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As mulheres do Irã dão notícias

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Comme tous les après-midi [Como a cada tarde] e On s’y fera [A gente se acostuma], adentram num mundo que parece tão oculto: o iraniano. Nesses livros, a autora Zoyâ Pirzâd - talvez uma espécie de Clarice Lispector iraniana - perscruta o universo feminino de maneira despojada

Violaine Ripoll - (06/09/2007)

Uma coletânea de novelas e um romance, lançados com alguns meses de intervalo, oferecem duas belas oportunidades de descobrir uma autora iraniana, pela primeira vez traduzida para o francês. São histórias de mulheres, de mães e de suas filhas. Comme tous les après-midi [Como a cada tarde] reúne 18 pequenos textos que compõem um caleidoscópio de efêmeras cenas da vida cotidianas. Uma escrita despojada sobre vidas também despojadas. A solidão da mulher em sua cozinha, a viúva, a esposa que espera a volta do marido para o jantar, a tradição de mãe para filha, vestidos verdes com flores brancas, uma colcha bordada sem ninguém mais para se lembrar se foi a avó ou a neta que a bordou.

As histórias se cruzam, nos jogos de olhares, no tempo passado à janela — ponto de vista limitado, mas único olhar para o mundo, único devaneio possível: “Através do véu de neve, dois olhares abrem passagem para se encontrar”.

Uma mulher , que olha pela 41ª vez a árvore que floresce no quintal, relembra os momentos em que a floração correspondeu a um acontecimento determinante, como o nascimento de seu primeiro filho. O tempo passou: “Ela ainda está de pé à janela. O vento parece fazer cócegas flores, mas essas não estão com humor para rir. Estão cansadas”. Um conjunto pudico de rara poesia. Em On s’y fera, Zoyâ Pirzâd mostra-se mais sarcástica e também mais divertida. Aqui o contexto é diferente, os personagens vivem em um meio mais favorecido. Mulheres independentes, menos pressionadas pela vida cotidiana, expõem suas questões existenciais. Os homens – somente a figura do pai é por vezes poupada – são objeto de reprimendas. Na primeira cena, é um deles, de carro, que perde uma vaga no estacionamento. No meio do livro, durante uma discussão animada e em linguagem rude na parte de trás do ônibus (reservada às mulheres), ouve-se um sonoro “Que o rabecão leve pro inferno todos os homens!”

Arezou, mulher divorciada, vive entre a mãe, Mah-Monir, preocupada com a aparência e com a opinião alheia, e sua filha Ayeh, de 19 anos, mais interessada em badalar e em escrever seu blog do que nos estudos. Apesar dos parcos recursos, Arezou retomou a agência imobiliária do pai falecido, figura amada, mas que deixou dívidas. Ela trabalha e passa muito tempo com sua amiga e colaboradora Shirine, apresentada como inimiga declarada do casamento e dos homens.

Trata-se de um mundo de mulheres, onde os homens fazem somente algumas aparições, apenas toleradas, mas onde, paradoxalmente, seria bem-vindo um casamento antes do Norouz, o ano-novo iraniano. Porém, o que fazer com os preconceitos (“Sohrab Zardjou é vendedor de fechaduras”), com as dúvidas (“Que idiota eu fui”, diz ela sobre seu primeiro casamento), e com as censuras de todos os outros (“Faça como quiser. Mas depois não venha se lamentar”)?

Em torno desse cotidiano miúdo, há muita agitação nas ruas de Teerã, onde questões graves afloram por intermédio de personagens e enredos secundários: a mãe viúva e filho morto no front, o casal pobre à procura de um lugar para morar, a jovem esgotada pelo trabalho e por ter de cuidar das crianças, os péssimos 15 minutos passados em companhia da polícia de costumes por causa de uma história de lenços.

Os dois livros abrem uma pequena janela para um mundo que parece tão oculto. É possível escrever mais no Irã de hoje?




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