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O que penso ser preciso para escrever (e ler) é que jamais se deve abandonar as próprias marcas em nome de um conforto que, na verdade, não existe fora delas

Renata Miloni - (15/10/2007)

Antes de descobrir os temas, de saber se será conto ou romance de gaveta, antes de garantir que a personagem realmente será mulher, é preciso definir onde e com o quê escrever. No meu caso de aspirante a escritora, o lugar sempre foi e será prioridade. E, dependendo do autor, sua própria casa pode causar o que chamam de bloqueio na criação de textos. Mesmo que alguns desses bloqueios corram o risco de, às vezes, ser apenas invenções inconscientes para justificar a má fase de idéias — que é natural enfrentar. Faz parte de certa dor do escritor superar outras dores, com a conseqüência de uma maior, para conseguir escrever.

Ricardo Piglia apresentou eminentes pontos de vista no livro O último leitor (Companhia das Letras, 2006). Em um dos ensaios, ele cita a descrição que Kafka fez, numa carta a Felice Bauer, de como pensava ser o lugar perfeito para escrever:

Freqüentemente pensei que a melhor forma de vida para mim consistiria em encerrar-me na parte mais profunda de uma imensa caverna com uma lamparina e tudo o que é necessário para escrever. Alguém me levaria comida e sempre a deixaria longe de onde eu estivesse instalado, atrás da porta mais exterior da caverna. Ir buscá-la, de camisolão, atravessando todas as abóbadas, seria meu único passeio. Logo em seguida eu voltaria para minha mesa, comeria lenta e conscienciosamente, e depois recomeçaria a escrever. O que eu não seria capaz de escrever, nessas condições! De que profundidades extrairia o que escrevesse! Sem esforço! Pois a concentração extrema não sabe o que é esforço. (pág. 42)

Apesar de usar a observação do comportamento e a percepção da mente humana e do mundo como principais elementos na escrita, minha idéia de lugar perfeito para escrever não é uma caverna como a de Kafka, mas algo com os mesmos princípios: vazio de gente e distante de tudo. São algumas das cruciais condições que a escrita exige para existir, na minha opinião. Mas como pensam outros escritores?

A carta de Kafka me instigou a querer saber de outras pessoas o lugar (e sua condição) que consideram ideal para escrever. O jornal The Guardian publicou fotos dos escritórios escolhidos por alguns escritores, onde se sentem mais à vontade para trabalhar, e também depoimentos que justificassem a escolha. Analisando cada um, percebi que a maioria passa a necessidade de se ter o lugar como mais "seu" possível.

O irlandês John Banville retoma a essência da solidão e reforça a urgência de ter o máximo de si no lugar. E, talvez por essa vontade, ele diz ter inveja daqueles que conseguem escrever em quartos de hotel ou aviões. O silêncio, sempre ele, e a iluminação parecem ser os aspectos indispensáveis para Banville trabalhar. O escritório do inglês Will Self foi o que mais me chamou a atenção: além de ter um mapa de Londres, as paredes são repletas de post-its. O escritor revela que seus livros nascem de cadernos de anotação e, depois, as idéias passam para os famosos papeizinhos, que preenchem o lugar de expressões, metáforas e personagens. É o escritório mais literário que já vi.

Até que ponto a concentração pode chegar

Até nos escritórios mais bagunçados é possível encontrar o conforto da personalidade do autor. Seria o alívio também essencial na literatura, tanto na escrita quando na leitura? O escritor consegue enxergar a mesma possibilidade para escrever que um leitor enxerga ao ler, se encostando numa árvore apenas, por exemplo? Ou escrever exige muito mais? A condição peculiar que ambos os atos exigem é a do silêncio. Mas até que ponto a concentração pode chegar? É possível ler dentro de um ônibus, no meio do trânsito, e, ainda assim, se concentrar o suficiente para que o silêncio seja situado? São questões que, como a própria definição de literatura, provocariam respostas transbordadas de subjetividade.

Kafka escreve à mão, à caneta ou a lápis. Seriam dois momentos do manuscrito? Duas versões? Uma é mais definitiva que a outra? Difícil saber. Por exemplo, as duas cartas encontradas em sua escrivaninha por ocasião de sua morte, com a instrução de que seus manuscritos fossem queimados — talvez os dois textos decisivos de Kafka como autor —, foram escritas, a primeira em 1921, à caneta, e a segunda em 1922, a lápis. (O último leitor, de Ricardo Piglia, pág. 63)

Se a lenda da inspiração for verdadeira, me sinto mais inspirada e capaz de escrever algo que me agrade quando tenho uma lapiseira 0.7 (mais específica possível) ou em frente ao computador. É pura questão de segurança. Pode parecer algo pequeno, mas tudo o que fizer com que a dificuldade de organizar as idéias não acabe bloqueando as palavras tem um extenso valor. Quando uso a lapiseira, talvez seja para não cair numa bagunça incompreensível e impossível de desfazer, apesar de eu ser uma ótima decifradora. E, ainda sob uma hipótese, quando escrevo à caneta, necessito da mesma bagunça para ter a possibilidade de certa clareza mais tarde, pois em rabiscos é também possível encontrar idéias.

Mas quantos escritores recorrem unicamente aos cadernos de anotação? Hoje em dia, além de ser algo instantaneamente ligado à imagem do escritor, a praticidade de um computador faz que os pensamentos e, conseqüentemente, os textos fluam de uma maneira melhor, assim como as máquinas de escrever provavelmente faziam no auge de sua época. Não esquecendo que a internet também auxilia quando é preciso conferir rapidamente um dado histórico, por exemplo. Com ferramentas como sites de procura e até a agilidade de um chat com um amigo que possa ajudar, o tempo — que atualmente parece diminuir cada vez mais — que se economiza acaba favorecendo a produção. O autor, com a atenção focada no desenvolvimento de seu livro, não corre mais aquele risco — antes quase inevitável, dependendo da demora que exigisse — de se perder na própria história que escreve. Mas, ainda assim, há escritores que mantêm a tradição e têm seus cadernos e blocos como acessório indispensável na organização de seus trabalhos. Porém, a pausa para pesquisa poderia (e ainda pode) muito bem ser motivadora, ou até criadora, de situações, personagens e soluções no enredo. Sendo assim, Kafka teria tido não só o primeiro escritório dentro de uma caverna, mas também a primeira (e talvez única) biblioteca?

O que penso ser preciso para escrever (e ler) é que jamais se deve abandonar as próprias marcas em nome de um conforto que, na verdade, não existe fora delas. É o que levo em consideração, o que acredito permitir o escritor (e o leitor) ir ao lugar de onde traz suas idéias. Aquela necessidade maior para que se consiga colocar no papel (ou na tela) uma nova história: um lugar que dê a paz da solidão e o desespero que às vezes o silêncio pode causar. E tanto esse lugar quanto sua condição, unidos ao objeto escolhido para a produção, se completam numa urgência que talvez eu demore mais um pouco para entender totalmente, mas que, mesmo assim, admiro.



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