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Percepção de méritos

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Quem julga um texto pela personalidade do escritor é incapaz de construir um argumento para sustentar boas idéias

Renata Miloni - (10/11/2007)

Enquanto críticos e a maioria dos leitores preferem saber a opinião (muitas vezes estúpida) de determinados escritores sobre aspectos efêmeros da vida, escolho voltar no tempo e encontrar em textos de Fernando Sabino, por exemplo, questões que sejam dignas de ser discutidas.

Por mais que eu considere necessário que fatos verdadeiros sejam expostos, para que todos saibam o que realmente acontece nos bastidores de nossa querida literatura brasileira, também prezo a ética — e ela fala sempre mais alto.

Com minha pouca experiência como editora de uma revista literária online, percebi que, para ser ético, é preciso saber lidar, antes de tudo, com a verdade do comportamento humano. E se existe uma verdade sobre ela, é esta: pura podridão. Por isso Paulo Polzonoff Jr. tem razão quando diz que é preciso esquecer o leitor e focar no que é escrito.

Críticos e jovens autores

Fernando Sabino é meu bom exemplo. Ele começou a publicar textos muito jovem. Aos 22 anos, tinha escrito Os movimentos simulados, que acabou sendo seu último livro publicado em vida. No texto “Iniciação” do livro O tabuleiro de damas, ele conta:

Enquanto isso, Guilhermino (César) me convidava para colaborar na Mensagem, revista literária que dirigia, e estreei com um artigo contra o dicionário de Laudelino Freire. Era o meu lado gramático... Tinha uns quinze anos e não pensava senão em me tornar escritor.

Observo atentamente a maneira como os jovens autores são tratados, tanto pela crítica como pelas editoras. Mesmo sabendo que, infelizmente, hoje tudo é questão de mercado e de nome, acabo me surpreendendo com a intenção com que os livros são lançados.

Quando Sabino passou a trabalhar na Folha de Minas, no início da década de 1940, as pessoas com as quais convivia estranhavam sua pouca idade, mas pareciam (de acordo com minha percepção) aceitar facilmente a presença dele, pois não era apenas um garoto – era também uma pessoa que estava ali para escrever e, provavelmente, o fazia muito bem, melhor do que se esperava de alguém daquela idade. Fernando poderia ter sido uma pessoa de difícil convivência (coisa que não foi) e, ainda assim, teria o trabalho garantido. Os editores se importavam com o que era escrito e não se o texto causaria polêmica ou qualquer outro interesse atualmente tão comum. Ou seja, ele conquistou o respeito merecido.

Talvez eu queira inconscientemente defender a profissão de escritor, algo que não deveria fazer, mas também devo lembrar que é preciso ser muito mais do que ético para saber lidar com escritores “sem personalidade”. Separar a pessoa da escrita é fundamental, mas passar de limites essenciais de respeito incondicional vai além do que a literatura supera. E, nessa hora, ela pede um afastamento.

O que realmente importa?

A troca de opiniões entre autores também era mais freqüente, mais honesta e bem menos ofensiva.

Mas o maior sucesso, para mim, foi ter recebido uma carta de Mário de Andrade sobre o exemplar (do primeiro livro) que lhe remeti. Entre outras coisas, a carta de Mário dizia que, se eu tivesse mais de trinta anos, meu caso era como o de outro qualquer, mas se tivesse menos, vinha a ser um caso bem interessante. Como eu tinha dezessete... Ele me dizia que eu não ia estourar logo, mas progredir devagarinho, até que um dia os outros perceberiam que eu era um escritor. [1].

Não quero declarar com este texto que devemos voltar aos modos dos anos de 1940. De fato seria bastante útil e unificador, mas, muito mais do que os tempos, as mentes são outras. Talvez seja também por isso que alguns escritores decidem se afastar de seus “companheiros”, como bem fez Sabino.

Quero dizer que, pelo pouco que li, os críticos e leitores pareciam se preocupar em analisar o trabalho e não a personalidade do escritor. A apreciação dos livros era muito mais pura. Mas não se pode falar mais em pureza na literatura. Hoje, consigo entender quando algum autor é injustiçado numa crítica, pois, ao ler o texto, percebo que as palavras foram direcionadas às falhas da personalidade do autor — como se fosse possível apontar alguma lendo apenas um livro.

Também vejo escolhas de vida serem apontadas como motivos de a escrita ser boa ou não. Será que a qualidade dos textos depende do quanto um escritor briga com sua esposa ou das tatuagens que tem?

Chega de folhetim

Para sair um pouco da nostalgia, da qual não posso sentir o gosto, recentemente li um texto de Stephen Elliott sobre o que falo. Ele cita vários autores que podem ter certos “desvios de comportamento”, mas que jamais escreveram “mal” por conta disso. Quem julga um texto pela personalidade do escritor é incapaz de construir um argumento para sustentar boas idéias. Mas, pensando bem, afirmar isso não poderia ser uma falta de argumento em mim?

Elliott explica: “O problema não é com a personalidade (ou aparência) do autor: é com os leitores e críticos que prestam atenção demais a isso. [...] O que importa é o livro, e o livro tem de se sustentar em seu próprio mérito”.

E vai mais longe: é a literatura que precisa se sustentar por mérito próprio. Enquanto as pessoas, profissionais da área ou leitores, preferirem acompanhar a vida dos escritores como se eles fossem um folhetim, e enquanto os mesmos escritores acreditarem que ironia e agressividade gratuitas fazem com que mais leitores se interessem por seu trabalho, não serão capazes de perceber qualquer mérito em qualquer forma de arte.



[1] In O tabuleiro de damas

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