Jornalismo Crítico | Biblioteca e Edição Brasileira | Copyleft | Contato | Participe! |
Uma iniciativa


» Periferia e memória em O Sepulcro do Gato Preto

» Boulos: o julgamento da História

» Quando o jornalismo vai à guerra

» Zumbis à brasileira

» Varoufakis e o mundo parasitado pelos EUA

» Em busca da Internet perdida

» Em busca da Internet perdida

» O marketing proto-fascista de Alexandre Moraes

» A mídia fez o golpe. Como democratizá-la?

» Dowbor: Crônica em meio à grande crise global

Rede Social


Edição francesa


» Razzia chinoise sur le lait

» Même la guerre a ses lois

» Au Yémen, une année de guerre pour rien

» Paysans chinois entre cueillette et Internet

» Les entreprises dans l'engrenage de la finance

» Le soleil ne se couche jamais sur l'empire Vinci

» Le Sahara algérien, eldorado de la tomate

» Aux Etats-Unis, le petit peuple des mobile homes

» Les barbares sont parmi nous

» Maudit pétrole bon marché


Edição em inglês


» How veterans are losing the war at home

» Turkey: from Suruç to a failed coup

» No need to build the Donald's wall, it's built

» What does it mean when war hawks say, “never Trump”?

» ‘Criminals are the law in Syria'

» America's criminal injustice system

» Mosul's liberation must wait

» Military dissent is not an oxymoron

» The Greatest show on earth

» The Decay of American Politics


Edição portuguesa


» Edição de Agosto de 2016

» Provocações atlânticas

» Sanções, FMI e cegueiras

» Porque é que Erdogan tem esperança de levar a melhor

» Edição de Julho de 2016

» Uma Europa por reconstruir

» Sanções ou reparações?

» Como são representados os refugiados na comunicação social?

» Edição de Junho de 2016

» No consultório do Dr. Estranhoamor


CULTURA PERIFÉRICA

Onde mora a poesia

Imprimir
Enviar
Compartilhe

Invariavelmente realizados em botecos, os saraus da periferia são despojados de requintes. Mas são muito rigorosos quanto aos rituais de pertencimento e ao acolhimento. Enganam-se aqueles que vêem esses encontros como algo furtivo e desprovido de rigores

Eleilson Leite - (13/11/2007)

A poesia é o gênero literário que mais seduz corações e mentes nos becos e vielas. Não por acaso, o sarau ressurgiu nos últimos anos e tomou conta da periferia paulistana. São dezenas de encontros na capital e na região metropolitana, como pode ser observado na seção literatura da Agenda Cultural da Periferia. De segunda à sexta, todas as noites, ouve-se versos declamados com devoção. Os poetas recitam poemas consagrados da literatura, mas o que mais se compartilha são versos de autoria daqueles que lá estão. No Sarau da Cooperifa, na Zona Sul de São Paulo, é assim. Ao serem anunciados, esses poetas se engrandecem. Microfone na mão, olhar atento, sentimento à flor da pele e a alma exposta diante de uma platéia sedenta por versos como os de Serginho Poeta:

Venho aqui para fazer poesia
Sou poeta da lua
Por isso, troco a noite pelo dia
E é tão triste quem na lua se inspira
Apaixona-se por ela, tornando-a sua lira
Mas apesar dessa paixão que no peito tranca
Não pode com a mão tocar a bola branca.

Invariavelmente realizados em botecos, os saraus da periferia são despojados de requintes. Mas são muito rigorosos quanto aos rituais de pertencimento e ao acolhimento. Enganam-se aqueles que vêem esses encontros como algo furtivo e desprovido de rigores. “O silêncio é uma prece”, diz uma inscrição logo na entrada do Bar do Zé Batidão, onde rola o Sarau da Cooperifa. E a frase é anunciada com determinação pelos mestres de cerimônia. Falatório lá, só se for na rua, que acaba sendo uma extensão do bar, já que este sarau, o mais famoso da periferia paulistana, reúne, todas as quartas-feiras, mais de 200 pessoas.

São duas horas de pura poesia. Os autores chegam de todas as periferias. Akins Kinte, por exemplo, vem de Cidade Tiradentes , Zona Leste, para dizer o seguinte:

Minha pele mais que noite é breu
Moradia de quilombos
Onde se escondem
Dourados e reais sonhos

O sarau é lugar de convergência, celebração. Os que pensam que no mundo não há lugar para o encantamento, apareçam na próxima quarta-feira no Sarau da Cooperifa.

Cheguem cedo, 20h é um bom horário. Nessa hora, é possível encontrar uma mesa. Abra uma conta, sirva-se de cachaça, cerveja ou da bebida que melhor lhe convier. Jante um escondidinho ou, se preferir, peça uma porção de petiscos. Quando às 21h Sergio Vaz começar o ritual de exaltação do ser periférico, você sentirá uma sensação muito boa.

Chegue às quartas no sarau da Cooperifa. Sentirá um povo lindo e inteligente, um reduto onde a poesia tem corpo

Sentirá que está num lugar sagrado. Que ali se reúne um povo lindo e inteligente. Um reduto onde a poesia tem corpo, alma, cala no coração de quem lhe der ouvidos. O primeiro poeta é chamado. Quem sabe, Elisandra Souza:

Ah Poeta quando será que vou ser sua poesia?
Sua inspiração mais abençoada!
A sua estrofe encantada!
Vento suave nas primeiras horas do dia.

Aquela gente humilde da qual falavam Vinícius de Moraes e Chico Buarque, tem no Sarau da Cooperifa seu momento de glória . Tem taxistas, estudantes, funileiros, escriturários, motoboys, professores, enfermeiros. Tem gente graduada também, mas que não perdeu a humildade nem saiu da quebrada. Allan da Rosa é um desses. Terminou o ensino médio, sabe lá como. Fez cursinho no Núcleo de Consciência Negra e entrou na USP. Graduou-se em História e hoje faz mestrado em Educação. Quem primeiro leu seus versos foi seu pai, a quem o jovem poeta entregava seus escritos quando o visitava na cadeia. Allan, negro, esguio, ágil, inteligente, abre Vão, seu livro de poesias, e tira de lá uma de suas pérolas:

Solitária
A aranha tece
Formando quadrantes geométricos
Deixando seu rastro de seda
Sua teia interessa apenas a si mesma
Aos poucos que optaram se emaranhar E aos perdidos que não conseguem
Se desprender de suas linhas

No Sarau da Cooperifa e em outros tantos saraus, a poesia encontra sua redenção. Acostumada a freqüentar os salões das elites, ela encontrou morada nos botequins das quebradas, onde se entrega sem pudor aos encantos de quem lhe declara amor incondicional. E na periferia, são muitos seus amantes. Nos saraus, a poesia penetra tão profundamente naqueles que a declamam que eles próprios se fazem poesia, como naqueles sagrados momentos de amor onde dois corpos se tornam um só. Sergio Vaz traduziu essa magia num maravilhoso poema de três versos:

Ser Poeta
Não é escrever poemas,
É ser poesia.

Mais

Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edições anteriores da coluna:

O biscoito fino das quebradas
Semana de Arte Moderna da Periferia começa dia 4/11, em São Paulo. Programa desmente estereótipos que reduzem favela a violência, e revela produção cultural refinada, não-panfletária, capaz questionar a injustiça com a arma aguda da criação

A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza
Vem aí Semana de Arte Moderna da Periferia. Iniciativa recupera radicalidade de 1922 e da Tropicália, mas afirma, além disso, Brasil que já não se espelha nas elites, nem aceita ser subalterno a elas. Diplô abre coluna quinzenal sobre cultura periférica



Fórum

Leia os comentários sobre este texto / Comente você também

BUSCA

» por tema
» por país
» por autor
» no diplô Brasil

BOLETIM

Clique aqui para receber as atualizações do site.

Leia mais sobre

» Cultura
» Literatura
» Cultura Periférica


Destaques

» O planeta reage aos desertos verdes
» Escola Livre de Comunicação Compartilhada
» Armas nucleares: da hipocrisia à alternativa
» Dossiê ACTA: para desvendar a ameaça ao conhecimento livre
» Do "Le Monde Diplomatique" a "Outras Palavras"
» Teoria Geral da Relatividade, 94 anos
» Para compreender a encruzilhada cubana
» Israel: por trás da radicalização, um país militarizado
» A “América profunda” está de volta
» Finanças: sem luz no fim do túnel
Mais textos