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CULTURA / OUTROS CIRCUITOS

Uma África truculenta e fantástica

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Em “Memórias de Porco-Espinho”, Alain Mabanckou parodia a lenda de que cada Homem tem seu respectivo duplo animal. Um Porco-Espinho protagoniza como uma espécie de alter ego do jovem Kibandi, que concretiza seu prazer mórbido por meio da pungência desse duplo

Claude Wauthier - (15/10/2007)

Todo homem tem seu duplo, mas há dois tipos de “duplos”, os “pacíficos” e os “nocivos”. O porco-espinho, que tem função de narrador neste romance, é um duplo nocivo. Ele tem um mestre, o jovem Kibandi, sob ordem de quem o animalzinho pode lançar seus espinhos e matar aqueles ou aquelas que o jovem, tomado por espécie de uma loucura sanguinária, designe. O pequeno vilarejo do Congo que o porco-espinho assola perdeu, assim, 99 de seus habitantes. Mas, pior do que esses 99 crimes, o porco-espinho quase comete o crime mais abominável, de atacar os gêmeos, infringindo assim um temível tabu. O jovem será punido de maneira atroz. Seu outro eu, seu duplo, se transformará numa criatura assustadora, sem boca, sem orelha e sem nariz. Os gêmeos, de sua parte, sairão ilesos por milagre dessa aventura, e virão provocar o jovem Kibandi diante de sua palhoça.

O porco-espinho desfia essas atrocidades em tom indiferente, com uma espécie de humor negro e uma verve que chega a lembrar as Histórias extraordinárias, de Edgar Allan Poe. Além disso, a obra de Poe é o livro de cabeceira de um personagem secundário desse romance desregrado, o jovem e sedutor Amédée, que fascina as jovens do vilarejo contando-lhes suas aventuras parisienses.

Alain Mabanckou (que é congolês) recria com vivacidade a atmosfera de um vilarejo africano, com personagens truculentos, como o velho feiticeiro orgulhoso de seu poder, a famosa Biscuni, viúva de formas murchas que desvirginou o jovem Kibandi, a jovem e bela Kiminu (uma das 99 vítimas do porco-espinho, “que por ela teve uma ereção”, ao vê-la seminua antes de matá-la) e, por fim, a trupe de etnólogos brancos que vieram assistir aos funerais. Não falta nada a esta evocação irônica dos usos e costumes da sociedade rústica observada pelo porco-espinho, nem mesmo a história de um crime ritual, cuja vítima é uma outra jovem, encontrada morta por afogamento. Papa Kibandi é acusado injustamente desse afogamento. O enigma será desvendado por um feiticeiro tão sensato quanto surpreendente.

Este romance fantástico – uma espécie de versão africana de Dr. Jekyll e Mr. Hyde – valeu ao autor o prêmio Renaudot. Os jurados foram, sem dúvida, seduzidos pela truculência sem afetação de uma narrativa que despoja a África de seus supostos mistérios e pela verve sarcástica que impregna sua obra, desde o primeiro livro, Bleu, blanc, rouge, e os demais, dentre eles o surpreendente Verre cassé. Alain Mabanckou, 41 anos, ensina literatura francófona em uma universidade norte-americana, após ter estudado Direito a pedido da mãe (http://www.alainmabanckou.net). Tendo passado pela poesia, ele tem o olhar atento e a facilidade de escrever, que conferem à sua obra um atrativo isento de qualquer exotismo barato.




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