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IMPÉRIO

Por que vacila o movimento contra a guerra

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Um veterano das mobilizações antiimperialistas nos EUA explica, a seu modo, a ausência de grandes protestos contra o ocupação do Iraque, num momento em que dois terços da população defendem a volta dos soldados

Alexander Cockburn - (27/07/2007)

Os Estados Unidos são, hoje, decididamente anti-guerra, se considerarmos que dois terços da população julgam que a guerra no Iraque é um negócio sujo e que as tropas norte-americanas deveriam retornar ao país. Nas eleições de novembro de 2006, esse sentimento foi um fator decisivo para a vitória dos democratas, permitindo-lhes retomar o controle do Congresso. O cúmulo da ironia: a profunda desilusão dos eleitores a respeito da ocupação do Iraque não deve praticamente nada ao movimento anti-guerra. Não que este tenha desaparecido completamente, mas não é comparável nem com os movimentos de mesmo tipo dos anos 1960 e 1970, nem com as lutas organizadas contra as expedições militares de Ronald Reagan à América Central, no final dos anos 1980.

Quando os democratas, recentemente, deram a George W. Bush o recado do Congresso pedindo a repatriação das tropas enviadas ao Iraque antes do final de seu mandato, não estavam votando sob a pressão de uma imensa multidão de manifestantes apertados uns contra os outros em todos os espaços disponíveis, diante do Lincoln Memorial. Fizeram-no na perspectiva das eleições de 2008, preocupados em mostrar por palavras, senão por atos, que não eram indiferentes ao sentimento geral anti-guerra que se desenvolvia no país.

A lembrança e os rastros deixados pelos movimentos de protesto dos anos 1960 ainda estão presentes – muitas vezes de modo bastante intenso – no tecido da vida cotidiana. Destinos foram modificados para sempre pela decisão de milhares de jovens de se recusar a servir no sudeste da Ásia. Sob as cinzas da memória popular, sobrevive ainda a chama das grandes manifestações pacifistas de Washington, das passeatas nas grandes cidades, dos protestos diante dos postos de recrutamento do exército e das rebeliões nas universidades. Às vezes, de forma perigosa: no ano passado, no Colorado, um ex-combatente da guerra do Vietnã cuspiu em Jane Fonda e anunciou que ficaria feliz em assassiná-la devido à sua suposta traição à bandeira norte-americana, quarenta anos atrás.

Alistamento "voluntário" compra consciências e ameniza tensões

Na época do Vietnã, havia o alistamento. A possibilidade iminente de ser convocado pelo exército ou para os marines e, seis meses mais tarde, ver-se no delta do Mekong, fazia com que o espírito de um adolescente de 18 anos, de classe média, se concentrasse rapidamente nos horrores da guerra. Também perturbava o espírito dos pais. Hoje em dia, não há mais alistamento. É verdade que muitos soldados enviados ao Iraque foram obrigados a cumprir dois períodos de serviço; outros, indiciados por crimes, tiveram a liberdade de escolher entre a prisão e a farda; outros ainda, imigrantes ilegais, obtiveram um visto de permanência ou a nacionalidade norte-americana em troca de seu alistamento no Iraque. O fato é que, do ponto de vista formal, todos os militares presentes no Iraque ou no Afeganistão participam da guerra por decisão própria.

Ao menos por enquanto, nenhum governo norte-americano correrá o risco político de restabelecer o alistamento, ainda que o Pentágono tenha sérias dificuldades em recrutar soldados. Mas é essa, precisamente, uma das principais explicações para a fraqueza do movimento anti-guerra. Durante os anos do governo Reagan, também não havia serviço militar obrigatório e, no entanto, havia um vigoroso movimento pacifista contra as tentativas de Washington de destruir a revolução sandinista na Nicarágua e de esmagar a guerrilha do FMLN em El Salvador.

Aqueles que, na época, percorreram os Estados Unidos de cima a baixo para falar nas igrejas, nos sindicatos e nas universidades podem testemunhar que praticamente todas as cidade tinham sua comunidade contestadora. Era possível identificar os estratos históricos sob a forma humana nas manifestações de protesto. Até dez anos atrás, viam-se ainda os velhos comunistas, entre os quais sem dúvida alguns ex-combatentes da brigada Lincoln, voluntários na defesa da República espanhola contra Franco. Nos anos 1980, esses veteranos eram muitas vezes os melhores organizadores. Depois vinham os manifestantes pacifistas, tais como Dave Dellinger, encarcerado numa prisão federal durante a segunda guerra mundial.

Viam-se também militantes que haviam dado seus primeiros passos na política com Henry Wallace e seu Partido Progressista que, com uma plataforma de esquerda, foi candidato à presidência contra o democrata Harry Truman, em 1948. Um grupo um pouco mais jovem aprendeu a organizar-se durante a guerra da Coréia e na época do crescimento do movimento pelos direitos civis. Velhos sindicalistas encontravam-se lado a lado com Quakers e Unitaristas. Em seguida, veio a geração do Vietnã, hoje mais que sexagenária. No Sul, alguns militantes ainda em atividade são ex-maoístas que se estabeleceram em cidades como Birmingham (Alabama) como defensores dos direitos civis ou ativistas sindicais.

Quando não bastam reuniões burocráticas ou piqueniques de protesto

Há centenas de "esquerdas", que se sobrepõem em parte, cada qual travando sua luta particular: pelos direitos dos imigrantes, pelo controle público da energia ou contra as campanhas de recrutamento de jovens pelo exército. Quando eclode uma guerra, o que ocorre com regularidade nos Estados Unidos, todos esses grupos unem-se num grande movimento anti-guerra. Foi particularmente o caso no final dos anos 1980 quando, por exemplo, centenas de cidades irmanaram-se com municipalidades remotas da Nicarágua, intercambiando regularmente delegações entre si.

Essa convergência se deu novamente na grande manifestação contra a Organização Mundial do Comércio (OMC) de Seattle, em 1999. Em 2003, na véspera da invasão do Iraque, podia-se pensar no surgimento de um poderoso movimento antiguerra. Houve naquele momento algumas grandes manifestações, mas o movimento perdeu o fôlego ao longo dos quatro anos seguintes, justamente quando o absurdo e o caráter destruidor da agressão norte-americana tornavam-se cada dia mais manifestos. Em janeiro de 2007, o principal movimento antiguerra, United for Peace and Justice (UFPJ), organizou com algum sucesso uma manifestação em Washington. Compareceram estrelas de Hollywood, particularmente Sean Penn, e ícones dos anos 1960, como Jane Fonda e seu companheiro na época, Tom Hayden. Mas o evento foi fraco, sem surpresa.

Para ser memorável e eficaz, uma mobilização anti-guerra precisa de um certo vigor, ser um pouco "elétrica". Não pode se resumir a um encontro burocrático ou um piquenique. Em 2000, durante a manifestação de Washington contra o FMI, que se seguiu à de Seattle, no final de 1999, a polícia tinha instruções para abrir fogo, caso a situação se degenerasse. Não parece que essa instrução tenha se repetido em janeiro deste ano, quando a temperatura política estava bem mais baixa. Uma ausência foi particularmente notada na tribuna dessa manifestação, bastante indicadora da fraqueza do movimento atual: a de Ralph Nader. Ele não foi convidado, ainda que fosse uma figura de primeiro plano da esquerda e um dos críticos mais virulentos da invasão do Iraque. Por que?

Nader continua sendo o terror de vários democratas por ter se apresentado como candidato à presidência em 2000 e ter sido acusado de subtrair de Albert Gore os votos cruciais que acabariam por permitir a vitória de Bush. Embora a guerra do Iraque seja um empreendimento bipartidário e no Congresso os democratas tenham votado ano após ano verbas que permitiram Bush financiá-la, a maior parte do movimento anti-guerra, representado pelo UFPJ continua refém do Partido Democrata.

Servidão voluntária em relação ao Partido Democrata

Para esclarecer as conseqüências dessa servidão voluntária, uma pergunta bem simples: em que medida os votos recentes da Câmara dos Representantes e do Senado aproximaram, por pouco que seja, o fim da ocupação do Iraque? Em 23 de março, a Câmara votou por 218 votos a 214 uma agenda de retirada das tropas norte-americanas, tendo como prazo 1º de setembro de 2008, data após a qual apenas a retirada poderia ser objeto de financiamento. Não é uma agenda propriamente draconiana. Exige apenas que Bush peça de novo ao Congresso o prolongamento da ocupação e os créditos correspondentes.

Em 27 de março o Senado, composto majoritariamente de democratas, votou por 50 votos a 48 um texto diferente do da Câmara: o início da retirada do Iraque a partir de março de 2008, sendo esse prazo não obrigatório para o presidente. George W. Bush anunciou que vetaria toda a agenda decidida pelo Congresso, o que de fato fez. E em 22 de maio, a Casa Branca pôde vangloriar-se: o Congresso aceitou continuar o financiamento da ocupação iraquiana sem impor condições quanto à data de repatriamento das tropas. Enquanto isso, a guerra continua. O Congresso examina o orçamento do Pentágono para o ano fiscal 2008 [1] (500 bilhões de dólares), sem que a direção do Partido Democrata manifeste nenhuma disposição especial para questioná-lo.

Quanto ao conflito em si – e à desintegração da sociedade iraquiana que ele acelera – nada de novo aconteceu, desde que sua rejeição pela opinião pública deu a vitória aos democratas em novembro de 2006. A reação de Bush à censura das urnas foi nomear um novo comandante em chefe no Iraque, o general David Petraeus, para supervisionar o reforço dos efetivos em Bagdá e na província de Anbar. Os democratas aprovaram por unanimidade a nomeação do general e, agora, deram sinal verde financeiro ao envio de reforços. George W. Bush deu a entender que não excluía a possibilidade de estender o conflito ao Irã. Nancy Pelosi, presidente democrata da Câmara dos Representantes, esfriada pelas vaias que levou no congresso anual do AIPAC (o lobby pró-israelense), rapidamente parou cobrar, de Bush, a necessidade de obter a anuência do Congresso antes de lançar um ataque contra o Irã.

O movimento realmente anti-guerra revelou-se incapaz de fazer pressão suficiente sobre os parlamentares democratas. Desde o início, a guerra de Bush foi um projeto bipartidário. E continua sendo. Os líderes democratas querem continuar fingindo que se opõem à guerra, enquanto a financiam. Chegaram a isso graças aos gemidos puramente formais da esquerda americana diante de seu comportamento.

Os movimentos anti-guerra provocam o fim dos conflitos que denunciam?

A guerra do Vietnã acabou principalmente porque os vietnamitas venceram o exército norte-americano, que se encontrava quase em estado de motim. Nos Estados Unidos, diversos setores da sociedade também manifestaram sua revolta. Mas os efeitos mais significativos dos movimentos anti-guerra se manifestam depois, na geração formada conforme comportamentos e táticas da resistência.

Desde o Vietnã, os Estados Unidos viveram um declínio progressivo, porém sensível, da confiança e das ambições da esquerda, traduzido pela ausência de contestação quando o governo Clinton-Gore (1993-2001) levou o país à guerra do Kosovo e iniciou as desumanas sanções contra o Iraque.

Ao longo do governo Bush, assistiu-se a um declínio suplementar de toda forma de esquerda independente que dispusesse de uma estratégia teórica e prática unificada, e mesmo de uma teoria política. Viu-se igualmente crescer uma paranóia não-construtiva e até desmobilizadora, como o florescimento de teses "conspirativas" a respeito dos atentados de 11 de setembro [2]. As universidades estão calmas. O movimento sindical vacila.

Descrever o movimento antiguerra concreto significa evocar algumas belas iniciativas: as campanhas contra o alistamento de soldados, as viagens pelo país daqueles que perderam um filho no Iraque e três ou quatro pessoas admiráveis: Cindy Sheehan [3] que, sozinha, reavivou o movimento no ano passado, instalando-se diante do rancho texano de Bush. Ela acaba de anunciar que vai parar o combate, está cansada, em parte arruinada e principalmente descontente com o comportamento dos dirigentes democratas. Mas a opinião pública não se engana com a dupla linguagem do partido de oposição: esse é quase tão impopular quanto o presidente Bush.

Quais foram as grandes manifestações inesperadas nos Estados Unidos, no ano passado? Em todas as grandes cidades, assistiu-se a gigantescas mobilizações de militância de imigrantes, na maioria hispânicos. Seu ódio era dirigido contra o tratamento brutal que sofrem e contra a severidade das novas leis contra a imigração ilegal, sem a qual a agricultura de baixíssimo custo com mão-de-obra, de Estados como a Califórnia, deixaria de existir. A guerra não figurava entre as palavras de ordem.

Tradução: Mariana Joffily
ianemari@terra.com.br



[1] O ano fiscal, nos Estados Unidos, inicia-se no dia 1º de outubro do ano anterior e termina no dia 30 de setembro do ano corrente.

[2] Ler "A conspiração das Torres gêmeas", Le Monde Diplomatique-Brasil, dezembro de 2005.

[3] Ler Cindy Sheehan, Peace Mom. Le combat d’une mère américaine contre la guerre. Paris: Flammarion, 2007, 320 páginas, 19,90 euros.


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