "purificar-se" por meio violência e... do véu

Em 40 anos, o divórcio entre as sociedades árabes e os poderes estabelecidos aprofundou-se. Desde então, a gestão das consciências foi deixada a cargo do establishment religioso. Já a gestão das frustrações e aspirações políticas foi entregue aos movimentos islâmicos, que dividiram-se em duas tendências principais: uma, legalista; outra, revolucionária.

Foi sempre a partir do Egito que se definiram as orientações ideológicas, e sempre de lá partiram as correntes que varreriam a região. À desonra da derrota de 1967 juntou-se à proximidade do inimigo israelense, que tinha suas forças instaladas na margem leste do canal de Suez e nas colinas de Golan, a menos de 100 quilômetros da capital Síria. Os Irmãos Muçulmanos abandonaram as idéias de Sayyed Qutb [3], renunciando à violência e adotando uma estratégia de conquista progressiva da sociedade por meio de sua crença. Se por um lado, eles chamam a uma djihad contra as forças de ocupação israelenses ou estrangeiras, por outro delineiam claramente quem são os radicais que querem uma guerra sem limites contra os infiés dentro e fora do país, para a glória de Deus.

Em revanche, o movimento dos gamaat islamyia apareceu fortemente engajado em ações violentas. Eles deixaram os Irmãos Muçulmanos para lançar um ofensiva tríplice: primeiro, lançam-se à caça dos jovens, implantando-se nas faculdades, entrando nas escolas secundárias de maior prestígio e recrutando os filhos das famílias burguesas de Damasco, Amman, Cairo, Alexandria, Kartum. Movimento intelectual e político de elite, o islamismo radical nunca foi exclusividade das classes desfavorecidas. Seus dirigentes, bem como os da gamaat, a partir de 1967, e, mais tarde, os da Al-Qaeda, são intelectuais da burguesia educada e abastada.

Eles também promovem campanhas para estender o uso do véu. A justificativa? Diante do abuso à terra muçulmana, os islamistas mostram uma ligação obsessiva com a noção de honra e virtude, que as mulheres teriam a vocação e o dever de proteger. Sem que os governantes sejam capazes de preservar essa honra e virtude, passa a ser da sociedade e das mulheres o dever de fazê-lo.

Avanço do conservadorismo moral, erosão das liberdades

Enfim, terceiro braço da estratégia dos gamaat: o treinamento físico e esportivo. Partindo da benigna idéia de um corpo são, os manifestantes têm consciência de que se engajam num preparo para a luta armada, em vias de colisão com o poder.

Num primeiro momento, os Irmãos Muçulmanos egípcios, que tiveram sua direção dizimada por uma feroz repressão nos anos 1965-1966, com seus chefes executados ou condenados a longas penas de prisão, vêem na atração que as teses do gamaat exercem na juventude um meio de renovar suas fileiras. Mas os jovens em cólera chamam à guerra, enquanto os Irmãos já têm uma escolha feita pela via pacífica, uma escolha que não voltará atrás.

A cada grande crise se reproduz o sistema. A repressão sangrenta contra os Irmãos Muçulmanos sírios na cidade de Hama em 1982; a caça feroz ao gamaat pelo governo egípcio, nos anos 1988 –1992, depois dos atentados contra civis e turistas; a década de 1990, quando uma fração majoritária renunciou à violência e à clandestinidade, orientando-se pela legalidade e a moderação, enquanto uma porção minoritária se radicalizou e se engajou na violência da djihad, muitas vezes se exilando.

A longo prazo, o discurso moderado e os métodos legalistas se revelam politicamente vantajosos. Sua popularidade aumenta. De resto, os poderes políticos, acostumados sempre a usar seus serviços de segurança — os famosos moukhabarat —, contam com os islamistas moderados na Arábia Saudita, Egito, Jordânia e Marrocos para polemizar com os extremistas no plano doutrinário, desqualificar a atração que exercem sobre os jovens e desacreditar a violência. A experiência é válida, pois o peso dos grupos armados, seja no Egito ou na Argélia, diminui. Mas o islamismo se impõe como modo de pensamento e modelo de sociedade, trazido pelos moderados e pelas instituições religiosas, com um crescimento do conservadorismo e uma erosão das liberdades.

A derrota de 1967 levou, também, à queda do poder na Síria, no Iraque, no Sudão e na Líbia. Mas foram os últimos sobresaltos do tipo, já que, desde 1948, a instabilidade política fazia parte da paisagem do Oriente médio e golpes de Estado se sucediam. Há quase 40 anos os mesmos dirigentes ou seus filhos estão profundamente arraigados no poder [4].

Lento desgaste dos governos e elites retrógradas

Em 1973, assistimos a um sobresalto que torna-se um modelo no imaginário árabe. A guerra lançada contra Israel por Damasco e pelo Cairo, no mês de outubro, trazia o sentimento de que 1967 poderia ser superado e a co-relação de forças, invertida. Sobretudo no âmbito estratégico, a mobilização comum dos recursos militares e energéticos deixava pensar que, na falta de uma união de fato, havia uma solidariedade árabe que podia dar peso às reivindicações mais leves, sobretudo às dos palestinos. No âmbito político, o mundo árabe falava a uma só voz e formulava reivindicações coerentes. Enfim, no plano econômico, o bom fluxo para os países produtores de petróleo fazia nascer a esperança de que as sociedades se beneficiariam graças a uma distribuição eqüitativa das riquezas pelos governantes.

Essas esperanças revelaram-se ilusórias. Do ponto de vista militar, a guerra não trouxe melhoras e foi um passo inútil. O tempo das negociações e dos compromissos havia sido definido antes mesmo do início das hostilidades. Após ter atravessado com sucesso o canal de Suez, o exército egípcio foi parado por ordem política: o presidente Sadat queria simplesmente mover as linhas do cessar fogo de 1967 para negociar a partir de uma posição mais vantajosa. Israel teve medo, mas logo foi tranqüilizado, antes de se sentir constrangido a pensar na restituição dos territórios ocupados em 1967.

Os líderes — Egito e Arábia Saudita — logo mostraram que a nova solidariedade árabe dependia do apoio e da ajuda dos Estados Unidos. Enfim, a riqueza súbita de que se beneficiaram os países produtores de petróleo e sua considerável extensão aos demais países árabes — com a renda transferida por meio de imigração maciça de mão-de-obra para o Golfo — foi acompanhada de uma escalada sem precedentes da corrupção, do parasitismo e do mal-estar das sociedades.

O petróleo enriqueceu e consolidou os poderes, bajulados pelos países consumidores. Enquanto se aperfeiçoavam os serviços de segurança e controle da população, a imagem de Estados policiais era ofuscada pelos mercados. Seu primado sobre as sociedades é garantido por um convite às antigas elites — “Enriquecei” – e pela criação de uma nova burguesia de Estado. Tal segurança permite aos poderes realizar algumas reformas de fachada (até um pseudo-multipartidarismo), que contribuem para retocar um pouco sua imagem.

Na deserção do Egito, a perda de uma grande referência

Quinze anos depois, constata-se que a década da tafra (riqueza súbita) não foi empregada na melhoria das condições de vida da população, mas desperdiçada de maneira imperdoável, como na Argélia. Os países do Golfo substituiram gradativamente trabalhadores árabes por mão de obra asiática, fechando as portas a milhares de jovens condenados ao desemprego em seus países.

Quanto contribuiu ou contribui o conflito entre Israel e a Palestina para esse cenário? Seria ele realmente central? A solução do conflito será a chave para o desenvolvimento da região? Nos EUA e Europa, acredita-se que não. É preciso que se diga que esse leitmotiv já não é ouvido e que não reflete as evoluções da região desde o fim da década de 1970. Nessa ocasião, o presidente Sadat decidiu mudar radicalmente de orientação, de prioridades e de aliados, expulsando os conselheiros soviéticos e convidando os norte-americanos para recuperar o Sinai. Abandonando os palestinos, ele assina a paz saparadamente em Camp David, em 1978. Como conseqüência, os países árabes rompem relações com o Cairo, vendo-se assim privados do líder que, durante décadas, tiveram no Egito.

O aumento do poder da Arábia Saudita e dos países do Golfo e seu alcance financeiro eram portadores de valores religiosos, de consumismo, de bem-estar e de uma gratidão às potênciais anglo-saxãs — que os ajudaram a sedimentar sua autoridade, tendo, até mesmo, dado a autoridade a alguns deles. Enquanto os egípcios faziam valer sua nacionalidade, as elites do Golfo queriam construir seu futuro nacional e a segurança da península árabe, mas não sem um certo sentimento de nada dever a uma causa árabe de que eles seriam os únicos financiadores. A Jordânia fixou como prioridade defender seu território e sua integridade, livrando-se da resistência palestina. A Síria fazia o mesmo com sua intervenção no Líbano, em 1976, e suas ofensivas para reduzir a capacidade da OLP, em contradição com a retórica nacionalista, que mantinha intacta.

Questão palestina, nó incontornável no Oriente Médio

A revolução islâmica iraniana de 1978-1979 e a guerra de oito anos que Saddam Hussein lançou contra ela revelaram um outro eixo de tensão, de potencial muito maior que Israel, e contribuíram para o descrédito daqueles que defendiam a centralidade do conflito entre Israel e a Palestina. A capacidade do Iraque de mudar o equilíbrio regional foi desperdiçada numa mobilização de todos os recursos do país para enfrentar a ameaça xiita interna e numa rivalidade com o vizinho iraniano. A decisão de Saddam de invadir o Kuait, em 1990, pôs fim a todas as esperanças de que seu poder poderia servir para pôr limites em Israel. O maior país árabe, depois do Egito, saía da equação estratégica árabe-israelense.

Se a derrota de 1967 e a reaproximação que se seguiu entre Egito e Arábia Saudita puseram fim à guerra fria árabe — entre países progressistas, aliados à União Soviética, e países reacionários, aliados aos Estados Unidos — não se implantou nenhum sistema de segurança regional, capaz de gerenciar as crises e conflitos. A própria noção de mundo árabe era contestada, substituída pela expressão “rua árabe”, agitada por emoções comuns, mas fundamentalmente impotente.

O tema da “centralidade do conflito” serviu aos governos atuais para que tomassem o poder, justificou despesas exorbitantes em armamentos e o desenvolvimento conseqüente dos serviços de segurança sob uma retórica nacionalista. No entanto, seguramente não é o conflito palestino que permite explicar a violência dos regimes contra a sociedade e sua interferência em todos os domínios da vida pública. Também não é ele que serve para justificar a má gestão, o autoritarismo, a corrupção e a crueldade dos dirigentes com seus cidadãos.

Mas se os governantes utilizam-se com tal eficácia da luta contra Israel, fica claro que o conflito permeia a consciência coletiva dos árabes. É lá que está a centralidade do conflito. A relação com Israel determina o juízo de opinião em todas as potências estrangeiras sobre as orientações e os discursos das diferentes forças políticas. Para os povos da região, é preciso pesquisar incessantemente qual é o melhor quadro (árabe ou islâmico) capaz de trazer uma melhora na posição árabe em relação a Israel. Eles rejeitam qualquer batalha que não tenha por objetivo se opor ao Estado hebreu. Mostram-se reticentes em se engajar em lutas que representariam um desvio de energias e seriam, conseqüentemente, anti-patriotas. Assim se explica a sedução exercida por todo movimento que propõe uma nova estratégia contra Israel, do Hamas ao Hezbollah, até a tentação niilista de alguns, que chegam a aplaudir os atos da Al-Qaeda. Se o conflito não mais estrutura a configuração estratégica da região, ele continua a determinar os comportamentos. Os governantes já tentaram enterrá-lo, mas a besta adormecida teima em voltar.

Quando o mito, mais que a memória, torna-se válvula de escape

A derrota de 1967 marcou, portanto, uma geração traumatizada. Essa geração encontra-se unida na derrota e estupefata. [5]. Os mais velhos viram ser confiscado o controle sobre seu destino e a decepção foi terrível. Mas para aqueles que entravam na vida adulta, era bem mais grave: era preciso construir o futuro a partir de uma realidade paralizante. Fisicamente, o espaço árabe estava transformado. A guerra e muitos territórios haviam sido perdidos. Era preciso agora aceitar Israel com as fronteiras que o mundo reconhecia, as de 4 de junho de 1967, esperando que se contentasse em troca dos gestos de boa vontade exigidos.

Mentalmente, essa geração situou-se de maneira diferente no tempo. Ela abriu os olhos para o mundo, consciente de que os belos dias em que as sociedades tinham um destino coletivo ficaram para trás. A perspectiva de futuro é angustiante, o horizonte vazio e a direção tampouco se encontra no passado. Para muitos, o mito, mais que a memória viva, tornou-se uma válvula de escape. A cultura política das gerações pós 1967 — seja árabe, anti-imperialista, nacionalista ou islâmica — teceu-se na teia da guerra. Sua consciência tem os contornos das linhas do cessar fogo de 12 de junho. Israel modificou as fronteiras militares e estratégicas; depois, com o prolongamento da ocupação, as realidades econômicas e humanas.

Diante desse lento atolamento dos países árabes, foi preciso muita coragem dos palestinos para organizar uma resistência que mantivesse a lucidez de que a ação militar deveria ser instrumentalizada cedo ou tarde, para dar início às negociações e fazer concessões. Yasser Arafat e seus companheiros sabiam disso, desde o início da década de 70. Mas, diferente dos dirigentes de Estados árabes, eles nunca decidiram avançar sozinhos impondo-se pela força. Sempre buscaram o debate entre as organizações palestinas, o consenso. Em uma palavra, uma ligação com o compromisso democrático. As eleições de janeiro de 2006, que levaram o Hamas ao governo, mostraram isso mais uma vez. Também o fizeram os esforços dos dois partidos para ter um governo de união nacional — frágil, incapaz até o momento de manter a ordem (como provam os enfrentamentos atuais), mas preferível, para o presidente da Autoridade Palestina, a uma tomada do controle pela força.

A ausência da democracia no resto do mundo árabe privou as sociedades de espaços de debate e mecanismos de participação. O resultado foi que a elite intelectual tentava sozinha refletir, enquanto os dirigentes procuravam negociar uma paz — a deles — e a população, entregue a própria sorte, busca soluções para seus angustiantes problemas, sob um governo de quem não espera grande coisa. Apático? Talvez, resignado com a impotência, mas buscando modos alternativos de organização social.

Segundo Paul Valery, o passado, esse “veneno para o intelecto”, é algo que o mundo árabe não soube discutir e nem superar. Em 40 anos, o nacionalismo palestino trocou de estratégia, liderança, discurso, referências. Porém, esses 40 anos de ocupação provaram seu carater irredutível. Henry Kissinger, que lançou a famosa frase “bye, bye OLP”, já não está mais em cena para acolher o Hamas. Para a geração marcada pela Guerra dos Seis Dias, a solução da questão palestina é condição sine qua non e o elemento motriz para um futuro tranqüilo. É superando tal obstáculo que será possível se opor aos poderes instituídos e promover a democracia e as liberdades, sem ser acusado de trair a grande causa. Por meio dessa superação é que se poderá questionar o valor dos exércitos e dos serviços de segurança na vida das sociedades; que poderá ser posto em questão o pensamento único islâmico e se poderá alimentar uma relação de maior confiança com o exterior e o Ocidente em particular.

Tradução: Leonardo Abreu
leonardoaabreu@yahoo.com.br

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[1] Gamal Abdel Nasser (1918-1970) tomou o poder no Egito, em 1952, com os oficiais livres e foi o bastião da unidade árabe. O partido Baas (que significa renascença) foi criado em 1947 sob as palavras de ordem “unidade, liberdade, socialismo” e era influente entre os militares e as classes médias. Dispondo de seções em todos os países árabes, ele tomou o poder na Síria e no Iraque nos anos 1960. No entanto, as relações pouco amigáveis entre Damasco e Bagdá impedem qualquer unidade árabe.

[2] Ian S. Lustick, Unsettled States Disputed Lands, Britain and Ireland, France and Algeria and the West Bank-Gaza, Cornell University Press, 1993.

[3] Membro dos Irmãos Muçulmanos, teórico da violência como estratégia política que inspira os movimentos djihadistas. Executado por ordem de Nasser em 1966.

[4] Farouk Mardam-Bey e Elias Sanbar, Ser árabe, entrevistas com Christophe Kantcheff, Actes Sud, Arles, 2006.

[5] Charles Taylos, “A different Kind of Courage” (Um outro tipo de coragem), The New York Review of Books, 26 de abril de 2007.


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