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Apagar o passado?

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Enquanto se rendia homenagem a Milton Friedman, pai do neoliberalismo e conselheiro do ditador Pinochet, tentou-se recentemente relegar ao esquecimento os veteranos que defenderam a democracia durante a Guerra Civil Espanhola. O que está por trás dessas amnésias seletivas?
(Na internet, a partir de setembro)

John Berger - (13/08/2007)

Podem-se ler as aparências como se lêem as palavras e, entre todas as aparências, o rosto humano é talvez um dos textos mais longos.

Alexandra, 83 anos, esteve em Paris pela primeira vez na vida na primavera passada. Até dois anos atrás, exercia medicina em Moscou. Nasceu em Kursk, a 800 km ao sul da capital. Eu a encontrei graças a amigas russas e jantamos juntos ao redor de uma mesa em um jardim do subúrbio ao sul de Paris. Perguntei-lhe o que a fez decidir estudar medicina. A multidão de mortos e de feridos durante a batalha de Kursk [1], respondeu. Essa batalha seguiu-se à de Stalingrado e abriu, ao Exército Vermelho, o caminho para Berlim.

A conversa prosseguiu lentamente no jardim. A maneira de falar de Alexandra, que parece bem mais jovem do que sua idade, é, ao mesmo tempo, ligeira e ponderada. A noite caía. Ao ouvi-la falar, lembrei-me de uma frase de Heidegger: “A linguagem é a casa do ser”. Alexandra abria a porta dessa casa e nos sentimos em nossa casa.

Quando ela obteve o diploma de medicina nos anos 1950, foi imediatamente enviada a uma cidade situada ao lado de uma mina de urânio no Turcomenistão. Os mineiros eram os zeks [2] do gulag. A União Soviética tinha urgente necessidade de urânio para fabricar suas bombas e chegar à paridade nuclear com os Estados Unidos, a fim de estabelecer o sistema de “dissuasão recíproca”, que durou até 1989.

Após alguns anos, quase todos os mineiros morreram de câncer. “Eu tive também”, disse Alexandra. “Rezei, curei-me e retornei a Moscou, onde exerci a pediatria por quarenta anos.”

Enquanto ela falava, comia e ria no jardim (“de onde vem essa energia?”, pergunto; “das pessoas!”, ela responde, “é simples, gosto de gente”), eu senti uma necessidade urgente de desenhá-la. Chamei sua atenção e ela assentiu com um sinal de cabeça. Antes que se levantasse para partir, pedi-lhe que escolhesse um dos dois desenhos que eu tinha feito. Ela escolheu o mais hesitante. Deliberadamente, acredito. Ela queria que eu guardasse o mais forte. Olhando-o no dia seguinte de manhã, me pareceu que as linhas do rosto pediam outras linhas, acompanhadas por palavras. Eu as acrescentei. A imprensa internacional publicou, na mesma semana, uma fotografia de Bernard Kon, um engenheiro polonês de 97 anos, que vive em Varsóvia e corria o risco — devido a uma nova lei — de perder a modesta pensão que recebia do Estado por ter sido voluntário, em 1937, nas Brigadas Internacionais e ter combatido ao lado dos republicanos durante a Guerra Civil Espanhola. A expressão dos seus olhos assemelhava-se à dos olhos de Alexandra. Talvez porque ambos viram coisas semelhantes. Lado a lado, os dois rostos falam de realizações pessoais (e de sofrimentos) que não precisam ser reconhecidos porque emana de ambos, de maneira própria em cada um deles, um senso em parte trágico e em parte triunfante de ter escolhido se ocupar de outros, se incumbir da história e lhe pertencer. Curiosamente, é essa vinculação que permite a Alexandra e a Bernard terem uma identidade também distinta.

Felizmente, a lei que ameaçava Bernard Kon e milhares de outros foi declarada inconstitucional, mas a operação efetuada pelos assustadores gêmeos Kaczynski [3] para eliminar o que resta do comunismo continua, e é característica de várias iniciativas políticas atuais. Optando por eliminar as experiências complexas da história, o objetivo onipresente dessas iniciativas é apagar o passado e, assim, reduzir as escolhas políticas às que estão em moda no momento.

Graficamente falando, o longo texto do rosto humano encontra-se reduzido a um clichê formatado!

O desenho que representa Alexandra ainda estava sobre a minha mesa quando li as provas do livro de Naomi Klein, de importância inestimável: The shock doctrine: the rise of disaster capitalism [4] — “A doutrina do choque ou a ascensão do capitalismo do desastre”. A obra fala da notória carreira do economista Milton Friedman, falecido em novembro de 2006. Nos anos 1950, Friedman lecionou na universidade de Chicago e elaborou a teoria das liberdades planetárias de um novo capitalismo, que escapa a todas as restrições impostas pelos governos e pelos Estados. Capitalismo com o qual já sonhavam as futuras multinacionais e os investidores financeiros internacionais. Quando se tornou conselheiro econômico do general — ditador Augusto Pinochet, no Chile dos anos 1970 —, Friedman pôs sua teoria em prática e reformou a economia chilena. Mais tarde, tornou-se um mentor e um “profeta visionário” para Margaret Thatcher, Ronald Reagan, Bush pai e Bush filho, Anthony Blair e Nicolas Sarkozy.

Se não tivéssemos extraído urânio para fabricar armas nucleares, disse Alexandra no jardim, teríamos nos tornado uma colônia norte-americana.

Considerado um teórico, Friedman lembra ligeiramente o Doutor Fantástico: mesma mistura de dogmatismo, inocência e cinismo, mesmo sonho de se mostrar salvador. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1976. Ele afirmava que a concorrência “pura” poderia regular tudo! Com o rosto de um tio sorridente, nunca, jamais, saiu de sua casa, e tentou nos explicar o que é importante na vida e o que não é.

Mas Friedman foi também um homem prático, de carreira impiedosa. Desde o início, tinha consciência de que sua solução de “pureza” para regular as dificuldades da humanidade jamais seria aceita por aqueles a quem devia ser imposta, a menos que esses estivessem em um estado de choque terrível. Para que as pessoas aceitem o desmantelamento da assistência social, a supressão do salário mínimo e de todo controle das condições de trabalho, a privatização dos serviços sociais, impostos que favorecem cada vez mais os ricos, a perda do direito de divulgar de fato sua oposição, para que as pessoas aceitem esse deal, que é o exato oposto do New Deal de Franklin D. Roosevelt, é necessário primeiro que sofram um desastre econômico e sejam tomadas de pânico.

A “doutrina do choque” penetra e determina, há tempos, as decisões globais do G8, do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional, dos estrategistas da CIA e — dependendo da ocasião — do exército norte-americano (guerras do Golfo e do Iraque). Às vezes, o choque é tramado totalmente em segredo, como no Chile, em 1973. Por vezes, às claras, como na Rússia, em 1991, ou na África do Sul, em 1994.

Em sua obra, Klein traz uma revelação estarrecedora: os instigadores e os defensores da “doutrina do choque” preconizada por Friedman estavam, e estão sempre, estreitamente associados às equipes da CIA [ver o manual Kubark [5] ], que trabalham com técnicas de interrogatório coercivo de prisioneiros em estado de choque físico, ou seja, de tortura.

Um mês antes de ser assassinado, meu amigo Orlando Letelier, ministro da defesa de Salvador Allende, constatou que acontecia à economia chilena exatamente a mesma coisa que aos seus camaradas na prisão! (Orlando tinha o rosto de um cantor para quem cada canto talvez seja o último).

Os dois tipos de choques são diferentes e têm efeitos devastadores diferentes. Um é solitário e físico. O outro, coletivo e ontológico. O primeiro é imposto impiedosamente por meio de eletrochoques (objeto de assíduos estudos por parte da CIA desde os anos 1950) e por privação sensorial. O segundo, pela encenação controlada de um desmoronamento econômico, pelo desmantelamento de todas as infra-estruturas sociais existentes, pela sincronização bem calculada de um período de pobreza abjeto e de pânico, após o qual se sai cinicamente com falsas promessas à mão. Contudo, esses dois tipos de choques têm um único objetivo: esmagar qualquer resistência. Para isso, começa-se por destruir o sentido de identidade do indivíduo.

Os que administram os choques – torturadores ou economistas – aprenderam, após meio século de experimentações, que a forma mais eficaz de destruir o sentido da identidade das pessoas consiste em desmontar e fragmentar sistematicamente a história de sua vida até aquele instante, ou seja, apagar o passado.

Uma vez o passado apagado, qualquer slogan politicamente abjeto, apesar da inocência que demonstre, resolve o problema: a hora é de mudança, começar novamente, partir do zero. Assim é a demagogia do neoliberalismo. Alexandra estava sentada no jardim durante a campanha para a eleição presidencial francesa. O estilo dos dois principais candidatos – Ségolène Royal e Sarkozy – tinha algo de impressionante, já que rejeitava qualquer explicação. Nenhum dos dois explicou o que se passava no mundo, a influência dos acontecimentos sobre a França ou suas conseqüências previsíveis, e as escolhas suscetíveis de ocorrer. Nenhum deles tinha mapa geográfico. E não o tinham porque não ousavam falar de vidas situadas na história — as histórias que as pessoas contam para dar um sentido ao viver — para um eleitorado que era, pelo menos até aquele instante, o mais politizado da Europa!

Tal conspiração do silêncio altera profundamente a natureza de uma eleição. O primeiro princípio democrático obriga os eleitos a prestarem conta para os que os elegeram: sua maneira de governar deve ser julgada por aqueles a quem governam. Em outras palavras, o eleitor interroga o eleito e tal questionamento desempenha um papel na tomada das decisões no longo prazo. A dialética de discussão substitui a obediência cega, não democrática. Se os candidatos não expõem nas grandes linhas sua visão da época em que vivem e não apresentam a estratégia que propõem para sobreviver, se isso continua a não ser dito nem lido, o eleitorado não pode preencher o seu papel dialético, porque não há nenhum diálogo sobre o essencial. Quando um candidato está, ou pretende estar, sem mapa, os eleitores são reduzidos ao estado de burros de carga.

Essa conspiração do silêncio assemelha-se a um acordo tácito: quando cada espectador é um cliente, o debate se reduz a uma competição entre estilos, a última sondagem conta mais que propor uma visão do futuro e a autopromoção se impõe. Os dois candidatos se dirigem aos diferentes medos, aos choques específicos sentidos por diferentes camadas da população, prometendo nunca esquecê-las, sem se referirem, por um só momento, ao conjunto e sem perguntarem, com as pessoas ao seu lado, o que se passa no mundo. A lábia é inconseqüente e martelada com segurança porque se sabe exatamente onde se quer chegar. Os dois candidatos querem obter a mesma coisa: confie em mim e avalize as minhas promessas.

Uma leitura da história implica, ao contrário, em compartilhar os acontecimentos, suas causas e suas conseqüências, discutir as margens de manobra possíveis (a história é raramente generosa) e, em seguida, apresentar uma política e explicá-la. As promessas proferidas sem passar por isso são delinqüentes.

Há cinqüenta anos, disse Alexandra, o valor da vida humana era diferente.

Olho novamente o rosto de Alexandra sentado no jardim e me recordo de uma frase de Anton Tchekhov, também médico. “O papel do escritor é descrever uma situação com tal veracidade que o leitor não possa mais escapar”. Hoje, em relação às experiências vividas na história, que as máquinas políticas tentam apagar, devemos ser, ao mesmo tempo, esse leitor e esse escritor... É o nosso poder.



[1] A Batalha de Koursk, em julho de 1943, foi o maior combate de tanques da Segunda Guerra Mundial e de toda a história. O exército soviético interrompeu a última grande ofensiva da Wehrmacht alemã no front oriental, afastando-a de Berlim, finalmente liberada do nazismo pelos soviéticos em 7 de maio de 1945.

[2] Prisioneiros políticos.

[3] Presidente (Lech) e primeiro ministro (Jaroslaw) da Polônia desde o verão de 2005.

[4] “A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo do desastre”. A ser lançado proximamente em inglês pela ICM Books, de Nova York, e em francês pela Actes Sud, de Arles.

[5] Kubark Counterintelligence Interrogation é o título de um manual elaborado pela CIA em 1963, que descreve as “técnicas de interrogatório coercivo sobre indivíduos resistentes”. Essas foram aplicadas, em especial a partir de 1967, no âmbito do programa Phoenix no sul do Vietnã, para procurar e liquidar os líderes comunistas sul-vietnamitas.


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