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Um brinde no Largo do Arouche

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"No rádio, tocou Sampa, justamente quando eu cruzava a esquina da São João. Nenhuma coisa aconteceu no meu coração"

Antonio Carlos Olivieri - (05/10/2007)

Das dez da noite às três da madrugada, duas corridinhas mixas que não renderam nem quinze reais. Para uma sexta-feira, mesmo de inverno, era uma bosta. Desci a rua Alfredo Pujol no sentido Voluntários da Pátria, para pegar a avenida Luís Dumont Villares e voltar para casa, na Vila Mazzei. Quando chegava na esquina da Voluntários da Pátria, um homem me deu sinal, do meio da neblina, sacudindo o braço, frenético. Estacionei.

A gente vê cada coisa na noite de São Paulo. Quando o tipo entrou no banco de trás, percebi que não era um homem, mas um travesti. Quer dizer, ele estava vestido de homem, casaco de tweed, camisa de colarinho, calça jeans e até coturnos, mas maquiado feito mulher, com os olhos bem sombreados e um baton muito vermelho. Além do mais, tinha os cabelos crespos presos atrás da cabeça, numa espécie de coque ou de rabo-de-cavalo, sei lá. Nunca entendi de penteados.

Fiquei me perguntando se ele saíra de uma festa à fantasia e aquilo tudo não passava de brincadeira, mas quando o safado soltou a voz em falsete, minhas dúvidas morreram.

– Dá para me levar no Pão de Açúcar 24 horas da Consolação com a avenida Paulista? – ele quis saber.

Não tenho nada contra viados, não me assustam. Já passei da idade. Procurei informar:

– Tem um Pão de Açúcar 24 horas mais perto, aqui na...

- Não estou pedindo informação – cortou a figura, irritadiça. – Já disse onde eu quero ir. Não sabe onde é, porra?

“Além de viado, é grosso”, matutei, enfezado, manobrando para tomar o caminho mais longo e descontar o desaforo. Em vez de pegar a Brás Leme e seguir para o Pacaembu, resolvi levá-lo para um pequeno passeio pelo centro da cidade, via avenida Tiradentes e vale do Anhangabaú. Não esperei o sinal verde e pisei no acelerador, comendo asfalto. Não há itinerário que eu não conheça em São Paulo. Encastelado na direção do meu Chevrolet, contendo as rédeas do bicho, já percorri a maior parte do labirinto de Piratininga centenas de vezes, atrás de um minotauro chamado dinheiro.

Que vida filha da puta: trabalhar na praça aos 67 anos, dois depois de me aposentar como professor de escola pública. Mas fazer o quê? Além da minha, tenho mais cinco bocas para alimentar: um filho de 32, vendedor desempregado, uma filha de 27, mãe solteira, e seus dois filhos, meus netinhos, um de 12, outro de oito, sem falar na patroa.

No fundo, eu até gosto de trabalhar à noite e não é só por causa da minha insônia não. À noite é mais violenta, mas eu servi em tropa de elite do Exército, mantive a forma física e sempre soube me defender muito bem. Então, não me acovardo diante da cara feia das madrugadas. O principal é que depois das dez é bandeira 2, os bêbados não só vêem como também pagam dobrado, o trânsito é muito mais calmo e eu não tenho que agüentar a gritaria das crianças pela manhã. Tem dó. Enquanto estão na escola, eu posso dormir pesado, só com o ronrom da metrópole ao fundo. Nasci e me criei em São Paulo: isso é cantiga de ninar para mim.

Com essas bobagens passeando pela minha cabeça de velho, eu já tinha atravessado o Tietê pela ponte das Bandeiras, entrado na Prestes Maia e dobrado a Senador Queirós a caminho da avenida Ipiranga. No rádio, por coincidência, tocou Sampa, justamente quando eu cruzava a esquina da São João, deserta. Nenhuma coisa aconteceu em meu coração, mas me lembrei de quando eu tinha uns trinta anos e o Caetano Veloso morava por ali, num prédio da avenida São Luís, que era uma das mais chiques da cidade.

É. Naquela época o centro era um lugar acolhedor e elegante, com um jeitinho caipira, que nem a altura do Edifício Itália nem as curvas do Copan conseguiam apagar. Hoje, o lugar é cosmopolita, sim, mas degradado e hostil. Atravessar a praça da República, a pé, depois da meia-noite, tornou-se um ato de bravura. Não faz muito tempo, um casal de bichas foi linchado ali por um grupo de carecas neonazistas, na frente da Secretaria da Educação, o casarão onde funcionou o antigo colégio Caetano de Campos. Carecas neonazistas. Até parece que a gente está numa capital do Primeiro mundo.

Meu passageiro, até aquele momento, não voltara a dizer nenhuma palavra. E eu também não sou de puxar conversa. Durante toda a viagem, quando o rádio calava, só se escutava, em surdina, o silêncio ríspido da cidade, que só não ouvem, nos mausoléus da Consolação, os ricos que já dormiram para sempre. Mas o rádio voltou a funcionar e, ao som de “Saudosa maloca”, cheguei no topo da avenida, em frente ao Riviera – um bar que tinha conseguido vencer o tempo e seduzir gerações de boêmios, de 1948 a 2006.

Para atingir o supermercado, do outro lado da pista, é obrigatório fazer um retorno mais à frente, avançando até o começo da Rebouças. Quando estacionei na porta do Pão de Açúcar, o travesti me pediu, agora com um pouco mais de delicadeza:

– O senhor me espera um bocadinho?

– Com o taxímetro ligado – respondi, sem cortesia.

Ele deu um suspiro de quem não gostou e saiu batendo a porta. Dei risada. Não esquento à toa. À frente do supermercado, desfilava a trupe que povoa a alta madrugada: índios de todas as tribos entrando e saindo pelas portas envidraçadas do Pão-de-Açúcar que não fecha. Vieram comprar cerveja em lata ou procurar um programa nas gôndolas do setor de cosméticos.

Passaram-se doze minutos, cinco reais e vinte centavos. Me debrucei na janela para admirar uma mulata gostosa, com as coxas de fora e os peitões mal contidos por um bustiê de xantungue. Joguei-lhe um beijinho. Ela virou a cara. É nessas horas que a gente sente falta da mocidade.

Alguns minutos depois, meu passageiro voltou para o carro, sentou ao meu lado e fez um gesto para eu arrancar rapidinho. Obedeci, sem deixar de reparar que ele trazia na mão uma sacola de plástico branco, translúcido. Uma única sacola de plástico branco, translúcido, murcho, que continha somente um pacote de caixas de fósforos no seu interior. Não me contive:

– Você veio até aqui só para comprar isso?

Ele deu uma risadinha maliciosa, piscou um olho e levantou o paletó: enfiada na cintura da calça, enrustira uma garrafa de uísque importado.

– Johnnie Walker Black Label – falou, enrolando a língua, para fingir que sabia inglês.

– Coisa boa, velho.

“Além de viado, ladrão”, pensei de novo, furioso com o “velho” que ele me dispensou. Aliás, seu ar de cumplicidade me deixou com uma bruta vontade de procurar a polícia, mas continuei na minha. Para que arranjar encrenca? O Pão de Açúcar não me paga para fazer segurança. O furto não era um problema meu. A seguir, hesitei um pouquinho: eu iria me prestar ao papel de cúmplice daquele filho da puta? Quem sabe não era melhor desembarcar o sacana no 4º. DP que ficava ali pertinho, na Marquês de Paranaguá? Bastava descer a rua Augusta.

Mudei novamente de idéia. Por que criar caso e perder tempo na delegacia? Depois ainda podiam me arrolar como testemunha e eu teria de gastar uma tarde no fórum da Barra Funda dali a seis meses. Laissez faire, laissez passer, não era assim que o Napoleão dizia?

– Para onde vamos agora? – perguntei, de olho na soma inacabada do meu taxímetro.

– Olha, eu queria dar uma voltinha pela avenida Paulista primeiro, daí eu decido para onde vou.

Aquilo me deixou cabreiro, mas a avenida, à noite, uma imensa reta cintilante, sempre exerceu grande atração em mim. Embiquei pela Paulista que, apesar da decadência, ainda conserva seu charme aristocrático. Desabaram os palacetes à francesa que a ladeavam com seus jardins impecáveis, mas se ergueram torres de aço, concreto e vidro espelhado, de fazer inveja à Quinta avenida. A gente sente orgulho de ser paulistano quando anda por ali.

Em toda a sua extensão – de Cerqueira César ao Paraíso –, nem a noite esvazia suas pistas. Não pára o fluxo de carros de todos os tipos e marcas, indo e vindo, formando um caleidoscópio de luzes com os faróis e a névoa da garoa. A pedido do passageiro, reduzi a marcha diante do capão de mata Atlântica, engaiolado no parque Trianon. Percorremos a quadra devagar, eu apreciando as copas das embaúbas, guapuruvus e paineiras. Ele olhando os michês, talvez em busca de algum conhecido.

O Trianon ficou para trás e eu pisei no acelerador. Em cinco minutos, cheguei da Brigadeiro à praça Osvaldo Cruz e entrei na Rua Rafael de Barros, sem saber se fazia o retorno ou me enfiava rumo à 23 de Maio e descia até o Ibirapuera, para admirar o obelisco iluminado e o monumento às Bandeiras.

O passageiro pôs fim a minha dúvida, ordenando:

– Agora segue para a rua Rego Freitas mais ou menos na esquina da Major Sertório.

Não achei ruim. Pelo contrário. Gostei da direção que ele indicava. Entrei pela 13 de Maio para cortar caminho através do Bexiga. Aquele só podia ser o endereço final da figura. No mínimo, ia se enfiar numa boate de terceira ou então morava em alguma quitinete da zona. Logo, faria uma pirueta e sairia de cena, depois de ter sido a salvação da minha noite em termos financeiros (a corrida já passava de quarenta pratas). Que esperança! Diante do antigo “Som de Cristal”, que passou de gafieira a danceteria gay e agora está fechado, a figura enfiou o braço pela janela, acenando assanhado para duas putas que faziam ponto na esquina.

Elas retribuíram, saltitantes, satisfeitas como quem reencontra um velho amigo. O travesti me pediu para parar e esperar por ele mais um minutinho. Desceu do carro e começou a conversar com as colegas, entre gargalhadas e trejeitos espalhafatosos, como se estrelassem uma comédia. Depois, os três se encafuaram atrás de um jornaleiro fechado e acenderam um cigarrinho torcido. Para mim, aquilo começou a cheirar mal e eu não estou me referindo ao fedor de maconha que envolveu o trio. Saí do táxi e perguntei, enfezado:

– Você vai ter dinheiro para pagar essa corrida e o tempo parado?

O viado fez que sim com a cabeça, pois estava prendendo a respiração.

– Não é melhor acertar comigo agora? – insisti. – Depois do seu fuminho, você pega outro táxi, sai até mais barato...

– Fica frio, tio. Não amola. Seu dinheirinho tá garantido – ele respondeu, soltando o fôlego.

As garotas, muito bonitas por sinal, me olharam num misto de piedade e desprezo. Quis sorrir para elas, fazer pose, mas só consegui abaixar a cabeça e enfiar o rabo entre as pernas. La vecchiaia é bruta.

A espera se estendeu por mais infinitos dez minutos. Afinal, o viado se despediu das meninas, trocando beijocas, e voltou para o carro, eufórico. Com lágrimas nos olhos vidrados, me confessou, como se fôssemos velhos amigos:

– Estou deixando a noite hoje.

– Sei – respondi, seco.

Meu passageiro prosseguiu, expansivo, devido ao efeito da droga:

– Encontrei o homem da minha vida. A gente vai embora de São Paulo amanhã de tarde. A gente vai se casar, sabia?

Seu sorriso brilhava tanto, que até me contagiou, confesso.

– Parabéns – desejei, meio constrangido, mas não deixei de perguntar: – Para onde agora?

– Para o Hotel Flor da Luz, no largo General Osório. Meu amor está me esperando lá, sabe? Ele dorme cedo, não gosta de balada, é uma bicha séria, trabalhadora. Tem um salão de beleza no Estácio, um bairro lá do Rio de Janeiro. Ele corta cabelo e eu vou ser manicure, não é perfeito?

– Um paraíso – concordei, irônico, para encerrar a conversa.

Eram cinco da matina quando estacionei em frente ao pardieiro onde o amor esperava por aquela criatura. E eu também tive de esperá-la ainda uma vez:

– Olha, tio, o dinheiro tá com ele. Lá em cima, no apartamento. Vou lá dentro pegar e volto num minutinho. Quanto ficou o passeio?

– Sessenta e sete reais – respondi, aborrecido de novo, e adverti: – mas vou deixar o taxímetro ligado enquanto você não volta.

– Não demoro não, velho pão-duro – ele retrucou, debochado, e desapareceu, subindo uma escadaria, por trás de uma porta de vaivém.

De fato, não demorou nadinha. Voltou em seguida, aos prantos. Desci do carro e fui ao seu encontro, confuso, segurando-o pelos ombros numa tentativa de acalmá-lo, mas o tipo não parava de uivar. Apertei seus braços e chacoalhei-o para chamá-lo a si.

Precisava retirá-lo daquele transe histérico. Mas meu gesto surtiu efeito contrário. Sentindo minha força em seus braços, ele se retraiu, medroso, como um gato de madame acuado por um velho pastor alemão.

– Calma! O que é que houve? – eu quis saber, me esforçando para parecer compreensivo. – Não fique desesperado.

– Ele foi embora! O filho da puta me abandonou – disse o coitado com um fiapo de voz, sem vestígio do falsete habitual. – Me deixou só com a roupa do corpo, o pilantra, o canalha, o desgraçado. Levou todas as minhas coisas: roupas, bolsas, sapatos, bijuterias, dinheiro.

– O quê? – perguntei, grave, mudando imediatamente de humor. Ele susteve o choro e arriscou um sorriso que pedia compreensão.

– Não tenho como lhe pagar – explicou, com um suspiro desesperado.

Por um instante interminável, nos encaramos em silêncio, um silêncio surdo, nervoso, tenso, denso como o nevoeiro que engolira o fim da madrugada. Um calote desses depois de uma viagem como aquela ultrapassava os limites de qualquer boa vontade. Para não piorar a situação do infeliz, lhe acertando uma bela porrada, exigi que me desse o uísque roubado.

Entrei no táxi e desliguei o luminoso, para mostrar que não estava de serviço. Dirigi devagar pela boca do lixo: rua dos Protestantes, Timbiras, Gusmões, Guainases, Vitória, Aurora, onde mendigos e viciados em crack derramados pelas calçadas, misturavam seus sonhos, embrulhados em folhas de jornal por causa do frio. Queria esquecer o idílio trágico do pervertido, contemplando uma miséria mais profunda do que a sua. Talvez quisesse esquecer também minha própria mesquinharia. Sei lá. Rodava à toa.

Quando a manhã começava a clarear e a névoa se dissipava, dei comigo no largo do Arouche, diante do prédio da Academia Paulista de Letras. Estacionei e fui sentar num banco da praça, atrás das floriculturas, perto do restaurante Ao Gato que Ri. Eu ri também para mim mesmo, abri o Johnnie Walker e levantei a garrafa. Levei o gargalo à boca e inclinei o frasco para tomar um trago: o vidro gerou um prisma através do qual o sol nascente fez o uísque reluzir, flamejante, enquanto jorrava garganta adentro e me acendia um resto insuspeitado de juventude no peito. O ar gelado de julho se dispersava. Tomei mais dois goles, estalando a língua. Empunhei a garrafa como uma taça e ergui o braço: São Paulo bem que merecia um brinde.


Antonio Carlos Olivieri, 50 anos, nasceu no Rio de Janeiro mas veio para SP aos 4, cresceu no Edifício Copan e se considera paulistano da gema. É formado em Letras pela USP e em jornalismo por exercício da profissão. É autor de livros paradidáticos e ficção infanto-juvenil. Dirige a Página 3 Pedagogia & Comunicação, empresa de educação à distância e conteúdos didáticos digitais.



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