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Saudável heresia em São Paulo

Ilustração: Yili Rojas

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No templo do capitalismo brasileiro, um movimento age para superar o desencanto com a política afirmando a autonomia da sociedade civil frente ao mercado e ao Estado. Seu primeiro desafio: questionar o automóvel, a mercadoria que melhor simboliza as relações sociais alienadas

Antonio Martins - (18/08/2007)

1. Em busca de uma nova lógica

Depois de inventar o Fórum Social Mundial, Oded Grajew quer inverter as relações entre a sociedade e os poderes

Os deuses que zelam pela integridade dos papéis, territórios e ritos da velha política devem ter amanhecido em greve, neste 8 de agosto, em São Paulo. Sob a luz tênue que emana dos lustres de cristal e se reflete no piso de mármore, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) acaba de discursar. Entre as 300 pessoas que o aplaudem, no Espaço Rosa Rosarum, em Pinheiros, estão integrantes de movimentos sociais (como Airton Goes, do Fórum Social de Cidade Ademar), animadores de ONGs (entre muitas outras, Ísis de Palma, do Instituto Ágora), empresários (a exemplo de Jacques Lewcowicz, da agência de publicidade Lew Lara), profissionais liberais (caso de André Ferreira, do Instituto Energia e Meio-ambiente), militantes de partidos de esquerda (como o economista Odilon Guedes, ex-vereador pelo PT, hoje, empenhado na tentativa de construção do PSOL).

Não se trata, porém, de um espetáculo de cooptação. Nesse caso, é o Estado quem cede. Acompanhado de cinco de seus secretários [1], Kassab comparece a uma reunião do movimento Nossa São Paulo – Outra Cidade. Está aqui para anunciar que parte do equipamento público do município estará, em 22 de setembro, à disposição do Dia Mundial sem Carros, celebrado há anos em centenas de cidades de todo o mundo como crítica cultural a um dos grandes ícones do capitalismo. Cinco corredores viários (quatro deles na periferia) ficarão liberados para corsos ciclísticos. Palcos urbanos serão montados para aulas públicas, debates, danças de rua, psicodramas da cidade e outros eventos. A ponte das Bandeiras servirá de instalação para o Dia do Tietê. Em sinergia com o Dia Mundial sem Carros, a prefeitura promoverá uma Virada Esportiva de 24 horas.

Pouco antes de Kassab, falou um poço de idéias chamado Oded Grajew. Idealizador do Fórum Social Mundial [2] e da campanha contra o trabalho infantil, difusor do conceito de responsabilidade empresarial, ele concebeu, no final do ano passado, o Nossa São Paulo — do qual é a principal referência. Oded maneja as imagens: “A poluição causada pelos automóveis provoca, a cada ano, 4 mil mortes adicionais, por problemas respiratórios, na cidade. É como se caíssem, invisíveis, vinte aviões da TAM sobre São Paulo”. Invisíveis é uma palavra-chave. Oded parece crer que a submissão das sociedades aos mercados e ao Estado é provocada, em grande medida, pela incapacidade de enxergar – e, portanto, de alterar – a maior parte das relações sociais que repetimos todos os dias.

“Nosso movimento tem ambições”, contará ele, dias depois. “É preciso mudar a relação entre os cidadãos e o poder. Se Nossa São Paulo for adiante, seu exemplo poderá mostrar que sempre há escolhas. Não estamos condenados à alienação e a nos angustiar, impotentes, diante do que nos desumaniza”.

Sinais de inovação:Nossa São Paulo é fruto do ócio. Oded lembra que imaginou a iniciativa nas horas livres que fez questão de abrir em sua agenda, durante um encontro em Amsterdam. É apenas o aspecto folclórico de um conjunto de características muito particulares do movimento. Assim como os Fóruns Sociais, ele baseia-se na horizontalidade e no consenso: dispensa hierarquias, não se propõe a representar seus integrantes, não submete decisões a votação.

Ao mesmo tempo, reivindica uma efetividade que destoa de certa cultura de esquerda. Seminários temáticos para compartilhar informações sobre temas centrais para a cidade (como qualidade do ar ou construções sustentáveis) substituem as longas reuniões sem objetivo preciso, que estimulam cada grupo ou facção a afirmar seus pontos de vista e se diferenciar das demais. Os encontros têm hora para começar e terminar. Organizam-se visitas coletivas a projetos bem-sucedidos de reapropriação das cidades por seus habitantes — dos governos participativos de Bogotá às ocupações de imóveis pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Promovem-se reuniões de diálogos e controvérsias, com secretários da Prefeitura, sobre temas como um novo projeto de Plano Diretor ou caminhos para superar as carências de infra-estrutura nas regiões mais empobrecidas da cidade. Recorre-se a uma espécie de anti-propaganda, que zomba dos valores de consumo difundidos pela publicidade hegemônica, utilizando-se, porém, de algumas de suas técnicas de sensibilização.

As primeiras articulações para lançar Nossa São Paulo deram-se em dezembro de 2006. Oito meses bastaram para produzir alguns resultados surpreendentes. Ao menos duas mil pessoas já freqüentaram alguma atividade promovida pelo movimento. Cerca de um quarto delas participa ativamente dos onze Grupos de Trabalho — que atraem parte significativa das organizações e redes que se dedicam à mobilização social na cidade. Nos encontros desses grupos e nas plenárias gerais, realizadas a cada trinta dias, vive-se, nos últimos tempos, um clima raro no país. Fala-se em possibilidade de mudança, empoderamento da sociedade, viabilidade da política — quando seu centro é deslocado do Estado para as iniciativas sociais autônomas. Há ânimo para inventar o novo; como, por exemplo, um Dia Sem Carros que não se limite a pequenos círculos. Nossa São Paulo pode, ainda, avançar muito — em especial, se houver esforço pró-ativo para alargar decididamente sua composição social, atraindo maior presença dos setores populares. Mas está certamente entre as novidades mais estimulantes e portadoras de futuro que surgiram na cena brasileira, nos últimos anos. Por isso, vale a pena conhecê-lo em mais detalhes.

2. Assim se contestam os dogmas

Questionamento ao automóvel revela: pode haver novos caminhos para desnaturalizar e por em xeque as leis sagradas do mercado

Nada, no espaçoso e elegante Rosa Rosarum, faz lembrar os estádios ou salões de assembléias sindicais, onde, no Brasil dos anos 70 e 80, davam-se as grandes batalhas para arrancar do capital parte de seu poder e riqueza. No entanto, durante duas horas e meia, em 8 de agosto, esse parece ser o palco de um novo enfrentamento à ditadura dos mercados. Aqui se traçará o retrato de uma dependência coletiva. Quanto mais o automóvel inflige angústias, sofrimentos e desprazer às sociedades, mais elas se tornam dependentes dele.

A sessão começa com a exibição de "Civilização do automóvel", documentário de Branca Nunes e Thiago Benicchio. Por meio de cenas quotidianas, o filme retrata as distorções causadas por um sistema viário erguido para celebrar o transporte individual. Luciana, como tantos outros moradores da periferia, acorda às 3h40 da manhã para cumprir um trajeto de mais de duas horas e chegar ao emprego sem atraso. Enclausurados em suas cápsulas motorizadas, os cidadãos da classe média perdem contato com a cidade, alternando o ambiente fechado do automóvel com o do condomínio, escritório ou shopping-center.

Secretário-executivo do Instituto de Energia e Meio-ambiente, o engenheiro mecânico André Ferreira entra a seguir. Ele mostra que a máquina de quatro rodas é, destacadamente, o maior responsável pela poluição atmosférica em São Paulo. Responde por 73% do monóxido de carbono respirado, 80% dos hidrocarbonetos, 21% do óxido de enxofre. O ar envenenado provoca problemas respiratórios e cardíacos que reduzem em cerca de 1 ano e meio a expectativa média de vida dos habitantes da cidade. Além disso, um paulistano morre a cada seis horas em virtude de um acidente de trânsito ou atropelamento. São 1,5 mil por ano — mais que o número de soldados norte-americanos mortos anualmente no Iraque.

Aos poucos, o transporte individual torna-se incapaz de satisfazer, inclusive, aos objetivos específicos que justificariam sua existência. A velocidade média do trânsito em São Paulo caiu de já baixos 24,8 km/h, em 1980, para 18 km/h em 2006. No entanto — aqui, o paradoxo — a cidade assiste impotente a todos esses dramas. Ao invés de ocupar espaço, o transporte coletivo de qualidade perde terreno. Em 1967, demonstra Ferreira, ônibus e trens eram responsáveis por 2/3 das viagens motorizadas. Em 2002, e apesar da construção do metrô, o automóvel já representava 53% do total. Enquanto o número de seres humanos em São Paulo cresceu 23%, entre 1976 e os dias de hoje, o de carros particulares aumentou 280%. As imagens que melhor expressam tal mudança são os enormes congestionamentos que se formam todos os dias nas vias periféricas, onde há duas décadas o carro era raridade.

Símbolo do capitalismo:Nenhuma mercadoria é tão emblemática do capitalismo como o automóvel. Ele expressa um modelo de produção e consumo que promete valorizar o indivíduo, mas oferece a este apenas uma sensação ilusória de liberdade e poder — e um leque medíocre de opções. Como a esmagadora maioria de suas escolhas sociais são mediadas pelo dinheiro, os seres humanos tornam-se incapazes de tomar decisões que superem a própria lógica do cálculo econômico. A depender de nossa capacidade monetária, podemos escolher entre um e outro modelo de automóvel, potência do motor, pacote de acessórios ou tipo de combustível. É muito mais difícil adotar as opções que realmente expressariam nossa individualidade e que permitiriam estabelecer relações criativas com a sociedade. Até que ponto permitir que o planeta continue se aquecendo? Que tipos de indústria são mais adequados para cada região? Como reduzir seu impacto sobre a natureza? Qual o sistema de transportes mais capaz de assegurar mobilidade, ar limpo e espaços livres em nosso município?

"(I)Mobilidade", outro curta-metragem exibido em 8 de agosto, ilustra como as sociedades organizadas dessa forma tendem a seguir um padrão único de "desenvolvimento". Desde o século 20, o automóvel e sua indústria receberam incentivos de praticamente todos os governos brasileiros, e a sociedade assistiu ao fenômeno de forma acrítica. Tudo — do Plano de Avenidas (e concretagem de vales...) do prefeito Prestes Maia, na São Paulo dos anos 40, à implantação das primeiras fábricas de automóveis, sob impulso de Juscelino Kubitschek ou ao "regime automotivo" de subsídios às montadoras, adotado em 1994, por Fernando Henrique Cardoso — era visto como sinal de progresso e oportunidade de lucros e empregos.

A própria esquerda entrou no embalo. Em defesa dos empregos, mas sem questionar seu sentido social, as assembléias metalúrgicas do ABC Paulista apoiaram a redução de impostos sobre os automóveis, nos anos 90. Governada por um Partido Comunista, mas interessada em afirmar seu poder econômico, industrial e político, a China segue o mesmo padrão industrial do Ocidente e copia seus planos urbanísticos.

Nossa São Paulo estará disposto a buscar uma alternativa a esse modelo? Ao encerrar sua intervenção, André Ferreira aponta, como grande alternativa para a cidade, a garantia de transporte público de qualidade. Em outra fala, na mesma sessão, Maurício Broinizi, do Instituto São Paulo Sustentável, lembrou que a busca de um novo modelo não pode limitar-se a um gesto simbólico de 24 horas. Um dos instrumentos em que o movimento aposta, para mobilizar em favor da mudança, é um construir um conjunto de indicadores de qualidade de vida.

Se dados como a evolução do número automóveis circulantes, da média de quilômetros de congestionamento, do tempo gasto nos deslocamentos, das doenças respiratórias causadas pela poluição, do total de acidentes e mortes, da extensão da malha do metrô, corredores de ônibus e ciclovias estiverem disponíveis para todos, o padrão do transporte individual não se reproduzirá com tanta facilidade. Será possível tornar clara, por exemplo, a importância de reduzir a parcela do Orçamento desviada para pagamento de juros, reaproveitando parte dela na ampliação veloz do metrô.

É uma enorme batalha — ainda mais porque Nossa São Paulo não pretende realizá-la pela via rápida da eleição de um líder esclarecido, mas pela paciente mudança de mentalidades. Mas que teria feito o movimento sentir-se capaz de se propor a tanto?

3. A possibilidade da utopia

Terá Nossa São Paulo condições para se transformar num fórum permanente de política extra-institucional?

Dois encantos atraem a educadora Ísis de Palma para o Nossa São Paulo. Lançadora de ONGs e inciativas como o Insituto Ágora, o capítulo brasileiro da Aliança Internacional de Jornalistas, a difusão da Carta das Responsabilidades Humanas e os Tambores da Paz, ela está estimulada, antes de tudo, pelo “espírito de Fórum Social Mundial”, que sente revivido no movimento. “Percebo que a horizontalidade, a ausência de hierarquias, a valorização da diversidade e o estímulo às ações autônomas – tudo o que me entusiasmou em Porto Alegre – pode ser reproduzido em nossas lutas. São princípios que nos fazem mais competentes e menos competitivos”, diz ela.

O centro de gravidade de Nossa São Paulo são os Grupos de Trabalho. Já há onze em funcionamento, sete dos quais temáticos (Acompanhamento do Orçamento, Acompanhamento da Câmara Municipal, Cultura, Educação, Meio Ambiente, Saúde, Segurança Cidadã) e quatro transversais, ligados aos objetivos gerais do movimento (Comunicação, Construção de Indicadores, Educação Cidadã, Mobilização). Abertos tanto a entidades quanto a voluntários, os Grupos têm ampla autonomia para definir seu plano de trabalho, prioridades, forma de organização. Um importante seminário sobre Qualidade do Ar, promovido em 23 de julho, pelo grupo de Meio Ambiente, na ONG Ação Educativa, lançou subsídios fundamentais para o Dia Mundial sem Carros. Em 15 de agosto, o grupo de Orçamento promoveu curso de acompanhamento cidadão das finanças públicas. Educação começou a promover, em escolas da periferia, reuniões com diretores, professores e pais de alunos, para debater a qualidade do ensino.

Ninguém, nos Grupos, tem cargos ou postos. A animação dos trabalhos é redefinida a cada reunião. Uma vez a cada 30 dias, em média, há uma plenária geral para compartilhar informações e planejar iniciativas comuns. É, em geral, nesses momentos que surgem novos Grupos. Sua criação é livre — desde que haja gente interessada e disposta a trabalhar respeitando princípios não-hierárquicos. Em julho, surgiram Cultura, Segurança Cidadã e Saúde. O ritmo tem crescido. Neste momento, estão em formação Esportes, Economia, Gestão Pública, Habitação/Urbanização/Espaços Públicos e Mobilidade Urbana

Dois coletivos de ligação: Como nos Fóruns Sociais, a impressão de caos é superficial. Dois coletivos, concebidos por Oded Grajew na época em que Nossa São Paulo estava se formando, exercem um papel permanente de ligação e contato entre os Grupos de Trabalho. Um Colegiado de Apoio, que se encontra a cada 15 dias, procura sistematizar experiências e lançar idéias para todo o movimento. Reúne 25 pessoas, identificadas por ampla história de participação em iniciativas de mobilização social na cidade, mas de origens sociais e sensibilidades políticas diversas. São figuras como o Padre Jaime Crowe, criador do Fórum de Defesa da Vida, que reúne 200 entidades populares na periferia Sul da cidade; a psicóloga Maria Alice Setúbal, coordenadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec); Eduardo Ferreira de Paula, presidente da Coopamare, a primeira cooperativa de catadores do Brasil; José Vicente, presidente da Afrobrás e da UniPalmares; o economista Odilon Guedes.

Ligada tanto aos Grupos de Trabalho quanto ao Colegiado de Apoio, há uma Secretaria, composta de quatro pessoas que trabalham profissionalmente em período integral. Estão encarregadas das atividades que garantem visibilidade e articulação ao Nossa São Paulo: manter o sítio web do movimento, produzir boletins semanais, organizar a agenda de reuniões, viabilizar locais e logística para elas. São contratadas pelo Instituto São Paulo Sustentável, que empresta personalidade jurídica ao Nossa São Paulo e se mantém por meio de doações.

Informação e capacidade de contato são formas de poder. Ao assumir a responsabilidade de facilitar a ação e articulação dos Grupos de Trabalho, o Colegiado de Apoio do Nossa São Paulo adquire, é claro, condições de dialogar com mais facilidade com o conjunto do movimento. Partiu de lá, por exemplo, a idéia de fazer do Dia Mundial sem Carros a atividade que, na prática, apresentará a nova iniciativa à cidade.

Facilitadores ou dirigentes?:Como evitar que o papel indispensável de facilitador se converta no poder não-desejado de dirigente? A questão foi debatida de forma explícita, no período de gestação do Nossa São Paulo. Algumas respostas inovadoras, claramente inspiradas nos Fóruns Sociais, foram adotadas como salvaguardas. Primeira: ao contrário de uma direção de partido, sindicato ou organização tradicional, o Colegiado de Apoio não tem poderes para tomar nenhuma decisão em nome do movimento. Seus membros levam sugestões às plenárias gerais — algo que pode ser feito, aliás, por qualquer pessoa presente a elas. Segunda: a adesão a iniciativas do Nossa São Paulo se dá por convencimento e sedução – nunca por aferição de maiorias. As ações do movimento não comprometem automaticamente nem as organizações, nem as pessoas que dele participam. Cada uma escolhe livremente as iniciativas com as quais deseja se envolver. Terceira: nenhum integrante do Nossa São Paulo atua como seu porta-voz, nem tem o direito, por mais atuante que seja, de capitalizar pessoalmente o trabalho coletivo. Vale a pena observar: a página internet do movimento é a antítese do culto à personalidade. Foram banidos os menus do tipo “quem somos” e qualquer referência destacada a participantes do Nossa São Paulo.

Todas essas características estão produzindo um fenômeno raro no universo brasileiro de movimentos, ONGs e associações — caracterizado por enorme profusão de iniciativas mas também por pulverização, baixa sinergia, freqüente redundância de esforços e certa concorrência. Um número cada vez maior de organizações já empenhadas em ações transformadoras sente-se confortável para se somar ao Nossa São Paulo. Eram cerca de duzentas até 15 de agosto. Parecem avaliar que, ao fazê-lo não diluem sua identidade, nem perdem a capacidade de agir autonomamente.

Ganham, ao contrário, capacidade de falar para novos públicos e de multiplicar a potência de suas ações. Há exemplos reveladores. O Grupo de Trabalho sobre Segurança Cidadã permitiu que quatro inciativas [3] que agiam em favor da cultura de paz — porém de distintas maneiras, em diferentes partes da cidade e sem contato — se conhecessem, e passassem a atuar conjuntamente.

O Instituto Ágora e o Voto Consciente batalharam durante anos para criar uma cultura de acompanhamento cidadão sobre o Legislativo em São Paulo. Enfrentaram sempre o desinteresse da mídia, e raramente puderam dialogar com audiências à altura da importância do tema. Tal panorama começou a mudar muito rapidamente nos últimos meses. O Grupo de Trabalho sobre Acompanhamento da Câmara assegurou duas vitórias pouco comuns. O Legislativo comprometeu-se oficialmente a realizar, até o final do ano, três reuniões de trabalho para definir espaços e mecanismos para controle de seu trabalho pelos eleitores. Participarão dos encontros movimentos e organizações sociais, universidades e imprensa. Além disso, Nossa São Paulo lançará em alguns dias, como se verá adiante, mobilização para mudar a Constituição (Lei Orgânica) do município, estabelecendo importantes mecanismos de controle cidadão sobre as ações do próprio prefeito.

Nova perspectiva para esquerda: Quando dezenas de organizações que atuavam de forma descoordenada passam a estabelecer sinergias e colaborações, produz-se um fenômeno ainda mais importante. Surge uma sensação de empoderamento social que pode ser decisiva, no período político muito complexo e contraditório que o país vive há algum tempo. É o segundo fator – e talvez o mais importante – que liga Ísis de Palma ao Nossa São Paulo.

“Estamos propondo uma alternativa à dualidade infértil que marcou a esquerda brasileira nos últimos dois anos”, diz Ísis. Ela explica: a quebra de muitas das expectativas de mudança suscitadas pelo governo Lula e a constatação de que o PT estava pouco disposto a sacudir as práticas viciadas da política institucional levaram muita gente à depressão. Em sentido oposto, parte da militância histórica destaca, em suas análises, a resistência visceral das elites até mesmo aos tímidos avanços registrados no primeiro mandato do presidente. As duas visões são insuficientes. Não enxergam a sociedade civil como um sujeito autônomo, capaz de propor e provocar o Estado. Acreditam que sua única capacidade é reagir, de modo binário — a favor ou contra – às iniciativas do poder.

Nossa São Paulo oferece uma nova perspectiva. Não estimula seus membros a esperar, do poder, nem a redenção, nem a traição. Sugere que sejam, eles mesmos, o centro das mudanças. Propõe que vejam a democracia muito além do voto e da representação. Convida-os a imaginar coletivamente as mudanças e a se mobilizar por elas. Essa virada, reporta Ísis, é responsável por uma mudança radical no ambiente das reuniões. “É uma volta por cima no descrédito com a política. As pessoas vão dos encontros com um sentimento de autonomia e empoderamento. Ao invés da queixa – sempre uma postura subalterna – passam a perguntar, a si mesmas, como mobilizar seu conhecimento e capacidade em favor de uma nova cidade”.

Em setembro de 2006, ao pensar Nossa São Paulo, Oded tinha em mente a pobreza do debate político brasileiro. Às vésperas das eleições presidenciais, a mídia transmitia a sensação de que estava esgotada a possibilidade de debater projetos para o país. As opções reduziam-se a votar no candidato supostamente menos corrupto. Um ano depois, é estimulante pensar que pode estar despontando, nesse mesmo país, o embrião de um espaço público extra-institucional. No momento em que ressurge pelo mundo a sombra das crises financeiras – e dos danos que elas sempre ameaçam causar aos direitos sociais – parece tentador perguntar: por que não um movimento “Nosso Brasil - Outro País”?

4. Que tal papéis trocados?

Ainda que de forma embrionária, experiência do movimento sugere: há caminhos para colonizar o poder

No ato de lançamento do Dia Mundial sem Carros, assentos especiais foram reservados, na primeira fila da platéia do Espaço Rosa Rosarum, ao prefeito Gilberto Kassab, seus secretários e assessores. De lá, eles puderam ouvir Oded Grajew alertar, num momento de sua fala: “se alguém acha que Nossa São Paulo pode fazer parte de um projeto partidário, tire o cavalo da chuva. Nas eleições do próximo ano, não seremos nem contra, nem a favor da reeleição do Kassab, ou da eleição de Marta Suplicy, Geraldo Alckmin, Luiza Erundina ou qualquer outro candidato. Nossa perspectiva é afirmar a soberania da sociedade civil”. Num outro ponto de sua fala, porém, o mesmo Oded frisou: “não negamos a importância do Estado. Nenhuma mudança social relevante será possível sem ação do poder público”.

O que à primeira vista poderia parecer uma contradição é uma das chaves para entender a novidade representada por Nossa São Paulo. O movimento percebe que os direitos sociais — a garantia de transporte público de qualidade, a redução da jornada de trabalho ou a instituição do Orçamento Participativo, digamos — tornam-se efetivos quando, após um processo de mobilização social e mudança de mentalidades, são reconhecidos pelo Estado.

Mas a experiência histórica demonstra que, mais cedo ou mais tarde, essa mobilização se esvai, quando delegada a um partido ou a um líder esclarecido. O Estado é, por natureza, um instrumento de autoridade, de poder sobre. É impossível “conquistá-lo”. É preciso criar permanentemente, a partir da sociedade, novas formas de contra-poder. Em certas circunstâncias, é possível obter, para elas, o apoio ou a neutralidade dos governantes.

Limitar poder do Executivo: Duas características explicam os espaços importantes e o diálogo de alto nível alcançado por Nossa São Paulo junto à prefeitura da cidade. A mais importante é a própria força política que o movimento reuniu, ao se mostrar capaz de articular um número expressivo de organizações da sociedade, mobilizar inteligência em questões urbanas, conquistar a simpatia de intelectuais e personalidades.

Além disso, há uma particularidade da política institucional paulistana. Vice-prefeito na chapa de José Serra, Gilberto Kassab assumiu o posto quando o titular tornou-se governador do Estado. Adotou algumas medidas ousadas — como o projeto Cidade Limpa, que restringe severamente a mercantilização do espaço visual urbano. Sabe que não é, nas eleições do próximo ano, o candidato prioritário dos partidos conservadores. Precisa, para manter seu espaço político, fazer acenos em outras direções. Nossa São Paulo tirou proveito dessa situação com grande habilidade. Sem apoio da prefeitura, o Dia Mundial sem Carros, por exemplo, teria alcance muito menos amplo. Ao mesmo tempo, declarações como as de Oded asseguram que diálogo nunca significará adesão.

Nem sempre é possível contar com tal conjunção de fatores. Por isso, um dos objetivos estratégicos de Nossa São Paulo é promover mudanças institucionais que reduzam o poder arbitrário dos governantes. Uma primeira ação com tal objetivo ocorrerá em 22 de agosto. Um ato na Câmara marcará a apresentação de um projeto de emenda à Lei Orgânica (nome dado às Constituições dos municípios brasileiros) de São Paulo. Redigida a partir da experiência participativa de Bogotá, a emenda estabelece mecanismos inéditos no Brasil para controle do Executivo pela sociedade. Se aprovada, obrigará cada prefeito eleito a apresentar, até 90 dias após a posse, programa detalhado de governo, compatível com sua campanha eleitoral, traduzido em metas e indicadores e desdobrado em propostas para cada uma das 31 subprefeituras da cidade. O projeto também estabelece prestações de contas anuais da prefeitura. Cria-se, pela primeira vez no Brasil, condições mais favoráveis para que uma sociedade mobilizada acompanhe — e influa – nas ações, obras, programas e serviços realizados pelo Executivo.

Em mensagem enviada ao I Fórum Social Mundial, e lida em seu encerramento, o escritor português José Saramago registrou o esvaziamento das democracias contemporâneas. Num tempo marcado pelo surgimento de instituições tecnocráticas como o FMI e a OMC, e pelo poder de chantagem dos mercados financeiros, apontou ele, tais democracias equiparam-se a missas laicas, ou a fachadas. Oferecem às sociedades a ilusão de que são soberanas. Mas permitem que as decisões que realmente importam sejam tomadas em silêncio, por poderes jamais submetidos ao controle cidadão. Não deixa de ser reconfortante perceber sinais de que os cidadãos enxergam, aos poucos, a irrelevância das fachadas e procuram meios para reinventar a democracia.

5. Nós, o povo?

Por que faria bem a Nossa São Paulo mergulhar na cidade profunda, sem a qual toda mudança é pouco mais que cosmética

O público presente ao Rosa Rosarum parece mesmo radicalizado, neste 8 de agosto. Há pouco, o secretário do Meio-Ambiente, Eduardo Jorge, arrancou aplausos entusiasmados, quando denunciou as posturas das Agências Nacionais — “sempre elas”, frisou – de Energia Elétrica (Aneel) e de Petróleo (ANP). A primeira está inviabilizando a implantação de redes de tróleibus (e sucateando as já existentes), ao autorizar as distribuidoras de eletricidade a cobrar tarifas abusivas pelo fornecimento de energia. A segunda quer continuar adiando a entrada em vigor de resolução que proíbe a venda de óleo diesel com teores ultra-poluentes de enxofre.

Apenas uma intervenção arrancará mais palmas que a do secretário. Animador do Fórum Social de Cidade Ademar, Aírton Goes abre sua fala desnudando uma das zonas de sombra que a mídia projeta sobre os problemas da periferia. “Os jornais estão cheios de notícias sobre o ’apagão aéreo’, e somos solidários com as milhares de pessoas que estão sofrendo seus efeitos. Mas nenhum repórter é deslocado aos terminais de ônibus da cidade, onde o apagão do transporte coletivo ocorre 365 dias por ano – e obriga milhões de paulistanos a formar, todas as manhãs, filas muito mais longas que as dos aeroportos”, diz ele.

A fala é um choque de realidade: há na platéia quem passe mais vezes pelo portão de embarque dos aeroportos que pela catraca dos ônibus urbanos. O final é particularmente ovacionado: “São Paulo só vai mudar quando a periferia mudar”, frisa Aírton.

* * *

Participante entusiasmado do Nossa São Paulo, integrante de seu colegiado de apoio, o economista e ex-vereador Odilon Guedes morou muitos anos na periferia. Reviveu os velhos tempos ao regressar várias vezes à Cidade Ademar, nos últimos tempos, para participar de debates organiazdos pelo movimento. Ele conta: “A experiência mais transformadora deu-se quando apresentamos os estudos que comparam os problemas de cada setor da cidade com os recursos investidos pelo poder público. Revelou-se um abismo que indigna e mobiliza: as regiões mais pobres, menos urbanizadas e mais violentas da cidade são as menos contempladas, no orçamento da Prefeitura, com recursos para conservação de ruas, iluminação, coleta de lixo ou segurança. É como se o Estado fosse um instrumento para preservar indefinidamente as desigualdades”.

A possibilidade de fazer esse trabalho é o que mais motiva Odilon no Nossa São Paulo. “Sempre acreditei que é a sociedade quem transforma suas próprias relações. O movimento está abrindo uma oportunidade que não pode ser perdida. Por enquanto, quem mais participa é a classe média. Mas não despreze a força e a capacidade de produzir surpresas da periferia”.

* * *

Ao falar após Aírton Goes, em 8 de agosto, Oded Grajew dialoga com ele. “Não há cidade sustentável sem justiça social. Por isso, por exemplo, faremos questão de comparar os indicadores gerais de qualidade de vida da cidade com os apurados em cada uma de suas subprefeituras. O resultado revelará a profundidade do abismo social que vivemos e a necessidade de superá-lo".

Como toda obra humana, Nossa São Paulo tem lacunas. Algumas são fruto de comodismo e, possivelmente, fáceis de corrigir. É irritante, por exemplo, ter de aturar, nas apresentações em videoshow, durante as reuniões do movimento, a logomarca da Microsoft, talvez a empresa que mais se bate, no mundo, contra os horizontes abertos pelo trabalho colaborativo. Chega a ser hilário perceber que cada seção do sítio web de Nossa São Paulo traz a marca “©” de “copyright” — como se reproduzir os textos lá estampados pudesse ser interpretado como um ato de pirataria, não um gesto de participação.

Porém, tanto pela carga de velhas relações que envolve, quanto por seu sentido simbólico, um tema destacado — o da composição social do movimento — merece ser enfrentado com medidas pró-ativas.

Setores sociais mais intelectualizados e com acesso à informação são mais sensíveis a mudanças culturais. Ao questionar as relações mantidas há séculos entre governantes e governados, é natural que Nossa São Paulo os atraia mais rapidamente. Mas será possível mudar a cidade tendo como agente principal a parcela da população que se locomove de carro, usa sistemas privados de Saúde e Educação e vive em bairros tão urbanizados quantos os das cidades européias?

Se a resposta for não, há muito o que fazer. Entre as mais de duzentas entidades que já aderiram ao Nossa São Paulo, há apenas três sindicatos. No entanto, diversas organizações do mundo do trabalho têm superado, nos últimos anos, a velha tradição corporativista e atuado como verdadeiros sindicatos cidadãos. Entre outras, as entidades que representam professores, bancários, engenheiros, metroviários [4], trabalhadores em água e saneamento, auditores fiscais vivem profundamente essa transformação. Não seria o caso de um esforço especialmente dirigido para envolvê-las?

Um dos fenômenos culturais mais destacados das últimas duas décadas, no Brasil, é a emergência de uma cultura da periferia. Tem orgulho de si mesma, rejeita a atitude submissa dos antigos “subúrbios”, está antenada com tendências culturais e comportamentais avançadas de todo o mundo. Manifesta-se com vigor no grafite, no rap, no software livre, nos saraus literários, danças de rua, grupos de teatro, produção de vídeos, reivindicação do samba, bibliotecas organizadas em ocupações de prédios públicos. Que tal dialogar com ela?

A oferta de local para reuniões, feita pelo Rosa Rosarum, é certamente bem-vinda. Mas numa metrópole tão marcada pela desigualdade social e pela violência simbólica, não seria correto ao menos alternar o uso de lugares como esse com espaços na periferia e no centro? São candidatos naturais os CEUs e os teatros da prefeitura.

Nenhuma das observações anteriores desmerece o sopro de renovação que Nossa São Paulo pode significar para o conjunto dos movimentos sociais, organizações e associações brasileiras. Mas, como o anti-conformismo parece ser uma das marcas do movimento, vale a pena lembrar a frase emblemática de Ghandi: “devemos ser nós mesmos a mudança que queremos para o mundo” e — por que não? — para Nossa São Paulo.



[1] Eduardo Jorge (Verde e Meio Ambiente), Walter Feldman (Esportes, Recreação e Lazer), Floriano Pesaro (Assistência e Desenvolvimento Social), Frederico Bussinger (Transportes) e Geraldo Vinholi (Trabalho), além do presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Roberto Scaringella

[2] Um relato rico e preciso sobre o surgimento da idéia do Fórum Social Mundial, redigido por Francisco Whitaker, pode ser lido no sítio web do Fórum Social Mundial

[3] Sou da Paz, São Paulo contra a Violência, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCrim) e Ilanud.

[4] As greves desastradas e desastrosas de 2007 são uma estranha exceção. Ao longo de anos, os metroviários têm mantido atuação decidida em favor da excelência do serviço que prestam e de um sistema de transporte público de qualidade.

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