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CULTURA

A arte que liberta não pode vir
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Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica

Eleilson Leite - (17/10/2007)

Tomei este título de empréstimo do Manifesto da Antropofagia Periférica, mais uma pedra preciosa do poeta Sergio Vaz. Escrito em prosa poética, este texto, cuja íntegra, reproduzo aqui é uma ode à Periferia e a cultura produzida nas quebradas e cafundós da metrópole paulistana. No ano em que se comemora os 85º aniversário da Semana de Arte Moderna e os 40 anos da Tropicália, é da Periferia que emerge o movimento que melhor representa a tradição antropofágica celebrada em 1922 e 1967. Por isso, prepare-se caro leitor: vem aí a Semana de Arte Moderna da Periferia.

Concebido pela Cooperifa – Cooperativa de Artistas da Periferia, o evento é organizado por mais de 40 grupos de várias partes da Região Metropolitana de São Paulo e promoverá, entre os dias 4 e 10 de novembro, mais de cem atividades, em diversos pontos da Zona Sul da Capital. A abertura será no melhor estilo Fórum Social Mundial. Haverá uma caminhada cultural que partirá da Ponte do Socorro até a Igreja de Piraporinha. No percurso, muita agitação, manifestos e intervenções artísticas.

Durante toda a semana que segue, uma extensa programação dará uma mostra eloqüente da riqueza da produção cultural periférica, cada dia privilegiando uma linguagem artística. Na segunda-feira, artes plásticas; terça, dança; quarta, literatura; quinta, cinema; sexta, teatro e no sábado, música. Serão shows, espetáculos, intervenções, exposições mostras, além de debates, oficinas e palestras. Tudo organizado pelos próprios artistas, coletivamente, num processo participativo tão característico dos movimentos sociais. As reuniões preparatórias chegam a reunir mais de 50 pessoas, lá no Bar do Zé Batidão, palco do famoso Sarau da Cooperifa.

“Pensávamos que não sabíamos ler, agora estamos escrevendo livros”

Essa característica de movimento e a condição social dos artistas que promovem a Semana de Arte Moderna da Periferia é um fator que distingue este evento daqueles liderados por Oswald de Andrade e Caetano Veloso. A Semana de 1922 e a Tropicália defendiam posições estéticas dentro do campo dominante. Eram posturas inovadoras, radicais, mas disputavam com a elite. Agora, Sergio Vaz e os artistas da Periferia vêm à público constranger as elites. Como diz o escritor Alessandro Buzo, “pensavam que não sabíamos ler, agora estamos escrevendo livros”. Esses artistas vão defender um espaço no qual sempre estiveram excluídos. Na Periferia se faz cinema, teatro, música, dança, artes plásticas e literatura. O evento vai se constituir num espaço de afirmação dessa cultura.

Afirmar a arte da periferia é em si um ato político.

Os famintos farão seu próprio banquete. E a fome é grande: fome de arte, de amor, de paz , de justiça. “Por uma Periferia que nos une pelo amor, pela dor e pela cor”, como diz o Manifesto em seu verso final.

Participe. Na próxima coluna vou apresentar, comentar e dar dicas da programação completa da Semana de Arte Moderna da Periferia.



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