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A paz invade o coração da Colômbia

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Num país golpeado pela violência política, a sociedade civil reage humilhando, em eleições regionais, os grupos pára-militares e o presidente associado a eles. Apoio a Uribe é cada vez mais precário, e sistema partidário tradicional está em frangalhos

Simone Bruno - (31/10/2007)

A eleição de Samuel Moreno para a prefeitura de Bogotá, segundo posto eletivo em importância na Colômbia, demonstra que o Pólo Democrático fez um bom trabalho como partido. Pela segunda vez consecutiva, seu candidato triunfou numa capital que havia varrido do mapa as agremiações tradicionais, elegendo prefeitos independentes.

Junto com o Causa Radical, o Pólo é hoje a única força com forte base eleitoral na cidade, o que amplia suas chances para a disputa presidencial de 2010. Uma boa gestão de Samuel poderia abrir caminho para que se consolide também fora da capital. Os outros partidos, incluindo os históricos, Liberal e Conservador, estão dispersos, perderam força nas grandes cidades e parece difícil que tenham condições para lançar candidatos próprios daqui a três anos. O Partido Conservador, em especial, parece reduzido a um tentáculo a mais do uribismo.

A vitória amplia também a força do atual prefeito da capital, Lucho Garzón, cujo bom trabalho no campo social permitiu-lhe acumular experiência e projetar-se no cenário nacional. Em contrapartida, quase todos os analistas destacam a derrota do presidente Alvaro Uribe. Sua derrota foi agravada por ter mantido, ao longo da campanha, postura abertamente contrária a Samuel, a quem acusou de “comprar votos” e receber respaldo das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).

Muitos concordam que a derrota esmagadora sofrida por Enrique Peñalosa (candidato independente apoiado pelos partidos governistas) deveu-se, em parte, a uma reação contra esta tomada de posição do presidente. Além de inconstitucional, sua intervenção explícita na campanha é muito perigosa, num país como a Colômbia. Nos anos 80, mais de 2 mil militantes da organização de esquerda União Patriótica foram assassinadas, precisamente a partir de insinuações de que seriam o “braço desarmado das FARC”

Na lista de perdedores, a mídia de mercado e seus comentaristas

Também os meios de comunicação tentaram atingir Samuel Moreno, servindo-se de expedientes rasteiros. Para tentar vincular o então candidato com apoio à atividade subversiva, o canal RCN, por exemplo, levou ao ar, de forma descontextualizada, trecho de uma entrevista concedida por ele há quase 14 anos. A reação da sociedade foi cristalina: Samuel obteve mais de 900 mil votos, um recorde absoluto. Por isso, jornalistas como, María Isabel Rueda, da revista Semana, incluem na lista perdedores os meios de comunicação de massa e os comentaristas políticos que, em sua maioria, apoiavam o candidato Peñalosa.

Mas o sinal mais alarmante lançado pelas eleições para Uribe é que a corrente política criada por ele parece incapaz de se reproduzir. O polvo inteiro do uribismo e seus tentáculos pode estar fadado a morrer, com o fim do mandato do presidente. Nos planos regional e local, os partidos que compõem esta corrente tendem a se dispersar, em uma constelação de alianças variáveis. Alguns, apoiando candidatos liberais e outros grupos. Outros, enfrentando-se em batalhas eleitorais ferozes entre si mesmos. Um exemplo deu-se agora no município de Ciénaga de Oro, onde houve confrontos violentos até mesmo no interior de um dos partidos uribistas. Os desordeiros atacaram prédios públicos e atearam fogo na prefeitura. Nos distúrbios, morreu uma pessoa.

Pela primeira vez, grupos da sociedade civil e meios de comunicação somaram forças para lutar contra a infiltração dos grupos pára-militares e mafiosos nas eleições locais, onde tais bandos encontram o combustível que lhes permite existir. Um sistema de alarmes precoces e de listas manteve os leitores constantemente informados sobre os candidatos que representam um risco.

“Vote bem”, chamava-se, por exemplo, uma lista que, com apoio da comentarista política Claudia López, classificava os candidatos com base em seu grau de risco: extremo, alto, médio e baixo. Os critérios incluíam o partido de filiação, as relações políticas, financiadores, inquéritos em curso e outros fatores. Foi uma resposta relevante dos colombianos ao “escândalo da pára-política”, que já implica 50 parlamentares, quase todos ligados ao uribismo.

Sociedade e justiça impõem série de derrotas aos “páras”

O escândalo é um processo que tem marcado profundamente a sociedade colombiana. Alguns dos partidos uribistas foram cassados pelas investigações, e parte de sua alta dirigência está na cadeia. Isso ocorreu com agremiações como Alas, Equipo Colombia, Colombia Democratica (de Mário Uribe, primo do presidente), Convergencia Ciudadana, Abertura Liberal e Colombia Viva. Parlamentares eleitos pelas quatro primeiras foram condenados e encarcerados.

O despertar dos colombianos e a atuação de organizações como Vote Bem permitiram cortar estas ramificações apodrecidas do uribismo, conhecidas como “aliança de La Picota” (o presídio em que estão detidos os políticos condenados), cujos candidatos foram todos considerados de risco extremo. Também os organismos institucionais de fiscalização impugnaram cerca de 300 postulantes.

A “aliança de La Picota” disputou 16 governos departamentais e 24 prefeituras de capitais. Contava com poderosas redes clientelistas e coronéis locais, mas fracassou. Perdeu quase todos os governos (exceto os de Sucre — onde um estranho apagão permitiu a vitória de Jorge Carlos Barraza, candidato de risco extremo, de amizades notórias com pára-militares —, Amazonia e no complicado Magdalena). Também representam risco os eleitos en Vale del Cauca e Antioquia.

Mas é importantíssima a recuperação da legalidade nos departamentos Atlantico, Santander, Cartagena, Barranquilla e Cesar – onde ganhou Cristian Moreno, que nas eleições passadas teve de deixar o departamento sob ameaça, ficando o governo em mãos de Hernando Araujo Molina, hoje hóspede de La Picota.

As urnas desmoralisam as “pesquisas” do Instituto Gallup

Isso evidentemente não significa que já esteja eliminada a infiltração pára-militar na política. Mas não há dúvidas de que o processo sofreu uma importante redução – mais nítida nos governos e capitais que nas pequenas prefeituras.

Uma das formas de repúdio à classe política corrupta foi a abstenção. Nos departamentos onde o fenômeno é mais sentido, o percentual de votos em branco chegou a 18%, atingindo 50% em alguns municípios. Em Cartagena, Judith Pinedo, primeira prefeita da história, ganhou contra três candidatos de alto risco – entre eles, Carlos Gossain Rognini (do partido Colombia Democratica, apoiado por Mario Uribe, o primo do presidente). Nas eleições anteriores, Judith liderava o movimento Cartagena 1815, em favor do voto em branco.

No rol dos perdedores, não se deve esquecer a “prestigiosa” empresa internacional de pesquisas Gallup. Até seu último boletim, ela enxergava, em Bogotá, um empate técnico entre Samuel Moreno e Peñalosa. O presidente da empresa na Colômbia, Jorge Londoño, já esteve no centro de uma polêmica há meses, quando eclodiu o escândalo da pára-política. Foi acusado de alterar os parâmetros de uma pesquisa que afere, entre outros dados, a popularidade do presidente Uribe – nunca, segundo o Gallup, abaixo de 70%. O instituto elevou o peso dos mais ricos e dos habitantes das grandes cidades, na metodologia que apura o apoio do chefe de governo. Diante do fracasso de suas sondagens sobre as eleições de Bogotá, o jornalista Julio Sánchez Cristo disparou, na Rádio W, uma pergunta muito interessante ao presidente do Gallup: “Vocês usam a mesma metodologia em todas as pesquisas”? “Sim”, respondeu Londoño...

Tradução: Antonio Martins
antonio@diplo.org.br



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