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Contra o “tudo em inglês”

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Na França, a falta de domínio dessa língua tornou-se um critério para demissões que obedecem às conveniências da Bolsa. Enquanto isso, quatro pacientes de câncer morreram por excesso de radiação, devido à má compreensão do programa de computador ... em inglês!
(Na internet, a partir de setembro)

Bernard Cassen - (14/08/2007)

“Bandeira do atraso”, “rejeição da modernidade”, “traço de chauvinismo”, “protecionismo”, “nacionalismo”, “colonialismo” e por aí vai... Se há uma questão sobre a qual, na França, uma boa parte da extrema esquerda, da esquerda boêmia e da corrente altermundialista estão em sintonia com os cruzados da globalização liberal – as “elites” da publicidade e da mídia, os gerentes dos grandes grupos financeiros e industriais, os altos escalões do governo – é no combate irado a todos aqueles que se obstinam em reivindicar o direito de criar, trabalhar, contratar, ter acesso à informação e ao lazer em sua própria língua – no caso, o francês. Esse coro começou, já em 1994, contra a Lei Toubon relativa ao emprego da língua francesa [1], ainda em vigor, que, entre outras disposições, tem a “impertinência” de exigir o emprego obrigatório, mas não exclusivo, do idioma francês por parte dos empregados de qualquer empresa instalada na França. Foi Edwy Plenel quem, na primeira página de Le Monde, deu o tom: segundo ele, essa lei exprimiria “a tristeza de uma França defunta, impondo sua língua por meio do poderio colonial, imperial, diplomático, econômico” e não passava “da encenação da nostalgia de uma glória morta, expressão de um declínio que ninguém deseja, mas que também ninguém é capaz de conjurar” [2]. Qualquer leitor do texto incriminado – que não trata, em parte alguma, do lugar do francês no mundo – é levado a se interrogar retrospectivamente sobre o sentido desse exercício de “decliniologia” aguda. Com distanciamento, pode-se presumir que se trata de balizar e preparar o terreno da denúncia, por Phillippe Solers, da “França mofada” e, por contraste, da promoção da “mundialização feliz”, de Alain Minc, que indicou o caminho de acesso: a imposição do inglês como matéria obrigatória no sistema educacional [3]. Aos parados no tempo e aos saudosistas, pediu-se para compreender que, em um mundo que se globaliza, é preciso parar de pensar – e de falar – de modo “estritamente francês” e reconhecer que existe uma “língua de comunicação internacional”: o inglês. E como o nacional e o internacional estão estreitamente imbricados, nada mais natural que a língua do índice Dow Jones e da City se sinta em casa por toda parte, na rua e no trabalho. Na rua, não são apenas os nomes das lojas, os anúncios e os títulos de filmes que são agora exibidos, sem medo, em inglês. A contestação faz o mesmo. Foi assim que, no último dia 29 de janeiro, no momento em que se reunia em Paris o Grupo Inter-Governamental de Especialistas sobre a Evolução do Clima, a associação Greenpeace mobilizou seus agitadores para desfraldar sobre a Torre Eiffel uma gigantesca bandeira onde estava escrito: “It’s not too late” (“Não é tarde demais”). Nenhum parceiro francês dos “coletivos” dos quais faz parte essa associação – entre os quais sindicatos e organizações de defesa de direitos – achou o que dizer daquilo.

Também não tiveram nada a dizer os dirigentes das centrais sindicais francesas Force Ouvrière (FO), Confédération Française Démocratique du Travail (CFDT) e Confédération Générale du Travail (CGT) (ao contrário dos dirigentes da Confédération Française des Travailleurs Chrétiens – CFTC) sobre o fato de a nova organização sindical mundial, a Confédération Sindicale Internationale (CSI), criada em Viena em primeiro de novembro de 2006, ter estipulado no artigo 39 de seu estatuto: em caso de litígio, só vale a versão inglesa dos estatutos.

Em vez de imitar o Banco Central Europeu que, sob o comando de Jean-Claude Trichet, trabalha somente em inglês, o movimento sindical internacional inspirou-se melhor, seguindo o exemplo da Organização das Nações Unidas, que utiliza seis línguas oficiais: o inglês, o árabe, o chinês, o espanhol, o francês e o russo.

Esta resignação não acontece mais em um número crescente de empresas onde a base começa a espernear contra a imposição do inglês na atividade profissional cotidiana. Assim, a seção CGT do Carrefour de Nîmes-Sud denunciou a proliferação do inglês nos nomes dos produtos da casa (BlueSky, Firstline, Green Cut, Ink Set, Powder Flash, Top Bike, Number One, Bootstore) e na terminologia da empresa: cross-merchandising, pool-reception, password, login, remodeling, supply chain, back e front manager. Todos são termos para os quais existem ou podem ser encontrados equivalentes em francês.

Mais séria é a situação nas fábricas e escritórios franceses da multinacional Alcatel, que se fundiu com a firma norte-americana Lucent Technologies em abril de 2006. A nova diretora-presidente, Patricia F. Russo, uma americana de 54 anos, acelera a implementação do conceito de empresa de língua única mundial. Embora a sede do grupo esteja na França e sujeita à lei francesa, Patricia Russo declarou que não tem a intenção de aprender a língua do país que a acolheu. Mas aceita de bom grado as homenagens de seus fiéis amigos franceses ... em inglês. Assim, durante um lanche organizado para filhos de seus colaboradores, pudemos assistir a esta cena tocante: “As crianças pronunciaram o nome dela e muitos (bem preparados pelos pais?) fizeram questão de mostrar que dominavam a língua de Shakespeare. Uma garotinha fez questão de dizer que tinha ‘eleven years old’ [onze anos]” [4].

Nos escritórios e laboratórios da Alcatel-Lucent, o puxa-saquismo não é voluntário, é obrigatório: recursos internos, comunicados (como, por exemplo, os ridículos “test as spares esta semana” ou “in progress a partir de today”), programas de computador, nomes de serviços e até os formulários para as entrevistas individuais são em inglês. A falta de domínio dessa língua torna-se um critério de discriminação dentro de uma lógica de demissões de acordo com a conveniência da Bolsa. O primeiro resultado da fusão das duas empresas foi, de fato, a supressão de 12.500 empregos em todo o mundo, dos quais 1.468 na França, enquanto a Alcatel-Lucent obtinha 522 milhões de euros de lucro em 2006. Língua “desterritorializada”, o inglês torna-se, logicamente, a língua das “deslocalizações”.

Situações semelhantes existem aos milhares, já que, segundo o Observatoire de la Formation, de l’Emploi et des Métiers (OFEM) da Chambre de Commerce et d’Industrie de Paris, 7% das empresas francesas adotaram o “tudo em inglês”. Insensíveis às reprimendas dos menestréis da mundialização, seções sindicais de empresa decidiram, porém, utilizar a Lei Toubon e sua transcrição no Código do Trabalho para fazer valer seus direitos perante a Justiça. E começam a acumular alguns sucessos. Levada à justiça pela seção CGT, a empresa General Electric Medical Systems (Gems) foi condenada em primeira instância (janeiro de 2005) e perdeu recurso (março de 2006), tendo que pagar 580.000 euros de perdas e danos pela não tradução de 58 documentos. A Europ Assistance, devido a queixa do sindicato SN2A-CFTC, foi condenada, em 23 de abril passado, a traduzir para o francês os programas contábeis e comerciais editados em inglês, em um prazo de três meses, com uma multa de 5.000 euros por dia de atraso. Até a Alcatel-Lucent teve que alterar a postura após a intervenção da delegada da CGT junto à inspeção trabalhista: o diretor da filial de Villarceaux informou, em carta de 29 de março passado, que divulgará o mais breve possível uma versão francesa dos principais comunicados e documentos da empresa.

Um drama recente vai, sem dúvida, pôr em alerta os dirigentes das empresas quanto às sanções financeiras e penais em que incorrerão se continuarem não aplicando a Lei Toubon: em março passado, ocorreu a morte, no Centro Hospitalar de Épinal, de quatro pacientes tratados de câncer da próstata e submetidos a radiação em excesso devido à ... má compreensão do programa de computador em inglês!

A novidade é que, mesmo sem poder agir no topo, a resistência intersindical à anglicização forçada nas empresas se organiza na base, ligada às organizações de defesa da língua francesa. Assim, em 8 de fevereiro passado, aconteceu uma coletiva de imprensa, com sindicalistas e dirigentes de duas associações: a seção francesa do Forum Francophone International e a associação Avenir de la Langue Française. Deste encontro nasceu um Coletivo pelo direito de trabalhar em língua francesa na França [5].

Já que o presidente Nicolas Sarkozy afirma que não trairá nenhuma de suas promessas de campanha, é oportuno lembrá-lo desta, feita em Caen, no dia 9 de março passado: “Cuidarei para que, nas empresas instaladas em território francês, a língua de trabalho seja o francês, desde que não haja nenhuma necessidade econômica ou comercial que as obrigue a se exprimir em uma outra língua”. A conjuntura faz as coisas: um projeto de lei do senador Phillippe Marini (Union pour un Mouvement Populaire – UMP), completando e reforçando significativamente a Lei Toubon foi aprovado por unanimidade no Senado no dia 10 de novembro de 2005 e ficou em suspenso, por falta de vontade política dos deputados da UMP. Essa lei acaba de ser levada à Assembléia Nacional, dia 7 de julho passado.

Já que o governo domina a ordem do dia da Assembléia Nacional, será interessante ver se ele vai provar que é capaz de tanta rapidez para defender a língua francesa nas empresas quanto para dar isenções fiscais de presente aos diretores.



[1] Ler “Parler français ou la langue des maîtres”, Le Monde Diplomatique, abril de 1994.

[2] Le Monde, 4 de maio de 1994.

[3] Alain Minc, La grande illusion, Paris, Grasset, 1989.

[4] Challenges, 8 de fevereiro de 2007.

[5] Consultar e mais


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