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DOSSIÊ ORIENTE MÉDIO

Palestina: catorze anos de trágica divisão

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Desde os Acordos do Oslo, Fatah e Hamas, as duas grandes facções da luta contra a dominação israelense, têm aprofundado sua disputa fratricida. A crise pode se agravar, caso Washington obtenha, este mês, a assinatura de mais um compromisso-fantasia

Marwan Bishara - (12/11/2007)

Os palestinos nunca estiveram tão divididos e fracos como após os combates fratricidas do último verão em Gaza. Os conflitos internos minam a solidariedade internacional, reduzem a pressão sobre os ocupantes israelenses e transformam os territórios palestinos em um barril de pólvora capaz de explodir a qualquer momento.

O Hamas acusa o Fatah de ter conspirado contra seu governo, às vezes com a cumplicidade de Israel. O Fatah denuncia a incapacidade do partido islâmico de governar eficazmente e seu “golpe violento”, de junho de 2007, contra a presidência e a Constituição. Os independentes criticam os dois movimentos por colocarem seus interesses de facção acima do interesse nacional.

Pouco depois da assinatura dos acordos de Oslo, em 1993, fui testemunha de acusações recíprocas durante uma mesa-redonda sobre o futuro da Palestina, da qual tomava parte um número significativo de dirigentes e militantes da Intifada. Para minha surpresa, o espírito de camaradagem e união que reinou ao longo das primeiras horas deu lugar a uma confrontação verbal a partir do momento em que os anfitriões anunciaram que os soldados israelenses havia evacuado a base e que o toque de recolher seria suspenso naquela mesma noite.

Os líderes do Fatah ameaçaram quem quer que criasse obstáculos para sua tentativa de transformar um processo de paz, cujas imperfeições reconheciam, no processo de construção de um Estado. Os representantes do Hamas, por sua vez, exprimiam suas dúvidas e desconfianças em relação a uma via diplomática injusta cujo futuro era, de saída, pouco promissor.

Ainda que todos esses argumentos tivessem sua parcela de verdade, o Fatah e o Hamas, como o restante do povo palestino, foram desde o início, mais do que ninguém, as vítimas de um acordo que prometia liberdade e união, mas que gerou desesperança e divisão, ao encerrá-los em uma política de soma zero, na qual o sucesso de uma facção depende do fracasso da outra.

Ao impor paz desigual, e conceder poderes especiais a Israel, acordos de Oslo alimentam confronto

Os acordos de Oslo criaram uma “paz hegemônica” [1], que privilegia os israelenses, discrimina os palestinos e alimenta a instabilidade. Essa situação resulta de dois acontecimentos contraditórios: a Intifada, nascida em 1987, convenceu a maior parte dos israelenses da inutilidade de absorver ou anexar os territórios ocupados; o triunfalismo israelo-americano, ao fim da guerra fria e da Guerra do Golfo de 1991, demonstrou a incapacidade da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em atingir seus objetivos por meio do confronto.

Contrariamente a uma paz alicerçada na correlação de forças (como a que se dá entre Israel e Egito, por exemplo), ou à que resulta da total capitulação (do Japão em relação aos Estados Unidos, ao fim da II Guerra Mundial, por exemplo), a paz israelo-palestina reflete a superioridade estratégica de Israel, mas também seus limites — dada a incapacidade de impor sua vontade aos palestinos.

Ao invés de um ajuste global, Israel exigiu etapas temporárias que lhe permitissem ditar o ritmo do avanço, com acordos assinados por fases e postos em execução por seqüências. E cada avanço dependia da capacidade do Fatah em garantir a segurança de Israel, reprimindo os “extremistas”, islâmicos ou laicos.

Os palestinos assinaram sete acordos de transição, que, embora internacionalmente comemorados, levaram no conjunto a uma redução de seu território e de sua liberdade. Progressivamente, a “paz dos bravos” mudou de pele, revelando a paz dos poderosos e dos imprudentes.

Foi assim que, de Oslo, emergiu um equilíbrio precário, caracterizado pela instabilidade e pela violência recorrente entre ocupante e ocupado. O acordo levou ainda a uma instabilidade intranacional, tanto do lado hegemônico, Israel, como do lado mais fraco, os palestinos.

Após o 11 de setembro, grupos subestimam agressividade dos EUA. Autoridade Palestina torna-se inviável

O massacre de 25 de fevereiro de 1994 em Hebron, em que o colono extremista Baruch Goldstein assassinou 29 palestinos e feriu outros 129, levou o Hamas a cometer inúmeros atentados-suicidas [2], desestabilizando a autoridade de Iasser Arafat e de Itzhak Rabin. Contudo, a recusa deste último a um confronto com os colonos não deteve, menos de dois anos depois, seu futuro assassino, Igal Amir. A legitimidade de Arafat também tornou-se mais precária: as tentativas de banir o Hamas fragilizaram sua popularidade e a reistência a combatê-lo diretamente abalaram sua autoridade.

Em seu livro Lord of the Land [3], Idith Zertal e Akiva Eldar demonstram a ligação entre as ações israelenses e as reações palestinas. Contrariamente ao que em geral se pensa, a maior parte dos atentados-suicidas foi na verdade uma retaliação aos assassinatos cometidos pelo Exército israelense, muitas vezes em períodos em que os palestinos pareciam ceder ou ao menos respeitar uma moderação auto-imposta. Por exemplo, em 31 de julho de 2001, a execução de dois dirigentes do Hamas de Nablus interrompeu o cessar-fogo decretado pelo movimento cerca de dois meses antes e levou ao terrível atentado de 9 de agosto contra uma pizzaria de Jerusalém, com quinze mortos. Do mesmo modo, em 23 de julho de 2002, o bombardeio de um bairro superpovoado de Gaza matou um dos líderes do Hamas, Salah Shehade, e com ele quinze civis, dos quais onze crianças — e isso algumas horas antes de uma trégua unilateral anunciada. Seguiu-se o atentado suicida de 4 de junho. Enfim, no dia 10 de junho de 2003, um dos principais responsáveis do Hamas, Abdel-Aziz Rantisi, foi ferido em uma tentativa de assassinato que custou a vida de quatro civis palestinos. A ação levou a um atentado contra um ônibus de Jerusalém, resultando em dezesseis mortos.

Esse círculo vicioso alimentou a acusação de que o Fatah fazia o trabalho sujo por Israel e contribuiu para a popularidade do Hamas como porta-voz dos marginalizados e esquecidos. Tanto quanto o assédio incessante do ocupante, os bloqueios e a multiplicação das colônias israelenses (cujo número dobrou entre 1993 e 1999) justificavam a rejeição do processo de paz e desacreditavam o Fatah.

Na cúpula de Camp David, em julho de 2000, Telavive e Washington não conseguiram forçar a OLP a renunciar ao direito dos palestinos a sua terra, a Jerusalém e ao regresso dos refugiados, o que restaurou a legitimidade de Arafat como dirigente capaz de resistir às pressões israelo-americanas. Mas as sanções que eles impuseram em seguida, após a deflagração da segunda Intifada, solaparam sua capacidade de governar, em um contexto de subestimação — tanto por parte do Fatah como do Hamas — das conseqüências do 11 de Setembro na política norte-americana em relação ao Oriente Médio.

Formado em teoria para promover a paz, "Quarteto" submete-se aos EUA e mina possibilidade de ação da ONU

O primeiro-ministro Ehud Barak desqualificou a Autoridade Palestina presidida por Arafat, que, segundo ele, “não era uma parceira pela paz”. Seu sucessor, Ariel Sharon, usou como pretexto os atentados de Nova York e Washington para sitiar, durante anos, o quartel-general de Arafat e pôr em funcionamento o que o pesquisador Baruch Kimmerling, recentemente falecido, chamou de “politicídio”: a destruição sistemática da infra-estrutura política e de segurança da Autoridade Palestina [4].

Como a situação escapava a qualquer controle, Washington teve de aceitar uma comissão internacional dirigida pelo ex-senador George Mitchell. Este concluiu que a colonização judaica gerava instabilidade e recomendou sua total interrupção — aí incluso o famoso “crescimento natural” reivindicado pelos israelenses para as colônias existentes.

A falta de iniciativa tanto de Israel como dos Estados Unidos e o anúncio da iniciativa de paz da primavera de 2002 oferecendo aos israelenses uma normalização completa em troca da retirada completa dos territórios ocupados exerceu uma pressão adicional sobre os norte-americanos.

Desse modo, veio à luz o “Quarteto”, reunindo Nações Unidas, Estados Unidos, União Européia e Rússia, estrutura destinada a servir de paliativo para as exigências internacionais. Mas seu papel e influência limitaram-se a promover um “roadmap” (“mapa do caminho”) para a paz no Oriente Médio, elaborado pelos norte-americanos. Este se transformou imediatamente em um novo obstáculo para a paz, pois o presidente Bush confiou a execução a seu amigo Ariel Sharon, que exigia ainda maior repressão contra os “terroristas”, sem nada oferecer em troca. De modo geral, o Quarteto submeteu-se à liderança norte-americana, liquidando o papel da ONU, como reconheceu o enviado especial da instituição, Alvaro de Soto [5].

Os dois movimentos palestinos ampliam a disputa, para grande alegria do ocupante de suas terras

A despeito do fracasso e da corrupção, o Fatah e a maioria dos palestinos escolheu, na morte de Arafat, em novembro de 2005, o favorito dos Estados Unidos, Mahmud Abbas, como novo líder. A humilhação deste por Israel, indiferente às reformas e aberturas do novo presidente, revelaram de outro modo que o obstáculo à paz era Sharon, não Arafat.

A arrogância do primeiro-ministro israelense forçou os palestinos, um pouco tarde, em janeiro de 2006, a dar a maioria ao Hamas no Conselho Legislativo. No mesmo instante, Israel e Estados Unidos demonstraram que não aceitariam a escolha democrática do povo palestino e não reconheceram o novo governo. O cerco israelense e as sanções ocidentais paralisaram a economia e acentuaram as tensões políticas entre um partido islâmico desejoso de governar e uma facção laica, acostumada ao poder e impaciente para a ele regressar.

A resposta ao impasse palestino veio de onde menos se esperava: as prisões israelenses. Os dirigentes do Fatah e do Hamas que estavam presos, Marwan Barghuti e Abdel Halak Natche, principalmente, entraram em um acordo. Conhecido como o “Documento dos Prisioneiros”, procurava lançar as bases de uma cooperação entre os dois movimentos. Após as devidas hesitações, estes ratificaram o Acordo de Meca, em maio de 2007, com dois objetivos: criar as condições para um governo de coalizão e reformar a OLP, a fim de permitir a entrada do Hamas.

Devido às sanções ocidentais, o governo de coalizão não durou. E seu fracasso conduziu a novos confrontos armados, cuja conclusão foi a tomada do poder pelo Hamas em Gaza. O Fatah aproveitou os abusos e as violações do rival para retomar o controle da Cisjordânia e reforçar a Autoridade Palestina com a ajuda de Israel e dos países ocidentais. O desespero diante desses absurdos combates fratricidas sugere uma comparação com a violência do presídio. As duas facções disputam seus territórios sob os olhos deliciados do carcereiro. Israel estima que, politicamente separados, o Hamas e o Fatah terão melhores chances de controlar as celas de sua prisão.

Um novo acordo-fantasia, este mês, poderia tornar insustentáveis as tensões entre Hamas e Fatah

Confiante e ambicioso, o Hamas vitorioso formou um governo próprio, sem se libertar das restrições de um processo que combatera por tanto tempo. Seguindo os passos do Fatah, começa a perder sua credibilidade e está se tornando refém do mesmo discurso contraditório: de um lado, para agradar aos doadores internacionais, invoca o bom governo, sob ocupação; de outro, para conquistar a massa radical, assume os slogans dos movimentos de libertação tradicionais e islâmicos. Para acrescentar confusão à polarização, a dinâmica do processo de paz transformou o sucesso do Hamas em maldição e a derrota do Fatah em uma bênção.

Depois que o Hamas forçou colonos e soldados a deixar a Faixa de Gaza, Israel transformou esse pequeno território empobrecido em uma imensa prisão. Um ano mais tarde, em 25 de janeiro de 2006, a vitória eleitoral islâmica levou às piores sanções internacionais contra os palestinos. A ala militar do Hamas conseguiu capturar um soldado israelense: a operação, destinada, segundo seus autores, a favorecer a libertação de mulheres e crianças detidas em Israel, conduziu, pelo contrário, à prisão de um terço dos deputados e ministros. Um ano e meio mais tarde, todos continuam a apodrecer nas cadeias israelenses, sem que o menor protesto internacional tenha sido suscitado.

Quanto ao Fatah, a derrota nas urnas e nas ruas lhe granjeou, pelo menos no exterior, louvores e apoios como uma força moderada cujas bases e cujos prisioneiros deveriam ser libertados. Do mesmo modo, um Abbas enfraquecido, desprezado e ignorado durante anos passa hoje por estadista dotado de credibilidade e coragem. Washington e Telavive o promoveram a parceiro na luta pela paz, pronto a aceitar os sacrifícios necessários para obtê-la, além dos que havia firmado em Oslo.

Se, como previsto, a “conferência de paz” organizada nos Estados Unidos em novembro desembocar em uma nova declaração de princípios gerais, uma espécie de Oslo reeditada, disfarçada de guerra contra o terror e no espírito do roadmap, o abismo entre o Fatah e o Hamas se abrirá com graves conseqüências para os palestinos — potencialmente, os maiores derrotados nesse negócio.



[1] O conceito de “paz hegemônica” foi desenvolvido por Raymond Aron (Paix et guerre entre les nations, Paris, Calmann-Lévy, 2004) e, depois, por Glenn Robinson (The Peace of the powerful”, em Roane Carey, ed., The new Intifadah: resisting Israel’s apartheid, Nova York, Verso, 2001).

[2] Ver.

[3] Lord of the Land: the war for Israel’s settlements in the occupied territories 1967-2007, Nova York, Nation Books, 2007.

[4] Politicide: les guerres d’Ariel Sharon contre les Palestiniens, Paris, Agnès Vienot, 2003.

[5] The Guardian, Londres, 13 de junho de 2007.


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