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POLÍTICA / AMÉRICA LATINA

Guatemala: o lento despertar do gigante

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Ainda sem chance nas urnas, a esquerda guatemalteca é, porém, uma força política em ascensão. Até que ponto a oligarquia será capaz de aceitar as demandas populares que essa força representa, ao invés de precipitar o país novamente em um funesto ciclo de violência?

Renaud Lambert - (06/09/2007)

A bola vai ao fundo da rede. Gol! O antigo general Otto Pérez Molina cerra o punho e comemora com seus companheiros. O ex-guerrilheiro Pablo Monsanto entra em campo para parabenizá-lo. Monsanto foi o comandante das Forças Armadas Revolucionárias (FAR), uma das organizações guerrilheiras marxistas em luta contra as ditaduras militares [1]. Prêmio Nobel da Paz em 1992, Rigoberta Manchú abre caminho para abraçar Luis Fernando Montenegro, ex-presidente do Comitê das Associações Comerciais, Industriais e Financeiras (Cacif). As câmeras não perdem um segundo da cena. O time dos candidatos à eleição presidencial guatemalteca acaba de abrir o placar contra o time dos jornalistas.

Organizada no dia 10 de julho de 2007, pelo Rotary club, tal partida seria unanimemente festejada pela imprensa (que, afinal, ganha de 5 a 3) como uma formidável “lição de civismo” [2]. Afinal, a maioria dos jogadores compõe-se de indivíduos que eram inimigos convictos até a assinatura dos acordos de paz de 1996. Esses puseram fim ao mais longo e sangrento conflito da América Latina: uma guerra de quase 40 anos, que deixou o saldo de 20 mil mortos e desaparecidos. A mesma imprensa não deixou, porém, de recomendar um esforço extra na superação das diferenças de pensamento — tendência à polarização de que a Guatemala ainda sofre [3]. No dia quinze de julho de 2007, o jornal Prensa Libre se viu sonhando com um país onde “os candidatos esquecem suas rivalidades e jogam no mesmo time”.

No entanto, lendo os programas, não é fácil identificar qualquer polarização. Com a totalidade das mídias nas mãos do setor privado, o contexto eleitoral é, antes de tudo, caracterizado pelo que a Prensa Libre saudava, recentemente, como o reino da direita. “Os partidos políticos, as universidades, os formadores de opinião, os programas de rádio, as mídias, todo o debate nacional tomou um viés de direita”, observou o periódico, antes de concluir que tal consenso entre as elites bastaria para fazer da Guatemala o “país da política conservadora” [4].

Nesse contexto, cada um poderia degustar serenamente seu champanhe no Hotel Marriot, por ocasião do primeiro aniversário do tratado de livre comércio celebrado com os Estados Unidos, a América Central e a República Dominicana (CAFTA-DR na sigla, em inglês). Enquanto o empresário Oscar Berger, eleito Presidente da República em 2003 — a frente de um governo em que 13 dos 15 ministros eram também empresários — agradecia a “todos os empresários por seus esforços em criar melhores condições de vida para os guatemaltecos”, Rogério Malgar, proprietário da Acadamete Soluciones, explicava: “Hoje, não é mais importante saber quem será o presidente da República. Todos sabem o que devem fazer: aplicar o Plan Visión de País ( ler nessa edição ). E não tenho dúvida de que o farão!”. Claro que não há dúvida. Na Guatemala, como em todo o mundo, quem paga a orquestra escolhe a música.

Dos 6 milhões de guatemaltecos inscritos nas seções eleitorais (metade de uma população de cerca de 12 milhões de pessoas),os que comparecerem às urnas serão convidados a escolher entre 14 candidatos à Presidência [5]. Mas, longe de representar a pluralidade de projetos, essa diversidade é explicada, principalmente, por uma luta pelo poder no interior da oligarquia. “Contrariamente ao que ocorreu em 2003, quando a ameaça de reeleição de Alfonso Portillo [6] levou à criação de uma grande aliança do setor privado, as grandes famílias da oligarquia guatemalteca não conseguiram chegar a um acordo”, explica o jornalista Andrés Cabanas. “Todos queriam fazer valer seus interesses e garantir um pedaço do bolo, tirando proveito das alianças conjunturais no Congresso”.

Os quatro partidos que encabeçam a pesquisa — União Nacional da Esperança (UNE), Partido Patriota (PP), Aliança no poder (GANA) e Encontro pela Guatemala (EG)—, são todos financiados por, ao menos, uma das grandes famílias da oligarquia. Os Gutiérrez-Bosh, que decididamente não querem deixar nada ao acaso, se dão o luxo de financiar os quatro partidos de uma vez.

As “diferenças de pensamento” perdem sua importância, ainda que a violência política tenha custado a vida de mais de 50 candidatos e militantes ao longo dos seis primeiros meses do ano. Quer se digam “social-democratas”, como Alvaro Colom (UNE), quer promovam uma política de segurança que não exclui a imposição do estado de exceção em certas regiões do país, como Otto Pérez Molina (PP), quer caiam na retórica popular libertária de “nem chefes, nem patrões”, como o Partido de Vanguarda Nacional do empresário da imprensa Rodolfo Castañeda, quer coloquem valores do cristianismo fundamentalista evangélico em primeiro plano, como Harold Caballeros do Visão e Valores (Viva) [7], todos os candidatos aceitaram apresentar seus programas aos dirigentes do Cacif. Só terá o aval decisivo aquele que for, dentre eles, o mais servil – e a competição é acirrada.

Não se pense, no entanto, que a direita guatemalteca está totalmente surda às sereias da modernidade. Ao contrário, ela é plenamente capaz de integrar a retórica do progressismo cultural ao seu discurso, contanto que essa lhe permita calar a respeito da exploração resultante da estrutura de classes do país. Há, assim, um consenso sobre a necessidade de abrir espaços políticos às vítimas de descriminação: as mulheres e as populações indígenas.

Tal agenda feminista e maia foi imposta graças à candidatura de Rigoberta Menchú. Ela é a candidata ideal porque, por um lado, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1992 por seu trabalho em prol do reconhecimento dos direitos dos povos indígenas e, por outro, porque participou do governo de Oscar Berger em 2004. Alguns observadores afirmam que Rigoberta se deixou tentar pelo poder. Sempre pronta a lembrar que não é “nem de direita, nem de esquerda”, ela aceitou que Fernando Montenegro, antigo presidente do Cacif, ingressasse em sua chapa como vice. Saboreando a piada, Andrés Cabanas conta que, no dia em que Rigoberta evocou a idéia de uma reforma agrária, Montenegro não parava de lembrá-la: “Dos assuntos econômicos do campo, eu me ocuparei”. Ele, sim, jamais disse que não era “nem de direita, nem de esquerda”. Nessas condições, portanto: “sim aos indígenas” e “sim às mulheres”.

Para a direita dos empresários, a transição de paz foi bem sucedida. Ela permitiu a instauração de um clima mais favorável aos negócios no contexto da globalização – o que era, evidentemente, prejudicado pela guerra. Infelizmente, nem todos os guatemaltecos são empresários.

Voltemos no tempo até 1996. Em alguma parte da montanha, no centro de uma clareira aberta na floresta, se ergue o acampamento guerrilheiro da Organização Revolucionária do Povo em Armas (ORPA). A terra se mostra comprimida pela pressão de dezenas de botas que a pisaram. Um grupo de homens uniformizados reúne-se em círculo. Em um grande cartaz de papel rosa, apoiado sobre moldura feita de galhos com o menor número possível de nós, lê-se: “29 de dezembro de 1996. É um fim de ano histórico para a gente revolucionária da Guatemala. Anos de luta armada acabam de nos conceder a paz”.

Abelardo Matias — nome de guerra de Orlando — larga a foto e suspira. Indígena, ele “subiu a montanha” com 13 anos. Lembra-se perfeitamente do anúncio da assinatura dos acordos de paz: “Tínhamos dúvidas. Por isso, na foto, ninguém sorri. Sabíamos perfeitamente que seria difícil. Dez anos depois, nada mudou”, afirma. “A luta continua”.

Em Nova Aurora, povoado da comuna de La Reforma (San Marcos), encontramos outro antigo combatente, Hector Nuila, secretário-geral da União Revolucionária Nacional Guatemalteca (URNG). “É tempo de realizar nossos sonhos, para que a luta passada não tenha sido em vão”, diz. Desde a assinatura dos acordos de paz, a aliança entre os quatro agrupamentos guerrilheiros do país transformou-se em partido político. Este ano, eles não foram convidados à “partida de futebol” do Rotary Club. Mas também estão em campanha. A URNG não tem as graças da oligarquia. Seu orçamento de campanha é 30 vezes inferior ao dos grandes partidos [8]. Nada de propaganda política na televisão, nada de ônibus para levar a massa aos comícios, nada de helicópteros para ir de cidade em cidade. Antes de chegar ao encontro do eleitorado, os candidatos têm que enfrentar muitas horas de estradas lamentáveis. “A estrada pela qual vocês vieram é a estrada boa, a outra é ainda pior”, brincam os moradores ao recebê-los.

No povoado de Nova Aurora, vivem 40 famílias de antigos refugiados no México. De volta após os acordos de paz, eles lutam para extrair sua subsistência da terra — terra que lhes foi permitido comprar a crédito. Reunidos na quadra de jogos de uma pequena escola, escutam, impassíveis. Subitamente, uma frase de Nuila provoca uma salva de palmas. O ex-guerrilheiro esbraveja: “Os ricos vivem em suas casas, possuem terras que nem mesmo conhecem e querem continuar a desfrutar seus privilégios”.

Pobres contra ricos: o discurso não é novo. No entanto, jamais foi tão atual. “A Guatemala não é um país pobre”, sustenta Orlando Bianco, da Coordenação das Organizações Sociais (COS). “É um país de pessoas pobres, e um dos mais desiguais do mundo”. Quatro por cento da população responde por mais de 50% do consumo e o país tem o Índice de Gini mais alto do continente: 59,9 [9]. Enquanto a elite conseguiu levar o país à segunda posição mundial no ranking de aviões particulares por habitante (atrás do Brasil e à frente dos Estados Unidos), 58% da população é pobre e 23% extremamente pobre. Em San Marcos, a pobreza extrema ultrapassa os 60%. “Falar de pobreza e desigualdade na Guatemala é, antes de mais nada, falar de concentração da terra”, explica Jorge Murga, pesquisador de ciências econômicas e sociais na Universidade San Carlos de Guatemala (USAC). “Ainda hoje, 2% da população detém perto de 70% das terras agrícolas”.

Na comunidade da Nova Aurora, Nuila passa o microfone para o candidato à presidência pelo URNG, o jornalista Miguel Angel Sandoval, membro fundador do Exército de Guerrilha dos Pobres (EGP). “Acabou o medo de falar de reforma agrária. Para nós, é a prioridade número um”, afirma, tocando o ponto sensível da estrutura econômico-social guatemalteca. E continua: “O salário mínimo não cobre sequer 50% do valor dos produtos de primeira necessidade, e as fincas pagam menos de um salário. Isto é exploração. Estamos cansados! Chegou a hora da esquerda!”. Sua frase não pode ser acusada de mera retórica esquerdista. Pois, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), um quarto da população sofria de subnutrição em 2004 – 10% mais do que antes da assinatura dos acordos de paz.

Opositora dos projetos de privatização do governo, sem hesitar nem mesmo em prometer a renacionalização das empresas privatizadas (eletricidade, telecomunicações, estradas), a URNG é ainda mais revolucionária no plano fiscal. Não teve ela a “audácia” de exigir que as empresas paguem os impostos e que a fiscalização seja incrementada?

A verdade é que a oligarquia prefere abrir bancos e emprestar dinheiro ao Estado. Assim, a dívida interna do país passou de 6 bilhões de quetzals, em 1997, a mais de 20 bilhões em 2006 – o equivalente a 5,2 bilhões de reais. Um espetacular reforço para um setor financeiro em plena expansão. Por seu lado, as empresas não têm do que reclamar: entre isenções, propinas negociadas e evasão pura e simples, a Guatemala é considerada um paraíso fiscal. O Estado conta, principalmente, com impostos indiretos (que perfazem 75% das receitas fiscais do país) para constituir seu orçamento – 20% do qual já estão previamente comprometidos no pagamento dos juros da dívida interna. No que se refere à saúde pública, educação e agricultura de subsistência, a palavra de ordem é uma só: re-du-ção!

“A URNG é o partido dos pobres”, explica uma jovem ao escutar Sandoval. Sendo assim, os revolucionários deveriam ser hegemônicos no país. Mas esse está longe de ser o caso. Há diversas explicações para que isso não ocorra. Em primeiro lugar, existe o medo. Para muitos, votar na URNG significa evocar a violência passada. E a violência é algo que ninguém quer, nem que seja necessário baixar ainda mais a cabeça. Nas paragens de Rancho Bojón, outra comunidade da Reforma, perdida em uma floresta eleita como refúgio pela guerrilha, o antigo comandante Nery conta: “Quando a paz foi assinada, os membros de minha família não quiseram que eu me juntasse a eles. Tinham medo da repressão se eu fosse visto por lá. Não era culpa deles. Então, esperei que ganhassem confiança”. Foram necessários três anos.

Mas a fraqueza da URNG não se explica somente pelos fatores externos ao partido. São, principalmente, as dissensões internas, as lutas de poder, o verticalismo herdado da luta armada que enfraquecem as esquerdas guatemaltecas A consequência foi um resultado desastroso na eleição de 2003 (2,6%), quando se candidatou Rodrigo Asturias, fundador do ORPA e filho do grande escritor Miguel Angel Asturias, Prêmio Nobel de Literatura em 1967. “Foi nesse momento que chegamos ao fundo do poço”, diz Sandoval, que estava de relações cortadas com a URNG desde 1996. “Era preciso fazer alguma coisa. Foi por isso que convidamos as esquerdas à união, no Movimento Amplo de Esquerda (Movimiento Amplio de Izquierda, MAIZ [10], na sigla em espanhol ). Nossa candidatura é uma candidatura URNG-MAIZ”.

O processo não ocorreu sem dores. Mas, ao fim, diferentes organizações se filiaram ao MAIZ. Em primeiro lugar, um grupo de intelectuais feministas para quem a modernização passava, antes de mais nada, pela candidatura da universitária Walda Barrios à Vice-Presidência. Na mesma época, o movimento social viveria uma transformação profunda. Porta-voz da Frente Nacional de Luta (FNL), criada em abril de 2005, a partir da aliança de uma dúzia de organizações regionais e nacionais, decididas a unir forças para resistir ao rolo compressor neoliberal, Roberto Madriz afirma: “Há anos, o movimento social tinha por princípio não se misturar com a política. A idéia era de que as eleições não mudam a estrutura real do poder”. De certa forma, sua posição expressava a mesma linha do “mudar o mundo sem tomar o poder”, dos zapatistas de Chiapas, no México. “Mas, com a ajuda do contexto latino-americano, com as vitórias de Hugo Chávez, na Venezuela, Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador, nos demos conta de que era um erro deixar o campo livre para a direita. Então, decidimos, no início de 2007, engajarmo-nos no processo eleitoral com o MAIZ”. Pela primeira vez, portanto, um elo estrutural e político foi criado entre a URNG e o movimento social organizado, já que, sozinha, a FNL reúne dezenas de milhares de pessoas por todo o país.

Mas o movimento social não é o único a afirmar que “chegou a hora de tomar o poder”. Povoado de Santa Fé de Ocaña: representantes das 12 comunidades da zona oeste de San Juan Sacatepéquez, no Departamento de Cidade da Guatemala, se reúnem em um terreno baldio transformado em estádio de futebol. Nos muros da construção, pichações testemunham a batalha recém-vencida: “Não à exploração mineral!”, “Fábricas de cimento imundas!”, dizem os grafites. A ordem do dia? Como conquistar a Prefeitura.

“Mentiram para nós”, explicam os participantes. “Pessoas vieram aqui para fazer um estudo topográfico sem nenhuma autorização. Mas se tratava, na verdade, de um projeto de extração mineral para uma fábrica de cimento. Eles exploram como bárbaros. São necessários mais de sete séculos para que a terra recupere a fertilidade”. Há uma reverência especial quando se pronuncia a palavra “terra”. Pois ela se refere à “Madre Tierra”, centro da cosmovisão maia. Pacientes a ponto de parecerem apáticas, as pessoas estão prontas para lutar em defesa dessa terra. “Organizamos uma consulta e ganhamos”, dizem. “Mas, e se um novo prefeito chegar e tentar impor o projeto?” Uma idéia germinou, então, em menos de três meses, algo totalmente inédito em tal comunidade, que começa a lançar raízes nas regiões em que foram feitas as consultas: “Para colocar um ponto final nessa ameaça, é necessário tomar o poder”. Começando pelas prefeituras.

Fortunato Solis é o antigo presidente da assembléia dos 48 cantões indígenas de Totonicapán, que a partir do bloqueio do nevrálgico cruzamento de Quatro Caminos conseguiu paralisar o país inteiro durante vários dias em protesto contra um projeto de exploração mineral. Hoje, ele é candidato independente à Prefeitura da cidade. Seu objetivo? “Tentar uma convergência entre as estruturas comunitárias indígenas, informais, mas poderosas, e as estruturas do poder político formal, único meio de garantir um poder local forte e legítimo”. Para ele, não há dúvida: “A cosmovisão maia nada tem a ver com o modo capitalista de exploração da natureza. Só poderíamos ser de esquerda”.

Assim, mesmo que a URNG – MAIZ não esteja tão presente em Totonicapán, muitas vezes é com sua bandeira que as comunidades organizadas apresentam seus candidatos. “Quando nos damos conta do que são capazes as pessoas de Totonicapán”, sorri Madriz entusiamado, “notamos que algo histórico está acontecendo”. Miguel Angel Sandoval adora repetir que “a esquerda guatemalteca é um gigante adormecido que está despertando”. Se o gigante não voltar ao sono, perdendo o contato com a base social que o anima, seu despertar não deixará de trazer, nos próximos anos, uma questão que ainda é tabu: quando chegar o dia, a oligarquia guatemalteca responderá à demanda de soberania política do povo de alguma outra forma que não seja um mergulho do país na violência?

Leia mais:

Nesta edição, sobre o mesmo tema:

O plano da direita e a resposta popular
Plan Visión de País, programa político elaborado por partidos de direita para os próximos quatro anos, é composto por leis de educação, saúde, segurança pública e desenvolvimento rural. Em resposta, os movimentos sociais elaboraram consultas populares - expressão de uma busca pela democracia participativa



[1] As Forças Armadas Revolucionárias (FAR) juntaram-se, em 25 de janeiro de 1982, a outros três movimentos de oposição armada – o Exército de Guerrilha dos Pobres (EGP), a Organização Revolucionária do Povo em Armas (ORPA) e o Partido Guatemalteca do Trabalho (PGT) . Formaram, assim, a União Revolucionária Nacional Guatemalteca (URNG).

[2] Prensa libre, 14 de julho de 2007.

[3] Ibid.

[4] Tribuna, semanário do periódico Prensa Libre, 10 de junho de 2007.

[5] Além do presidente e seu vice, os guatemaltecos escolhem, no mesmo dia, os 158 deputados e os prefeitos das 332 cidades do país.

[6] Eleito, em 1999, pela Frente Republicana Guatemalteca (FRG), partido do antigo ditador militar Efraín Ríos Montt, Alfonso Portillo teve a má idéia de favorecer setores emergentes da economia, sobretudo ligados aos militares.

[7] Impedido de concorrer nas eleições por atraso no registro do partido e um provável acordo com o partido patriota de Perez Molina.

[8] Com base nos números oficiais (bastante subestimados), 60 milhões de quetzals para o PP e 47 milhões para a UNE (2,8 quetzals = 1 dólar).

[9] O Índice de Gini é o coeficiente que denota o grau de desigualdade: 0 significa a igualdade perfeita (todos têm a mesma renda) e 100 a desigualdade perfeita (toda a renda nacional vai para uma só pessoa).

[10] Maiz também significa “milho”. A palavra se origina do termo taína mahís, con que os índios do Caribe denomivam a planta.


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