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Só no ano de 2007, a população mundial aumentará em 66 milhões de pessoas; 23.282 espécies serão extintas; 11 milhões de hectares, desmatados; 31 milhões de carros e 72 milhões de computadores produzidos e 26 trilhões de barris de petróleo extraídos

Flávio Shirahige, Manoel Neto - (16/11/2007)

Acorda de manhã. Esfrega os olhos. Toma um banho quente. Olha o relógio e vê que está atrasado para o trabalho. Coloca o pão na torradeira e pega o carro para viajar os 15 quilômetros até o trabalho. Trabalha no ar condicionado, aproveita o horário do almoço para trocar de celular e volta para casa às 6 da tarde, pensando em todos os eletrodomésticos que comprou para a casa nova e os que ainda falta comprar. Televisão, computador, geladeira, freezer, microondas, som, dvd, tevê a cabo, george foreman grill, fogão elétrico... Reconheceu-se nessa descrição? Agora imagine que mais de 1,7 bilhão de pessoas também são capazes de se reconhecer, e a quantidade de mercadorias que elas podem possuir. E mais: esse número tende a crescer assustadoramente, à medida que mais e mais pessoas são incorporadas no mercado consumidor de massas.

No cotidiano, não estamos muito preocupados com os impactos do nosso estilo de vida no planeta. É difícil imaginar que os 45 litros de gasolina que colocamos periodicamente no nosso carro poderão deflagrar uma crise, perante os mais de 5 bilhões de barris de petróleo do campo de Tupi anunciados pela Petrobrás na semana passada. Ou que os 459 kWh consumidos pelos variados eletrodomésticos que cada pessoa no Brasil tem poderão gerar um apagão, diante dos 96,6 milhões de kWh que as usinas hidro e termoelétricas do país são capazes de produzir.

Porém, quando consideramos conjuntamente cada ação do dia-a-dia dos milhões de habitantes no mundo, o impacto é assustador: só no ano de 2007, a população mundial aumentou em 66 milhões de pessoas; 23.282 espécies foram extintas; 11 milhões de hectares foram desmatados; 31 milhões de carros e 72 milhões de computadores produzidos e 26 trilhões de barris de petróleo extraídos.

Diante desse quadro, há as muitas alternativas ecologicamente corretas que estão surgindo, mas que infelizmente têm pouco resultado prático. De nada adianta substituir um produto poluente por um menos poluente, se a geração de energia continuar suja, por exemplo. Na verdade é difícil acreditar que seja possível resolver o problema ambiental apenas substituindo bens de consumo ecologicamente insustentável por um consumismo ambientalmente correto.

Um mundo desigual também no consumo de energia

Segundo a Agência Internacional de Energia, a produção de energia primária (como, por exemplo, os combustíveis fosseis, hidroeletricidade, energia nuclear, solar) no mundo foi, em 2005, de 133,37 milhões de GigaWatts hora (GWh), um valor por habitante de 20.735 kWh. Desse total, apenas 11% foi destinado ao consumo final como eletricidade — o que representa um consumo per capita de 2.596 kWh. Ao comparar os dados dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) com a China, cada habitante chinês consome 21,5% da eletricidade gasta nos países que integram aquela organização (1.802 kWh consumidos por habitante na China contra 8.365 kWh nos países da OCDE). Se confrontarmos com o 13.640 kWh per capita dos EUA, esse percentual cai para 13,21%!

Quando verificamos os dados de emissões, os resultados não são menos impactantes: no ano de 2005, o mundo emitiu 27,136 bilhões de toneladas de CO2, oriundas da queima de combustíveis durante o processo de geração de energia. Ou seja, cada pessoa no mundo foi responsável, em média, pela emissão 4,22 toneladas de CO2 para a atmosfera naquele ano, sendo que o valor por habitante em um país da OCDE é de 11 toneladas e dos EUA, 19,6 toneladas

Esses dados nos levam a uma simples reflexão: e se cada pessoa no mundo consumisse energia como nos países da OCDE? O calculo é simples: precisaríamos de 53,8 milhões de GWh de eletricidade ou 30,487 bilhões de toneladas de óleo equivalente de energia primária. Só em petróleo, seriam necessários 99 bilhões barris por ano. Em termos de emissão, teríamos 70,88 bilhões de toneladas de CO2 sendo despejadas na atmosfera por ano. Agora imagine se consumíssemos seguindo os 13.640 kWh do padrão do American Way of Life? O planeta agüentaria?

Estudos indicam que um consumo médio de 4.000 a 6.000 kWh seria capaz de proporcionar um alto índice de IDH, típico dos países mais desenvolvidos. Porém, mesmo que desejássemos estender o padrão de vida desenvolvido ao resto do mundo – no fundo, o verdadeiro sonho de quase todos – ainda assim é difícil não concordar que simplesmente o planeta não suportará. Sem mencionar os impactos econômicos em termos de preços de matérias-primas e derivados.

A questão é complexa e não se trata apenas de desperdício, nem que este possa ser atribuído apenas aos norte-americanos. O fato mesmo é que o modo de vida ocidental baseado numa imensa coleção de mercadorias disponíveis para o consumo — como sinônimo de bem-estar, progresso e sucesso — é socialmente e ambientalmente trágico. Eis porque é cada vez mais premente pensar a questão ecológica tendo como horizonte uma outra sociedade, para além da mercadoria e do consumo.

Mais

Manoel Neto e Flávio Shirahige são colunistas do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique. Edição anterior:

Para que as cidades ressuscitem
Proposta: lançar, na cidade mais individualista e caótica do país, um movimento de ecologia urbana, capaz de questionar a civilização do automóvel e abrir debate sobre políticas que permitam uma existência digna



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