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No Haiti, em busca da água da vida

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“A experiência é o bastão dos cegos, e aprendi que o que conta é a rebelião, e o conhecimento de que o homem é o padeiro da vida. Ah, a nós, é a vida que nos petrifica. Porque vocês são uma massa resignada, é isso que vocês são”

Karine Alvarez - (15/10/2007)

Foi em julho de 1944, 42 dias antes de sua morte, que o romancista, poeta, jornalista, etnólogo e militante marxista haitiano Jacques Roumain finalizou este romance. A simplicidade da proposta, expressa na precisão do tom, e a suavidade, marcada de paixão pela linguagem poética, convidam a devorar as páginas de uma narrativa de surpreendente atualidade.

O vilarejo de Fonds-Rouge agoniza: exacerbada por um desmatamento irresponsável, pelo ódio que divide os habitantes em dois grupos e por uma resignação encorajada pela religião, a seca faz a cama para a miséria. “A vida era árida em Fonds-rouge. Não havia nada a fazer a não ser escutar esse silêncio para ouvir a morte, entregar-se ao torpor, e nos sentíamos sepultados”. Somente um elemento externo pode abalar esse fatalismo suicida: Manuel, filho de Desira e Bienaimé, que pouco a pouco fará renascer a esperança. De volta ao país após 15 anos de exílio em Cuba, como cortador de cana-de-açúcar, para ele nada está como antes. “A experiência é o bastão dos cegos, e aprendi que o que conta é a rebelião, e o conhecimento de que o homem é o padeiro da vida. Ah, a nós, é a vida que nos petrifica. Porque vocês são uma massa resignada, é isso que vocês são”. Para salvar o vilarejo, ele deve encontrar a água que trará a vida de volta. Sustentado, em sua determinação, pelo amor da bela Annaïse, ele vai atrás da fonte perdida.

“A água. Seu rastro ensolarado na planície; seu sussurro no canal do jardim; seu murmúrio quando, no curso, encontra cabeleiras de ervas; o reflexo difuso do céu na imagem fugidia dos juncos; as negras enchendo suas cabaças e jarros de argila vermelha; o canto das lavadeiras: as terras alagadas, as colheitas que amadurecem.” Roumain extrai numerosas facetas de seu talento para reproduzir cada cena com uma precisão milimétrica. Planícies e morros, os rostos e todas as expressões, em seus mínimos detalhes, desfilam sob nossos olhos, límpidos e atraentes.

Segundo Jacques-Stephen Alexis, outro grande escritor haitiano, este livro “pode ser único na literatura mundial, porque é, sem reservas, o livro do amor”. É um hino à vida. Com inteligência, Jacques Roumain demonstra a necessidade da união e da solidariedade para fazer face à injustiça, assim como da luta e da instrução para conduzir a existência. Se quiserem levar água até o vilarejo, os “gouverneurs de la rosée” [1] deverão organizar um grande mutirão “para desbravar a miséria e plantar a vida nova”.

Infelizmente, este romance é também visionário: sessenta anos após sua primeira edição, o Haiti tem 98% de seu território desmatado pelo uso do carvão vegetal como combustível, e quase metade da população ainda é analfabeta. Daí a utilidade desta reedição. E também a extrema urgência de lê-la.



[1] Jacques Roumain forjou esta expressão a partir da tradução literal do creole haitiano “èt lawouze”, literalmente “governante de irrigação”, que designa o gestor da irrigação de uma comunidade.


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