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CHINA / CRESCIMENTO

Macau supera Las Vegas

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Assim como Mônaco, na Europa, o antigo enclave português se expande construindo sobre o mar. Porém, a cidade, que passou ao controle de Pequim em 1999, enfrenta agora outra batalha: o impacto dos cassinos norte-americanos e seus projetos cada vez mais gigantescos

Any Bourrier - (06/09/2007)

Quando a balsa se aproxima lentamente do cais, vê-se um istmo estreito, rodeado por duas baías profundas, onde conquistadores portugueses e coolies chineses ergueram uma cidade mítica chamada Macau. Originariamente, o lugar denominava-se A-Ma-Gao (Baía de Ama), em homenagem a uma heroína que, segundo a lenda, salvou centenas de barcos de pesca colhidos em terríveis tempestades, muito freqüentes nessa região tropical do sul da China.

Sobre a língua de terra, que lembra o caule de uma flor, os descendentes dos antigos habitantes construíram uma cidade de duas faces. À beira-mar, edifícios, cassinos, monumentos e até uma cidadela que reproduz aldeias africanas, capitais européias e casas do sul dos Estados Unidos. Essa é a Macau de fachada, um cenário de arranha-céus e painéis publicitários, um mau exemplo da modernização à chinesa. Mas o pior defeito desse Luna Park sob os trópicos é esconder a segunda face da ilha, essa sim uma jóia magnífica. Estamos falando da velha Macau, misteriosa, rebelde, generosa.

O destino dessa cidade única não dá tanto o que falar quanto o de Hong Kong, mas a ascensão da ex-colônia portuguesa, que também se tornou uma região administrativa especial (RAE) da China, em dezembro de 1999, parece semelhante: mesmo dinamismo, sucesso, status, baseado no princípio “um país, dois sistemas”. Macau usufrui de independência fiscal e alfandegária, e conservou sua moeda, a pataca, ligada ao dólar de Hong Kong. Sua defesa e política externa dependem da China. Na teoria, Pequim concede autonomia política à sua RAE. Na prática, as pressões – nem sempre sutis – são sentidas com freqüência.

Desde a sua reintegração à China, esse antigo “inferno do jogo”, reino de espeluncas e casas de penhores, não escondia a ambição de se tornar a capital mundial dessa atividade tão rentável. Aposta ganha. No último ano, Macau anunciou uma receita de 7,2 bilhões de dólares, contra 6,6 bilhões de sua rival Las Vegas – o que oficialmente lhe cedeu o primeiro lugar em abril de 2007. Segundo o Secretariado de Finanças macauense, os impostos sobre o volume de negócios do conjunto de cassinos representam 73,9% do orçamento do governo [1].

Foi a partir de 2002 que essa quase-ilha de 24 km2 passou a trabalhar dobrado para conseguir tal “façanha”. No entanto, isso não seria possível sem duas medidas decisivas tomadas por Pequim. A mais importante foi a suspensão, em outubro de 2003, das restrições aos viajantes individuais, que confinavam a maioria dos chineses em suas cidades. No último ano, por exemplo, Macau viu 12 milhões de turistas do continente se precipitando em seus cassinos e gerando um aumento excepcional das receitas. Tal medida foi precedida de uma outra decisão fundamental: a abolição, em 2001, do monopólio de exploração dos cassinos que o governo português havia concedido ao bilionário Stanley Ho, 40 anos antes. O fato desencadeou uma corrida às licenças para a exploração de estabelecimentos de jogo, atraindo grandes nomes de Las Vegas, como Wynn, Sands e MGM Mirage, com seus cassinos luxuosos e seus resorts englobando hotéis, restaurantes e bares.

Desde a inauguração do complexo Sands, em 2004, os investimentos se multiplicaram, e inúmeros projetos surgiram. O Wynn, por exemplo, é um complexo gigantesco, inaugurado em setembro de 2006, com um cassino de 200 mesas, um hotel de 600 quartos e vários restaurantes. Seu custo: 1,2 bilhão de dólares.

Visivelmente, esses cassinos exagerados já não bastam. Macau pensa grande e pretende construir sobre as águas do Mar da China. É o caso do megaprojeto de Cotai, contração do nome das ilhas Coloane e Taipa, situadas sobre o estuário do Rio das Pérolas. Nesse local, uma faixa de terreno sobre o mar abriga uma esplanada artificial de 4,7 km2, onde centros comerciais, hotéis e até um estádio brotam como cogumelos. É, também, sobre esse golfo que o bilionário Sheldon Adelson está construindo uma réplica gigante do seu famoso Venetian de Las Vegas, uma extravagante imitação de Veneza, com canais, gôndolas e o Palácio dos Doges. O Venetian Cotai Resort Casino será o maior do mundo, com 750 mesas de jogo disponíveis. Um hotel de 3.000 suítes faz parte do conjunto, cujo custo está avaliado em 2,3 bilhões de dólares [2].

Atualmente, 14 cassinos funcionam 24 horas, no mar ou em terra, permitindo que grupos de jogadores, menos barulhentos do que se poderia imaginar, apostem ininterruptamente no interior de salas sem janelas, onde o néon funciona a todo vapor. Vê-se uma clientela mais jovem, popular e menos afetada que os freqüentadores habituais dos cassinos locais. Pois o jogo mudou de natureza, como constatou Eric Sautedé, pesquisador do Instituto Ricci e redator-chefe da revista macauense Chinese Cross Currents: “A abertura aos norte-americanos alterou totalmente a paisagem da indústria do jogo em Macau. Entramos na era do jogo de massa. Antes, os ganhos recaíam sobre os ombros dos grandes jogadores, uma pequena parte da população que se escondia em salas privadas, onde as primeiras apostas alcançavam os 200 mil dólares. Hoje, joga-se em grupos, com somas menores, abertamente e sem descanso. Essa mudança confere a Macau uma notoriedade maior, permitindo-lhe desenvolver outras atividades, como o turismo de negócios”.

De fato, a chegada dos gigantes norte-americanos permitiu a redução do impacto das loterias clandestinas e das salas de jogo secretas, garantindo ao governo um controle mais rigoroso dessas atividades. O modelo dos cassinos de Las Vegas, que se baseia em um quadro de lazer e divertimentos refinados e familiares, adapta-se perfeitamente à nova ambição macauense. As autoridades não desejam mais se dirigir aos poucos jogadores patológicos, mas a uma clientela ocasional, cujo objetivo é fazer uma aposta entre as compras da manhã e o espetáculo de travestis do fim da noite.

O crescimento fenomenal de Macau já suscita algumas questões, especialmente acerca da sua capacidade de adaptação a uma mudança tão brutal. É verdade que ninguém poderia antecipar o que iria acontecer e que todos se deixaram entusiasmar pela euforia. Os problemas acumulam-se e o governo demora a reagir. A primeira dificuldade vem da escassez de mão-de-obra. Macau, onde vivem 465 mil pessoas, precisa de 200 mil trabalhadores adicionais para seus novos cassinos. Como a importação de mão-de-obra do continente não é permitida, o risco é o de paralisia, caso não seja adotado um sistema que Eric Sautedé denomina “imigração pendular”, ou seja, “pessoas que habitariam do outro lado da fronteira e teriam autorização para permanecer no território somente durante seu período de trabalho”.

Mas Pequim não deseja ver a RAE tornar-se um pólo de atração para esses milhões de migrantes vindos das províncias do Oeste da China em busca de um emprego no Sul. Esses trabalhadores não estariam mais submetidos às leis chinesas, e sim às de Macau, já que o governo central se comprometeu a manter o sistema jurídico existente na antiga colônia portuguesa por 50 anos. A diferença seria terrível.

Outro desafio para a administração da RAE diz respeito à especulação imobiliária, que transformou essa antiga e pacata vila de pescadores em uma cidade trepidante, cuja evolução dos últimos quatro anos não poderia ter ocorrido em menos de uma década. Para criar esses grandes complexos, a RAE precisa de espaço. Em conseqüência, os preços dos terrenos e os aluguéis deram um salto comparável aos lucros dos cassinos.

A especulação imobiliária desalojou parte da população, que abandonou os velhos imóveis após receber uma pequena indenização. Para os macauenses, habituados a viver à beira mar há séculos, essas mudanças constituíram verdadeira ruptura. Algumas famílias foram obrigadas a comprar uma nova habitação, a preços que triplicaram em quatro anos. O governo tenta encontrar solução para essas dificuldades construindo residências sociais, mas a distâncias cada dia maiores — de 15 a 30 quilômetros —, como é o caso dos conjuntos habitacionais de Taipa, edificados nos últimos anos. Para amenizar a falta de terrenos, as autoridades locais propuseram a Pequim alugar, por um longo período, a ilha de Heng Qin, situada a oeste de Macau, bem próxima à costa chinesa, atualmente inabitada.

“As conseqüências do boom dos cassinos para a população são de duas ordens”, explica a socióloga Emilie Tran, professora na Universidade de Macau. “Do ponto de vista estritamente econômico, é evidente que a chegada dos estabelecimentos de jogo norte-americanos provoca um crescimento das riquezas. E também que os residentes têm agora mais oportunidades de encontrar um emprego do que há cinco anos. Com o aumento do poder de compra, temos hoje, uma melhor qualidade de vida em Macau. A oferta do governo no setor de serviços sociais aumentou consideravelmente: a educação, até o nível universitário, é gratuita, assim como os serviços de saúde, que podem ser classificados entre os melhores de toda a Ásia”. Mas, a socióloga lembra, também, o outro lado do “progresso”.

Esse antigo balcão colonial, ocupado e notívago, sempre teve uma imagem sulfurosa: máfias, prostituição e economia paralela. A chegada dos magnatas do jogo norte-americano acentuou tal quadro. “A economia subterrânea continua muito importante”, garante a senhora Tran. “Assistimos, recentemente, ao escândalo do banco Delta Ásia, proibido de funcionar desde que o governo norte-americano o acusou de abrigar contas pessoais de dirigentes norte-coreanos e de servir de fachada para o tráfico de armas [3]. Mas isso não é tudo: há, também, o tráfico de drogas, a importação irregular de trabalhadores estrangeiros e, entre esses, a de jovens chinesas recrutadas em províncias distantes, onde existe uma alta taxa de desemprego. Os traficantes lhes prometem um emprego interessante nos cassinos, mas, assim que chegam a Macau, elas têm o passaporte confiscado e são obrigadas a se prostituir para pagar por um direito de passagem”. Para recuperar sua imagem, a RAE aposta em eventos esportivos — como a organização de um grande prêmio automobilístico — e no turismo de negócios, apoiado pela programação de um número significativo de feiras e exposições anuais. Sob tal ótica, o fato de ter decretado 2007 o “ano do patrimônio” permitiu que se enfatizasse a herança cultural do território, a fim de provar que a cidade possui outras riquezas além de seus cassinos e vistosos arranha-céus.



[1] Essas taxas atingiram 1,13 bilhões de dólares durante os quatro primeiros meses de 2007. Ou seja, uma alta de 46,8% em um ano.

[2] Dragages Macau, uma filial do grupo francês Bouygues, participa do projeto como responsável pelas fundações.

[3] As investigações internacionais nunca puderam provar as acusações norte-americanas.


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