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Dos livros para o cinema

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A ficção literária ainda coloca grandes desafios para os cineastas e, assim, guarda potencial para inspirar boas surpresas, direta ou indiretamente.

Marco Polli - (03/11/2007)

No começo do século 20, a literatura e o cinema estavam em patamares de desenvolvimento absolutamente distintos. Se escritores como Proust, Kafka e Joyce desafiavam as estruturas narrativas com obras que seriam impensáveis no séc. 19, o cinema ainda precisava explorar suas técnicas básicas e encontrar uma gramática própria. Tal maturidade da literatura pode ser verificada ao se comparar livros dos autores acima – Um amor de Swann (o primeiro volume de Em busca do tempo perdido, 1913), A metamorfose, (1915) e Ulisses (1922) – com os filmes tidos como avançados nessa época: Intolerância (1916), O encouraçado Potemkin (1926), Metrópolis (1927), Um cão-andaluz (1927) e O homem com a câmera (1929). Essas produções mostram um cinema reconhecendo e testando suas potencialidades – recursos como cortes de cena, edição paralela, flashbacks, closes, câmera lenta e dupla exposição ainda estavam sendo consolidados – enquanto que os escritores modernos já estavam bem conscientes de seus recursos fundamentais e eram capazes de levá-los a um outro nível.

Esse desnível entre as duas artes não implica falta de comunicação. O entusiasmo de muitos autores com o cinema é bem exemplificado pelos modernistas brasileiros: Mário de Andrade chegou a descrever o seu Amar, verbo intransitivo como um “romance cinematográfico” [1]. Já a emergente indústria do cinema mostrava-se ávida por romances e contos que pudessem dar base às suas produções. Segundo o retrato da era do studio system, feito por Thomas Schatz em O gênio do sistema (Editora Cia. das Letras), a líder MGM possuía, no começo da década de 1930, um departamento específico para avaliar centenas de romances, contos e peças a cada ano, fossem textos em inglês ou em línguas estrangeiras. Gêneros como faroeste, ficção científica, terror e policial já existiam no mercado editorial e geraram resultados importantes para Hollywood. Um caso exemplar refere-se a Dashiell Hammett: dele, O falcão maltês, publicado em 1930, com versões para o cinema em 1931 e 1941, e A ceia dos acusados (The thin man), publicado em 1934 e adaptado curiosamente no mesmo ano, foram um ponto de partida fundamental para todo o gênero noir.

O que dizem os rankings

As adaptações para a tela não são o único ponto de influência da literatura sobre o cinema, pois mesmo quando estão trabalhando em uma história original, roteiristas acabam sendo influenciados por tudo que já leram. Porém, as adaptações cinematográficas são ligações não só explícitas, mas bastante freqüentes. Uma demonstração disso pode ser encontrada nas listas de filmes mais importantes da história. Tomando-se inicialmente o ranking do American Film Institute (AFI), versão 2007,verifica-se que dos 100 filmes da lista, 42 foram adaptados/inspirados em romances ou contos, 7 foram baseados em livros de não-ficção, 5 em peças ou musicais de teatro, restando 46 roteiros originais. As adaptações de romances incluem Rastros de ódio, O tesouro de Sierra Madre, Psicose, A primeira noite de um homem, Tubarão e O silêncio dos inocentes.

A lista do AFI, contudo, é fechada e inclui obrigatoriamente apenas filmes americanos. Como contraponto, pode-se olhar o ranking do The Internet Movie Database (IMDB) (consultado em junho de 2007), o qual é aberto à votação dos usuários cadastrados e, mesmo com um natural viés americano, engloba filmes de todas as nacionalidades. A parcela das adaptações literárias é da mesma ordem: 42 dos 100 filmes mais bem cotados são versões de romances ou contos. Entre as adaptações estão Janela indiscreta, Rashomon, Forrest Gump, Cidade de Deus, Clube da luta, e Réquiem para um sonho.

Segundo os dois rankings, o cinema apóia-se de maneira intensa na literatura, porém deve-se ressaltar que praticamente não são listados neles grandes clássicos, mas sim obras contemporâneas aos filmes e sobre as quais pouco se vê discussão em revistas literárias. Quem conhece hoje o romance francês em que se baseia Um corpo que cai? As exceções incluem Apocalypse now, que apesar de não ser uma adaptação direta e oficial é inspirado no romance O coração das trevas, de Joseph Conrad, e Laranja mecânica, adaptado do romance homônimo de Anthony Burgess. No Brasil, Cidade de Deus, de Paulo Lins, foi lançado pela Editora Cia. das Letras em 1997 e despertou debates já antes de o filme ser lançado. Entretanto, nas duas listas não se encontram as adaptações de livros de Flaubert, Proust, Kafka ou Joyce, nem mesmo de autores americanos como Melville, Hawthorne, F. S. Fitzgerald ou Hemingway. Há filmes baseados nas obras de todos esses escritores, mas tais esforços não parecem ocupar um espaço de grande destaque na massa de produção cinematográfica.

Desafios para os cineastas

Em busca de referências à “alta literatura” deve-se examinar uma lista maior, como “Os 1.000 melhores filmes já produzidos”, do New York Times . Nessa lista, podemos encontrar 15 adaptações de clássicos literários anteriores ao século 20, incluindo títulos de Chordelos de Laclos (Ligações perigosas, em duas adaptações), Dickens (David Copperfield, Grandes esperanças, Oliver Twist) e Stevenson (O médico e o monstro). Em relação a obras do século 20, embora seja mais difícil determinar o que é um clássico, pode-se reconhecer 17 produções; entre os autores estão Thomas Mann (A morte em Veneza), Lampeduza (O leopardo), Nabokov (Lolita) e Kundera (A insustentável leveza do ser). Chega-se assim a um total de 32 filmes, ou seja, apenas 3,2% da lista do NYT. Esse número reduzido não é de fato uma surpresa, se pensarmos que a consagração crítica de muitos livros deve-se à exploração que fazem das especificidades da linguagem literária, quando alcançam extremos aparentemente instransponíveis para qualquer outro meio.

No caso de Lolita, dirigido por Kubrick, o trabalho do próprio Nabokov no roteiro não garantiu que qualidades essenciais do texto pudessem achar qualquer equivalência na película. Para alguns, esse tipo de dificuldade significa um impedimento estético absoluto – e que a literatura que importa de verdade é inadaptável para o cinema. Já outros podem entender que a ficção literária ainda coloca grandes desafios para os cineastas e, assim, guarda potencial para inspirar boas surpresas, direta ou indiretamente. Uma idéia aparentemente otimista demais, mas que soa bem, já que nesta primeira década do século, os filmes – e os livros, diga-se de passagem – estão carentes de vitalidade artística.



[1] Ver, sobre o assunto, O chão da palavra, de José Carlos Avellar, Editora Rocco, cap. 4.

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