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A CRISE DAS UNIVERSIDADES 2

O ensino europeu no compasso do mercado

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Os reitores se transformaram em gerentes de empresas, os objetivos humanistas foram substituídos pela competição e o prestígio dos estabelecimentos passou a ser medido pelos salários dos recém-formados

Christophe Charle - (15/10/2007)

A partir da harmonização européia, resultante da Declaração de Bolonha em 1999 [1], o discurso e os alvos da política universitária passaram por uma completa transformação. Os objetivos iniciais, humanistas e culturais, foram substituídos por uma competição calcada no mundo das empresas e do mercado [2]. Muito utilizadas, as classificações internacionais se difundiram, favorecendo uma visão econômica do espaço universitário europeu.

As universidades passaram a se identificar com corporações e marcas. E a dividir entre si um mercado de diplomas cujo valor social é medido de acordo com as oportunidades e os salários obtidos pelos agraciados com esse “investimento educativo”. Os setores mais comprometidos com o espírito de competição e rentabilidade profissional já organizaram seus “jogos olímpicos”: assim, as grandes escolas de comércio francesas se vangloriam do lugar que ocupam nas mais importantes listas internacionais de MBA (Master of Business Administration). O Journal du Management, de 11 de outubro de 2006, que utiliza a hierarquia estabelecida pelo Financial Times, afirma, por exemplo, que, “entre as cem primeiras Business Schools, encontram-se 57 estabelecimentos norte-americanos, 27 europeus, 7 canadenses, 2 australianos e 2 chineses”.

Três escolas francesas estão nessa lista: o Institut Européen d’Administration des Affaires (INSEAD), em 8º lugar; a École des Hautes Etudes Commerciales (HEC), em 22º; e a École Supérieur de Commerce de Paris – École Européenne des Affaires (ESCP), em 99º. Os princípios que norteiam essa classificação têm o mérito da simplicidade mais materialista: o salário recebido três anos após a conclusão do MBA, a ascensão profissional obtida graças ao MBA, a taxa de promoção três meses após a conclusão do MBA, a proporção de mulheres e estudantes estrangeiros por promoção e a mobilidade internacional. Como a reputação desses estabelecimentos se apóia nas redes de alunos veteranos colocados no mercado (que, por sua vez, facilitam a carreira dos recém-formados), tal classificação gera forçosamente uma vantagem cumulativa [3].

Em compensação, essas escolas podem exigir anuidades mais altas, a fim de recrutar professores renomados cujos cadernos de endereços facilitarão as carreiras dos recém-diplomados. O custo por pertencer a elas está à altura da vantagem prometida: US$ 69.840 anuais é o preço que aluno deve pagar para freqüentar a Harvard Business School, segunda colocada na classificação mundial, que garante o salário mais alto aos seus diplomados ao cabo de três anos, US$ 152.733 por ano. Ou seja, dois anos de estudos são reembolsados com um ano de salário. Uma boa relação custo/benefício, diriam os economistas.

Mas existem também as classificações universitárias globais, que amenizam um pouco essa análise puramente financeira, mesmo ao seguir sua lógica contábil. Mais do que os estabelecimentos, essas listas privilegiam os plantéis de pesquisadores reunidos sob uma determinada marca universitária. Assim, não é à Universidade de Harvard ou de Cambridge que é concedido um Prêmio Nobel ou uma medalha Fields, mas ao “Doutor X” que, por acaso, ali trabalhava na época em que a análise foi feita. E que provavelmente deve essa recompensa a idéias ou pesquisas desenvolvidas bem antes, em outro lugar e em colaboração com pesquisadores de outros estabelecimentos. Essa classificação parece, no mínimo, imprecisa.

O mesmo pode ser dito sobre outros indicadores, como as publicações em periódicos científicos em língua inglesa. Para estas, foi criada uma hierarquia internacional (“impact factor”) em que algumas disciplinas (ciências exatas, economia e psicologia) são sistematicamente favorecidas. Com base nesse critério, mais de três quartos do conhecimento humano e da pesquisa não foram considerados na classificação mundial das instituições de ensino superior efetuada pela universidade Jiao Tong de Xangai. No universo dos estabelecimentos franceses, tal lista contempla apenas aqueles cujo centro de gravidade se situa nas disciplinas citadas e que, conseqüentemente, são visíveis por meio desse tipo de filtro: Paris 6 – Pierre e Marie Curie (39ª na classificação de 2007), Paris-Sud 11 (52ª) e École Normale Supérieure (83ª).

Podemos questionar se o valor de uma universidade decorre exclusivamente da visibilidade internacional de uma fração bem pequena de seus professores-pesquisadores. De fato, a maior parte dos estudantes pára na graduação, e apenas uma ínfima minoria, mesmo entre os pesquisadores iniciantes, entra eventualmente em contato com as “estrelas” valorizadas na classificação. Apesar disso, a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), a Comissão Européia e a maior parte dos responsáveis políticos se pautam por esse tipo de avaliação mecânica, sem qualquer relação com a questão central, que é saber quais são os lugares que melhor formam os estudantes. Sem dúvida constrangidos por terem sido passados para trás pelos pesquisadores chineses, os jornalistas britânicos do Times Higher Education Supplement elaboraram uma classificação baseada em metodologia diferente. O viés em favor de algumas ciências foi reduzido, enquanto a formação geral foi melhor considerada. Desse modo, milagrosamente, as universidades francesas ressurgiram ligeiramente das trevas em que haviam sido jogadas pelos cruéis mandarins chineses. As duas grandes escolas fundadas durante a Revolução Francesa, a Ecole Polytechnique e a Ecole Normale Supérieure, aparecem entre as 25 primeiras posições, enquanto os dois maiores setores da velha Sorbonne (Paris 6 – Pierre e Marie Curie e Paris 1 – Panthéon-Sorbonne) estão, respectivamente, na 88ª e 121ª.

Aqui, nenhuma novidade, já que essa classificação restitui a escala de valores simbólicos estabelecidos há muito tempo na opinião acadêmica internacional. Esses joguinhos classificatórios não teriam qualquer importância, caso a cultura midiática dominante não se deliciasse tanto com eles e não tirasse daí conclusões definitivas, produzindo rápidos dossiês, intercalados entre dois suplementos de anúncios imobiliários. Os poderes universitários compreenderam que suas posições no ranking poderiam ser manipuladas. E passaram a orientar suas políticas de forma a melhorar as classificações dos respectivos estabelecimentos. Da mesma forma que o estudante coloca todo o seu esforço nas matérias de “grande peso”, algumas faculdades modificam o número de alunos por classe, outras privilegiam as disciplinas com maior visibilidade internacional, outras ainda atraem detentores do Prêmio Nobel ou estudantes estrangeiros com evidente potencial. Entra em campo, assim, uma lógica contábil que determina a criação ou supressão de áreas de ensino, a gestão do pessoal, a avaliação de professores e pesquisadores associados à instituição, a política de anuidades, o apelo a parcerias com o setor privado e a doações de mecenas.

Tais práticas acontecem há muito tempo nas universidades americanas de elite, bem como em suas congêneres japonesas, britânicas, australianas, neozelandesas e italianas. Segundo o relatório de 2005 da OCDE, os estabelecimentos italianos estavam na terceira posição em relação à taxa de autofinanciamento, atrás apenas dos ingleses e espanhóis. Uma parcela crescente dos recursos vem das taxas pagas pelos alunos, que aumentam ou diminuem conforme as classificações nacionais ou internacionais das instituições. As classificações acabam exercendo enorme influência, porque, além dos novos estudantes darem preferência aos estabelecimentos mais cotados, também o Estado lhes confere maior ajuda. O governo alemão lançou um programa de excelência (Excellen-Initiativ) que classifica as faculdades e, sobre tal base, lhes concede fundos suplementares.

Esses princípios, desenvolvidos há mais de 20 anos no Reino Unido, foram acentuados durante o governo Tony Blair. Livres para fixar as taxas pagas pelos estudantes nacionais entre 1.150 e 3.000 libras, as universidades britânicas decidiram cobrar o máximo para evitar a pecha de serem “baratas”. E, tendo perdido alunos (e, portanto, recursos) com essa escolha, acabaram se voltando para os estudantes estrangeiros a fim de rentabilizar sua reputação. De fato, pode-se praticar com estes últimos anuidades bem mais elevadas: Cambridge cobrou, em 2007, 9.054 libras por cursos artísticos, 11.862 libras por cursos científicos e 21.954 libras por cursos clínicos, além de 3.300 a 4.400 libras pela taxa de matrícula em um de seus colleges.

Tudo isso não inclui as despesas pessoais do estudante, estimadas pela própria universidade em 6.750 libras. Estrangeiros e quase sempre oriundos de famílias abastadas de países emergentes, esses estudantes escolhem as universidades dos países anglófonos de acordo com a relação custo/benefício sugerida pelo ranking das universidades norte-americanas, inglesas e australianas.

A lei francesa de julho de 2007 sobre a autonomia das universidades inspira-se diretamente nesse modelo. Ela transforma o reitor em gerente, assessorado por um conselho administrativo inteiramente sob seu controle, como nas grandes sociedades financeiras. A priori, ele dispõe das instalações e do orçamento sem qualquer regulação, decide diretamente as contratações, pode criar empregos fora das regras da função pública e do julgamento da comunidade universitária. Ou seja, gerencia a universidade como uma empresa, sem que o (ainda) acionista principal, o Estado, lhe peça qualquer prestação de contas [4].

Esse novo conceito de universidade-empresa não tem mais nada em comum com as instituições à moda antiga. Ao bonapartismo do poder central sucede o bonapartismo de reitores que se apóiam em redes locais e em empresas investidoras ou clientes (às quais as universidades oferecem formação permanente, programas de pesquisa etc). Os jornalistas especializados e uma ampla fração dos responsáveis políticos parecem persuadidos de que a saída para a crise reside nesse decalque caricatural dos modelos anglo-saxões. Mas eles esquecem que as universidades reformadas não entram todas com igualdade de condições na nova competição. Segundo sua composição disciplinar, sua situação regional, seu recrutamento social, em suma, seu “capital inicial”, as “empresas acadêmicas” experimentarão ascensões ou desclassificações amplamente previsíveis.

O darwinismo educativo que se esboça representa uma capitulação da república das universidades em benefício da bolsa de valores dos gestores acadêmicos. A circulação financeira ameaça substituir a circulação das idéias. E a hierarquia dos prestígios será cada vez mais indexada pelos capitais mobilizados ou gerenciados pelas universidades e pela manipulação das classificações. Assim, resolvem-se dois problemas de uma só vez: suprimem-se os últimos espaços críticos da ordem estabelecida e legitimam-se por todas as fraturas sociais que não param de crescer. Pois, mesmo nos Estados Unidos, um recente relatório do Congresso mostrou preocupação com a corrida ao dinheiro, que deixa expressiva parcela da classe média fora das boas universidades [5].



[1] Adotada em 19 de junho de 1999 por 29 países (a maior parte dos atuais membros da União Européia, os estados bálticos e a Suíça), a Declaração de Bolonha tem como objetivo a convergência dos sistemas de ensino superior da Europa, favorecendo a maior mobilidade de estudantes, professores e pesquisadores.

[2] A Estratégia de Lisboa, de março de 2000, definiu, entre os objetivos da União Européia, alcançar até 2010 “a economia de conhecimento mais competitiva e dinâmica do mundo”.

[3] Ler Ibrahim Warde, “Irrésistibles ‘business schools’”, Le Monde diplomatique, maio de 2000. Ler também Alain Garrigou, “Comment Sciences PO et l’ENA deviennent des business schools”, Le Monde Diplomatique, novembro de 2000.

[4] Ler Christian de Montlibert, “Et déjà una chaire L’Oréal au Collège de France!”, Le Monde Diplomatique, maio de 2006.

[5] O mesmo fenômeno é observado no Reino Unido. Segundo o Daily Telegraph de 26 de julho de 2007, aproximadamente metade da quantidade de pais que puderam enviar seus filhos para a universidade em 2002 não pode mais fazê-lo agora. Pois, desde 2002, as taxas de matrícula aumentaram em média 41%


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