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Selena e o major

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"Olhou bem pra cara do velho, o linho, o olhinho azul do velho, anel da mesma cor, bengala de castão. E começou a rir"

Neuza Paranhos - (15/10/2007)

Paramos pra que, mesmo? Ah, sim, para que ela fosse ao banco. Foi sozinha, que nos faltava paciência. E que eu me lembre, nem ela pediu, zelosa de seus negócios e dinheiros. Foi sozinha, e pronto. O carro ficou estacionado na praça municipal, coreto e florinhas. De um lado a prefeitura, do outro, Banco do Brasil. E tenho dito. Agora, passemos ao dobrado.

Uma hora depois, mais ou menos, voltou com uma história que só mesmo ela. Ou sei lá. Vai ver que todo mundo, mais dia menos dia, se vê metido numa situação dessas. Mas é que ela tinha um jeito engraçado de existir e reportar-se a respeito. Vou, aliás, inventar um nome pra ela, que essa história de "ela" está me enchendo os picuás. Fica sendo Selena.

Esqueci de mencionar que quando chegamos o banco estava para abrir. Fomos à padaria. Selena achou mais sensato esperar. Torquato, o namorado, ficou com ela. Sentaram na calçada de mãos dadas, namorandinho. Dez horas, começou o expediente. O casal deixou a calçada bucólica e tratou da vida. Torquato beijou Selena e atravessou a praça rumo à padaria. Uns poucos se organizavam em fila diante do único caixa aberto. Metida à besta, Selena bem que tentou passar a perna nos locais. Alcançou o caixa anunciando muito alto que era turista e tinha pressa. Não deu certo, a mandaram para o fim da fila – que a essas alturas, dia de pagamento, já estava de bom tamanho. Antes tivesse aplicado o plano B, se dizendo grávida e enjoada, ruminava de mau-humor, depois de tentar reaver sem sucesso seu lugar atrás da meia-dúzia original.

Estavam nesses debates, quando irrompeu pela agência um remoinho e suas ventanias. No mundo, cada peça de alfabeto ganha um furacão. Já por ali, o furacão era dono das letras todas e se chamava Major Fulano de Tal, remoinho ao seu dispor, senhor das águas e dos ventos e de quantos elementos pudesse marcar em brasa. O ambiente se assuntou e o povo abriu caminho em gentilezas. A majestade era um velhote de branco, calça e paletó em linho imaculado. Cetro e coroa eram panamá e bengala de castão de prata. Adentrava solene de si, aquém da turba que dobrava e desdobrava. Parecia novela de tevê, dessas que se passam no Nordeste. O gerente acudiu com pronto atendimento, mas ele não quis.

Tá me chamando de velho, Jacinto? – disse recusando a primazia da terceira idade. E o gerente voltou murcho pro seu canto. O Major ocupou lugar na fila depois de Selena. Em seguida, sacou um Havana do bolso e se pôs a fumar. Imediatamente, Selena começou a tossir que não parava mais. O velho ergueu a sobrancelha.

Lhe incomodo?

Ai, incomoda sim. Se não for pedir muito, será que o senhor podia apagar?

Sorriu com o charuto preso entre os dentes amarelados. Ficou um tempo avaliando Selena que, confusa e lenta, pasmava.

E a moça é de onde?

O charuto continuava queimando e Selena estava mais interessada em espantar a fumaça do que em entabular diálogo.

São Paulo... cof, cof... Dá pro senhor apagar agora mesmo?

O velho permaneceu luzindo a brasa fumarenta entre os dentes arreganhados, jeito dele expressar surpresa e divertimento. Como nada acontecia e o ambiente se enfumaçava cada vez mais, Selena saiu da fila e foi ao gerente, que lhe recebeu grave e ocupadíssimo. Se a moça não gosta de fumaça, volte em outra hora.

Não é questão de gosto, eu sou alérgica!

Então volta depois, e agora me dá licença.

Eu não quero atrapalhar, mas é que eu tô viajando desde ontem e tenho pressa de chegar em Diamantina.

Pois então a senhora pega a fila e espera, viu. Não tem nada de fumaça, Diamantina, não, viu. A senhora pega a fila e não me encha a paciência! Falta de respeito... – Jacinto dizia nervoso, de olhos pregados no velho, que acompanhava a cena de longe, achando aquilo bom pra distrair.

Peraí! Eu tô pedindo por educação o que é meu direito e...

Do nada, sem mais, o gerente saltou, acrobático – o ímpeto foi tal que derrubou a cadeira onde sentava. E finalizou o movimento em pé, ao lado da mesa de trabalho, sem ligar de voltar a cadeira no lugar. Selena, espantada, adiou o discurso. Sentiu o ar empestado e deu com o Major atrás de si.

Bãos dia, Jacinto – disse como se não o tivesse encontrado há uns minutos.

Bom dia seu Major, como vai a família, dona Miloca...

Tudo na paz de Deus, Jacinto, tudo tranqüilo. Mas qual é o problema da moça, será que eu posso ajudar?

Nada não, Major, o que é isso, problema nenhum!

Selena se indignou.

Como assim, problema nenhum? – e se voltou pro velho. Eu estava agora mesmo dizendo pra ele, que é o responsável, ou pelo menos acho que aqui tá escrito gerente – tocou na placa cerimoniosa sobre a mesa de Jacinto – que eu sou alérgica à fumaça do seu charuto!

Ainda sorrindo, intenso demais para a calma afetada, o Major ciscou os olhos.

Pois se o problema era meu charuto, a senhora me avisasse.

Mas eu...

Esmagou o charuto na mesa de Jacinto com uma tranqüilidade perigosa. As palavras de Selena murcharam e ela arregalou os olhos. De repente se lembrava de que não estava numa agência da avenida Paulista. Não se ouvia um pio e até o canário do caixa, na gaiola pendurada entre avencas, emudeceu.

A senhora me acompanhe na fila, que agora não tem mais charuto nem fumaça, não. Tem mais nada, não.

Em choque e ciente da encrenca, Selena acompanhou o Major que, sem dá licença ou por favor, abriu lugar na fila a uns oito clientes do caixa – todos devidamente apavorados, sem coragem de se mexer do lugar. E nem era pra menos. O velho era conhecido na região por reger na ponta da arma, adormecida sob o paletó à altura dos rins, mas sempre pronta para combate. Fosse por questão de terras e gado, ou no cinema – como já tinha sucedido – para encomendar um cala-boca. Mas disso Selena nem desconfiava. E mesmo se desconfiasse, ia achar excesso de imaginação. O ritmo de atendimento, mesmo com o funcionário trabalhando a jato, permitiu ao Major travar conhecimento. Posicionou Selena a sua frente e, altaneiro, olhando por cima do povaréu trêmulo, apoiou as duas mãos no castão da bengala. Usava no indicador direito um anel de pedra azul bem clara. Da mesma cor dos olhos pequenos e muito unidos sob a aba do panamá. Ninguém se atrevia, nem o canário, que continuava mudo.

A senhora é casada?

Selena demorou a responder, aturdida que estava. No meio da manhã de Almenara, fechada em um banco de fim de mundo, a pergunta soava estranha. Quando ia responder que não, recuperou o raciocínio e achou melhor variar a realidade.

Sou, sim.

Gosta do marido?

Não fazia idéia de onde ele queria chegar com aquela conversa mas, como não era boba, entendeu que estavam jogando.

Gosto, gosto sim.

Pois se não gostar, me avise que eu mando matar.

Engoliu saliva, tensa. E simplesmente não conseguiu montar o sorriso social que planejava antes do velho propor assassinato.

Torquato apareceu nesse exato momento feito um animal de sacrifício. Alheio de que sua vida estava nas mãos de Selena, surgiu acalorado na porta do banco. Tão lento quanto a namorada, foi caminhando em direção à fila. Logo que a localizou foi se achegando.

Ainda aí, Lê? A gente tá na padaria aí em frente, é só atravessar a praça. Quer que eu te traga alguma coisa?

Não. Fica aqui.

Ah, Leninha, tem dó. Tá o mó sol lá fora... jabuticaba! Tem suco de jabuticaba! Quer que eu busque?

O velho media muito Torquato que, distraído, não dava conta.

Não, pensando bem, vai lá que já tô indo.

Não demora tá... – se aproximou para um beijinho, mas Selena afastou o rosto, pouco à vontade.

Tá brava?

Não, vai lá, por favor!

Mas Leninha...

Vai!

Sem vontade de discutir e doido para ver a rua, Torquato saiu arrastando as sandálias. Fez-se silêncio e ela pensou que tinha se livrado do velho. Mas logo o Major voltou à carga.

É esse?

Esse?

O moço, marido da senhora?

É sim.

Fez um muchocho. Em seguida contra-atacou.

Mando matar e jogar no rio, que é pra não aparecer o corpo.

Não, não...

Assim a moça não precisa gastar em enterro.

Selena ponderou para si que tinha dois caminhos. Em um, se entregava ao desespero, ficava histérica e se punha a chorar. No outro, jogava até alcançar o caixa, pegava o dinheiro e caía fora. Repetiu na imaginação o gesto italiano de morder a mão de impaciência e invocou os antepassados sicilianos. Precisava do dinheiro do banco para continuar a viagem, não tinha outro jeito.

O senhor, hein, não brinca em serviço. Mas precisa, não. Estou feliz com esse marido – sorriu a cortesia que não tinha podido antes.

Pois eu não estou feliz, não – Selena sentiu faltar o chão, mas manteve a linha. Tudo o que não podia mostrar era medo.

A senhora sabe, tenho oito muié.

Nossa, quantas!

Tô precisando de mais uma pra me dar banho.

Olhou bem pra cara do velho, o linho, o olhinho azul do velho, anel da mesma cor, bengala de castão. E começou a rir. Riu com gosto de gargalhadas, chegou a suar os olhos de tão engraçado. Riu tanto que o velho desarreou a importância. Apoiado na bengala, segurava a barriga pra não estourar. Os circundantes sorriam tímidos, o ambiente desanuviou e o canário voltou a cantar. Quando Selena e o Major se acalmaram, ele prosseguiu num quase monólogo sobre mundos e fundos e tantas cabeças de gado. Estavam nisso, quando Torquato voltou.

Ainda, Leninha!

Cê quer o quê, tô na fila!

A senhora me permite – interveio o Major. E foi conduzindo Selena ao caixa.

Atende a moça – e se afastou, fazendo de si o próximo da fila.

O caixa obedeceu e ninguém no banco reparou em nada. Torquato ficou olhando abobado, com cara de curiosidade. Findo o serviço, ao passarem ao lado do Major, ele tocou Selena no braço:

Se quiser, já sabe – e tornou a medir Torquato de má vontade.



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