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IRÃ / HISTÓRIA

O golpe montado pela CIA

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Não se pode compreender o Irã atual sem recuar até o golpe de Estado de 1953. Fomentado pelas multinacionais do petróleo, ele abortou as reformas em curso, fortaleceu a ditadura do xá e abriu caminho para a revolução islâmica de 1978-1979

Mark Gasiorowski - (06/09/2007)

No começo do ano 2000, o New York Times recebeu o relatório oficial do golpe de Estado executado em 1953 pela Central Intelligence Agency (CIA) contra o primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh. Em 18 de junho de 2000, o jornal publicou tal relato em seu site [1]. Os nomes de várias personalidades iranianas envolvidas estavam apagados, mas a maior parte delas foi apontada nominalmente em outro site [2] O fascinante documento contém importantes revelações sobre a maneira como a operação foi conduzida, e qualquer pessoa interessada em política interna do Irã ou em política externa norte-americana deveria lê-lo.

O golpe ocorreu em um período de grande efervescência da história iraniana e no auge da guerra fria. Mossadegh ( ler nessa edição ) era então chefe da Frente Nacional, organização política, fundada em 1949, que militava pela nacionalização da indústria petrolífera, na época sob dominação britânica, bem como pela democratização do sistema político [3]. Essas duas questões empolgavam a população, e a Frente Nacional tornou-se rapidamente o principal ator da cena política iraniana. Em 1951, o xá Mohammed Reza Pahlevi foi forçado a nacionalizar a indústria petrolífera e a nomear Mossadegh primeiro-ministro, provocando um confronto aberto com o governo britânico. O Reino Unido reagiu organizando um embargo geral ao petróleo iraniano e iniciou manobras de longo prazo visando derrubar Mossadegh.

Inicialmente, os Estados Unidos decidiram ficar neutros e encorajaram os britânicos a aceitar a nacionalização, ao mesmo tempo em que tentavam negociar um acordo amigável, chegando até a persuadir Londres, em setembro de 1951, a não invadir o Irã. Essa neutralidade continuou até o fim do governo Harry S. Truman, em janeiro de 1953, embora muitas autoridades norte-americanas já achassem que a obstinação de Mossadegh criava uma instabilidade política, que deixa o Irã com um “perigo real de passar para trás da cortina de ferro” (página III do relatório). Em novembro de 1952, logo após a eleição do general Dwight D. Eisenhower para a presidência dos Estados Unidos, altas autoridades britânicas propuseram, a seus pares norte-americanos, o planejamento conjunto de um golpe de Estado contra Mossadegh. Os EUA responderam que o governo, naquele momento em fim de mandato, jamais empreenderia uma tal operação, mas o de Eisenhower, que começaria em janeiro, determinado a intensificar a Guerra Fria, estaria provavelmente propenso a fazê-lo.

O relato da CIA descreve bem a maneira como a intervenção foi preparada. Após a autorização do presidente Eisenhower, em março de 1953, funcionários da CIA estudaram um modo de executar o golpe e se voltaram para o problema da substituição do primeiro-ministro. A escolha recaiu rapidamente sobre Fazlollah Zahedi, um general reformado que já havia conspirado com os britânicos. Em maio, um agente da CIA e um especialista do Irã a serviço do Secret Intelligence Service (SIS) britânico passaram duas semanas em Nicósia (Chipre), onde elaboraram uma primeira versão do plano. Autoridades da CIA e do SIS revisaram-na, e uma versão definitiva foi escrita em Londres em meados de junho.

Esse plano era dividido em seis etapas principais.

A filial iraniana da CIA e a mais importante rede de informações britânica no Irã, então dirigida pelos irmãos Rashidian, devia desestabilizar o governo Mossadegh, por meio da propaganda e outras atividades políticas clandestinas. Zahedi organizaria uma rede constituída de oficiais capazes de concretizar o golpe de Estado . Já a CIA deveria organizar a colaboração de um número suficiente de parlamentares iranianos a fim de assegurar a oposição a Mossadegh no legislativo. Sérios esforços deveriam ser empregados para persuadir o xá a apoiar o golpe de Estado, embora ficasse estabelecido que a operação aconteceria com ou sem a adesão do monarca. A CIA deveria tentar, e de maneira “legal” (p. A3), derrubar Mossadegh, provocando uma crise política durante a qual o Parlamento o destituiria; a crise seria desencadeada por manifestações de protesto organizadas por líderes religiosos, que convenceriam o xá a deixar o país, ou criariam uma situação forçando Mossadegh a renunciar. Por fim, se a tentativa fracassasse, a rede militar montada por Zahedi tomaria o poder com a ajuda da CIA.

As três primeiras etapas, de fato, já haviam sido iniciadas durante a elaboração do plano de Londres. Em 4 de abril, a seção da CIA, em Teerã, recebeu um milhão de dólares destinados derrubar Mossade[gh] quaisquer meios (p. 3). Em maio, ela deflagrou, com os irmãos Rashidian, uma campanha de propaganda contra Mossadegh e, supõe-se, realizou outras ações clandestinas contra ele. Esses esforços redobraram, de maneira brutal, ao longo das semanas que precederam o golpe (p. 92).

A CIA entrou em contato com Zahedi em abril, pagando-lhe 60 mil dólares (e talvez muito mais) para encontrar novos aliados e influenciar “pessoas-chave” (p. B15). O relatório oficial nega que funcionários iranianos tenham sido comprados (p. E22). Contudo, á difícil imaginar em que mais Zahedi teria gasto o dinheiro. No entanto, a CIA compreendeu rapidamente as debilidades desse aliado, afirmando que ele não era capaz de montar uma rede militar apta a conduzir um golpe de Estado. Essa tarefa foi então confiada a um coronel iraniano que trabalhava para a CIA.

No fim de maio de 1953, a seção da CIA foi autorizada a usar cerca de 11 mil dólares por semana para comprar a cooperação de parlamentares, aumentando em muito a oposição política a Mossadegh. Esse reagiu, conclamando os políticos que lhe eram fiéis a renunciar para impedir a formação de quórum, o que traria a dissolução do Parlamento. Para neutralizá-lo, a CIA tentou convencer alguns deles a não renunciar. No começo de agosto, Mossadegh organizou um referendo no qual os iranianos se pronunciaram maciçamente a favor da dissolução e da realização de novas eleições. Isso impediu a CIA de exercer suas atividades “legais”, mesmo tendo continuado a utilizar a propaganda para imputar a Mossadegh fraude no referendo.

Em 25 de julho, a CIA começou uma longa ação para persuadir o xá a apoiar o golpe e aceitar a nomeação de Zahedi para o posto de primeiro-ministro. Durante as três semanas seguintes, quatro emissários procuraram o xá, quase todos os dias, com o objetivo de convencê-lo a cooperar. No dia 12 ou 13 de agosto, apesar de reticências pessoais, ele acabou aceitando e assinou os decretos reais ( firmans ), demitindo Mossadegh e nomeando Zahedi em seu lugar. A rainha Soraya o teria persuadido a agir assim (p. 38).

Em 13 de agosto, a CIA encarregou o coronel Nematollah Nassiri de entregar os firmans a Zahedi e a Mossadegh. Mas a lentidão das negociações com o xá fragilizou o sigilo e um dos oficiais envolvidos revelou a existência do complô. Mossadegh então mandou prender Nassiri na noite de 15 para 16 de agosto, no momento em que esse se preparava para entregar o primeiro decreto. Logo após, vários outros conspiradores foram interpelados. Pronta para essa eventualidade, a CIA havia preparado unidades militares pró-Zahedi para se apoderar dos pontos nevrálgicos de Teerã. Mas os oficiais desapareceram quando Nassiri foi preso, fazendo fracassar a primeira tentativa.

Zahedi, assim como outros implicados, se refugiou em esconderijos da CIA. O xá fugiu para o exílio, primeiro em Bagdá, depois em Roma, e Kermit Roosevelt, diretor da seção local da CIA, avisou Washington de que o golpe havia fracassado. Pouco depois, recebeu ordem de abandonar a operação e voltar aos Estados Unidos.

Mas Kermit Roosevelt e sua equipe decidiram improvisar outra tentativa. Começaram distribuindo cópias dos decretos do xá para os meios de comunicação, de modo a mobilizar a opinião pública contra Mossadegh. Ao longo dos dias seguintes, os dois principais agentes iranianos executaram uma série de operações clandestinas com o mesmo objetivo. Para insurgir os iranianos religiosos contra Mossadegh, fizeram ameaças por telefone aos chefes religiosos e “simularam um atentado” contra a casa de um eclesiástico (p. 37), passando-se por membros do poderoso partido comunista Tudeh [4]. No dia 18, organizaram manifestações cujos participantes fingiram pertencer ao Tudeh. Instigados por esses dois agentes, os manifestantes saquearam os escritórios de um partido político, derrubaram estátuas do xá e de seu pai e espalharam o caos em Teerã. Percebendo o que estava acontecendo, o Tudeh recomendou a seus membros que ficassem em suas casas (p. 59, 63 e 64), o que os impediu de se opor aos manifestantes anti-Mossadegh que tomaram as ruas no dia seguinte.

Na manhã do dia 19 de agosto, os manifestantes começaram a se reunir nas proximidades do bazar de Teerã. O relatório da CIA descreve esses ajuntamentos como “espontâneos”, mas acrescenta que “circunstâncias favoráveis criadas pela ação política [5]. Muitos avaliam que o vazamento foi deliberadamente organizado pelo governo ou por alguém decidido a apoiar a iniciativa de Madeleine Albright. Se for o caso, é difícil crer que o relatório tenha sido revelado integralmente, mas não se pode excluir essa possibilidade.

Leia mais:

Nesta edição, sobre o mesmo tema:

Mossadegh, o homem a ser abatido
A história da vida política de Mohammed Mossadegh, personalidade favorita dos iranianos. Durante seu governo, o mais democrático que o Irã conheceu, travaram-se inúmeras lutas em favor da liberdade e da independência



[1] O documento é datado de 1954 e assinado por Donald N. Wilber.

[2] A técnica utilizada pelo New York Times foi inoperante: bastava utilizar um computador lento para ler os nomes antes que a tarja preta aparecesse.

[3] A Frente Nacional (Jebhe-ye Melli) era uma coalizão de grupos políticos seculares e religiosos, unidos sob a bandeira do nacionalismo.

[4] Partido Tudeh significa Partido das Massas. Ver

[5] O documento é datado de 1954 e assinado por Donald N. Wilber.CIA] também contribuíram para desencadeá-los” (p. XII). De fato, a divulgação dos decretos do xá, as “falsas” manifestações do Tudeh e as outras operações realizadas nos dias precedentes levaram muitos iranianos a se juntar às manifestações.

Vários membros iranianos da CIA conduziram então os revoltosos ao centro de Teerã e persuadiram unidades do exército a apóiá-los, incitando a multidão a atacar o quartel-general do partido comunista Tudeh, favorável a Mossadegh, e a incendiar um cinema e várias redações de jornais (p. 65, 67 e 70). Unidades militares anti-Mossadegh começaram imediatamente a tomar posse de Teerã, apoderando-se de estações de rádio e outros pontos sensíveis. Travaram-se intensos combates, mas as forças favoráveis ao primeiro-ministro finalmente foram vencidas. Mossadegh se escondeu, para se entregar no dia seguinte.

O relatório da CIA deixa em suspenso duas questões essenciais. Primeiro, não esclarece a origem da traição que fez fracassar a primeira tentativa de golpe, contentando-se em atribuí-la à “ação dos oficiais do exército iraniano envolvido” (p. 39). Depois, o texto não explica como a ação política da CIA favoreceu a organização das manifestações de 19 de agosto, nem qual foi a importância dessa ação na eclosão das manifestações. Outros relatórios, elaborados a partir de entrevistas com participantes de primeiro plano, sugerem que a equipe da CIA teria dado dinheiro a líderes religiosos, que provavelmente não conheciam a origem desses recursos. O relatório da CIA não confirma a versão. A quase totalidade das pessoas envolvidas está morta e, como a CIA afirma ter destruído a maior parte dos arquivos relacionados à operação, talvez essas questões fiquem sem resposta.

Também é difícil saber quem estava na origem do vazamento que permitiu a divulgação do relatório oficial e qual era a verdadeira finalidade dele. No artigo publicado em 18 de junho de 2000, o New York Times explica apenas que o documento foi fornecido por um “funcionário que conservou um exemplar”. Por coincidência, um mês antes, a então secretária de Estado Madeleine Albright reconheceu, durante um importante discurso destinado a promover uma aproximação entre os Estados Unidos e o Irã, que o governo norte-americano estivera envolvido no golpe e pediu desculpas por isso [[ Le Monde, 20 mar. 2000.


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