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Poema não tão simples

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Ricardo Miyake - (05/10/2007)

Tal como dela me lembro,
Eu via seus dentes na boca entreaberta
O vento quase suspenso, minha mão quase nela,
E agora o sol seca a grama onde piso,
Seca a saliva que quase trocamos,
Os dedos entrelaçados.
Tal como dela me lembro,
Trocamos papéis e planos
E talvez alcançássemos uma felicidade
Feita de uma casa à beira do lago,
Um barco à beira da água,
E a moldura à beira do céu de tinta.
E hoje a revi, desviando dos buracos
Da calçada, das poças da chuva que lavou
As migalhas partilhadas,
Do que dela me lembrava, lacunas,
O quadro que juntos pintamos,
Um quase, os dedos das mãos quebrados.

(Do ciclo “Poemas nostálgicos”)


Ricardo Miyake é poeta, crítico de cultura e professor de Literatura no ensino superior. Publicou, em 1998, Livro de Coisas (poemas, Editora Com-Arte). Atualmente, desenvolve pesquisa em torno da produção literária contemporânea brasileira e aguarda editoras para mais dois livros, um de poemas e outro de ensaios.



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