Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» E se as startups pertencessem a seus funcionários?

» Boaventura vê Lula Livre

» América Latina: a ultradireita contra-ataca

» O Mercado, os economistas e outros seres transcendentais

» Nem todo Uber é capitalista

» Comuns, alternativa à razão neoliberal

» “Nova” ultradireita, filha dos neoliberais

» Como os PMs são formados para a incivilidade

» Cinema: três filmes para olhar além da fronteira

» Pacote Guedes (1): Uma distopia cujo tempo passou

Rede Social


Edição francesa


» A Berlin, le face-à-face des intellectuels de l'Est et de l'Ouest

» Réveil politique à l'Est

» Les Allemands de l'Est, sinistrés de l'unification

» Le difficile chemin de la démocratie espagnole

» Il y a cent cinquante ans, la révolte des cipayes

» Hôpital entreprise contre hôpital public

» Dernières nouvelles de l'Utopie

» Très loin des 35 heures

» Qui a profité de l'unification allemande ?

» Chantages ordinaires chez General Motors


Edição em inglês


» November: the longer view

» Ibrahim Warde on the rise and fall of Abraaj

» Fighting ISIS: why soft power still matters

» Life as a company troll

» The imperial magazine

» Setting Socrates against Confucius

» Price of freedom on the road

» Global business of bytes

» A firm too good to be true

» In the GDR, old debts and big profits


Edição portuguesa


» No Brasil, os segredos de um golpe de Estado judiciário

» Edição de Novembro de 2019

» Sempre uma coisa defronte da outra

» OTAN: até quando?

» Alojamento local-global: especulação imobiliária e desalojamento

» Rumo a uma governança participativa da vida nocturna de Lisboa

» A Expo'98 e o Parque das Nações: Estado, gentrificação e memória urbana

» Uma história do Habita

» «Ficar sem Tecto»: as demolições no Bairro 6 de Maio

» Gentrificação e turistificação: o caso do Bairro Alto em Lisboa


Como saber-se adaptado

Imprimir
enviar por email
Compartilhe

Ainda temos pela frente o Natal, o Ano-bom, o Carnaval; mas meu sonho é com o mês de abril, das cerejeiras em flor, das tulipas maiores do que meu punho, da reabertura dos jardins, que acolherão os piqueniques e os violões.

Diego Viana - (03/11/2007)

É chegado o período das perturbações de saúde. Sim, esse momento existe, bem delimitado, e é agora. Da mesma maneira como chega a hora de renovar o passaporte, em determinada época do ano deve-se, invariavelmente, contrair uma gripe. Final de outubro, começo de novembro, um pouco mais, um pouco menos. Toda uma cidade pigarreando, tossindo, tremendo. Dois parisienses se esbarram na calçada, o assunto é sempre o mesmo: "Veio cedo, o inverno... como somos infelizes!".

No primeiro ano, admito, ousei rir da enfermidade coletiva que acomete e melindra meus vizinhos nas últimas semanas do outono. Eles murcham como as árvores dos bulevares, e parecem gostar. Debaixo de meus cachecóis e luvas, escondido como uma toupeira tropical, eu escarnecia: "Não é à toa. Por que não se cobrem? Pensam que estão acostumados com o frio! Acham que são imunes!". Dito isso, eu fechava o último botão do sobretudo, minha estufa pessoal.

Bastou um ano para sublinhar a tolice do meu sarcasmo de neófito. Hoje, a garganta que arranha é a minha. Um incômodo, claro, mas, onde eu deveria me irritar, sinto até um certo orgulho. Encaro a ponta de febre como uma espécie de atestado de adaptação. Qual os autóctones, os nativos, os locais, aprendi a adoecer no momento certo. Posso, agora, agir como eles. Abrir os braços, fazer cara feia, bufar, erguer as sobrancelhas e balbuciar: C’est comme ça, c’est comme ça. E é assim. Conhecendo os gestos e repetindo a fórmula, a comunicação é infalível.

Não tive como resistir ao ataque dos micróbios. É tão repentina a queda na temperatura, que o instinto é de continuar trajando o mesmo paletó leve, a mesma camisa fina de setembro, quando ainda alguns rostos estão bronzeados em memória das férias. Grande erro, e vem a febre para prová-lo. De hoje em diante, a calefação estará sempre em marcha, as mãos terão lugar cativo nos bolsos. Os dias serão curtos, o sol mal passará do horizonte, a grama dos parques estará proibida. Até abril.

Céus! Já vou cair na mesma armadilha de que não consigo escapar nas postagens do blog. Chego a temer que minha imaginação ameace me escapar. A cada poucos meses, acabo escrevendo sobre esse mesmo assunto. O clima, o tempo, as estações. Mas não reconheço a culpa: prefiro acusar o mundo que me cerca. Até hoje, o inverno e seus irmãos nada mais eram, para mim, do que conceitos, bem abstratos, largamente associados à obrigação de atrasar ou adiantar o relógio em uma hora.

Hoje, não pode haver coisa mais real. Estranhamente, tenho a impressão de que os povos das zonas temperadas vivem em contato mais estreito com a natureza do que nós, selvagens tropicais que andamos de tanga o ano inteiro. Os rituais comandados pelo calendário, nesta Europa glacial, são seguidos à risca. Há o momento de sentar-se à varanda; o período em que se viaja; a época de comer cerejas; de tomar vinho rosé; de praticar tal ou tal esporte. Eu poderia muito bem reescrever as très riches heures du Duc de Berry.

Ai dele, o tolo audacioso que tentar subverter as leis remotas dos elementos! Há de cair doente, o insensato. Pois esse sou eu, que tentei aproveitar a claridade agradável de uma tarde de sábado para comer um qualquer-coisa ao pé de uma amendoeira, supremo absurdo, em pleno outono. Não tive a sagacidade de perceber que era o único, naquele instante, a buscar o contato com a natureza. O prazer de contemplar, por breves instantes, as folhas coloridas espalhadas pela relva quase me custou uma pneumonia.

Vou acompanhando o breu que desce sobre os dias, como uma mão silenciosa a estrangular a Terra. Ainda temos pela frente o Natal, o Ano-bom, o Carnaval; mas meu sonho é com o mês de abril, das cerejeiras em flor, das tulipas maiores do que meu punho, da reabertura dos jardins, que acolherão os piqueniques e os violões. Quando os colos e pernas estarão novamente à mostra, lisos e reluzentes, os cafés reabrirão seus terraços, e Ella Fitzgerald voltará a soar em meus ouvidos, cantando April in Paris como se falasse de mim. Basta esperar seis meses.



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Seção {Palavra}


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos