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Lucas Murtinho - (10/11/2007)

“Un cuento siempre cuenta dos historias”, escreve Ricardo Piglia em Los dos hilos: análisis de las dos historias [1]. “Cada una de las dos historias se cuenta de un modo distinto. Trabajar con dos historias quiere decir trabajar con dos sistemas diferentes de causalidad. Los mismos acontecimientos entran simultáneamente en dos lógicas narrativas antagónicas. Los elementos esenciales del cuento tienen doble función y son usados de manera distinta en cada una de las dos historias”, completa o escritor argentino.

A tese tem o seu charme e Piglia a apresenta com concisão e elegância, mas seu valor analítico é duvidoso. O leitor criativo sempre pode encontrar no mais banal dos textos a sugestão de uma história secreta: a teoria de Piglia é vaga o bastante para não poder ser contestada e é, por isso mesmo, inútil. Ela surge de uma mania de definir e circundar a literatura cuja utilidade também é duvidosa: para que dizer que o conto é isso ou aquilo se o efeito é sempre criar regras desnecessárias e inaplicáveis? Conto é uma narrativa curta, novela é uma narrativa média, romance é uma narrativa longa. O aparente simplismo dessas três definições oculta a liberdade que se oferece a quem as adota.

Outro problema é que a generalização desvaloriza a característica que se quer universal. Se a teoria de Piglia fosse verdadeira, Bóris e Dóris, a novela curta (ou conto longo) de Luiz Vilela (Editora Record), seria um texto bem menos especial do que é. A grande qualidade do livro é justamente a capacidade de Vilela de nos narrar, em menos de oitenta páginas, quase inteiramente compostas por um longo diálogo do casal-título, duas histórias diferentes, uma aparentemente simples e direta, a outra não secreta mas parcialmente oculta.

Sutileza narrativa

A história oculta de Bóris e Dóris é a da reunião em que se decide o futuro profissional de Bóris. Vilela suprime essa reunião da narrativa e nos apresenta apenas a longa conversa que a precede e a curta conversa que a segue. Quem nos relata a reunião é Bóris, e não sabemos se podemos confiar no seu relato. Tampouco sabemos até que ponto a conversa do café-da-manhã, tão minuciosamente reproduzida por Vilela, modificou o andamento da reunião. Temos apenas a justaposição que permite supor uma relação entre os dois eventos, mas cabe ao leitor decidir o grau de influência de um sobre o outro.

Essa sutileza narrativa, a grande história que a aparente banalidade do que é narrado deixa entrever, é a maior qualidade de Bóris e Dóris. Mas o diálogo que compõe o texto merece a nossa atenção por si só. No começo, Bóris aparece como a figura dominante: são dele as frases mais inteligentes, as respostas mais divertidas, os comentários mais incisivos. Ele é rapidamente apresentado como um homem sólido com opiniões simples, ancoradas no senso comum. O sloganque criou para a empresa onde trabalha desde os doze anos de idade é um símbolo claro do seu caráter direto, sério, pragmático: "Uma empresa que se preza". Boris é um homem que encontrou no trabalho duro e no sucesso conquistado passo a passo suas razões de ser.

A Dóris, por outro lado, essas razões faltam. A sombra feita por seu marido é um problema, mas o grande incômodo de Dóris surge sobretudo da ausência do extraordinário no seu cotidiano. À medida que o diálogo avança e que Dóris deixa de ser a audiência do marido para ganhar uma chance de se mostrar, vemos uma mulher se perguntando de forma simples mas angustiada qual é o sentido da vida. Seu medo da morte é reflexo desse medo da vida, da falta de sentido da sua vida, de todas as vidas. Por isso, quando arranca do marido um pouco de atenção, Dóris recorre ao sobrenatural e ao transgressor para interessá-lo e confrontá-lo. Há desespero na sua tentativa de preencher o vazio, mas também uma visão crítica da unicidade dos objetivos e interesses de Bóris, voltados todos à promoção que ele já conta como certa. O vício do trabalho que aflige seu marido lhe inspira um certo desprezo:

– Lexotan faz mal. – Tudo faz mal, Bóris. – Além disso, Lexotan cria dependência, sabia? – Há dependências piores do que essa.

Defeitos menores

São dois personagens muito bem construídos, ainda mais dada a economia de recursos do texto, um longo diálogo em que o narrador intervém rara e brevemente. Nas figuras de Bóris e Dóris, Vilela alia o interessante e o complexo ao comum e ao verossímil. Seus personagem não precisam de incongruentes tiradas filosóficas para nos seduzir: a inteligência de ambos é mediana, não há nada de excepcional em nenhum dos dois, mas ainda assim estamos diante de personagens sedutores e não de estereótipos gastos.

O texto fraqueja nas falas sem outro propósito que não o de informar o leitor. Bóris e Dóris às vezes dizem um ao outro coisas que ambos já sabem e não é preciso lembrar, e nesses rápidos momentos o leitor vê o narrador tentando passar despercebido por trás do diálogo, como um armário mágico em que os ângulos dos espelhos não foram bem calculados. E as informações transmitidas dessa forma, como a idade dos personagens, são no mais das vezes acessórias. É estranho dizer isso de um texto tão enxuto, mas Vilela poderia ter nos contado ainda menos.

Além disso, Bóris e Dóris sofre eventualmente da distância entre o português escrito e o falado: é difícil imaginar alguém realmente pronunciando algumas das frases que Vilela atribui a seus personagens. Mas são dois defeitos menores de uma novela rápida e agradável de ler, que esconde sob a sua superfície simples uma bem-vinda complexidade narrativa – uma complexidade que, embora Piglia nos diga o contrário, não se encontra em todo conto ou novela. Para quem, como eu, não conhece o resto da obra de Luiz Vilela, Bóris e Dóris é um ótima apresentação.



[1] Ricardo Piglia. "Los dos hilos: análisis de las dos historias". Em Formas breves, Anagrama, 2000.

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