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Enfim, a voz de Ted Hughes

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Após anos de silêncio, as cartas do poeta Ted Hughes são uma rara chance de conhecer seu lado da história que terminou com o suicídio de Sylvia Plath.

Marina Della Valle - (03/11/2007)

Poucos autores foram tão insistentes no silêncio sobre sua vida pessoal quanto o poeta inglês Ted Hughes. Não sem motivos: poucos autores tiveram seu comportamento amoroso e seu caráter investigados, analisados e condenados ainda em vida como Hughes. Quando jovem, acabou engolido pelo culto em torno de sua primeira mulher, Sylvia Plath, que cometeu suicídio depois da separação do casal – e de ter escrito o que viriam a ser alguns dos poemas mais conhecidos dos últimos 40 anos. A publicação das cartas de Hughes [1], no último dia 1º de outubro, nove anos após sua morte, é uma rara chance de conhecer seu lado da história e um pouco mais sobre a personalidade do autor em primeira mão, sem intermediários, relatos de terceiros ou teorias.

Elevada a um status quase alegórico pelo movimento feminista, especialmente o braço norte-americano, a morte de Plath, combinada com a agressividade e genialidade de seus últimos poemas, colocou Hughes em um papel abjeto: o de algoz. O fato de Assia Wevill, a mulher por quem ele deixou Plath, ter cometido suicídio da mesma maneira que a rival (gás de cozinha), levando consigo a filha de quatro anos do casal, adicionou tragédia – e pimenta – à história. Hughes reagiu com o silêncio, quebrado poucas vezes, em nome do direito à privacidade dos filhos. Já no fim da vida, a resposta veio em forma de poemas: Birthday letters, um fenômeno de vendas na Inglaterra. No Brasil, o livro foi publicado com o título de Cartas de aniversário, pela Record, em uma edição bilíngüe com inspirada tradução de Paulo Henriques Britto.

Culpa e desabafos

Ao ler a correspondência de Hughes, o leitor não tem como escapar da sensação de voyeurismo; afinal, lá estão suas cartas de amor para Plath, dolorosamente íntimas e felizes sob o espectro do que viria depois, relatos da vida íntima do casal, dos progressos da primeira filha, Frieda. A morte de Plath é marcada, primeiro, por recados lacônicos, chocados, e depois, pelo peso da dor e da culpa. E da culpa ele não se exime, ao contrário das acusações que recebeu ao longo da vida. “I don’t want ever to be forgiven. I don’t mean that I shall become a public shrine of mourning and remorse, I would sooner become the opposite. But if there is an eternity, I am damned in it” (Não quero ser perdoado jamais. Não quero dizer que devo me transformar num santuário público de luto e remorso, eu iria logo me transformar no oposto. Mas se há uma eternidade, estou amaldiçoado nela), escreve a Aurélia, mãe de Plath. Anos depois, o tom de sua correspondência para Celia Chaim, irmã de Assia, é semelhante: “If I had only given her hope in slightly more emphatic words in that last phone conversation, she would have been O.K.” (Se eu apenas tivesse dado esperança a ela em palavras um pouco mais enfáticas naquela última conversa por telefone, ela estaria O.K.).

Os desabafos aparecem apenas aos mais próximos, na maioria das vezes em um tom resignado. Em uma carta ao amigo de longa data, Lucas Myers, Hughes se permite comentar com franqueza sua situação após a morte de Plath, falando sobre a mãe da poeta, Aurelia. “Maybe I did help her to keep up her self-delusion, and her sustained effort to delude the public too, about Sylvia’s diabolical side. […] I’d like to see the whole truth told, down to the last word. The lie has poisoned everything to do with Sylvia, & everywhere I turn I have to drink it.” (Talvez eu tenha ajudado a manter sua auto-ilusão e seu esforço prolongado em iludir o público, também, sobre o lado diabólico de Sylvia. Eu gostaria de ver toda a verdade dita, até a última palavra. A mentira envenenou tudo relacionado a Sylvia, e, para onde eu me viro, tenho de beber isso).

Processo criativo

Escândalos à parte, a melhor contribuição que a seleção de cartas traz é revelar detalhes do processo criativo de Hughes e do desenvolvimento de sua obra. Fora dos versos, o poeta também cultivava em torno de si um ambiente cheio de mitos e de misticismo, de extrema ligação com a natureza e intimidade com as grandes obras da literatura, em especial Shakespeare, Blake e Yeats. Suas cartas são generosas: vivas na originalidade da linguagem, na descrição e reinvenção de temas que o acompanharam durante sua longa vida produtiva, ricas de uma interpretação pessoal de seus próprios poemas. Os trechos em que Hughes se refere ao trabalho de produção e explica os papéis dos personagens em Crow, tido por muitos como seu melhor livro, são especialmente saborosos. Ao amigo Leonard Baskin, artista norte-americano com quem colaborou diversas vezes, ele afirma: “Whether people like them or not, they are my masterpiece” (As pessoas gostando ou não, eles são minha obra-prima). Linha a linha, a correspondência do poeta laureado revela uma dedicação radical à sua arte, com quem convivia como se fosse uma condição física, moldando os outros aspectos de sua vida ao redor desse epicentro exigente.

Após anos de silêncio, as cartas mostram a sensação de libertação do autor com a publicação de Birthday letters, poemas escritos para Sylvia Plath, que ele guardou ao longo dos anos. Escrevendo a Keith Sagar, ele diz: “It will bring the sky down on my head, if I publish it – about 90–100 pieces. But so what. The sky’s fallen anyway” (Isso fará o céu cair sobre minha cabeça, se eu publicá-los – cerca de 90-100 poemas [relacionados a Plath]. Mas e daí? O céu já caiu, de qualquer maneira). Em uma carta ao filho, Nicholas, o assunto é tratado de maneira mais emocional: “I thought, let the feminists do what they like, let people think what they like about me, [...] let the heavens fall, let your mother’s Academic armies of support demolish me, let Carol go bananas, let Frieda and Nick bolt for their bomb-shelters – I can’t care any more, I can’t lock myself in behind this glass door one more week” (Eu pensei, deixe as feministas fazerem o que quiserem, deixe as pessoas pensarem o que quiserem sobre mim, deixe os céus caírem, deixe os exércitos de apoio acadêmico de sua mãe me demolirem, deixe Carol [segunda mulher de Ted Hughes, com quem ele ficou até morrer] ficar louca, deixe Frieda e Nick correrem para seus abrigos anti-bomba, não posso mais me trancar atrás desta porta de vidro mais uma semana). A reação do público, diz ele ao filho, “foi a surpresa de minha vida” – ao finalmente revelar seus segredos, sempre tão públicos e condenados, sentiu que eles haviam sido aceitos. Hughes morreu meses após a publicação de Birthday letters, aos 68 anos.



[1] Letters of Ted Hughes, editadas por Christopher Reid (Faber & Faber, 780 págs.)

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