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É exatamente isso que também faz do grande escritor um grande leitor. Acredito ser o espírito da profissão: a busca pelo conhecimento infindável da língua, para que a pessoa possa se expressar de todas as formas possíveis e atingir as improváveis.

Renata Miloni - (27/10/2007)

Todo escritor tem, obviamente, a leitura como origem de seu amor pela literatura. É nela que as descobertas estão guardadas e é escrevendo que um autor tenta explicá-las e entendê-las, fundidas ao pensamento em seu formato mais incipiente. Analisando o início da formação de alguns autores na leitura, entendi que o que lhes foi apresentado quando crianças definiu os escritores-leitores que seriam. Faço a união porque um escritor é leitor principalmente quando escreve.

As amenidades da infância podem facilmente levar alguém a gostar de ler. Com o carioca Marco Lucchesi não foi diferente. Ele começou a se interessar por literatura provavelmente por influência das leituras de sua família. Quando criança, seus parentes recitavam trechos de A Divina Comédia diariamente. A primeira língua com a qual ele teve contato foi o italiano, dentro de casa. Aprendeu o português brincando com as outras crianças, o que é incrível: uma criança já saber que o mundo é bem maior do que a invisível limitação de sua cultura, adquirida tão minimamente com a pouca idade. Essa precoce lucidez sobre o mundo dava indícios das poucas fronteiras que Lucchesi aceitaria: alguém capaz de traduzir livros em italiano, alemão, russo, francês, espanhol, inglês, grego e latim desconhece tais limites desde muito jovem. E esse domínio que ele possui me remete a uma necessidade quase desesperadora de ler tudo, da qual só posso concluir que o leitor maior é aquele que estuda uma nova língua para ler livros estrangeiros em seus textos originais. Aquele que nunca está satisfeito com traduções e vê que a literatura é maior do que isso. E é em alguém assim que está também, acima de tudo, o escritor honesto.

A máquina de escrever

Adriana Lunardi não é uma leitora distante das outras escritoras, mas certamente é uma escritora bastante íntima da preocupação em escrever apenas, sem considerar o fato de ser mulher e, por isso, agir de certas maneiras impostas até pela sociedade literária — se assim posso dizer —, não se limitando ao feminino na literatura (se é que realmente existe). Os livros decisivos para ela em sua inicial carreira de leitora, aos 15 anos, foram: A espiã, de Louise Fitzhugh; Robinson Crusoé, de Daniel Defoe; e O alienista, de Machado de Assis. Mas, se tivesse de definir hoje o que de melhor há para ela na literatura, escolheria a obra completa de Virginia Woolf — o que pode reforçar a idéia da “literatura feminina”. Ao contar uma história que define a imagem que tinha de escritor quando pequena, Lunardi conclui, com humor, que seu amor pela literatura talvez seja um amor equivocado. Quando criança, via seu pai sentado numa poltrona em frente à sua estante de livros de, segundo a autora, “literatura adulta”. Ele colocava uma tábua nas pernas e sobre ela uma máquina de escrever. Assim, enquanto ele escrevia, a pequena menina construiu a imagem do escritor, pois tinha certeza de que seu pai fosse um. O equívoco se resume ao fato de ela não saber, durante anos, que ele era contador.

Qual é a imagem que as pessoas têm do escritor? A de Lunardi era a de que um escritor inevitavelmente escreve à máquina e muitas crianças ainda acham que todos os escritores estão mortos. Mas toda idéia tem uma origem. Assim como me interesso em saber o que levou certos escritores à leitura, também me agrada muito pensar nos motivos de considerarem uma pessoa que anda sem destino pelas ruas um escritor. Ou então alguém que fica em casa durante dias, atravessando madrugadas inteiras em função do pensamento, do cigarro e do café.

Literatura e destino

E o que se pode dizer dos cineastas que têm o cinema movido pela literatura? A escrita é fundamental para que o cinema aconteça, mas falo daqueles que se inspiram em livros, que adaptam romances ou contos e fazem deles obras completamente diferentes, nos mostrando suas visões de mundo. Dois excelentes exemplos brasileiros são Beto Brant e Fernando Meirelles. A literatura, especialmente para Brant, é o ponto de partida. Como diz Marçal Aquino sobre o amigo: “ele é um cineasta literário por excelência”. Há também os escritores cinematográficos. E não me refiro àqueles que escrevem imaginando que seus livros serão adaptados ao cinema. Falo dos escritores que conseguem alcançar num livro a mesma magia da sétima arte. Não que a da literatura seja menor ou igual, é a diferença entre ambas que engrandece. E tal união me fascina.

Marco Lucchesi disse o seguinte sobre certa tortura que tinha ao ler quando pequeno: “cada palavra que eu não soubesse, que não entendesse, era um projeto de sufocação”. O cinema, para os diretores mencionados, é uma outra forma de ler. A literatura, para eles, não deixa de ser um incrível projeto de sufocação para que seus filmes sejam realizados.

É exatamente isso que também faz do grande escritor um grande leitor. Acredito ser o espírito da profissão: a busca pelo conhecimento infindável da língua, para que a pessoa possa se expressar de todas as formas possíveis e atingir as improváveis. E o que pode ter “feito a diferença” no caso dos dois escritores citados é o fato de nenhum deles ter sido forçado por algo ou alguém a começar uma vida na leitura — aconteceu naturalmente. Como diz Lucchesi: “literatura é realmente um destino”. Com tudo isso, quem sabe eu consiga reforçar minha singela teoria de que ler, para qualquer um que realmente ame a literatura, também pode ser um inevitável projeto de sufocação.



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