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"Homens e não"

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O primeiro romance da Resistência italiana chega ao Brasil, 62 anos depois da edição original. Em narrativa seca, Elio Vittorini foca a humanidade e o horror sem reduzir sua história a uma tese política

Gregório Dantas - (15/10/2007)

Em tempos tão cínicos, dizer de uma obra literária que ela é engajada pode soar muito pejorativo. Consolidou-se a idéia de que o escritor engajado é aquele mais comprometido com a propaganda política do que com a literatura, especificamente. É assim, por exemplo, com os escritores enquadrados sob o rótulo do “neo-realismo”. E tal imagem tem na verdade seu motivo de ser: em todo o mundo, houve autores neo-realistas que assumidamente se afastaram do que fosse “literário” (tido aqui como sinônimo de falso, fantasioso) para se aproximar da “verdade”, do retrato de um mundo em crise, a fim de denunciá-lo. Foi assim, por exemplo, com Alves Redol, em Portugal, e com o primeiro Jorge Amado, no Brasil.

Por outro lado, também é verdade que o engajamento não é necessariamente sinônimo de panfletarismo ou de militância partidária. E nunca impediu que alguns grandes artistas criassem suas obras-primas. Não se pode negar que do neo-realismo italiano, por exemplo, tenham nascido alguns dos grandes filmes da década de 40, como Ladrões de bicicleta (1948) e Roma, cidade aberta (1945). Na literatura não foi diferente, como nos prova a obra de Elio Vittorini (1908-1966).

Um dos maiores escritores italianos do século passado, Vittorini é um dos representantes da chamada geração do pós-guerra, ao lado de Italo Calvino, Cesare Pavese, Natalia Ginzburg, e escreveu aquele que é conhecido como o primeiro romance da Resistência italiana: Homens e não [1], de 1945, lançado agora no Brasil pela Cosac Naify.

Vittorini foi um intelectual da maior importância para sua época. Dirigiu revistas como Il Politecnico e Il Menabó (esta ao lado de Italo Calvino) e foi grande divulgador da literatura norte-americana, tendo traduzido Edgar Allan Poe, Ernest Hemingway, William Faulkner, dentre outros. Em 1943, chegou a ser preso por seu envolvimento com a Resitência.

Uma obra nunca alheia a seu tempo

Mas um dos eventos mais importantes para sua carreira literária ocorreu em 1936: o início da Guerra Civil Espanhola. A guerra tomou todo o interesse do escritor, que na época estava redigindo o romance Érica e seus irmãos, cuja redação abandonou, ao julgar não ser mais possível redigir um romance nos moldes que pretendia. Um conflito civil daquelas proporções pedia outra forma literária, para outro tema. Desta preocupação nasceu Conversa na Sicília, que seria editado em 1941, e indicaria uma marcante mudança formal em sua ficção. Prevaleceu uma prosa mais objetiva, sem uma voz narrativa que intermediasse os sentimentos e pensamentos dos personagens, que passaram a ser representados através de ações e externalizados através de longos diálogos. O próprio autor assumiu que seu livro era mais uma “suite de diálogos” do que propriamente um romance. Quase uma peça teatral.

O narrador de Conversa na Sicília é Silvestro, siciliano que vive no norte da Itália há 15 anos e, às vésperas de seu trigésimo aniversário, começa a se sentir “tomado de furores abstratos pelo gênero humano perdido”. Sem conseguir definir seu pessimismo, ele entrega-se à “não-esperança” e passa a “dar o gênero humano como perdido e não ter vontade de fazer coisa alguma quanto a isso”. Neste clima de absoluta desilusão, recebe uma carta do pai, que o faz decidir voltar à Sicília.

A princípio, Silvestro se mantém indiferente aos tipos que encontra em sua viagem. E são, de fato, tipos algo caricatos, e sem nem mesmo um nome que os caracterize; são chamados, apenas, de Homem das laranjas, Com-Bigodes, Sem-Bigodes, o Grande Lombardo, o Catanês, o Velhinho da voz de folhinha seca, personagens que de início nada representam ao narrador, ao não ser insólitas anedotas de viagem. O modo de pensar siciliano parece estranho a Silvestro, como o é, também, para o leitor, que se depara com diálogos circulares, contraditórios e, por vezes, absurdos. Mas, aos poucos, enquanto atravessa diferentes espaços de sua infância — como a casa materna e diferentes locais de sua cidade natal —, Silvestro rende-se ao fluxo da memória e passa a aceitar as coisas e as pessoas da Sicília: “Feliz de quem pode reencontrar!”, afirma.

Essa rápida digressão acerca de Conversa na Sicília será útil para descrevermos o romance seguinte de Elio Vittorini, Homens e não. É difícil não tomar o primeiro como termo de comparação para compreendermos o segundo: trata-se do desdobramento de um mesmo projeto literário. Como no romance anterior, o enredo é relativamente simples. Homens e não conta a história de um homem nomeado apenas como Ene 2, sua relação afetiva com uma moça, Berta, e a atuação de um grupo de partigiani do qual faz parte. São narradas as ações de combate dos partigiani contra o exército alemão e a violenta reação dos oficiais nazistas.

O narrador se indigna, como no coro grego

Formalmente, a narrativa continua próxima da forma teatral. A descrição espacial é desde o início seca e objetiva, bem como a composição dos personagens, muitos deles reduzidos aos seus apelidos: Olhos-de-Gato, Bigode-Grisalho, Boca do Inferno, Filho-de-Deus. Além disso, os capítulos são curtos como as cenas de uma peça, e há uma franca prevalência dos diálogos sobre a voz do narrador. Desta vez, porém, há uma diferença estrutural. Intercalados com a história principal, há capítulos em que o narrador em terceira pessoa interfere na história, dirigindo-se diretamente aos personagens. Em um deles, por exemplo, o narrador dialoga com Ene 2, e o leva até sua infância, onde encontrará Berta ainda menina, muitos anos antes deles se conhecerem. É preciso dizer que não se trata do retorno a um passado idílico, que promova o reconforto do personagem; antes, trata-se de uma nova ficção (porque nunca ocorreu na infância de Ene 2), e que reproduz uma tensão bastante próxima à vivida pelo personagem quando adulto.

Mas esse narrador também cumpre um papel de comentador do texto, assumindo uma função muito próxima da exercida pelo coro nas tragédias antigas. Mesmo neste caso, não há uma voz superior que ordene o texto e os eventos descritos, organize-os e explique-os, conferindo-lhes uma lógica narrativa própria. Pelo contrário: o narrador mostra-se tão indignado e sem respostas quanto os personagens.

Na guerra, em um mundo sem sentido aparente, os rebeldes se reúnem a fim de definir uma linha de ação. Tais reuniões clandestinas nos lembram aquela de que participa Silvestro, em Conversa na Sicília: em um subterrâneo, um grupo de trabalhadores da cidade comenta o “mundo ultrajado” pelo qual todos sofrem. Neste caso, não há um discurso político elaborado, mas a constatação, entre os personagens, de uma consciência do mundo, distante da ação efetiva. Um discurso circular, repetitivo, e por vezes contraditório, que não nomeia explicitamente os inimigos do povo ou a situação política, mas que reitera, em sua aparente falta de sentido, o absurdo de uma situação insustentável.

Em Homens e não, o contexto político é mais evidente. E a circularidade, agora, não está apenas nos diálogos indignados, mas na ação, na violência que gera mais violência.

Na descrição deste círculo vicioso, não importa mais a reprodução fotográfica do real, tão defendida pelo neo-realismo. A narrativa é contaminada pelo irreal, pelo fantasmagórico, pelo devaneio. Em certo momento, uma multidão observa vários cadáveres na rua. Frente aos gestos e à indignação dos personagens, até mesmo os mortos se manifestam:

Por quê?, a menina exclamou. Como por quê? Porque sim! Você sabe e todos sabem. Todos sabemos. E você pergunta? Ela falou com o homem morto que estava ao seu lado. Perguntam isso, disse-lhe. Não sabem? Sim, sim, o homem respondeu. Eu sei. Nós sabemos. E eles, não?, a menina disse. Eles também sabem. É verdade, disse Gracco. Ele sabia, e os mortos lhe diziam. Quem tinha atirado não podia mais acertar o alvo. Numa menina e num velho, em dois jovens de quinze anos, numa mulher, numa outra mulher: este era o melhor jeito de atingir o homem. Atingi-lo onde o homem era mais frágil, onde havia a infância, onde havia a velhice, onde tinha a sua costela arrancada e o coração descoberto: onde era mais homem (p. 120).

Um paradoxo essencial: o próprio homem

Homens e não é um livro de perguntas, violento mas lírico. E ao contrário do que se convencionou chamar de literatura engajada, o romance de Vittorini não propõe maniqueísmos de propaganda. Há, sim, o elogio da Resistência antifascista: não há nada a fazer senão resistir. Mas o romance promove a consciência do paradoxo: mesmo o ato de violência legitimado pelas circunstâncias da guerra engendra uma resposta igualmente violenta.

Seguindo este raciocínio, o narrador toma a palavra, do capítulo CIV ao CVII, para refletir não apenas sobre o “homem ofendido”, mas sobre a própria natureza da ofensa. São os capítulos mais claramente reflexivos do livro, em que a indignação toma a forma de um discurso abertamente questionador. A questão não é saber se “o gemido está no homem. E como será no homem. Mas se está no homem aquilo que eles fazem quando ofendem” (p. 202). Ou, em outras palavras: “Mas a ofensa em si mesma? É alguma coisa além do homem? Está fora do homem?” (p.199).

A resposta não é evidente. Isso porque, do mesmo modo que os personagens só podem ser compreendidos através de seus atos, a interioridade dos homens não pode ser vislumbrada senão através de suas ações. Questão que se reflete, formalmente, na proposta literária de Vittorini: seu estilo seco e objetivo, centrado nos diálogos e na ação, não vasculha o interior dos personagens, não desvenda seus conflitos interiores.

Já o título do livro sugere que a “ofensa” de que fala o narrador não é exterior ao homem. Homens e não: o humano e o não-humano, como os termos indissociáveis de um paradoxo essencial, o próprio homem. Representar esse paradoxo através de ações dos personagens, sem reduzi-lo a uma tese política, é o grande trunfo de Elio Vittorini. A literatura, como os corpos na calçada, revela o horror, mas não oferece respostas.



[1] Homens e não, Elio Vittorini. Tradução de Maria Helena Arrigucci. Editora CosacNaify, 2007

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