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CULTURA / RESENHA

Desigualdades norte-americanas

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Segundo autor, a ênfase na diversidade étnica seria uma forma de mascarar a questão social. Mas sua crítica tende a desconsiderar a existência de discriminações específicas, que não seriam automaticamente resolvidas por uma grande “revolução igualitária”

Serge Halimi - (06/09/2007)

O Ministério da Justiça norte-americano anunciou que, em 2005, 49% das 16.500 vítimas de assassinato, nos Estados Unidos, eram afro-americanas. E, no entanto, os negros representam apenas 12,8% da população do país. Menos protegidos do crime, eles também o são da pobreza (somam 32% do total de pobres) e da doença (em 2004, 19,7% não dispunham de nenhum tipo de assistência médica, contra 11,3% da população branca). Não seria difícil aumentarmos a lista, confirmando a existência de uma discriminação específica, que atinge os negros e, em certa medida, os hispânicos, as mulheres e outras minorias.

A universidade não escapa à regra. Ao contrário. Nessa instituição, que tece com voluptuosidade proclamações virtuosas, recomendações extensas e colóquios internacionais sobre a “diversidade”, somente 14 dos 433 professores contratados em 2003, pelos estabelecimentos de elite da Ivy League (Yale, Harvard, Princeton, Columbia etc), eram negros. Tal desproporção também ocorre entre os estudantes matriculados.

O acadêmico Walter Ben Michaels não contesta nenhum desses dados em seu ataque à esquerda norte-americana. Para ele, a obsessão pela questão da diversidade, demonstrada por essa esquerda, é, na realidade, parcial. Por que, segundo ele, se trata apenas de uma determinada forma de diversidade, que favoreceria e mascararia a negligência ou a omissão da questão social. Seguramente, reconhece Michaels, os casos de assassinato, assistência médica medíocre, menor acesso à universidade são mais numerosos entre as “minorias” do que entre os “brancos”. Mas o que observamos quando medimos a desigualdade não mais entre negros e brancos, mas entre pobres e ricos? A desproporção é, quase que sistematicamente, ainda mais acentuada!

Em termos de assistência médica, por exemplo, 24,2% dos norte-americanos com ganhos anuais inferiores a 25 mil dólares não dispõem de nenhuma proteção do gênero. Por que, então, privilegiar com tanta freqüência a dimensão racial do problema em detrimento da dimensão social? – pergunta o estudioso. É claro que ambas as categorias – “negros” e “pobres” – se confundem amplamente [1]. No entanto, ao enfatizar uma em vez da outra, levamos as forças políticas a escolher uma das duas opções, apresentadas como contraditórias. Em um caso, o objetivo visado poderia ser o de que médicos e hospitais passassem a acolher melhor as minorias raciais. No outro, uma fiscalização progressiva, que financiaria a assistência médica universal. Infelizmente, lamenta Michaels, “preferimos nos livrar mais do racismo que da pobreza, comemorar a diversidade cultural, em vez de buscar a igualdade econômica”.

Quando se trata das universidades (um dos terrenos privilegiados pelas políticas de “ação afirmativa” nos Estados Unidos [2]), a tônica na dimensão étnica da seleção de estudantes parece ainda mais discutível. Pois, nos campi, a discriminação é, antes de mais nada, econômica. Enquanto 66% dos jovens norte-americanos provenientes da quarta parte mais rica da população passam por algum estabelecimento de ensino superior, apenas 14% dos originários da quarta parte mais pobre têm a oportunidade de fazer o mesmo percurso. No caso dos 146 estabelecimentos mais seletivos, as proporções são ainda mais díspares: 74% de filhos e filhas de famílias ricas contra 3% de filhos e filhas de famílias pobres [3]. Compreende-se, assim, porque, ao revelar suas estatísticas sobre a composição do corpo discente, as universidades de elite privilegiam a raça das minorias (31% em Princeton, 32% em Yale, 37% em Harvard) e não sua renda [4].

Sustentado pela paixão da mídia, pelo sucesso individual, “dos farrapos à fortuna”, o mito da mobilidade social é um poderoso componente do pensamento conservador nos Estados Unidos. Ele legitima com eficácia a ordem estabelecida. E a crença que se difunde ancorou no coração de um considerável número de norte-americanos. Esses imaginam possuir excelentes chances de “subir na vida”, pois a estrutura social de seu país se basearia na meritocracia, capaz de recompensar a imaginação e o trabalho. Em 1996, 64% dos norte-americanos declararam que era muito provável ou bastante provável que se tornassem ricos – o que, naquela época, significava, segundo eles, ganhar 100 mil dólares ou mais por ano (cerca de 15 mil reais por mês). Dez anos depois, no entanto, o ganho médio per capita continua inferior à metade dessa cifra, e somente 7% dos norte-americanos dispõem da quantia que lhes daria acesso ao paraíso dos opulentos. “Em uma sociedade na qual apenas 7% da população ganha mais que 100 mil dólares por ano, o fato de 64% dos norte-americanos imaginarem que virão um dia fazer parte desse grupo se baseia em uma grande ilusão”, observa Michaels.

Ele atribui boa parte dessa crença – que não pára de crescer, enquanto a realidade se distancia cada vez mais dela – à ideologia da diversidade e da “ação afirmativa”, das quais as universidades norte-americanas constituiriam a vanguarda. Elas seriam, segundo Michaels, “máquinas de propaganda, a ponto de podermos acreditar até que foram concebidas para garantir que a estrutura de classes da sociedade não seja questionada”. E o estudioso precisa: “O problema da ‘ação afirmativa’ não é (como se costuma dizer) que ela viola o princípio da meritocracia. Ao contrário, o problema é que ela produz a ilusão de que vivemos em uma meritocracia”. Fala-se com freqüência no quanto Harvard seria branca se nos livrássemos da “ação afirmativa”. Mas imaginemos ao que ela se assemelharia se substituíssemos a “ação afirmativa” baseada na “raça” por uma “ação afirmativa” baseada na classe social. Cerca de 90% dos alunos de Harvard vêm de famílias que têm um ganho bem acima da média: no mínimo metade desses estudantes estaria em outra instituição.

A maioria dos excluídos seria, então, formada por ricos e brancos. Não é de surpreender que eles e seus pais não tenham nada a comentar sobre a atual diversidade. Desse ponto de vista, ela é uma gratificação coletiva que aceitam pagar para poder continuar ignorando a questão da desigualdade econômica. O fato de que ser branco não favoreça mais a admissão em Harvard esconde outra realidade, bem mais fundamental: ser rico ajuda a ser admitido e não ser pobre é, digamos assim, condição essencial.

A luta pela diversidade obriga os racistas a vencer seus preconceitos, enquanto a luta contra a desigualdade obrigaria os privilegiados a desembolsar dinheiro. Assim resumidas, muitas batalhas universitárias em favor do multiculturalismo não teriam outra implicação além da de não discriminar “a cor da pele dos filhos dos ricos”. E Michaels investe então contra a “chamada esquerda”, que, segundo ele, se tornou “o departamento de recursos humanos da direita”, preocupada antes de mais nada em garantir que as mulheres e as minorias étnicas originárias dos meios socialmente favorecidos disponham dos mesmos privilégios que os burgueses brancos do sexo masculino.

As análises instigantes de Michaels, que gosta de paradoxos e sabe tirar proveito de seu conhecimento da cultura norte-americana (ele é professor de inglês na Universidade de Illinois) revelam a face oculta das noções de “eqüidade”, eleitas pelos partidos políticos franceses, cuja maior preocupação é encerrar de vez a discussão sobre a igualdade. Contudo, elas suscitam inúmeras objeções. O autor traça o perfil de uma esquerda norte-americana restrita a batalhas um tanto limitadas e obcecada pela diversidade. Mas, também, não se pode negar o seu engajamento contra a guerra do Iraque, contra o fechamento de fábricas, contra o peso crescente do dinheiro no ensino superior.

A ênfase exclusiva dada ao combate à desigualdade de renda parece cegar Michaels em relação à existência de discriminações específicas, sexuais e étnicas, que não seriam automaticamente resolvidas por uma grande revolução igualitária — a história do movimento operário provou isso. E, afinal, a inexistência de raças impediu alguma vez a existência de racistas, por vezes no próprio seio das classes populares?

Lendo Michaels, ninguém pode deixar de concordar que a ênfase no fato de as mulheres de Wall Street ganharem menos que os homens mascara o fato de que elas não são nem um pouco vítimas, se comparadas às mulheres do Wal-Mart. Mas a recusa dos privilégios sociais dos financistas, homens e mulheres, significa não combater a discriminação salarial sofrida pelas mulheres, inclusive na burguesia?

Talvez em função de passar um tempo considerável de sua vida em um desses campi norte-americanos, em parte preservados da realidade social do país, o autor “insista” demais na outra direção. Dessa forma, ele procura criticar a casta universitária, sempre à espreita de textos de “desconstrução” e de “combates simbólicos” a empreender, em um movimento para substituir o produto ao invés de mudar a sociedade. É melhor não contar a ele que europeus desorientados e preocupados com o virtuosismo teórico pretendem importar esse tipo de conhecimento dos Estados Unidos — a fim de socorrer a esquerda!



[1] Isso é muito menos verdadeiro no caso dos norte-americanos de origem asiática, que também são incluídos nos cálculos de diversidade.

[2] John D. Skrentny. “L’ ‘affirmative action’ américaine en déclin”, Le Monde diplomatique , maio de 2007.

[3] Sobre a elitização do ensino superior nos Estados Unidos, leia o artigo publicado nessa edição

[4] Nesse trecho de seu livro, Walter Ben Michaels aponta a atitude paradoxal dos que admitem que o conceito de “raça” não se baseia em nenhuma realidade científica e, no entanto, aceitam celebrar o “orgulho” de algumas delas.


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