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LITERATURA

Sylvia Plath e A Redoma de vidro

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Isa Fonseca analisa autora norte-americana que se suicidou em 1962, aos 31 anos, semanas após escrever um dos grandes romances século 20

Isa Fonseca - (05/10/2007)

A escritora norte-americana Sylvia Plath nasceu em outubro de 1932, em Boston, e viria a falecer trinta e um anos depois, cometendo suicídio após apenas algumas semanas do lançamento de seu único romance, A redoma de vidro (The bell jar). Desacreditando de seu próprio talento e longe de poder visualizar o fenômeno literário que seria a obra, Sylvia decide lançá-lo com o pseudônimo de Victoria Lucas. Hoje, A redoma de vidro é referência de excelente prosa, uma das melhores do século 20, elaborada por uma escritora, ou seja, por uma mulher. Não, nada de prosa feminina como gostam de cunhar alguns quando se deparam com uma narrativa cuja personagem deixa claro as vicissitudes por que pode passar uma garota num meio essencialmente fálico, que é o da nossa cultura. Uma garota que, como Esther, a personagem principal do romance, em plenos anos 50, tem que enfrentar a mentalidade tacanha de uma cidade do interior e, ao emancipar-se, as agruras de uma capital que parece querer massacrá-la e engoli-la, ao mesmo tempo que lhe oferece vantagens, reluzentes como estrelas que se permitem ser alcançadas na altitude.

O excelente prefácio de Marília Pacheco Fiorillo para a edição de A redoma de vidro pela Editora Globo, com tradução de Lya Luft, menciona a rejeição que a obra sofreu quando apresentada para a famosa editora Harper & Row — "o parecer apontava a ’inverossimilhança’ da história. A mesma editora lançaria o livro em 1971, e desde então o romance tem vendido estrondosamente". O que não é de se estranhar. A prosa de Plath é concisa, saborosa, inventiva e cheia de bons achados. Talentosa, enfim. Como é auto-referente, há no romance uma espécie de ’verdade’ que nos cativa — a narrativa em primeira pessoa é de uma contundência assombrosa, mesclada de observações o mais das vezes sutis, quase sempre travestidas de excelentes descrições metafóricas.

A narrativa em primeira pessoa aparece, também, como uma escolha feita por um dos autores prediletos de Sylva Plath (ao lado de Virginia Woolf e D. H. Lawrence), J. D. Salinger, o autor de O apanhador no campo de centeio. Em ambos, temos personagens que se sentem desconfortáveis e deslocados dos ambientes por onde transitam, fazendo observações agudas desses locais e das pessoas com as quais são obrigados a conviver, e há um toque de rebeldia, marca daqueles anos em que os padrões de comportamento começavam a mudar. A emancipação gradativa das mulheres, sobretudo nas grandes cidades, o rock como referência não só musical mas de costumes, a desestruturação familiar, a hipocrisia da vida mesquinha, da mentalidade tacanha, pequena, das cidadezinhas do interior — de algum modo, ou seja, nem sempre de maneira explícita, deixam-se entrever em A redoma de vidro.

Uma Esther de psique frágil, como também o era a de Sylvia Plath, debate-se entre os desafios que propõe a cidade grande, enquanto campo de trabalho e na área dos relacionamentos, e os valores ditados por uma família que não a compreende, em especial na figura da mãe, essa diretamente colada à pessoa da própria mãe de Sylvia — que nos passa a impressão de falar em um outro código que não o da filha, como num coro desencontrado de desafinados. Uma outra e estranha linguagem parecem falar também os rapazes com quem Esther tenta se relacionar – e o que se tem é decepção, frustração, desapontamento. Sofrimento. Quando Esther é internada numa instituição para doentes mentais, soçobrando às investidas de uma realidade com a qual parece não poder mais lutar, o leitor se pergunta se ela resistirá ainda mais uma vez às tormentas que virão.

A exemplo de grandes obras literárias, como David Coperfield, de Dickens, e Anna Karenina, de Tolstói, em A redoma de vidro temos uma personagem de natureza sensível que se debate com o que lhe é oferecido e o que se é possível de suportar. Particularmente no caso de Esther, percebe-se que é agraciada com os dons da inteligência, da sensibilidade aguda, da percepção fina, da beleza, mas que também pagará o preço por ser diferente, tão estranha em meio àquela massa de pessoas que agem e falam como que seguindo regras de uma sociedade que não ousaram ou não tiveram capacidade de desafiar, contrapondo-se ao que é medianamente tido como aceitável, plausível.

É mesmo uma pena que Sylvia Plath não tenha sobrevivido para avaliar o reconhecimento de seu talento quanto à sua obra. É mesmo uma pena que agora em outubro ela não estará mais entre nós — não só a escritora desse romance notável, mas a poetisa que se consagrou por meio de obras como Ariel, assim como também a autora de contos e textos esparsos, do ainda inédito no Brasil, Johnny Pannic. De qualquer modo, apesar de seu trágico desaparecimento, Sylvia Plath, com seu inegável talento, sobrevive por meio do legado de suas obras, em especial nesse, A redoma de vidro, seguramente uma das melhores prosas do século 20.


Isa (Heloísa) Fonseca (de Arruda) é formada em jornalismo pela FAAP. Foi colaboradora do Folhetim (jornal Folha de S. Paulo) na década de oitenta. No começo dos anos 80 ganhou o prêmio literário de contos do Concurso Literário do Paraná. Trabalha há 25 anos como revisora de textos.



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