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TENDÊNCIAS

O novo mosaico global,
visto por Fiori

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Num depoimento especial, um dos mais importantes cientistas sociais brasileiros antecipa o sentido de seu novo livro, que descreve um início de século já marcado por duas grandes reviravoltas, e lança nova contribuição ao debate sobre a “hegemonia norte-americana”

José Luís Fiori - (19/10/2007)

Análise de conjuntura. Co-relação de forças. Estratégia. Tática. Geopolítica. Longas durações históricas. Na nova cultura política do altermundismo – da qual Caderno Brasil sente-se parte –, o uso destes termos, e o debate em torno deles, permanece escasso. É uma pena. Para afirmar a potência da sociedade civil, nada melhor que difundir o uso de instrumentos que auxiliam a enxergar em profundidade o mundo, suas contradições e lógicas, as oportunidades que permitem questioná-las e criar alternativas.

Estará nas livrarias a partir de 24 de outubro Poder Global [1], livro mais recente do cientista político José Luís Fiori. Coletânea de cinqüenta artigos produzidos desde 2001, a obra traz também um prefácio inédito, que condensa, em pouco mais de vinte páginas, pontos teóricos que estão por trás de todas as análises, mas foram sistematizados nos últimos anos. Poder Global mergulha o leitor nos grandes movimentos geopolíticos que já marcam este século, e o estimula a refletir sobre eles. De quebra, ajuda a combater dois raciocínios igualmente esquemáticos: por um lado, a crença num declínio inevitável do papel dos Estados Unidos. Por outro, a idéia de que hegemonia – norte-americana ou de qualquer outra potência — significa poder quase-absoluto.

Em importante aporte teórico, expresso no prefácio, Fiori demonstra que, no chamado “sistema mundial moderno”, a existência de um hegemon não é o mais importante, para a manutenção da ordem política e o funcionamento da economia internacional. O decisivo é a disputa contínua, que leva tanto à concentração de poder quanto... ao seu contrário. Em todos os momentos, a potência hegemônica é obrigada a continuar se expandindo – mas também a gerar e estimular seus próprios concorrentes. Como se não bastasse, o próprio processo de expansão internacional do capital e do poder político fomenta o surgimento de poderes e economias nacionais. O sistema depende, permanentemente, de competição, conflito e, em muitos casos, guerra. Sem eles, entra em colapso.

Além disso, prossegue Fiori, quem enxerga na conjuntura atual apenas um mundo dominado pelos EUA não vê a nova reviravolta dos últimos anos. Apesar de terem recuperado terreno de forma impressionante, nas décadas neoliberais, eles passaram a enfrentar, desde que atolaram no Iraque, dificuldades e adversários em todos os cenários para onde procuram estender seu poder. No Oriente Médio, deparam com a influência crescente do Irã e dos xiitas. Foram incapazes de impor a ALCA à América Latina, onde – ainda mais importante – surgem pela primeira vez iniciativas consistentes de integração regional. Na Europa, a Alemanha busca novamente vôo próprio, projetando-se para o leste e... a Rússia. Sob o governo de Putin, e estimulada por seu poderio militar, esta última procura recuperar rapidamente papel de potência internacional destacada. Na Ásia, há a zona econômica mais dinâmica do planeta, a ascensão da China (que não busca desafiar Washington, mas também não aceita submeter-se) e a afirmação simultânea dos interesses japoneses e coreanos. Em todo o mundo, a crise energética desponta como um acelerador das rivalidades e tensões

Poder Global percorre todos estes movimentos em textos sempre densos, porém claros e fluidos. Sugerir a leitura do livro não significa, é claro, estar de acordo com ele. Fiori não parece considerar muito relevantes nem o surgimento da sociedade civil global, nem os Fóruns Sociais Mundiais (FSMs), nem a emergência de uma nova cultura política pós-capitalista, que já não vê nos Estados o motor das transformações sociais. Num artigo escrito logo após o I FSM, o autor afirmava: “a política só pode ser eficiente onde exista algum poder a ser conquistado, e cujas diretrizes possam ser alteradas”. O novo livro persiste neste ponto de vista, inclusive com textos dedicados à polêmica com autores próximos ao altermundismo, como Toni Negri, Giovanni Arrighi e Immanuel Wallerstein.

Nada disso torna a obra menos interessante e necessária. Ao contrário: Poder Global vale também pela capacidade de provocar. Fique com o depoimento especial de Fiori. E aguarde, no Caderno Brasil, a continuação deste debate. (A.M.)

Um mundo hierarquizado, mas
em constante conflito e movimento

Meu livro intitula-se "poder global". expressão não se refere a uma entidade ou a uma instância particular do poder político mundial, nem tampouco à quantidade relativa de poder de algum estado ou organismo multilateral. Expressa um campo de pesquisa e um modo de analisar o funcionamento e as tendências de longo prazo do sistema mundial que se formou a partir século 16, da expansão conquistadora de alguns estados europeus e de suas economias nacionais. O conceito de “poder global” não é sinônimo, nem é equivalente aos conceitos de “hegemonia” e “governança” mundial. Pelo contrário, trata-se de um modo de olhar e analisar o sistema político e econômico mundial, que privilegia o movimento, o conflito e as contradições que movem este sistema, impedindo sua estabilização, e qualquer tipo de “paz perpétua” ou de “governança estável”. Exatamente porque se trata de um “universo” em permanente expansão movido pela competição e pelas lutas entre alguns estados e economias nacionais conquistadores que estão obrigados a se expandir permanentemente para seguir acumulando seu próprio poder e riqueza. Por isto, o “sistema mundial moderno”, desde o século 16, e até hoje, foi sempre hierárquico e oligopólico.

Mas atenção, porque ao contrário do que se poderia concluir apressadamente, estas grandes potencias que lideraram e lideram a acumulação do poder e da riqueza dentro deste sistema, foram e seguem sendo complementares e competitivas, a um só tempo, sem que jamais possam se destruir mutuamente sem destruir, ao mesmo tempo, o próprio sistema e sua força propulsora. A competição e a luta ente estes estados apontam na direção da monopolização completa do poder e da riqueza, ou seja, para o nascimento de um “poder global”, mas esta monopolização nunca se realizou nem jamais se realizará deste sistema mundial em que vivemos. Os centros de acumulação de poder e riqueza se deslocam no tempo e no espaço, mas jamais se concentram num só lugar. Se isto acontecesse, o sistema entraria em estado de decomposição anárquica, ou de entropia. Neste sentido, do nosso ponto de vista, não são os “hegemons” que estabilizam este sistema mundial criado pelos europeus; o que ordena e estabiliza este sistema – sempre de forma transitória - é a existência permanente do conflito e da possibilidade de uma nova guerra. Por isto, “no universo em expansão dos “estados-economias nacionais” não há possibilidade lógica de uma paz perpétua, nem tampouco de mercados equilibrados e estáveis”.

Estados Unidos e China: por trás
das tensões, papéis complementares

Eu diria que o ponto de partida e objeto central da minha análise é a indissolubilidade da relação entre, por um lado, o processo de acumulação e internacionalização do capital e, por outro, a força propulsora que empurra o processo de concentração e globalização imperial, do poder político dos estados nacionais ganhadores. O motor que move em conjunto estes dois processos, é o mesmo: a competição e a luta entre estas organizações políticas e econômicas nacionais, que surgiram inicialmente, na Europa, nos século 16 e 17, e que só se universalizaram, como forma de organização territorial do poder e da economia, na segunda metade do Século 20. Mas esta relação ou inter-relação não é apenas sincrônica e “virtuosa” para o mundo do poder e da acumulação do capital. Ela contém dentro de si uma contradição fundamental. Desde sempre, e ainda hoje, o movimento da internacionalização política e econômica reforça, a cada nova etapa, o movimento contrário da nacionalização e fortalecimento dos poderes e capitais nacionais.

Por isto, do nosso ponto de vista, os grandes “surtos” de “globalização” econômica – como os que ocorreram, no fim do século 19 e 20 – provocam sempre, ao mesmo tempo, grandes movimentos de fortalecimento da competição e do conflito entre as nações. Em momentos de aceleração da internacionalização capitalista, a tendência simultânea foi sempre de aprofundamento do conflito entre os interesses comerciais e financeiros das economias nacionais do sistema. Por isto, em algum momento do livro, dizemos que a “globalização econômica” é um traço originário e constitutivo do sistema capitalista, mas não é uma obra exclusiva do capital, nem representa o fim das economias nacionais. Muito pelo contrário, é o resultado da expansão vitoriosa dos “estados-economias nacionais” que conseguiram impor seu poder de comando sobre um território econômico supranacional cada vez mais amplo”. Da mesma forma que o “poder global” não é uma obra exclusiva do poder político, cada vez mais cosmopolita ou multilateral, é sempre o resultado de uma luta entre poderes nacionais conseguem impor transitoriamente ao resto do mundo suas regras e instituições de gestão da guerra e da paz. Vencedores que nunca deixam de seguir expandindo, de forma cada vez mais rápida e permanente, seus recursos de poder econômico e político, mesmo quando pareça que já não tem concorrentes.

No caso das relações contemporâneas entre EUA e China, o que está acontecendo é o que sempre aconteceu nas relações entre as grandes potencias do sistema mundial. Neste momento, a complementaridade econômica entre China e EUA, é cada vez mais importante paras suas duas economias nacionais e para toda a economia mundial. Hoje, já não seria mais possível, pensar numa separação, ou numa tentativa unilateral de destruir ou bloquear o desenvolvimento uma da outra. A relação entre EUA e China transformou-se numa relação virtuosa, e quase num casamento econômico indissolúvel. É ingênuo propor, como alguns analistas norte-americanos, que os EUA bloqueiem o crescimento da China para impedir que se transforme algum dia, numa grande potencia global. Como é absurdo pensar que a China possa utilizar suas reservas em dólar, para jogar contra o próprio dólar, e portanto contra suas próprias reservas. Os chineses têm várias caraterísticas exóticas, do ponto de vista ocidental, mas certamente não são burros, nem têm uma tradição de auto-destruição.

Esta complementaridade econômica não exclui o fato de que os dois se considerem inimigos estratégicos e calculem seus movimentos e iniciativas tecnológico-militares, em função de um confronto militar futuro entre as duas potencias. Como já dissemos, esta dualidade faz parte do sistema e dos seus “jogos” básicos: das trocas e das guerras. É possível que nunca ocorra nenhuma guerra entre os EUA e a China, ela é dispensável. O que é importante para a acumulação do poder e do capital, na China como nos Estados Unidos, é a existência da possibilidade tendencial, de uma ou várias guerras, que funcionam como principio de organização estratégica do próprio desenvolvimento tecnológico e econômico dos dois países, e de todos os demais países que orientem seu cálculo estratégico político e econômico, pela disputa do poder global.

O fim da crença no fim das fronteiras
e num comércio mundial “estável”

Utopias não se enterram. Por definição, elas são eternas, não foram feitas para serem realizadas. Por isto elas permanecem através do séculos, como um desafio e como um objetivo inalcançável, como no caso do sonho liberal com o desaparecimento das fronteiras econômicas nacionais, e com a possibilidade de uma “paz perpétua” e cosmopolita, que se mantém vivos desde pelo menos o século 17. Um sonho, portanto que acompanhou toda a formação e expansão colonial do sistema político e econômico europeu. Uma coisa diferente é a ideologia da globalização que confunde, intencionalmente, a existência de uma força internacionalizante, dentro do sistema capitalista, com a possibilidade e a defesa do desaparecimento das fronteiras econômicas nacionais. Uma ideologia que sempre foi esgrimida, através da história, pelas potencias ganhadoras, e que sempre serviu de chave de entrada nas economias mais fracas e periféricas dentro do sistema econômico mundial. O que é fundamental ter claro, de um ponto de vista realista, é que a globalização, definida como um sistema ou ponto de chagada, em que desaparecessem a competição e a luta entre os estados e economias nacionais, onde desaparecessem as fronteiras e as guerras políticas e econômicas, seria a negação do sistema política moderno e a entropia do sistema capitalista, porque significaria o desaparecimento do próprio motor que alimenta a expansão do poder e da riqueza do sistema.

Um sistema que necessita do conflito,
para não entrar em colapso

O importante não é que os Estados Unidos encontram resistência ao exercício de um poder imperial mundial ou global. Isto é perfeitamente natural e esperável. O importante, do ponto de vista da nossa discussão teórica sobre o funcionamento e tendências de transformação do sistema mundial, é que a potência que lidera o processo expansivo do sistema como um todo necessita de concorrentes e adversários para seguir se movendo, para seguir acumulando seu próprio poder e riqueza. Na sua ausência, esta potência líder perderia força, e o sistema mundial, como um todo, entraria em estado de desorganização. Por isto, dizemos numa passagem do livro que “dentro do sistema mundial, formado pelos estados nacionais, todo e qualquer “super-poder” ou “potência hegemônica”, estará sempre condenado a expandir seu poder de forma contínua, para manter sua posição relativa dentro do sistema. Esta expansão, ou acumulação de poder, se faz através da competição e da luta com os demais estados, e da preparação permanente da guerra contra algum adversário que deverá existir “a bem do sistema”.

Por isto mesmo, a competição e a luta entre as grandes potencias se reproduz de forma permanente, e nenhum “super-poder” será jamais capaz de estabilizar o sistema mundial, porque ele mesmo precisa da competição e da “guerra virtual crônica”, para poder seguir se expandindo. Por isto, muitas vezes é a própria potência ganhadora que desestrutura sua “situação hegemônica”. Só ela tem condições de se desfazer das regras e instituições que construiu em algum momento – como no caso das Nações Unidas e de Bretton Woods —, toda vez que estas regras e instituições obstaculizem seu caminho expansivo. E, mais do que isto, muitas vezes é o próprio “poder expansivo” ou hegemônico que cria ou inventa os seus competidores e adversários, porque não pode crescer e se expandir sem ter concorrentes, mesmo quando seu poder pareça absoluto e incontestável.

Europa sem rumo claro, e pressionada
pelos movimentos da Alemanha

Os EUA definiram uma estratégia muito clara, desde o fim da Guerra Fria. E neste sentido, considero que existiu um denominador comum entre as administrações Bush e Clinton. A radicalização militarizada desta estratégia imperial, depois de 2001, é que vem enfrentando dificuldades crescentes, sobretudo no Oriente Médio – e neste momento se pode dizer que os EUA estão com sua liderança mundial fragilizada. Mas isto não significa que os EUA tenham perdido seu poder global, ou que estejam vivendo uma “crise hegemônica terminal” como acreditam muitos pensadores importantes do mundo anglo-saxão.

No caso da Europa, entretanto, acredito que de fato não exista no momento uma estratégia política internacional unificada e eficaz. Mas, do meu ponto de vista, esta paralisia ou impotência internacional tem raízes mais profundas e complicadas. Dificuldades que só aumentaram com o fim da Guerra Fria e o aumento do numero dos membros da União Européia (UE) e da OTAN A ausência de um inimigo claro e o excesso de sócios pouco alinhados vêm deixando cada vez mais claro a causa da paralisia estratégica e decisória da UE: ela não dispõe de um poder central unificado e homogêneo, capaz de definir e impor objetivos e prioridades estratégicas ao conjunto dos estados associados. Pelo contrário, está cada vez mais dividida entre os projetos europeus de seus membros mais importantes, a França, a Grã Bretanha e a Alemanha.

São uma divergência e uma competição muito antigas entre estes três países, que só ficaram adormecidas, logo depois da II Guerra Mundial, mas que estão reaparecendo cada vez com mais força, depois do fim da Guerra Fria, graças à reunificação da Alemanha e ao retorno da Rússia ao núcleo central das “grandes potências”. É indisfarçável o temor atual da França e da Grã Bretanha, frente ao fortalecimento da Alemanha, no centro da Europa. E não há dúvida que a reunificação da Alemanha, e o reaparecimento da velha Rússia atingiram fortemente o processo da unificação européia. A Alemanha fortaleceu sua posição como a maior potência demográfica e econômica do continente, e passou a ter uma política externa mais autônoma, centrada nos seus próprios interesses nacionais. Depois da sua reunificação, a Alemanha vem aprofundando a sua Ostpolitik dos anos 60, e vem promovendo uma forte expansão econômico-financeira, na direção da Europa Central e da Rússia. Uma estratégia que recolocou a Alemanha no epicentro da luta pela hegemonia dentro de toda a Europa, e dentro da própria União Européia, ofuscando o papel da França e desafiando o “americanismo” da Grã Bretanha. Se apesar do governo conservador, esta aproximação entre a Alemanha e a Rússia seguir em frente, mesmo que seja apenas no plano econômico, não é improvável que ela traga de volta a velha competição geopolítica dos estados europeus que foram os fundadores do atual sistema mundial. Mas neste caso, o projeto da EU terá chegado ao limite de suas possibilidades, e o mais provável é que comece a recuar em direção a formas menos “envolventes” e “comprometedoras” de integração.

Na Ásia, Rússia e Oriente Médio, sinais de
uma “nova geopolítica das nações”

As mudanças tem sido muito rápidas, nestes últimos 15 anos. Na década de 90, muitos acreditaram na utopia da globalização, do multilateralismo e da paz. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, a guerra voltou ao epicentro do sistema, e os Estados Unidos assumiram um projeto explicito de poder global, unipolar e quase-imperial. Seis anos mais tarde, entretanto, o mundo está mudando de direção, uma vez mais: o projeto imperial norte-americano enfrenta dificuldades crescentes, os Estados Unidos perderam capacidade de intervenção unilateral através do mundo, e está se assistindo, por todo lado, um retorno da “geopolítica das nações”, com corrida armamentista, políticas nacionalistas e disputas hegemônicas, em quase todas as regiões geopolíticas do globo.

No leste asiático, a corrida armamentista lembra, cada vez mais, o velho modelo europeu de acumulação de poder e riqueza, que está na origem do atual sistema mundial. É a região de maior dinamismo econômico, dentro do sistema mundial, e, ao mesmo tempo, é onde está em curso a competição mais intensa e explícita, pela hegemonia regional, envolvendo suas velhas potências imperiais – a China, o Japão e a Coréia – mas também a Rússia, e os Estados Unidos. No fim do século 20 e no início do século 21, o crescente envolvimento militar dos Estados Unidos com o Oriente Médio, e com sua “guerra global” ao terrorismo, diminuíram sensivelmente sua capacidade de intervenção direta nos assuntos do leste asiático. E está cada vez mais claro que, se aumentar o distanciamento militar norte-americano da região, haverá um rápido rearmamento japonês, com forte conotação nacionalista. Um quadro que pode complicar-se ainda mais, se a Índia for obrigada a envolver-se nesta disputa hegemônica, por sua própria decisão, ou por conta de uma eventual aliança com os Estados Unidos.

De qualquer maneira, a grande novidade geopolítica do Leste Asiático e de todo o sistema mundial, e a grande incógnita sobre seu futuro, está ligada à nova expansão global da China. Até o momento, ela tem se mantido fiel ao modelo original da expansão chinesa, do século 15, que foi basicamente diplomática e mercantil, à diferença da expansão bélica e mercantil — e depois capitalista — dos europeus. Do ponto de vista geopolítico, o mais provável é que a China se restrinja à luta pela hegemonia no sudeste asiático, e à sua região próxima do Pacífico, mantendo-se fiel à sua estratégia de não provocar, nem aceitar nenhum tipo de confronto, fora de sua “zona de influência asiática”. Mas se a China seguir o caminho passado de todas as grandes potências que existiram dentro deste sistema mundial “moderno”, será inevitável que, em algum momento, tenha que combinar sua expansão econômica, com uma expansão político-militar global.

Com relação à Rússia, durante a década de 1990, muitos analistas vaticinaram o fim da grande potência, que ingressou no cenário europeu no século 18, com as guerras de conquista de Pedro, o Grande. Em 1994, Henry Kissinger chegou a afirmar, no seu livro Diplomacy [2], que os Estados Unidos e a Europa teriam que enfrentar um problema novo e inesperado: a administração da desmontagem do império russo. Talvez por isso, os Estados Unidos lideraram a expansão imediata das fronteiras da OTAN, tomando posição militar em quase todo o território da Europa Central, já na década de 90.

Mas, ao mesmo tempo, esta expansão apressada da OTAN e da União Européia, e sua intervenção militar nos Balcãs, acabaram tendo um papel decisivo na vitória política de Vladimir Putin, responsável pelo redesenho da política externa e da estratégia militar da Rússia, a partir do ano 2000. A Rússia seguia sendo detentora do segundo maior arsenal atômico do mundo, e exatamente no ano 2000, o governo russo aprovou a nova doutrina militar proposta pelo Conselho de Segurança Nacional, que autorizou a utilização preventiva de armamento nuclear em caso de ataque ao país, mesmo que seja um ataque convencional maciço, e caso fracassem todos os demais esforços para repelir o agressor. Possibilidade que voltou a se colocar, com a insistência norte-americana em instalar seu sistema anti-mísseis na Europa Central. Uma decisão que provocou a retomada do programa russo de modernização de seu sistema balístico e nuclear.

Tudo isto ocorre no momento em que a Rússia obtém ganhos crescentes – econômicos e geopolíticos — com suas fontes energéticas, e no momento também em que retomou, no início de 2007, seu nível de atividade econômica anterior à grande crise dos 90. Uma expansão econômica e militar que já recolocou a Rússia, entre as grandes potências, com uma intervenção crescente nos conflitos da Ásia Central e do Oriente Médio, e com a posição de grande fornecedor de armamento e tecnologia militar para a China, a Índia e o Irã, e vários outros países ao redor do mundo, incluindo recentemente a Argentina e a Venezuela. De tal maneira que, apenas quinze anos depois do fim da União Soviética, todos os sinais indicam uma nova onda de modernização da economia russa estreitamente associada com os desafios militares e os objetivos estratégicos do país, como aconteceu em vários outros momentos da história da Rússia, e da própria União Soviética.

Por fim, é verdade que a intervenção dos EUA no Oriente Médio produziu um efeito bumerangue, que surprendeu os norte-americanos. Seu insucesso corroeu a credibilidade das ameaças de intervenção no Irã, na Coréia do Norte, ou em qualquer outro estado com alguma força militar e apoio internacional. Mas muito mais grave do que isto, foi a inversão da correlação de forças que produziu dentro do próprio Oriente Médio. Uma verdadeira reviravolta, que acabou fortalecendo o eixo de poder xiita dentro de toda a região, agora liderado pelo Irã, que se transformou no grande desafiante da hegemonia norte-americana no Oriente Médio. Com o aumento do poder dos xiitas na região, o Irã exerce hoje uma influência cada vez maior no próprio Iraque, no Líbano, na Palestina e no seio de todos os grupos islâmicos mais resistentes ao poder de Israel e dos Estados Unidos, dentro da região.

Esse aumento da influência iraniana acirrou a competição regional com Israel, mas também com o Egito, Arábia Saudita, Jordânia, e pode ter desdobramentos muito complicados, se desencadear uma corrida atômica na região. Mas alem disto, mais recentemente, a intervenção norte-americana no Iraque, acabou também ressuscitando o “leão adormecido” da Turquia, uma espécie de protetorado militar ou cabeça de ponte americana na região, cujo governo sempre esteve sob tutela das estruturas militares anti-islâmicas. Depois de longas décadas de inatividade reaparece a velha cabeça do império otomano, movido contra os curdos, agora também sob proteção americana. Mesmo que Israel ou os Estados Unidos façam um ataque “cirúrgico” às instalações atômicas do Irã, o quadro tende a ficar cada vez mais complexo, e apesar de que os Estados Unidos venham a manter influência no Oriente Médio, devem perder sua posição arbitral, e daqui para frente terão que conviver com a presença ativa da Rússia, da China e de outros países com interesses nos recursos energéticos do Oriente Médio. E, sobretudo, com o desafio e a competição hegemônica com o Irã, dentro da própria região.

Disputa por fontes (escassas) de energia:
um grande acelerador da competição global

Não existe, na história do sistema mundial, uma convergência necessária entre a dinâmica geopolítica e a acumulação do capital. Mas não há dúvida que a geopolítica e a economia andam quase sempre juntas, quando se trata da competição e da luta por recursos naturais escassos e estratégicos, tanto para os estados como para os capitais privados. Exatamente o que está ocorrendo neste início do século 21. Há um rápido aumento da intensidade da disputa em torno dos territórios e regiões que dispõem dos excedentes energéticos para mover a nova “locomotiva” do crescimento mundial — puxada pelos Estados Unidos e a China, com efeitos imediatos sobre a Índia. Basta olhar para as duas pontas deste novo eixo – Ásia e EUA – e para suas necessidades energéticas atuais e futuras, para visualizar o mapa das disputas e das suas sinergias positivas, através do mundo.

Em conjunto, a China e a Índia detêm um terço da população mundial e vêm crescendo, nas duas últimas décadas, a uma taxa média entre 6% e 10% ao ano. Por isso mesmo, ao fazer seu Mapa do Futuro Global, em 2005, o Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos previu que, se forem mantidas as atuais taxas de crescimento das duas economias nacionais, a China deverá aumentar em 150% o seu consumo energético e a Índia em 100%, até 2020. Mas nenhum dos dois países tem condições de atender suas necessidades através do aumento da produção doméstica, de petróleo ou de gás. A China já foi exportadora de petróleo, mas hoje é o segundo maior importador de óleo do mundo. E essas importações atendem apenas um terço de suas necessidades internas. No caso da Índia, sua dependência do fornecimento externo de petróleo é ainda maior: nestes últimos quinze anos, essa dependência aumentou de 70% para 85% do seu consumo interno. Para complicar ainda mais o quadro da competição econômica e geopolítica na Ásia, o Japão e a Coréia também dependem de suas importações de petróleo e de gás, para sustentar suas econômicas domésticas.

Esta situação de carência coletiva e competitiva é que explica a o fato de todos estes países asiáticos terem se aproximado recentemente do Irã, a despeito da forte oposição dos Estados Unidos. E explica também a ofensiva diplomática e econômica da China e da Índia, na Ásia Central, na África e na América Latina, como também, no Vietnã e na Rússia. Além da participação conjunta da China e da Índia, na disputa com os Estados Unidos e com a Rússia, pelo petróleo do Mar Cáspio, e pelos seus oleodutos alternativos de escoamento. A estratégia de competição e expansão é seguida, também, pelas grandes corporações privadas chinesas e indianas, que já saíram de sua zona tradicional de atuação e hoje operam no Irã, na Rússia e até nos Estados Unidos. Com impactos militares quase imediatos, como diagnostica o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, de Londres, que atribui a essa disputa energética a recente reestruturação da marinha militar da China e da Índia, e sua presença cada vez maior no Mar da Índia, e no Oriente Médio.

Na outra ponta deste novo eixo dinâmico da economia mundial estão os Estados Unidos. Continuam sendo os maiores consumidores de energia do mundo e, além disto, estão empenhados em diversificar suas fontes de fornecimento, para diminuir sua dependência em relação aos países do Oriente Médio. Hoje, a Arábia Saudita só atende a 16% da demanda interna dos Estados Unidos, que já conseguiram deslocar a maior parte do seu fornecimento de energia para dentro de sua zona imediata de segurança estratégica, situada no México e no Canadá, seguidos pela Venezuela que é seu quarto principal fornecedor de petróleo. Além disto, os Estados Unidos vêm trabalhando ativamente para obter um acordo estratégico de longo prazo com a Rússia e têm avançado de forma agressiva e competitiva sobre os novos territórios petrolíferos situados na África Sub-Sahariana, na Ásia Central, na região do Mar Cáspio. Portanto, os Estados Unidos estão disputando com a China e com a Índia todos os territórios com excedentes energéticos atuais ou potenciais. E esta competição está se transformando num novo triângulo econômico, complementar e competitivo a um só tempo, que está cumprindo uma função organizadora e dinamizadora de várias regiões e economias nacionais, através de todo o mundo, incluindo a América do Sul e a África.

América Latina: novas relações
com os EUA e consigo mesma

O lugar da América Latina na nova geopolítica das nações é muito particular e tem muito a ver com a história da inserção mundial do continente, desde o século 19. A América foi o único continente do sistema mundial, onde nunca existiu uma disputa hegemônica entre os seus próprios estados nacionais. Primeiro, ela foi colônia, e em seguida, “fronteira de expansão” ou “periferia” da economia européia. Mas depois da sua independência, esteve sempre sob a égide anglo-saxônica: da Grã Bretanha, até o fim do século 19, e dos Estados Unidos, até o início do século 21. Por outro lado, nestes quase dois séculos de vida independente, as lutas políticas e territoriais abaixo do Rio Grande nunca atingiram a intensidade, nem tiveram os mesmos efeitos que na Europa. E tampouco se formou na América Latina um sistema integrado e competitivo, de estados e economias nacionais, como viria a ocorrer na Ásia, depois da sua descolonização.

Como conseqüência, os estados latino-americanos nunca ocuparam posição importante nas grandes disputas geopolíticas do sistema mundial, e funcionoram durante todo o século 19, como uma espécie de laboratório de experimentação do “imperialismo de livre comércio”. Depois da II Guerra Mundial, e durante a Guerra Fria, os governos sul-americanos alinharam-se ao lado dos Estados Unidos, com exceção de Cuba. Depois da Guerra Fria, durante a década de 1990, a maioria dos governos da região aderiu às políticas e reformas neoliberais, preconizadas pelos Estados Unidos.

Mas agora, no início do século 21, é inegável que está em curso uma mudança na América Latina, e em particular, uma mudança no relacionamento da América do Sul com os Estados Unidos. Sobretudo depois da moratória da Argentina, em 2001, do fracasso do golpe de estado na Venezuela, que contou com a simpatia norte-americana, em 2002, e da rejeição do projeto norte-americano da ALCA, na reunião de Punta del Este, em 2005. Mas há também sinais do aparecimento de uma incipiente disputa dentro da própria América Latina, entre estados e economias nacionais complementares, em alguma medida, mas que são ao mesmo tempo, cada vez mais competitivas. Uma novidade absoluta no nosso continente.

BRICS: um grupo heterogêneo de países,
com agendas dificilmente conciliáveis

Na geopolítica das nações, não há lugar para alianças baseadas apenas em médias estatísticas, semelhanças sociológicas ou analogias históricas. E as coincidências ideológicas só operam com eficácia quando coincidem com as necessidades dos países, do ponto de vista do seu desenvolvimento e segurança. Por isto, a construção de uma agenda comum, entre Rússia, China, Índia, Brasil e África do Sul, deve partir do reconhecimento das diferenças existentes entre suas distintas inserções e interesses, dentro do sistema mundial. São cinco países que ocupam posição de destaque, nas suas respectivas regiões, devido ao tamanho de seu território, de sua população, e de sua economia. Mas são, ao mesmo tempo, cinco países completamente diferentes, do ponto de vista de sua inserção internacional, dos seus interesses geopolíticos, e de sua capacidade de implementação autônoma de decisões estratégicas.

Depois do fim da União Soviética, a Rússia manteve seu arsenal militar e sua cadeira no Conselho de Segurança das Nações Unidas, e foi rapidamente incorporada ao G 8, apesar de sua crise econômica da década de 90. Depois de 2000, o governo de Vladimir Putin, recentralizou o poder interno, retomou o crescimento econômico acelerado e vem perseguindo com tenacidade e rapidez o restabelecimento da Rússia na condição de grande potencia mundial. Por sua vez, a China e a Índia, depois dos anos 90, projetaram-se dentro do sistema mundial como potências econômicas e militares. Têm claras pretensões hegemônicas nas suas respectivas regiões e ocupam hoje uma posição geopolítica e geo-econômica global absolutamente assimétrica, com relação ao Brasil e à África do Sul.

Apesar disto, o Brasil, a África do Sul e a Índia – e mesmo a China, diferente da Russia – ainda ocupam a posição comum dos “países ascendentes”, que sempre reivindicam mudanças nas regras de “gestão” do sistema mundial, e na sua distribuição hierárquica e desigual do poder e da riqueza. Por isto, neste momento, compartilham alguns pontos em comum de uma agenda reformista com relação ao sistema das Nações Unidas e à formação do seu Conselho de Segurança. Da mesma forma como compartem posições multilaterais e liberalizantes, em matéria de comércio internacional, na Rodada de Doha, formando o G20, dentro da Organização Mundial do Comércio.

Mas a partir de agora, dentro desta “nova geopolítica das nações” que vai se desenhando no início do século 21, pode-se prever um distanciamento progressivo da China com relação a qualquer grupo ou aliança que restrinja seus graus de liberdade, uma vez que já vem atuando, em vários contextos, com a postura de quem comparte, e não de quem questiona a atual “gestão” do poder mundial. Daqui para frente, a China deve seguir os passos de todas as grandes potências que fazem, ou já fizeram, parte do “círculo dirigente” do sistema mundial. E mesmo com relação à Índia, os pontos de convergência serão cada vez mais tópicos, porque o Brasil e a África do Sul devem se manter fiéis ao “idealismo pragmático” de sua atual política externa, sem contar com as ferramentas de poder e com os desafios externos indispensáveis ao exercício da realpolitik, como no caso da Rússia, da China e também da Índia.

Por isto, dentro deste grupo, o mais provável é que nos próximos anos o Brasil – assim como a África do Sul – mantenha-se na condição de um “estado relevante” mas não expansivo, dentro do sistema mundial.

Organizações internacionais esvaziadas
e sem perspectiva de recuperação imediata

Quase todas as atuais organizações internacionais – como a ONU e o FMI – foram criadas logo depois da II Guerra Mundial, e correspondiam ao projeto de “governança mundial” regulada e institucionalizada, concebido pelos Estados Unidos e seus principais aliados. O mundo mudou radicalmente de lá para cá, sobretudo depois do fim da Guerra Fria e da recente volta da “geopolítica das nações”. As antigas instituições do pós-guerra não estão propriamente desacreditadas – estão cada vez mais esvaziadas, e o foram pela vontade das principais potências que contribuíram para sua constituição. A principal dificuldade em reverter este quadro não vem da falta de idéias e propostas, mas do fato de que nenhuma potência que esteja em posição dominante ou vitoriosa costuma abrir mão do status quo lhe é favorável – a menos de alguma ameaça radical ou de uma guerra. E nesse caso o estado atual de esvaziamento dessas instituições foi provocado exatamente por essas potências dominantes ou vitoriosas, e em particular, pelo seu hegemon, os Estados Unidos.



[1] O Poder Global e a nova geopolítica das nações. José Luís Fiori, 2007. Boitempo Editorial. São Paulo

[2] Kissinger, H. (1994), Diplomacy, Simon &Schuster, New York

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