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América dos punhos sem renda

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Há um motivo para que a mídia tenha transformado em ícone a foto na qual o rei de Espanha pede a Chávez que se cale. Ela expressa o desconcerto das elites com um continente mestiço, onde está está cada vez mais difícil dizer às maiorias que reconheçam “o seu lugar”

Elizabeth Carvalho - (19/11/2007)

O presidente venezuelano Hugo Chávez não veste o modelo de um lorde inglês e não tem em sua genealogia ascendentes com punho de renda. Baixinho, volumoso, olhos puxados e penetrantes se destacando nas feições rudes de cabloco meio branco, meio índio, e ainda um remoto vestígio certamente herdado de algum antepassado negro, ele é, ao mesmo tempo, espelho e símbolo mais contundente de algumas lideranças expressivas escolhidas democraticamente pelos povos latino-americano, à sua imagem e semelhança, para governá-los neste ainda tão novo século 21.

Para desgosto das nossas elites brancas-brancas, que sempre ditaram as regras do jogo e ainda hoje vivem, nessas terras tão desiguais, uma projeção do que até pouco tempo atrás era chamado de Primeiro Mundo, a Bolívia é governada por um índio. O Brasil, por um nordestino saído das fábricas do ABC paulista. A Argentina, que já foi tão sofisticada, acaba de eleger uma mulher classificada à boca pequena de cafona, casada com um presidente provinciano de maus modos. O Equador, é verdade, levou ao poder um líder de olhos azuis educado nas melhores escolas, mas identificado com a tendência continental crescente de reformar a Constituição para atender à massa dos excluídos. Tempos difíceis esses, para os “puros” com linha direta nas caravelas que despejaram os conquistadores europeus neste lado do mundo. Tempos de inversão de valores. Está cada vez mais difícil fazer com que as pessoas deste caldeirão racial cozido nos últimos 500 anos reconheçam “o seu lugar”.

Nada mais emblemático do desconforto e indignação das elites nesse nosso mundo periférico de hoje do que a foto e a legenda estampadas na primeira página de jornais de todo o mundo no dia 10 de setembro, registrando o início da cerimônia de encerramento da 12ª reunião da Cúpula Ibero-Americana, no Chile. De dedo em riste, o rei Juan Carlos, da Espanha, dirige-se a Chávez com a voz alterada e ordena: “Por que não te calas?” Irritado com as intervenções de Chávez ao discurso do presidente espanhol José Luiz Zapatero, o rei perde a paciência, grita e sai da sala.

Não há nenhuma novidade no fato de um histriônico e impetuoso presidente Chávez falar pelos cotovelos e se destacar numa reunião internacional como um elefante numa loja de louças, que ao menor movimento faz ruir das prateleiras porcelanas e cristais. A mídia, sempre atenta ao menor deslize dos punhos sem renda, é pródiga no trabalho de manter sua imagem política sob a forma de uma caricatura. Curiosamente nova pode ser a leitura simbólica que a foto proporciona nos gestos e atitudes de seus personagens: o rei de Espanha, figura maior do outrora império de dominação colonial na América, manda calar o presidente caboclo de um de seus antigos territórios vassalos, justamente de onde saiu, por uma ironia da história, o grande herói da independência latino-americana Simón Bolívar. Na foto, o rei aparece no centro, em primeiro plano, decidido, majestoso. Chávez, no canto, quase saindo de quadro, parece ter encolhido de tamanho.

Elevar a voz e bater em retirada, antes que a moda pegue e a quebradeira seja geral

Os fatos que desembocaram nesta cena são conhecidos. Chávez batera por duas ou três vezes, durante a reunião da cúpula, num mesmo bordão (é notória a sua tendência a ignorar a regra básica de que uma boa nota, se muito repetida, torna-se cansativa e incômoda). Insistira em criticar o ex-presidente espanhol José Maria Aznar, un conservador ligado à Opus Dei, que governou o país por dois períodos consecutivos antes de Zapatero, e claramente posicionou-se a favor do golpe contra o presidente venezuelano, em 2002. Hoje à frente da Fundação para a Análise e os Estudos Sociais (FAES), voltada para sistematização de um pensamento de direita nos países de língua espanhola, Aznar dedica-se a fazer incursões pela América Latina. Prega o ideário da superioridade da civilização ocidental cristã, sob a “grande liderança” dos Estados Unidos. Promove combate implacável aos três demônios que supostamente ameaçam essa civilização e querem acabar com a democracia no continente — o multiculturalismo, o “populismo” chavista e o indigenismo “racista”dos países andinos, que vai levar a América Latina ao retrocesso dos tempos dos incas.

Apesar de suas notórias diferenças com Aznar, o presidente Zapatero achou por bem passar por cima de suas convicções socialistas para prontamente defender as cores da bandeira da nação. Aznar, em que pesem as diferenças políticas, é acima de tudo um cidadão espanhol, dessa mesma Espanha que até o século 19 saqueou as riquezas do continente e que, como lembra o sociólogo Emir Sader, pôde participar das duras condições de competição no marco da integração européia graças aos investimentos de suas empresas neste mesmo continente, no alvorecer do século 21. Em que pesem as dificuldades causadas pelas medidas protecionistas justamente na Bolívia, na Argentina e na Venezuela dos punhos sem renda, os investimentos no ano passado ultrapassaram 20 milhões de euros.

A indignação do rei com as tentativas de Chávez de interromper a defesa que Zapatero fazia de Aznar em seu pronunciamento forneceu o caviar que faltava no interminável banquete de interpretações duvidosas sobre a atitude de líderes que trouxeram de volta ao discurso político latino-americano questões incômodas como soberania, igualdade social e defesa das riquezas nacionais. Até então, servia-se à mesa apenas o “deboche” com que Chávez contemplou a descoberta do megacampo de petróleo na bacia de Santos, cuja exploração pode aumentar em mais da metade as atuais reservas do país.

Ao saudar o presidente Lula como o “magnata do petróleo” e dizer que, pelo andar da carruagem, o Brasil pode acabar fazendo parte do seleto grupo da OPEP, o superlativo Chávez ofereceu à mídia um tira-gosto que teve ao menos o mérito de levar a público uma esperança otimista sobre o tamanho da descoberta, que o Brasil, na verdade continua ignorando. Afinal, se os países dos punhos sem renda não podem dar certo, melhor fazer acreditar que o governo exagera para esconder a gravidade de uma crise do gás que não se concretizou, ou tentar evitar a todo o custo que uma nova lei do petróleo garanta ao Estado brasileiro lucros futuros que deveriam ficar em mãos do capital privado. Ou fazer como o rei: elevar a voz e bater em retirada, antes que a moda do elefante pegue e a quebradeira seja geral.



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